Vaga-Lume
(CANÇONETA - 1865)
A Yayá L.
Foste brilhar longe, longe,
Longe, longe te perdeste:
Rasgaste as asas no espinho,
Sem luz, sem asas morreste...
— Que vale a vida? — um perfume...
Um ai! a vida resume,
Vaga-lume, vaga-lume.
Se brilhasses perto, perto,
Perto, perto viverias:
Ao pé da gruta e das fontes,
Da rosa e das melodias!
— Lume da noite! áureo lume,
Bebeste o fel no perfume,
Vaga-lume, vaga-lume.
Aqui tens as asas tuas,
Sem mais fogo e sem mais cor!
São duas folhas rasgadas,
Duas lágrimas de amor...
— Que vale a vida? um perfume,
Um ai! a vida resume,
Vaga-lume, vaga-lume.
Veio a noite: abriste o voo
Da noite na solidão:
Pobre falena dum dia,
Cegou-se a luz da paixão.
— Lume da noite! áureo lume,
Bebeste o fel no perfume,
Vaga-lume, vaga-lume.
Toda a noite, a noite toda
E mais um dia também,
Disse a brisa: — ele não volta —
Disse a planta: — ele não vem!
— Que vale a vida? um perfume,
Um ai, a vida resume,
Vaga-lume, vaga-lume.
A noite estava tão fria!
Tão frio e triste o luar!
A viração mal cerzia
As quietas vagas do mar!
— Lume da noite! áureo lume,
Bebeste o fel no perfume,
Vaga-lume, vaga-lume.
Onde foste, ó mensageiro,
Teu farolzinho apagar?
Meiga pérola da noite,
Onde te foste quebrar?
— Que vale a vida? um perfume,
Um ai! a vida resume,
Vaga-lume, vaga-lume.
E tu partiste... e morreste!
Luz alada — alada flor!
Prendeu-te as asas a morte,
A mortem a morte de amor!
— Lume da noite! áureo lume,
Bebeste o fel no perfume,
Vaga-lume, vaga-lume.
Hoje está tudo deserto,
Silente, calmo e sem luz,
Vai crescendo a parasita,
Uiva o cão ao pé da cruz,
— Que vale a vida? um perfume,
Um ai! A vida resume,
Vaga-lume, vaga-lume.
O grilo canta das cinzas,
O vento abala a vidraça,
Passa o vento, passa a noite,
Passa o dia, — a vida passa!
Lume da noite! áureo lume,
Bebeste o fel no perfume,
Vaga-lume, vaga-lume.
Que foste fazer tão longe
Tão longe, longe de nós,
Exposto à noite e aos furores,
Da ventania veloz?
— Que vale a vida? um perfume,
Um ai, a vida resume,
Vaga-lume, vaga-lume.
Volta, ó! volta — tudo é morto!
Tudo, tudo já morreu...
Nem há mais cantos na terra,
Nem mais estrelas no céu,
— Lume da noite! áureo lume,
Bebeste o fel no perfume,
Vaga-lume, vaga-lume.
Cai o ninho... os frutos secam...
O rio carrega a flor...
E nós! morremos chorando
O nosso primeiro amor!
— Que vale a vida? um perfume,
Um ai! a vida resume,
Vaga-lume, vaga-lume.