História Padrão? Jornada do Sangue · Capítulo 24 de 49
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História Padrão?

Eva acordou com um beijo na testa.

Por um instante, não abriu os olhos. Sentiu a barba de Moisés roçar sua pele, o braço dele em torno de sua cintura, a respiração quente perto do ouvido. A primeira reação foi se agarrar à mentira. Se não abrisse os olhos, podia ficar mais alguns segundos dentro da hipótese absurda de que tudo fora pesadelo: Éden, Rock, dragões, Elaryan, a coluna aberta, o deserto vermelho, as armas se quebrando contra seu corpo.

— Meu amor — sussurrou ele. — Eva.

A voz quebrou a mentira e a salvou ao mesmo tempo.

Ela abriu os olhos.

Moisés estava atrás dela, deitado na mesma cama, tão confuso quanto vivo. Eva se virou e o abraçou com força. Não perguntou nada. Ele também não. Durante alguns segundos, o corpo dos dois fez o que a razão não conseguiria fazer: conferiu presença, pele, pulso, cheiro, respiração. Moisés estava ali. Adam também estava ali, em algum lugar mais fundo, mas Eva não tinha pressa de escolher um nome.

O quarto ao redor deles não pertencia à Terra.

As paredes eram de madeira clara, atravessadas por veios luminosos. A cama ficava dentro de uma casa suspensa entre galhos grossos, com janelas abertas para uma floresta de tons improváveis. Troncos brilhavam por dentro. Folhas rosadas soltavam uma névoa fina que subia em espirais. Flores violetas pendiam do teto vivo como lanternas. O ar carregava um perfume doce e úmido.

Moisés passou a mão pelo rosto.

— Você sabe onde estamos?

— Acho que sim.

Ele esperou.

— No planeta que Elaryan me mostrou. Ou em algum lugar dele.

Moisés fechou os olhos por um momento.

— Então eu não acordei do pesadelo.

— Não.

— Mas acordei com você.

Eva encostou a testa na dele.

— Isso eu aceito.

Ficaram assim, respirando juntos. A casa balançava pouco, acompanhando o movimento das árvores. Havia roupas novas sobre uma cadeira, leves, brancas, feitas daquele mesmo tecido que Elaryan colocara em Eva antes. Moisés usava uma calça clara e justa, completamente fora do estilo dele. Eva quase riu. O quase bastou para doer.

— Ela nos vestiu.

— Claro que vestiu — disse Eva. — Elaryan não consegue ver um corpo sem achar que tem direito de editar.

Moisés olhou pela janela com um espanto que Eva reconheceu de uma vida que ainda não conseguia acessar por completo.

— É bonito.

— É.

— Isso piora?

— Muito.

Ele entendeu.

A floresta respirava perto demais deles. As folhas acompanhavam cada movimento. Quando Moisés tocou o braço de Eva, uma corrente de luz passou pelas flores mais próximas. Quando ela fechou os dedos em sua nuca, o perfume no quarto mudou, mais quente, mais denso. O planeta respondia.

Moisés percebeu também.

— Você está sentindo?

— Estou.

— Parece que o lugar escuta.

— Escuta e devolve.

— Plano dela?

— Com Elaryan, até presente vem com instrução escondida.

Moisés segurou o rosto dela.

— Quer parar?

— Não — respondeu. — Só não quero esquecer que isso também pode ser usado contra nós.

— Então não esquecemos.

O beijo veio sem pressa. Não apagou o medo, mas abriu espaço ao lado dele. A floresta respondeu com luz baixa, vento curto e umidade subindo pelas paredes vivas. As outras vidas se mexeram dentro de Eva sem tomar a frente. O desejo cresceu, atravessado pelo corpo novo e por uma natureza que ampliava tudo. Depois de tantas mortes, estar ali sem pressa já bastava como desafio.

Quando se aproximaram de verdade, o planeta inteiro pareceu ajustar respiração.

As flores acenderam em ritmos diferentes. Pequenas descargas de luz correram pelos veios da madeira. A cama cedeu como galho flexível, acompanhando o peso dos dois sem ruído. Eva riu contra a boca dele, não de humor, mas de susto. Moisés respondeu com a testa encostada na dela. A intensidade veio em ondas, alimentada pelo toque, pelo ar, pela mata e por memórias corporais que Eva reconhecia antes de nomear.

As vidas anteriores passaram por ela como correnteza larga. Mulheres que fora. Amores que tivera. Prazeres, perdas, partos, fugas, noites sem nome. Tudo atravessou o corpo e encontrou Moisés ali.

A floresta se tornou som, cor e calor.

Por algum tempo, não houve aula, missão, profecia ou universo. Só os dois dentro de uma resposta viva do planeta, descobrindo quanto a nova condição física ampliava cada sensação. Quando o ápice chegou, veio como clareza. Eva sentiu Moisés, Adam, o presente e as vidas acumuladas se alinharem por um segundo impossível, e segurou esse segundo com as duas mãos.

Então Elaryan apareceu ao lado da cama.

— Não parem por minha causa.

Eva puxou o lençol vivo sobre o corpo antes de pensar. Moisés rolou para o lado, procurando a calça com uma dignidade que não combinava com a pressa. A floresta, traidora, diminuiu as luzes com delicadeza.

— Saia — disse Eva.

— Que ingratidão. Dei a vocês um dos melhores quartos naturais deste setor do universo.

— Você entrou.

— Eu já conheço o mecanismo.

Moisés se levantou, a calça finalmente no lugar, o rosto vermelho de raiva.

— Conhece porque não respeita porta.

Elaryan olhou para ele com uma tranquilidade que passava perto da crueldade.

— Adam, meu querido, houve uma vida em que você me chamava de Lilith e reclamava menos da minha presença.

Eva sentiu o estômago fechar.

Moisés ficou imóvel.

— O que isso quer dizer?

— Quer dizer que vidas longas cruzam caminhos inconvenientes. Não faça essa cara, Eva. Foi antes de ele se lembrar de você com tanta persistência.

— Você acha que isso me fere? — perguntou Eva.

— Acho que quase tudo em você ainda procura uma forma de ser ferido.

Eva desceu da cama, enrolada no tecido.

— Você nos trouxe para cá por quê?

— Para oferecer uma pausa.

— Você não oferece nada.

— Também para observar se vocês aceitariam uma história pequena quando ela se apresenta com conforto.

Moisés se aproximou de Eva.

— História pequena?

Elaryan caminhou até a janela. Do lado de fora, a floresta guardava silêncio para ela.

— Este planeta está vivendo uma narrativa em andamento: rei bom, salvadora recém-chegada, amigo proibido, vilão das sombras, povo élfico atento a tudo que se move entre as árvores. Vocês podem entrar nela como estrangeiros discretos. Viver amor, fantasia, perigo administrável, alianças locais. Uma história padrão, com beleza suficiente para distrair da arquitetura.

— E o tempo? — perguntou Eva.

Elaryan sorriu.

— Boa pergunta.

— Eu aprendi com uma professora terrível.

— A proximidade entre universos permite certas viagens. Quem atravessa de modo específico fica temporariamente fora do ritmo dos demais. Para todos os outros lugares relevantes, este intervalo quase não passa. Dei a vocês um pedaço de tempo parado.

Moisés franziu a testa.

— Por generosidade?

— Por estratégia. Generosidade sozinha costuma desperdiçar material raro.

— Qual é a missão? — perguntou Eva.

— Ainda não.

— Então por que falar em missão?

— Porque vocês já sentem que existe uma. Eu apenas nomeio o incômodo.

Eva olhou para Moisés. Ele pensava a mesma coisa que ela, e agora essa percepção vinha fácil demais, reforçada pelo planeta, pela implantação, ou pelos dois juntos.

— Podemos ficar nesta casa? — perguntou ele, antes dela formular a frase.

Elaryan achou graça.

— Podem tentar. Os Obenix vivem nas florestas, sabem quando uma folha muda de lado e têm curiosidade por qualquer visitante que respire diferente. Em breve baterão à porta, ou farão algo mais poético que bater. Para viver uma vidinha padrão, vocês terão de interagir.

— Obenix — repetiu Eva.

— O povo local. Chamá-los de élficos seria preguiça terráquea, embora você vá pensar nisso assim que os vir.

— E o que devemos dizer?

— Pouco. Mostrem asas, se precisarem ser levados a sério. Nunca digam quem vive dentro de vocês. Dragões atraem devoção, caça e colecionadores. Às vezes as três coisas na mesma pessoa.

Moisés passou a mão pelo cabelo.

— Você nos sequestra, nos altera, nos joga num planeta e chama isso de pausa.

— Sim.

— E espera gratidão?

— Espero aprendizado.

Eva chegou perto dela o suficiente para a floresta mudar de cheiro.

— Um dia você vai aparecer em um quarto e não vai conseguir sair.

Elaryan tocou de leve o rosto de Eva, rápido demais para ela impedir. Não houve dor, só um choque de frio.

— Esse dia será excelente para nós duas.

Antes que Eva reagisse, Elaryan desapareceu.

A casa ficou silenciosa.

Moisés segurou a mão de Eva. Do lado de fora, alguma coisa se moveu entre as árvores. Não atacou. Muitos olhos os observavam de uma floresta inteligente.

— Ainda quer ficar só aqui? — perguntou Eva.

Moisés olhou para a janela, depois para ela.

— Quero. Mas acho que a história já bateu antes da porta.

Eva respirou fundo e apertou a mão dele.

— Então vamos decidir como entramos nela.

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