A Estratégia do Prometido Jornada do Sangue · Capítulo 10 de 49
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A Estratégia do Prometido

O plano de Zeus funcionou quase todo.

Dafa se ofereceu para acompanhar Móretar até Key no lugar dele, exatamente como Ártemis previra. Zeus fechou o portal antes que ela pudesse voltar. Vaes entendeu no mesmo instante e avançou contra ele, mas Ártemis já estava pronta. A energia dela puxou o corpo de Vaes para trás, torceu seus braços no ar e o manteve suspenso pelo tempo suficiente para Zeus abrir outro portal com o cajado de Hagar. Vaes desapareceu gritando o nome de Dafa.

Depois disso, ninguém respondeu aos gritos de Vaes.

André escutou os passos no corredor. A faixa de energia que o prendia à cadeira continuava firme, mas os lampejos nos dedos duravam um pouco mais. Vinham e sumiam, brancos, instáveis, sem obedecer a comando. Ele havia passado os últimos minutos testando pulso, garganta, ombros, joelhos e respiração. Quanto mais força usava, mais a prisão apertava.

Zeus entrou primeiro, com o cajado preso às costas. Ártemis vinha logo atrás, alerta, os cabelos rosados presos por uma faixa escura. André olhava para a parte superior do cajado, onde metais pontiagudos formavam uma coroa estreita.

— Vamos — disse Zeus. — O tempo que você nos fez perder já foi suficiente.

— Também senti sua falta.

Zeus ergueu a mão para soltar a prisão. André esperou o instante exato em que a faixa de energia afrouxou. Não tentou fugir para a porta. Não tentou agarrar o cajado. Pulou.

O corpo novo respondeu com força maior do que ele esperava. André caiu sobre as costas de Zeus, passou um braço pelo ombro dele e colou o próprio pescoço às pontas metálicas do cajado. O contato frio abriu uma linha de dor sob a pele, superficial, mas clara.

— Não se mexa — disse André. — Se tentar me arrancar daqui, eu enfio meu pescoço nisso e você perde seu salvador outra vez.

Zeus ficou imóvel.

Ártemis também.

Por um segundo, André teve a satisfação seca de ter encontrado uma moeda de troca. Depois entendeu o problema. A estratégia funcionara até o ponto em que precisava de uma exigência. Ele não tinha rota, não tinha aliados ao alcance, não sabia abrir portal, não sabia onde Eva estava, e a única arma real era a disposição de morrer antes de ser levado. Aquilo bastava para travar Zeus. Não bastava para vencer.

Zeus percebeu.

— Você não pensou no passo seguinte — disse ele.

— Pensei em alguns. Nenhum inclui obedecer.

— Eu acredito. Mas se eu não tentar arrancá-lo daí, você fica pendurado nas minhas costas até cansar. Se eu tentar, posso perder você. Então temos uma conversa.

— Conversas suas costumam terminar com alguém sumindo por um portal.

— Você quer saber meus motivos?

— Quero Eva.

— E eu quero voltar para Atlas com a única pessoa capaz de abrir a passagem que esperamos há milênios. Todos estamos decepcionados.

André pressionou um pouco mais o pescoço contra as pontas. Sentiu o primeiro fio de sangue descer pela pele.

— Você traiu companheiros de milênios. Nenhum motivo melhora isso.

— Bonito, não. Antigo.

Zeus falava baixo. Calculava enquanto falava. André sentia o corpo dele rígido sob o próprio peso, cada músculo preparado para reagir caso surgisse uma brecha. Ártemis se movia devagar pela lateral, fora do campo principal de visão.

— Eu estou vendo sua cúmplice — disse André.

Ártemis parou.

— Então sabe que esta posição não dura — respondeu ela.

A energia de Ártemis agarrou a cabeça e os braços de André, tentando arrancá-lo das costas de Zeus sem tocar no cajado. Ele resistiu por puro pânico. O corpo levantou, quase flutuando, e a garganta perdeu contato com as pontas. Por uma fração de segundo, Zeus sorriu.

André fez a única coisa que ainda controlava: soltou o próprio peso.

Caiu de volta sobre Zeus com o pescoço inclinado.

As pontas entraram.

A dor abriu o mundo em branco. O sangue saiu quente e rápido. Zeus urrou. Ártemis puxou André para longe do cajado e tentou fechar o ferimento com energia, mas o corte pulsava entre seus dedos. André levou as mãos ao pescoço. Não conseguia respirar. O rosto de Zeus estava apavorado.

— Não! — gritou Zeus.

André tentou pensar em Eva. A imagem dela veio junto com a moeda fechada na mão. Depois veio Moisés, a biblioteca, a luz. Depois nada ficou no lugar. O corpo perdeu peso. A dor recuou de uma vez.

Ele desapareceu.

O grito de Zeus atravessou a morada, a floresta e o céu de Éden. Ártemis ficou ajoelhada, coberta de sangue que já não tinha dono. Os dois esperaram. Procuraram no ar algum sinal de renascimento no próprio planeta. Nada. Nenhuma pressão no espaço, nenhum rastro próximo, nenhum corpo novo.

— Ele se foi — disse Ártemis.

Zeus olhou para o sangue nas mãos dela.

— Estávamos tão perto.

— Ainda estamos. Se morreu, renasceu em algum lugar.

— Sem Hagar em Éden, não há guardião para rastrear a travessia.

— Então usamos Atlas.

Zeus respirou fundo, aceitando a derrota provisória. Cravou o cajado no chão e abriu um portal com rapidez demais para alguém que, em teoria, precisava de um guardião. Zeus e Ártemis sabiam atravessar sem manter outra pessoa no ponto de origem. Nunca haviam contado aos demais.

O portal os levou primeiro a Key. Dali, abriram a rota para Atlas, o lugar que Zeus chamara de casa.

A sala era ampla, construída em pedra escura, com colunas profundas e janelas altas abertas para um céu de tonalidade azul-ferro. Ao fundo, sombras se moviam atrás de cortinas pesadas. Zeus ainda segurava o cajado de Hagar. Ártemis permanecia ao lado dele, suja de sangue seco.

— Onde está o garoto prometido?

A voz veio antes do dono. Um homem saiu das sombras com um tridente na mão. Era alto, tinha cabelos escuros presos atrás e barba curta. Pequenos raios circulavam pelas pontas da arma.

— Morto — disse Ártemis.

Poseidon deu um passo à frente.

— Eu sabia. Com o temperamento dele, era questão de tempo até você transformar salvação em desastre. Como conseguiu matar o garoto, Zeus?

— Ele se matou.

— Claro.

— Ele se matou — repetiu Zeus, e dessa vez havia mais dor do que defesa. — Depois de nos livrarmos dos dez, um homem sem treinamento encontrou a única ameaça que não podíamos ignorar.

Poseidon ergueu o tridente.

— Eu devia me livrar de você de uma vez.

Zeus colocou o cajado em posição de ataque. Raios menores nasceram nas duas armas, diferentes em cor e som: os de Poseidon eram limpos, frios; os de Zeus estalavam com fumaça e calor.

— Você já tentou — disse Zeus. — Nem chegou perto.

Ártemis passou entre os dois sem pressa.

— Podem encerrar o teatro? Nenhum de vocês consegue matar o outro. Precisamos de um localizador.

Os raios diminuíram. Poseidon abaixou o tridente primeiro, contrariado.

— Um localizador enxerga este lado do Universo. Se o prometido saltou para o outro lado, não adiantará nada.

— Levamos o localizador a Éden — disse Ártemis. — Potencializo a técnica com o resíduo do cajado e abrimos o alcance.

Zeus esfregou as mãos no rosto, espalhando sangue seco perto da barba.

— Encontrar qualquer localizador decente já seria difícil.

— Qualquer um, sim — disse uma voz feminina. — Ainda bem que eu nunca fui qualquer uma.

Zeus ficou parado.

A mulher entrou sem armadura, com cabelos longos e escuros, pele luminosa e roupas negras ajustadas ao corpo. Olhou primeiro para Poseidon, depois para Ártemis, e só então para Zeus.

— Afrodite — disse Zeus.

Ártemis fechou os punhos.

Poseidon, ao contrário, relaxou.

— Você achou que não nos veríamos novamente? — perguntou Afrodite.

Zeus demorou a responder.

— Eu não consigo imaginar como saiu do estado em que estava.

— Não saí. Morri.

A palavra alterou a sala. Poseidon desviou os olhos. Ártemis perdeu por um instante a máscara de desprezo. Zeus ficou ainda mais imóvel.

Afrodite sorriu.

— Diziam que em Atlas não podíamos morrer. Eu desafiei a morte até que ela aceitasse me vencer. Voltei melhor, mais forte, mais livre de algumas dores, mas ainda presa ao mesmo lado do Universo. Então, antes que transformem minha chegada em debate: sim, eu vou localizar o prometido.

— Tem certeza? — perguntou Poseidon.

— É a única forma, meu amor.

Poseidon endireitou o corpo.

— Iremos juntos.

Afrodite caminhou até ele e tocou de leve a ponta do tridente.

— Você sabe que não pode sair daqui, querido.

— E Zeus pode?

Ela se virou para Zeus, aproximou-se e passou a mão pelo peito dele.

— Zeus será plenamente capaz de me proteger.

Ártemis deu um passo e parou. Afrodite olhou para ela e sorriu. Poseidon acompanhou a troca.

— Proteção é uma palavra generosa para você. Todos sabemos que pode destruir qualquer pessoa, qualquer planeta, em quase qualquer situação. Só existe alguém mais poderoso que você, e não está nesta sala.

Afrodite recebeu o golpe sem mudar a voz.

— Não vamos discutir isso outra vez.

Ela estalou os dedos. Uma mesa surgiu no centro da sala, coberta por pratos, frutas, carnes que não vinham de animal reconhecível, pães escuros, taças altas e garrafas antigas. Ninguém retomou a discussão.

Zeus olhou para uma garrafa estreita de vidro azul.

— Aquilo é Sunco?

— Milênios passam — disse Afrodite —, mas eu continuo sabendo receber convidados. Ainda não descobri como reproduzir essa raridade, então achei justo abrir uma reserva.

Zeus serviu a bebida com mãos que ainda tremiam. Provou e fechou os olhos por um segundo. Ninguém se sentou para comer.

Em outro ponto do Universo, o céu de um planeta vermelho explodiu.

As pessoas interromperam tarefas, comércio, discussões e jogos para olhar para cima. Uma abertura de fogo e raios rasgou a atmosfera. Dela surgiu um homem parado no ar, braços soltos, envolvido por claridade branca da cabeça aos pés. A multidão se acumulou em praças, telhados e plataformas para enxergar melhor.

O homem não se movia.

O homem era André.

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