Os Anjos
Lúcifer abriu um portal acima da base. Do outro lado, a cidade de Adwig já estava em guerra.
Adwig sustentava a entrada do palácio com o cetro. Erguia barreiras curtas para conter os ataques, derrubava quem atravessava a linha e voltava a orientar a retirada dos feridos. A cidade continuava lutando ao redor dela; a chegada dos outros ampliou uma defesa que já existia.
Os primeiros a atravessar foram atingidos antes de chegar ao chão. Seres alados ocupavam o céu entre as torres do palácio, descendo em grupos e recuando antes que os defensores pudessem cercá-los.
— Dragões! Fogo! — Lúcifer ordenou.
As simbioses romperam o ar. O dragão de André surgiu acima dos demais e cobriu uma fileira de anjos com suas chamas. Eva e Moisés o acompanharam. Por alguns segundos, o exército recuou.
Um dos anjos ergueu os braços. Água e gelo atravessaram o fogo, feriram as criaturas e as forçaram a retornar aos corpos de seus aliados.
Henri assumiu a frente seguinte.
— Lobos pela passagem inferior. Pássaros por cima.
O ataque abriu espaço entre os invasores, mas logo foi contido. Os anjos abatidos desapareciam e voltavam em outro ponto da cidade.
— Assim não termina — André disse. — Eles morrem e retornam.
Os inimigos também pareciam evitar golpes definitivos. Feriam, imobilizavam e arrastavam aqueles que conseguiam separar do grupo. Queriam dominar a cidade, não destruí-la.
Os anjos mais poderosos formaram uma linha acima do palácio. Misturaram água, gelo, eletricidade e ondas de pressão em um único ataque.
Lúcifer reuniu os defensores. As duas forças se chocaram no ar. O campo criado entre elas deformou paredes, arrancou telhados e abriu rachaduras nas ruas.
André subiu e lançou toda a energia que conseguiu reunir. O avanço dos anjos parou por um instante, mas voltou a empurrá-los.
Seres Iluminados surgiram atrás dos defensores e reforçaram o ataque. Athos apareceu entre eles, com a espada na mão. Antes que pudesse intervir, alguém desceu entre os dois exércitos.
O impacto desfez o confronto e lançou combatentes para todos os lados.
— Eu sou Gabriel. Ordeno que parem.
Athos caminhou até a frente.
— Sou Athos. Vocês não vencerão todos nós.
— Não precisamos vencer todos. Apenas retirar de Paradise aqueles que não deveriam ter sido trazidos.
— Tudo o que queremos é viver em paz até o fim.
Gabriel abriu as asas.
— Não existe paz onde se aceita toda impureza. Este planeta foi reservado aos dignos. Vocês transformaram o reino mais próximo de Deus em abrigo para criaturas que deveriam ter permanecido longe daqui.
— Tem certeza de que eles não são os anjos que conhecemos? — Emma comentou perto de André.
Ele riu. Gabriel ouviu.
— Não nos compare às figuras produzidas pela imaginação de seu povo.
Gabriel desapareceu. Reapareceu diante de Emma com a mão atravessando seu peito.
Ela ainda conseguiu fincar a Lança do Destino no olho dele.
O coração de Emma foi arrancado, mas a lança interrompeu o golpe antes que Gabriel completasse a técnica. O corpo dela desapareceu. Pouco depois, Emma retornou por um salto de teletransporte, respirando com dificuldade.
Gabriel retirou a lança do próprio olho. O ferimento não se fechou. Primeiro, o céu adquiriu uma tonalidade vermelha. Depois, gotas de sangue começaram a cair sobre a cidade. A ferida foi transferida para o planeta, e seu olho se recompôs.
André tocou as armas de Brahma presas ao corpo.
— Se ele fizer isso com uma delas, pode jogar o dano sobre Paradise.
Gabriel voltou-se para Athos.
— Ainda usa asas para fingir que pertence aos céus?
— Minha simbiose é um pássaro. Eu lhe concedo espaço para existir fora de mim.
Athos abriu as asas. Os aliados responderam expondo partes de suas próprias simbioses. Lobos, aves, felinos e dragões ocuparam o campo que os anjos pretendiam reservar para si.
— Da próxima vez, não permitirei que retornem — Gabriel disse.
— Haverá uma próxima vez? — Elaryan perguntou.
Ela estava diante dele.
Gabriel sorriu.
— Finalmente saiu de seu templo.
— E você continua confundindo conhecimento com destino.
— Saber o que costuma acontecer não lhe dá domínio sobre o que acontecerá agora.
Gabriel avançou. Elaryan recebeu o primeiro golpe com os braços cruzados e foi arrastada pelo céu. Recuperou-se antes de atingir uma torre e voltou contra ele.
O duelo recomeçou a batalha inteira.
Os anjos desceram. Lúcifer encontrou André no centro da cidade, e os dois passaram a abrir caminho sem perder de vista Athos. O choque entre Elaryan e Gabriel iluminava o céu a cada novo ataque.
Miguel interceptou Athos antes que ele os alcançasse. Lúcifer queimou o rosto do anjo com as mãos e libertou o companheiro.
— Vá. Eu cuido dele.
Miguel lançou uma sequência de raios.
— Agora conhecerá a fúria de Miguel.
Lúcifer desviou o primeiro golpe e rebateu o segundo com Fragarach.
— Detesto quem fala de si na terceira pessoa.
Athos avançou, mas parou no meio do caminho.
A imagem incompleta voltou: Adwig, sua espada e a luz de muitas armas procurando o mesmo centro.
Ele procurou a rainha entre os combatentes.