A Nave Jornada do Sangue · Capítulo 31 de 49
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A Nave

A nave apareceu sobre Kimmer sem cerimônia.

André a viu primeiro pelo reflexo no teto falso dos místicos: uma claridade nova atravessando os condutores de luz, vibrando nas flores subterrâneas, fazendo Trix erguer o rosto antes mesmo de qualquer alarme. Em seguida veio o som, grave, distante, grande demais para pertencer a uma ave ou a qualquer dragão. Ele soube.

Laura tinha voltado.

— Preciso ir.

Trix apertou a mão dele uma vez, sem prender.

— Eu sei.

André chamou Jawzahr. O pequeno morcego-dragão cresceu enquanto subiam pelos túneis, abrindo asas, alongando pescoço, recuperando a escala que fazia as paredes tremerem. Quando alcançaram a superfície, Kimmer inteiro olhava para o céu.

A nave cortava a atmosfera em chamas controladas. Propulsores trabalhavam contra a gravidade, e o casco trazia marcas de viagem que nenhum engenheiro do planeta teria conseguido prever antes de fazê-la. André lembrou, com uma pontada absurda, que a ideia inicial tinha sido dele. Um povo capaz de voar, morrer e despertar em outros planetas nunca precisara inventar nave. Para eles, deslocamento cósmico vinha por morte, não por engenharia. Mesmo assim, Laura fora buscar um rei morto dentro de metal, cálculo e teimosia.

André tentou voar até a base de pouso.

Caiu alguns metros.

O ar ao redor da nave estava instável. Correntes se chocavam, pressões se invertiam, e vampiros que tentavam subir perdiam sustentação. Ele correu com os outros. A base logo ficou tomada por dracônicos, tradicionais, curiosos, soldados e gente que chegara apenas para ver se a visão de Laura tinha mesmo voltado com corpo.

O pouso veio suave.

A nave abriu-se pela lateral. Laura surgiu primeiro, pálida, exausta. Vê-la viva abalou André. A multidão aplaudiu. Ao lado dela, apareceu Garguston.

O antigo rei desceu com passos lentos. Carregava a imponência de quem já governara antes da necessidade de convencer plateias. O corpo dele vinha de outro planeta, outra morte, outro estágio, mas os tradicionais reconheceram algo que ia além da aparência. O silêncio abriu espaço.

Garguston parou diante de André.

— Então você é o rei.

André assentiu.

— Laura me contou a situação — continuou Garguston. — Foi convincente. A visão dela também ajudou, principalmente por já ter acertado antes. Ainda assim, preciso ouvir de você. Fará tudo para proteger qualquer vampiro deste planeta de ser subjugado, escravizado ou torturado?

— Sim.

A resposta saiu sem cálculo.

— Usarei tudo que tenho.

Garguston sustentou o olhar dele por mais alguns segundos.

— Então me leve ao povo original.

— Isso acaba aqui — disse Orlok.

Ele chegava com os tradicionais. Mergowhood inteira, ou quase inteira, avançava atrás dele em silêncio. André sentiu a tensão percorrer os dracônicos ao redor. Por um instante, a base de pouso pareceu preparada para virar campo de guerra antes mesmo da invasão prevista.

Orlok aproximou-se de Garguston.

Estendeu a mão.

— É uma honra tê-lo de volta.

Garguston aceitou o cumprimento.

— Orlok, meu caro. Ver vocês outra vez me honra. Mas lembranças terão de esperar.

Ele se virou para todos.

— No planeta de onde venho, os estudos indicavam uma grande ruptura no universo. Quando Laura chegou em uma nave, procurando por mim e falando de uma visão que já havia provado sua força, entendi que Kimmer estava diante de algo maior que orgulho de linhagem. Sei o quanto intimida entregar o morcego interior a uma transformação dracônica. Também sei reconhecer uma melhoria de sobrevivência quando ela bate à porta no último dia possível.

— Mestre — disse Orlok —, conversei com todos. Mesmo os mais resistentes aceitaram uma condição. Se o senhor voltasse e pedisse, confiaríamos. Mas queremos que a transformação venha do rei André. O DNA original.

André sentiu a exigência pesar em sua boca antes das presas nascerem.

Carmilla chegou à base naquele momento. Não olhou para a multidão primeiro. Abraçou Laura e a beijou diante de todos. O gesto teria causado escândalo em outro dia. Naquele, o retorno de Garguston, a nave aberta e o medo da convergência abafaram o julgamento. Alguns desviaram os olhos. Outros continuaram olhando. Ninguém ousou interromper.

André aproximou-se de Orlok, mas Garguston ergueu a mão.

— Eu primeiro.

— Não precisa.

— Que líder pediria ao povo para aceitar uma mordida que recusou para si?

André mordeu Garguston.

A reação veio imediata. O corpo do antigo rei se curvou, as veias escureceram por baixo da pele, e um som baixo saiu de sua garganta. Em seguida, ele chamou a simbiose. O morcego que surgiu abriu asas e se alongou em forma dracônica, médio, firme, com fogo respirando entre os dentes. Subiu ao céu sob um rugido que os tradicionais responderam com espanto contido.

Depois veio Orlok.

Depois outro.

Depois centenas.

André mordia, sugava, devolvia mutação. A mandíbula abria feridas que se fechavam antes da mordida seguinte. O sangue de centenas se misturava em sua boca, alimentando uma energia perigosa que ele já não distinguia da fome. Vampiros tradicionais tomavam o céu como dragões-morcegos, alguns queimados pela própria mudança, outros rindo, outros chorando com presas ainda manchadas. Quando o processo terminou, Kimmer tinha um novo exército.

— Estamos salvos — disse Laura.

André queria acreditar.

— Quando acontece?

Ela olhou para a nave. O casco ainda estava sujo, avariado, quente.

— A qualquer momento. Na visão, estávamos reunidos e a nave ainda estava assim.

André subiu alguns metros, apenas o bastante para que a voz alcançasse a base.

— Vampiros de Kimmer, a ruptura pode começar agora. Se outros povos vierem nos subjugar, lutaremos juntos. Tradicionais, dracônicos, antigos, recém-chegados. Enquanto houver sangue, esta terra terá defesa.

O planeta tremeu.

Terremoto nenhum explicava aquilo. O chão puxou os corpos para a esquerda, depois para cima, depois de volta ao solo. Prédios gemeram ao longe. A base inteira deslocou-se sob eles, e André teve a sensação brutal de que Kimmer deixara de ocupar o próprio lugar no universo. Um impacto invisível arremessou todos na direção contrária.

Laura gritou:

— Aconteceu.

Portais se abriram.

André reconheceu a forma. Era o mesmo tipo de rasgo que vira no Éden, mas multiplicado, espalhado pelo campo, pelas torres, pelo céu. Criaturas de várias espécies atravessaram sem apresentação. Vieram atirando. Fogo, raios, lâminas metálicas, disparos de luz, projéteis que dobravam o ar. Os vampiros dragões responderam com fogo. Orlok e os mais fortes manipularam sangue, líquidos, pressão interna. Invasores queimavam ou explodiam por dentro.

Por alguns minutos, Kimmer venceu.

André sentiu a confiança crescer. Erro curto, quase fatal.

Um ser dourado subiu acima da batalha. Era magro a ponto de lembrar um esqueleto revestido de ouro. Abriu os braços e amplificou a luz solar. O calor atravessou o campo, mas a luz fez mais do que queimar: entrou na pele vampírica como punição antiga. Mesmo os dracônicos caíram. André sentiu o corpo fritar por dentro, as asas perderem força, Jawzahr rugir de dor.

Os tradicionais resistiram mais.

Orlok liderou dez deles em direção ao ser dourado. Os olhos dos onze concentraram calor até virar claridade branca. Dispararam juntos. O primeiro impacto reduziu o inimigo a pó; os seguintes atravessaram outros invasores e abriram buracos no exército.

O medo mudou de lado.

Então a terra se abriu.

Um invasor começou a puxar o chão para dentro de uma fenda gravitacional. Vampiros escorregavam, agarravam pedras, asas, uns aos outros. André transformou-se no maior dragão que conseguia sustentar e lançou fogo sobre o grupo responsável pelo ataque. Alguns desapareceram. Outros se protegeram com metal arrancado das construções.

A fenda continuou engolindo gente.

Um portal abriu-se diante de André.

Krakor saiu primeiro, acompanhado por um pequeno grupo. Avaliou a fenda, os invasores e os vampiros caídos antes de firmar os pés no campo.

— Você anda precisando de ajuda.

— Muito — respondeu André.

Uma mulher chamada Sussurro fixou os olhos no invasor que comandava a fenda. Ele tombou sem grito. Outra mulher ergueu as mãos, e um campo de água surgiu no ar, envolvendo os inimigos restantes. Dentro dele, corpos se debatiam sem conseguir mover armas, bocas ou energia.

— Ali eles ficam quietos — disse ela. — Convém interrogar algum antes de matar todos.

Os vampiros correram para retirar os que tinham caído nos buracos. André pousou perto de Krakor, ainda queimado, ainda tentando organizar o que restava de sua respiração.

— Obrigado. Não consigo acreditar na sorte de vocês chegarem agora.

Krakor olhou ao redor: dragões, vampiros, sangue, fumaça, uma nave recém-chegada e prisioneiros suspensos em água.

— Sorte participa pouco da ordem dos acontecimentos, garoto. Mas, por enquanto, vocês podem chamar isso de vitória.

Ele fez uma pausa, olhando para as presas à volta.

— Tem algo para beber por aqui? Além de sangue?

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