O Fogo Proibido
Eva acordou com a cabeça apoiada no peito de Moisés. O quarto ainda estava escuro, embora uma faixa de luz já passasse pela cortina e alcançasse as roupas espalhadas no chão. Durante alguns segundos, ouviu apenas o coração dele. As batidas eram lentas demais para alguém que dormira tão pouco.
Moisés abriu os olhos quando ela levantou o rosto.
— Está me observando?
— Estava verificando se você é humano.
— E chegou a alguma conclusão?
— Ainda não.
Eva tentou voltar a dormir, mas ele saiu da cama. Vestiu a camisa, procurou o relógio sob uma cadeira e recusou o café que ela pediu pelo telefone.
— Vai embora assim?
— Tenho coisas para resolver.
— Todo mundo tem. Algumas pessoas conseguem dizer quais.
Moisés terminou de abotoar a camisa.
— Você acabou de enterrar seu pai. Eu não deveria ter levado você para um motel.
— Não me levou. Eu vim.
— Eu sei.
Ele se aproximou e a beijou. Eva segurou seu braço, esperando que ficasse. Moisés se soltou sem pressa.
— Até breve.
— Isso é uma promessa ou uma arrogância?
— Você vai decidir quando eu voltar.
Quatro dias depois, Eva ainda não havia decidido. Procurou o nome dele nas listas do clube, nas redes sociais e entre os convidados que conhecia. Encontrou homens com o mesmo nome, fotografias antigas, perfis abandonados e nenhum rosto que correspondesse ao dele. Quando Moisés telefonou, perto da meia-noite, ela atendeu antes do segundo toque e se irritou com a própria rapidez.
Encontraram-se outras vezes nas semanas seguintes. Um jantar terminava no apartamento dela. Uma tarde começava num café e acabava num quarto de hotel. Moisés desaparecia por dois ou três dias, voltava com uma ligação curta e nunca explicava trabalho, família ou endereço. Eva fazia perguntas até perceber que ele também sabia contorná-las. Então mudava de estratégia, falava de viagens, festas e pessoas conhecidas, esperando que alguma resposta dele denunciasse uma lembrança. Não conseguia.
Numa dessas noites, Moisés apareceu no apartamento com os nós dos dedos feridos. Eva viu o sangue quando ele deixou a chave do carro sobre o balcão.
— O que aconteceu?
— Uma discussão.
— Você costuma discutir com paredes?
Ele lavou as mãos na pia. Eva pegou algodão e antisséptico no banheiro, puxou uma cadeira e apontou para o assento. Moisés obedeceu. Ela limpou o corte sem delicadeza.
— Pode parar de fingir que isso não me diz respeito.
— Se eu contar, passa a dizer respeito.
— Você entra na minha casa sangrando e ainda acha que pode decidir isso sozinho?
Moisés tomou o frasco da mão dela e colocou sobre a mesa.
— Há pessoas que acompanham meu trabalho e não concordam com o que pretendo fazer.
— E o que pretende fazer?
— Ainda estou descobrindo.
Eva levantou. Moisés segurou sua cintura e encostou a testa no corpo dela. A raiva não desapareceu. Ela passou os dedos pelos cabelos dele, puxou o rosto para cima e o beijou. Dormiram juntos, mas, quando Eva acordou, a cadeira estava vazia e o algodão manchado de sangue permanecia sobre a mesa.
Dois dias depois, ela deixou o celular virado para baixo durante um almoço. Conferiu a tela quatro vezes antes da sobremesa. Quando o nome de Moisés apareceu, dispensou a companhia, mudou os planos da noite e prometeu a si mesma que seria a última vez. Não foi.
Na terceira semana, ele a levou ao Restaurante Rosso. Escolheu uma mesa distante das janelas e sentou de frente para a entrada. Eva reparou antes de tirar a bolsa do ombro.
— Você sempre escolhe lugares de onde pode ver quem chega?
— Sempre que posso.
— Está fugindo de alguém?
— Hoje, não.
— E ontem?
Moisés abriu o cardápio. Eva empurrou a mão dele para baixo.
— Quero saber o que você conhece sobre meu pai.
O sorriso desapareceu.
— Por que acha que conheço alguma coisa?
— Porque você sabia meu sobrenome antes que eu dissesse. Fingi que não percebi na primeira noite. Depois você me levou a um restaurante usado por executivos da empresa e escolheu justamente a mesa que Paulo preferia.
Moisés olhou para o salão, depois para ela.
— Paulo Azevedo protegia documentos e objetos para uma organização da qual faço parte.
— Uma empresa?
— Uma ordem.
Eva recostou-se na cadeira.
— Você se aproximou de mim por causa dele.
— Eu reconheci seu nome. Isso me fez observar. O que aconteceu depois não estava nos meus planos.
— Que resposta conveniente.
— É a resposta que tenho.
Ela pegou a bolsa.
— Então me mostre.
Moisés demorou a reagir.
— Não.
— Você queria que eu acreditasse numa ordem escondida porque disse duas frases num jantar?
— Queria que soubesse por que eu conhecia Paulo.
— Agora eu sei pouco demais para ir embora e o suficiente para não confiar em você.
Eva se levantou. Moisés segurou o pulso dela, e ela retirou a mão. Ele deixou algumas notas sobre a mesa e veio atrás.
— Se entrar comigo, não verá respostas completas.
— Já me acostumei com isso.
Seguiram a pé por duas quadras. A entrada ficava atrás de uma fachada estreita entre prédios comerciais. Moisés destrancou uma porta sem placa e acendeu a luz de uma escada que descia sob o quarteirão. O ar mudou antes do fim dos degraus. Cheirava a pedra úmida, papel e cera queimada.
— O nome original era Ordo Aeternus — disse ele. — A estrutura se dividiu muitas vezes. O grupo que preservou os registros passou a ser chamado de Confraria do Segredo.
— E as pessoas que fizeram isso na sua mão?
Moisés parou.
— Por que acha que pertencem à Ordo?
— Porque você decidiu fazer alguma coisa, desapareceu e voltou ferido.
— Parte da Ordo decidiu que os objetos valiam mais que os textos. Eles mantiveram cargos, títulos e redes de influência. A Confraria ficou com arquivos, ritos e versões incompletas da história. Paulo transitava entre os dois lados.
— E qual das duas ainda é a Ordo? — perguntou Eva.
— Depende de quem responde. As duas usam o nome quando ele oferece autoridade. O grupo do Negociador faz isso com mais frequência.
— Meu pai adorava transformar problemas em patrimônio.
No fim do corredor, duas pessoas guardavam uma porta de madeira. Cumprimentaram Moisés inclinando a cabeça. Uma delas o chamou de Mestre.
Eva esperou que avançassem.
— Você disse que não era líder.
— Mestre é a função de quem conduz determinados ritos. Não me dá autoridade sobre a vida deles.
— Só sobre o que acreditam.
— Às vezes isso é mais perigoso.
A câmara além da porta era ampla e baixa. Havia mapas, caixas numeradas, instrumentos de metal e documentos protegidos por vidro. Cerca de vinte pessoas ocupavam bancos voltados para uma mesa de pedra. Roupas comuns se misturavam a mantos curtos usados apenas sobre os ombros. Eva reconheceu uma professora universitária, um desembargador aposentado e uma mulher que já vira ao lado de Paulo numa inauguração.
Alguns se levantaram quando Moisés entrou. Outros olharam para Eva com uma atenção que a fez conferir a saída.
— Ela não será iniciada hoje — disse Moisés. — Veio conhecer o que Paulo protegeu.
Uma mulher de cabelos brancos fechou o livro que tinha no colo.
— Paulo passou anos evitando que os filhos chegassem aqui.
— Paulo morreu — respondeu Eva. — E não deixou instruções simples.
A mulher estudou seu rosto.
— Nesse ponto, continua coerente com ele.
Ela se apresentou como responsável pelos arquivos e pediu o sobrenome da mãe de Eva. A resposta mudou alguma coisa em seu rosto. A mulher abriu um armário, conferiu uma pasta e voltou sem ela.
— O registro está incompleto — disse.
— Ou alguém não quer me mostrar.
— As duas coisas podem ser verdade.
Moisés aproximou-se.
— A mãe dela morreu no parto.
— A sua também — respondeu a arquivista.
Eva abriu a boca para perguntar, mas a mulher já caminhava para a sala seguinte. Moisés foi atrás. Ela guardou a pergunta e acompanhou os dois.
Moisés conduziu Eva até uma segunda sala. No centro havia um púlpito baixo e, sobre ele, um pergaminho escurecido. A superfície parecia vazia. Moisés acendeu uma lâmpada sob a base. Marcas surgiram aos poucos, reveladas pelo ângulo da luz.
— Tinta sensível ao calor? — Eva perguntou.
— Pode ser. Alguns afirmam que o texto muda conforme o leitor. Eu nunca vi mudança suficiente para provar.
Ela se inclinou. As primeiras palavras estavam em português, apesar da idade atribuída ao material.
— “Eu sou Quem Tudo Pode e caminho por qualquer espaço e em qualquer tempo...”
Mais abaixo, leu frases separadas pelo desgaste.
— “A morte abre outra etapa...” “Reúna energias de todo tipo...” “Quanto mais almas reunidas num mesmo objetivo...”
Perto do fim, uma linha permanecia quase completa:
— “Deuses existem, mas nem eles podem fugir da morte.”
Eva endireitou o corpo.
— Isso pode ter sido escrito ontem.
— Pode.
— E mesmo assim vocês construíram uma ordem ao redor.
— Construímos arquivos ao redor. A fé veio por conta própria.
Moisés abriu uma gaveta do púlpito e retirou um livro protegido por tecido. As páginas reuniam cópias de documentos em línguas diferentes. O símbolo de um dragão mordendo a própria cauda aparecia em margens separadas por séculos.
— O problema não é um pergaminho — disse ele. — São registros produzidos em lugares que não deveriam conhecer uns aos outros repetindo os mesmos símbolos, objetos e relações familiares.
Ele mostrou três reproduções. Uma vinha de uma embarcação desaparecida no Atlântico, outra fora copiada de uma parede escavada no Oriente e a terceira sobrevivera num livro de batismos de uma cidade pequena. As datas, os alfabetos e os materiais não coincidiam. O desenho do cálice era o mesmo.
— Alguém pode ter levado o símbolo de um lugar para outro — disse Eva.
— É uma das hipóteses.
— Qual é a sua?
— Que pessoas diferentes receberam partes da mesma informação. Não sei de quem.
Eva folheou o livro. Cálice. Moeda. Sangue. Duas crianças desenhadas sob o mesmo ramo. Em outra página, uma anotação mencionava um marinheiro morto depois de gerar descendência. As filhas gêmeas haviam sido separadas após a morte da mãe. Um dos ramos seguia até o nome da mãe de Moisés. O outro terminava em anotações rasuradas e uma referência a Paulo Azevedo.
— Sua mãe está aqui.
— Foi por causa dela que entrei para a Confraria.
— E Paulo?
— Procurava o outro ramo. Escondeu ou retirou páginas quando percebeu que a pesquisa chegava perto da família.
Eva fotografou as duas folhas. Moisés viu o celular e não a impediu.
— Você acha que o outro ramo chega até mim?
— Acho que Paulo temia essa possibilidade. Não sei quem eram as gêmeas nem onde a linhagem se dividiu depois delas.
— Finalmente uma resposta sem destino.
— Eu não confio nessa palavra tanto quanto você imagina.
O telefone vibrou na mão de Eva. André. Ela atendeu enquanto ainda olhava para a fotografia.
— Preciso falar com você — disse ele. — É sobre o pai. Você pode vir à casa?
A voz do irmão estava tensa. Eva conhecia o tom usado para irritação, cobrança e medo. Era o último.
— Estou indo.
Moisés pegou o tecido para cobrir o livro.
— Vou com você.
— Não. Preciso conversar com André antes de colocar você na frente dele.
— Se ele encontrou algo de Paulo, pode estar em perigo.
— Então me deixe descobrir primeiro o que foi.
Eva guardou o celular e saiu. No corredor, a mulher de cabelos brancos ainda a observava.
— Se Paulo deixou o Cálice exposto, o ramo de custódia vai se mover — avisou ela.
Eva não sabia a que cálice se referia. Continuou até a escada.
Moisés esperou a porta fechar e voltou para a câmara.
— Reúna a guarda — disse à mulher. — Sem mantos e sem símbolos. Se o título de Empresário passou para André, o Negociador já deve ter chegado até ele.