O Poema do Pescador Corimbos · Capítulo 44 de 63
Obra Menu

O Poema do Pescador

(1868)

Rêvez! chantez! soupirez!

- George Sand.

Amada minha, fujamos

Deste mundo enganador,

Que em nossos olhos levamos

O mundo do nosso amor.

Tudo aqui minh’alma aterra:

Fujamos, encantos meus!

Seremos longe da terra

Mas muito perto de Deus.

Já vem luzindo a alvorada

A aurora rompendo vem:

Ah! fujamos, minha amada,

Que não nos segue ninguém.

Dos teus cabelos no manto

Nos longos cabelos teus,

Levarás todo o meu pranto

E todos os beijos meus.

Fujamos, amada minha,

O dia pode romper:

Inda é madrugadinha

Mas não tarda a amanhecer.

Quantas rosas há no espaço!

Querida, vem respirar:

Ah! cruel! é teu regaço

Que está perfumado o ar!

As estrelas vão fugindo

Das névoas por entre o véu,

A manhã já está bulindo

Nos cortinados do céu.

Minha amada, ó! minha amada,

Minha vida, meu prazer,

Que bonita madrugada!

Que saudoso amanhecer!

Fujamos, é tempo agora:

Não há sombra de ninguém!

Quando o sol estiver fora

Estamos longe também.

As aves cantam baixinho,

Medrosa calou-se a rã,

Na sombra enrubesce o ninho

Ao doce olhar da manhã.

A vaga terna e macia

Palpita de inquietação:

Como essa vaga, Maria,

Palpita o meu coração.

Tu irás, amada minha,

Sem medo encostada a mim:

No leme da jangadinha

Já botei um serafim.

Nós três, sorrindo e cantando

Das águas na limpidez,

Iremos todos amando

Iremos sonhando os três!

E enquanto do dia a barra

Doirar os morros de além,

Eu cantarei na guitarra,

E tu chorarás, meu bem!

Sabes tu, pálida amante,

O céu em que vás fulgir?

Sabes tu, pomba arquejante,

O ramo em que vás dormir?

Vás dormir no verde ramo

Dum arvoredo sem par:

Onde o vento diz: — eu te amo!

E o mato põe-se a falar!

É lá que a sorte adorada

As almas une e bendiz:

Serás feliz, minha amada,

E eu também serei feliz!

Que festas! que luz! que encantos!

Que puro e belo porvir!

Os nossos olhos sem prantos!

As nossas bocas a rir!

Aí é que tu, Maria,

Casarás com teu cantor:

Será madrinha a Poesia,

Será convidado o Amor.

Lá tu’alma abençoada

Pendente dos lábios meus,

Viverá desabrochada

Bebendo os risos de Deus!

A flor dirá: — que ventura

Os olhos dele contêm!

O céu dirá: — que ternura

Nos olhos dela também!

Teus negros olhos banhados

De estranho e vivo fulgor,

Serão dois astros cravados

No firmamento do amor.

Já vejo a nossa jangada

Cortando o espaço sem véu,

Como a gaivota assustada

Que o caçador surpreendeu...

Eu sei que o mar tem abrolhos,

Qu’importa abrolhos do mar?

Barco que leva teus olhos

Não tem medo de afundar.

O terral enfuna a vela

Que a jangadinha conduz:

Vamos perder-nos, ó bela,

Pelas lagoas azuis!

Maria, o instante querido

Pouco tarda a nos deixar:

O sol calçado e vestido

Já pôs o olho no mar.

O loiro arcanjo do leme

De cansaço adormeceu:

A vaga na areia geme

E o terral esmoreceu.

Amada minha, não queres

Que eu seja feliz por ti!

Pois esta terra preferes

Ao mundo que eu descobri?

A jangadinha erradia,

Que não quiseste aceitar,

Tinha o teu nome, Maria,

Para ser feliz no mar.

Lá vai ela atravessando

A correnteza veloz:

Quem ao longe vai cantando?

Donde é que parte essa voz?

— “Eu sou o Amor: não há nada

Que a meus sonhos ponha fim:

Quem quiser vir na jangada

Há de ser igual a mim.

Eu sou um astro perdido

Que vaga em busca dos céus;

Sou das almas o escolhido

E o predileto de Deus!

virgem, anjo, formosura,

— Esquivo botão de flor,

Deixas fugir a ventura,

Deixando fugir o amor!”

- Olinda.

1/1
Menu

Fazer anotação