Invocação
(LAMARTINE - 1868)
Ó! tu, anjo de luz, — miragem santa e calma,
Filha augusta do céu, visão do sonhador;
Tu que fazes brilhar nas noites de minh’alma
O astro do teu amor;
Diz-me, ah! diz-me o teu nome e em que lugar se encerra
Teu berço... Ergue-te enfim sem nuvens e sem véus:
Nasceste entre os mortais? serás filha da terra,
Ou és a encarnação dum suspiro de Deus?
Ao romper da manhã descambarás, estrela?
Irás, ave de amor, esconder-te em teu ninho
Zombando da procela?
Ou calcarás ainda o pó deste caminho
Envolta em luto e tédio e desespero e dor!?
Ó! sombra! ó! mito, ó fada, ó! flor desconhecida,
Dá que eu possa a teus pés derramar minha vida,
Meu culto e meu amor!
Se teu ser é sujeito à foice do destino,
Ah! consente que eu siga o teu corpo divino
E beije os passos teus, sublime querubim!
Mas se tens de voltar aos céus de que partiste,
Não te esqueças daquele a quem por dó sorriste:
Recorda-te de mim!
- Recife.