Versos Azuis Corimbos · Capítulo 17 de 63
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Versos Azuis

(1867)

Podes mentir, minha louca:

Ninguém mente nessa idade,

Mentira na tua boca

É doce como a verdade.

Mentira tão inocente,

Meu louro e pálido arcanjo,

É como um véu transparente,

Que cobre os lábios dum anjo.

Quando me dizes sorrindo,

Que não crês no meu amor,

Não vês que estão te traindo

A fala, o seio, o rubor?

E que a voz que assim se exprime

Que assim vibra a suspirar,

Nega em lágrimas o crime

De que tentou se acusar?

Ó! primavera encantada!

Ó! minha santa visão!

Nuvem de estrelas bordada,

Que fecha o meu coração;

Minh’alma dorme esquecida

Nos lírios do seio teu,

Como a gazela ferida

Que entre as noites se escondeu.

Não mintas mais, minha louca,

Que enquanto estás a mentir,

Deixo de ouvir tua boca

Para ler em teu sorrir...

A fonte clara e faceira

Que ao longe vês serpejar,

Queira por bem ou não queira,

Sempre vai cair no mar:

E como a fonte cheirosa

Busca do mar a amplidão,

Tu hás de vir, mentirosa,

Sumir-te em meu coração.

- Recife.

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