O Fogo Proibido Jornada do Sangue · Capítulo 2 de 49
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O Fogo Proibido

Eva acordou com a cabeça apoiada no peito de Moisés. O quarto ainda estava escuro, embora uma faixa de luz já passasse pela cortina e alcançasse as roupas espalhadas no chão. Durante alguns segundos, ouviu apenas o coração dele. As batidas eram lentas demais para alguém que dormira tão pouco.

Moisés abriu os olhos quando ela levantou o rosto.

— Está me observando?

— Estava verificando se você é humano.

— E chegou a alguma conclusão?

— Ainda não.

Eva tentou voltar a dormir, mas ele saiu da cama. Vestiu a camisa, procurou o relógio sob uma cadeira e recusou o café que ela pediu pelo telefone.

— Vai embora assim?

— Tenho coisas para resolver.

— Todo mundo tem. Algumas pessoas conseguem dizer quais.

Moisés terminou de abotoar a camisa.

— Você acabou de enterrar seu pai. Eu não deveria ter levado você para um motel.

— Não me levou. Eu vim.

— Eu sei.

Ele se aproximou e a beijou. Eva segurou seu braço, esperando que ficasse. Moisés se soltou sem pressa.

— Até breve.

— Isso é uma promessa ou uma arrogância?

— Você vai decidir quando eu voltar.

Quatro dias depois, Eva ainda não havia decidido. Procurou o nome dele nas listas do clube, nas redes sociais e entre os convidados que conhecia. Encontrou homens com o mesmo nome, fotografias antigas, perfis abandonados e nenhum rosto que correspondesse ao dele. Quando Moisés telefonou, perto da meia-noite, ela atendeu antes do segundo toque e se irritou com a própria rapidez.

Encontraram-se outras vezes nas semanas seguintes. Um jantar terminava no apartamento dela. Uma tarde começava num café e acabava num quarto de hotel. Moisés desaparecia por dois ou três dias, voltava com uma ligação curta e nunca explicava trabalho, família ou endereço. Eva fazia perguntas até perceber que ele também sabia contorná-las. Então mudava de estratégia, falava de viagens, festas e pessoas conhecidas, esperando que alguma resposta dele denunciasse uma lembrança. Não conseguia.

Numa dessas noites, Moisés apareceu no apartamento com os nós dos dedos feridos. Eva viu o sangue quando ele deixou a chave do carro sobre o balcão.

— O que aconteceu?

— Uma discussão.

— Você costuma discutir com paredes?

Ele lavou as mãos na pia. Eva pegou algodão e antisséptico no banheiro, puxou uma cadeira e apontou para o assento. Moisés obedeceu. Ela limpou o corte sem delicadeza.

— Pode parar de fingir que isso não me diz respeito.

— Se eu contar, passa a dizer respeito.

— Você entra na minha casa sangrando e ainda acha que pode decidir isso sozinho?

Moisés tomou o frasco da mão dela e colocou sobre a mesa.

— Há pessoas que acompanham meu trabalho e não concordam com o que pretendo fazer.

— E o que pretende fazer?

— Ainda estou descobrindo.

Eva levantou. Moisés segurou sua cintura e encostou a testa no corpo dela. A raiva não desapareceu. Ela passou os dedos pelos cabelos dele, puxou o rosto para cima e o beijou. Dormiram juntos, mas, quando Eva acordou, a cadeira estava vazia e o algodão manchado de sangue permanecia sobre a mesa.

Dois dias depois, ela deixou o celular virado para baixo durante um almoço. Conferiu a tela quatro vezes antes da sobremesa. Quando o nome de Moisés apareceu, dispensou a companhia, mudou os planos da noite e prometeu a si mesma que seria a última vez. Não foi.

Na terceira semana, ele a levou ao Restaurante Rosso. Escolheu uma mesa distante das janelas e sentou de frente para a entrada. Eva reparou antes de tirar a bolsa do ombro.

— Você sempre escolhe lugares de onde pode ver quem chega?

— Sempre que posso.

— Está fugindo de alguém?

— Hoje, não.

— E ontem?

Moisés abriu o cardápio. Eva empurrou a mão dele para baixo.

— Quero saber o que você conhece sobre meu pai.

O sorriso desapareceu.

— Por que acha que conheço alguma coisa?

— Porque você sabia meu sobrenome antes que eu dissesse. Fingi que não percebi na primeira noite. Depois você me levou a um restaurante usado por executivos da empresa e escolheu justamente a mesa que Paulo preferia.

Moisés olhou para o salão, depois para ela.

— Paulo Azevedo protegia documentos e objetos para uma organização da qual faço parte.

— Uma empresa?

— Uma ordem.

Eva recostou-se na cadeira.

— Você se aproximou de mim por causa dele.

— Eu reconheci seu nome. Isso me fez observar. O que aconteceu depois não estava nos meus planos.

— Que resposta conveniente.

— É a resposta que tenho.

Ela pegou a bolsa.

— Então me mostre.

Moisés demorou a reagir.

— Não.

— Você queria que eu acreditasse numa ordem escondida porque disse duas frases num jantar?

— Queria que soubesse por que eu conhecia Paulo.

— Agora eu sei pouco demais para ir embora e o suficiente para não confiar em você.

Eva se levantou. Moisés segurou o pulso dela, e ela retirou a mão. Ele deixou algumas notas sobre a mesa e veio atrás.

— Se entrar comigo, não verá respostas completas.

— Já me acostumei com isso.

Seguiram a pé por duas quadras. A entrada ficava atrás de uma fachada estreita entre prédios comerciais. Moisés destrancou uma porta sem placa e acendeu a luz de uma escada que descia sob o quarteirão. O ar mudou antes do fim dos degraus. Cheirava a pedra úmida, papel e cera queimada.

— O nome original era Ordo Aeternus — disse ele. — A estrutura se dividiu muitas vezes. O grupo que preservou os registros passou a ser chamado de Confraria do Segredo.

— E as pessoas que fizeram isso na sua mão?

Moisés parou.

— Por que acha que pertencem à Ordo?

— Porque você decidiu fazer alguma coisa, desapareceu e voltou ferido.

— Parte da Ordo decidiu que os objetos valiam mais que os textos. Eles mantiveram cargos, títulos e redes de influência. A Confraria ficou com arquivos, ritos e versões incompletas da história. Paulo transitava entre os dois lados.

— E qual das duas ainda é a Ordo? — perguntou Eva.

— Depende de quem responde. As duas usam o nome quando ele oferece autoridade. O grupo do Negociador faz isso com mais frequência.

— Meu pai adorava transformar problemas em patrimônio.

No fim do corredor, duas pessoas guardavam uma porta de madeira. Cumprimentaram Moisés inclinando a cabeça. Uma delas o chamou de Mestre.

Eva esperou que avançassem.

— Você disse que não era líder.

— Mestre é a função de quem conduz determinados ritos. Não me dá autoridade sobre a vida deles.

— Só sobre o que acreditam.

— Às vezes isso é mais perigoso.

A câmara além da porta era ampla e baixa. Havia mapas, caixas numeradas, instrumentos de metal e documentos protegidos por vidro. Cerca de vinte pessoas ocupavam bancos voltados para uma mesa de pedra. Roupas comuns se misturavam a mantos curtos usados apenas sobre os ombros. Eva reconheceu uma professora universitária, um desembargador aposentado e uma mulher que já vira ao lado de Paulo numa inauguração.

Alguns se levantaram quando Moisés entrou. Outros olharam para Eva com uma atenção que a fez conferir a saída.

— Ela não será iniciada hoje — disse Moisés. — Veio conhecer o que Paulo protegeu.

Uma mulher de cabelos brancos fechou o livro que tinha no colo.

— Paulo passou anos evitando que os filhos chegassem aqui.

— Paulo morreu — respondeu Eva. — E não deixou instruções simples.

A mulher estudou seu rosto.

— Nesse ponto, continua coerente com ele.

Ela se apresentou como responsável pelos arquivos e pediu o sobrenome da mãe de Eva. A resposta mudou alguma coisa em seu rosto. A mulher abriu um armário, conferiu uma pasta e voltou sem ela.

— O registro está incompleto — disse.

— Ou alguém não quer me mostrar.

— As duas coisas podem ser verdade.

Moisés aproximou-se.

— A mãe dela morreu no parto.

— A sua também — respondeu a arquivista.

Eva abriu a boca para perguntar, mas a mulher já caminhava para a sala seguinte. Moisés foi atrás. Ela guardou a pergunta e acompanhou os dois.

Moisés conduziu Eva até uma segunda sala. No centro havia um púlpito baixo e, sobre ele, um pergaminho escurecido. A superfície parecia vazia. Moisés acendeu uma lâmpada sob a base. Marcas surgiram aos poucos, reveladas pelo ângulo da luz.

— Tinta sensível ao calor? — Eva perguntou.

— Pode ser. Alguns afirmam que o texto muda conforme o leitor. Eu nunca vi mudança suficiente para provar.

Ela se inclinou. As primeiras palavras estavam em português, apesar da idade atribuída ao material.

— “Eu sou Quem Tudo Pode e caminho por qualquer espaço e em qualquer tempo...”

Mais abaixo, leu frases separadas pelo desgaste.

— “A morte abre outra etapa...” “Reúna energias de todo tipo...” “Quanto mais almas reunidas num mesmo objetivo...”

Perto do fim, uma linha permanecia quase completa:

— “Deuses existem, mas nem eles podem fugir da morte.”

Eva endireitou o corpo.

— Isso pode ter sido escrito ontem.

— Pode.

— E mesmo assim vocês construíram uma ordem ao redor.

— Construímos arquivos ao redor. A fé veio por conta própria.

Moisés abriu uma gaveta do púlpito e retirou um livro protegido por tecido. As páginas reuniam cópias de documentos em línguas diferentes. O símbolo de um dragão mordendo a própria cauda aparecia em margens separadas por séculos.

— O problema não é um pergaminho — disse ele. — São registros produzidos em lugares que não deveriam conhecer uns aos outros repetindo os mesmos símbolos, objetos e relações familiares.

Ele mostrou três reproduções. Uma vinha de uma embarcação desaparecida no Atlântico, outra fora copiada de uma parede escavada no Oriente e a terceira sobrevivera num livro de batismos de uma cidade pequena. As datas, os alfabetos e os materiais não coincidiam. O desenho do cálice era o mesmo.

— Alguém pode ter levado o símbolo de um lugar para outro — disse Eva.

— É uma das hipóteses.

— Qual é a sua?

— Que pessoas diferentes receberam partes da mesma informação. Não sei de quem.

Eva folheou o livro. Cálice. Moeda. Sangue. Duas crianças desenhadas sob o mesmo ramo. Em outra página, uma anotação mencionava um marinheiro morto depois de gerar descendência. As filhas gêmeas haviam sido separadas após a morte da mãe. Um dos ramos seguia até o nome da mãe de Moisés. O outro terminava em anotações rasuradas e uma referência a Paulo Azevedo.

— Sua mãe está aqui.

— Foi por causa dela que entrei para a Confraria.

— E Paulo?

— Procurava o outro ramo. Escondeu ou retirou páginas quando percebeu que a pesquisa chegava perto da família.

Eva fotografou as duas folhas. Moisés viu o celular e não a impediu.

— Você acha que o outro ramo chega até mim?

— Acho que Paulo temia essa possibilidade. Não sei quem eram as gêmeas nem onde a linhagem se dividiu depois delas.

— Finalmente uma resposta sem destino.

— Eu não confio nessa palavra tanto quanto você imagina.

O telefone vibrou na mão de Eva. André. Ela atendeu enquanto ainda olhava para a fotografia.

— Preciso falar com você — disse ele. — É sobre o pai. Você pode vir à casa?

A voz do irmão estava tensa. Eva conhecia o tom usado para irritação, cobrança e medo. Era o último.

— Estou indo.

Moisés pegou o tecido para cobrir o livro.

— Vou com você.

— Não. Preciso conversar com André antes de colocar você na frente dele.

— Se ele encontrou algo de Paulo, pode estar em perigo.

— Então me deixe descobrir primeiro o que foi.

Eva guardou o celular e saiu. No corredor, a mulher de cabelos brancos ainda a observava.

— Se Paulo deixou o Cálice exposto, o ramo de custódia vai se mover — avisou ela.

Eva não sabia a que cálice se referia. Continuou até a escada.

Moisés esperou a porta fechar e voltou para a câmara.

— Reúna a guarda — disse à mulher. — Sem mantos e sem símbolos. Se o título de Empresário passou para André, o Negociador já deve ter chegado até ele.

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