Versos Azuis
(1867)
Podes mentir, minha louca:
Ninguém mente nessa idade,
Mentira na tua boca
É doce como a verdade.
Mentira tão inocente,
Meu louro e pálido arcanjo,
É como um véu transparente,
Que cobre os lábios dum anjo.
Quando me dizes sorrindo,
Que não crês no meu amor,
Não vês que estão te traindo
A fala, o seio, o rubor?
E que a voz que assim se exprime
Que assim vibra a suspirar,
Nega em lágrimas o crime
De que tentou se acusar?
Ó! primavera encantada!
Ó! minha santa visão!
Nuvem de estrelas bordada,
Que fecha o meu coração;
Minh’alma dorme esquecida
Nos lírios do seio teu,
Como a gazela ferida
Que entre as noites se escondeu.
Não mintas mais, minha louca,
Que enquanto estás a mentir,
Deixo de ouvir tua boca
Para ler em teu sorrir...
A fonte clara e faceira
Que ao longe vês serpejar,
Queira por bem ou não queira,
Sempre vai cair no mar:
E como a fonte cheirosa
Busca do mar a amplidão,
Tu hás de vir, mentirosa,
Sumir-te em meu coração.
- Recife.