Vaga-Lume Corimbos · Capítulo 36 de 63
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Vaga-Lume

(CANÇONETA - 1865)

A Yayá L.

Foste brilhar longe, longe,

Longe, longe te perdeste:

Rasgaste as asas no espinho,

Sem luz, sem asas morreste...

— Que vale a vida? — um perfume...

Um ai! a vida resume,

Vaga-lume, vaga-lume.

Se brilhasses perto, perto,

Perto, perto viverias:

Ao pé da gruta e das fontes,

Da rosa e das melodias!

— Lume da noite! áureo lume,

Bebeste o fel no perfume,

Vaga-lume, vaga-lume.

Aqui tens as asas tuas,

Sem mais fogo e sem mais cor!

São duas folhas rasgadas,

Duas lágrimas de amor...

— Que vale a vida? um perfume,

Um ai! a vida resume,

Vaga-lume, vaga-lume.

Veio a noite: abriste o voo

Da noite na solidão:

Pobre falena dum dia,

Cegou-se a luz da paixão.

— Lume da noite! áureo lume,

Bebeste o fel no perfume,

Vaga-lume, vaga-lume.

Toda a noite, a noite toda

E mais um dia também,

Disse a brisa: — ele não volta —

Disse a planta: — ele não vem!

— Que vale a vida? um perfume,

Um ai, a vida resume,

Vaga-lume, vaga-lume.

A noite estava tão fria!

Tão frio e triste o luar!

A viração mal cerzia

As quietas vagas do mar!

— Lume da noite! áureo lume,

Bebeste o fel no perfume,

Vaga-lume, vaga-lume.

Onde foste, ó mensageiro,

Teu farolzinho apagar?

Meiga pérola da noite,

Onde te foste quebrar?

— Que vale a vida? um perfume,

Um ai! a vida resume,

Vaga-lume, vaga-lume.

E tu partiste... e morreste!

Luz alada — alada flor!

Prendeu-te as asas a morte,

A mortem a morte de amor!

— Lume da noite! áureo lume,

Bebeste o fel no perfume,

Vaga-lume, vaga-lume.

Hoje está tudo deserto,

Silente, calmo e sem luz,

Vai crescendo a parasita,

Uiva o cão ao pé da cruz,

— Que vale a vida? um perfume,

Um ai! A vida resume,

Vaga-lume, vaga-lume.

O grilo canta das cinzas,

O vento abala a vidraça,

Passa o vento, passa a noite,

Passa o dia, — a vida passa!

Lume da noite! áureo lume,

Bebeste o fel no perfume,

Vaga-lume, vaga-lume.

Que foste fazer tão longe

Tão longe, longe de nós,

Exposto à noite e aos furores,

Da ventania veloz?

— Que vale a vida? um perfume,

Um ai, a vida resume,

Vaga-lume, vaga-lume.

Volta, ó! volta — tudo é morto!

Tudo, tudo já morreu...

Nem há mais cantos na terra,

Nem mais estrelas no céu,

— Lume da noite! áureo lume,

Bebeste o fel no perfume,

Vaga-lume, vaga-lume.

Cai o ninho... os frutos secam...

O rio carrega a flor...

E nós! morremos chorando

O nosso primeiro amor!

— Que vale a vida? um perfume,

Um ai! a vida resume,

Vaga-lume, vaga-lume.

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