O Poema do Pescador
(1868)
Rêvez! chantez! soupirez!
- George Sand.
Amada minha, fujamos
Deste mundo enganador,
Que em nossos olhos levamos
O mundo do nosso amor.
Tudo aqui minh’alma aterra:
Fujamos, encantos meus!
Seremos longe da terra
Mas muito perto de Deus.
Já vem luzindo a alvorada
A aurora rompendo vem:
Ah! fujamos, minha amada,
Que não nos segue ninguém.
Dos teus cabelos no manto
Nos longos cabelos teus,
Levarás todo o meu pranto
E todos os beijos meus.
Fujamos, amada minha,
O dia pode romper:
Inda é madrugadinha
Mas não tarda a amanhecer.
Quantas rosas há no espaço!
Querida, vem respirar:
Ah! cruel! é teu regaço
Que está perfumado o ar!
As estrelas vão fugindo
Das névoas por entre o véu,
A manhã já está bulindo
Nos cortinados do céu.
Minha amada, ó! minha amada,
Minha vida, meu prazer,
Que bonita madrugada!
Que saudoso amanhecer!
Fujamos, é tempo agora:
Não há sombra de ninguém!
Quando o sol estiver fora
Estamos longe também.
As aves cantam baixinho,
Medrosa calou-se a rã,
Na sombra enrubesce o ninho
Ao doce olhar da manhã.
A vaga terna e macia
Palpita de inquietação:
Como essa vaga, Maria,
Palpita o meu coração.
Tu irás, amada minha,
Sem medo encostada a mim:
No leme da jangadinha
Já botei um serafim.
Nós três, sorrindo e cantando
Das águas na limpidez,
Iremos todos amando
Iremos sonhando os três!
E enquanto do dia a barra
Doirar os morros de além,
Eu cantarei na guitarra,
E tu chorarás, meu bem!
Sabes tu, pálida amante,
O céu em que vás fulgir?
Sabes tu, pomba arquejante,
O ramo em que vás dormir?
Vás dormir no verde ramo
Dum arvoredo sem par:
Onde o vento diz: — eu te amo!
E o mato põe-se a falar!
É lá que a sorte adorada
As almas une e bendiz:
Serás feliz, minha amada,
E eu também serei feliz!
Que festas! que luz! que encantos!
Que puro e belo porvir!
Os nossos olhos sem prantos!
As nossas bocas a rir!
Aí é que tu, Maria,
Casarás com teu cantor:
Será madrinha a Poesia,
Será convidado o Amor.
Lá tu’alma abençoada
Pendente dos lábios meus,
Viverá desabrochada
Bebendo os risos de Deus!
A flor dirá: — que ventura
Os olhos dele contêm!
O céu dirá: — que ternura
Nos olhos dela também!
Teus negros olhos banhados
De estranho e vivo fulgor,
Serão dois astros cravados
No firmamento do amor.
Já vejo a nossa jangada
Cortando o espaço sem véu,
Como a gaivota assustada
Que o caçador surpreendeu...
Eu sei que o mar tem abrolhos,
Qu’importa abrolhos do mar?
Barco que leva teus olhos
Não tem medo de afundar.
O terral enfuna a vela
Que a jangadinha conduz:
Vamos perder-nos, ó bela,
Pelas lagoas azuis!
Maria, o instante querido
Pouco tarda a nos deixar:
O sol calçado e vestido
Já pôs o olho no mar.
O loiro arcanjo do leme
De cansaço adormeceu:
A vaga na areia geme
E o terral esmoreceu.
Amada minha, não queres
Que eu seja feliz por ti!
Pois esta terra preferes
Ao mundo que eu descobri?
A jangadinha erradia,
Que não quiseste aceitar,
Tinha o teu nome, Maria,
Para ser feliz no mar.
Lá vai ela atravessando
A correnteza veloz:
Quem ao longe vai cantando?
Donde é que parte essa voz?
— “Eu sou o Amor: não há nada
Que a meus sonhos ponha fim:
Quem quiser vir na jangada
Há de ser igual a mim.
Eu sou um astro perdido
Que vaga em busca dos céus;
Sou das almas o escolhido
E o predileto de Deus!
virgem, anjo, formosura,
— Esquivo botão de flor,
Deixas fugir a ventura,
Deixando fugir o amor!”
- Olinda.