O Jogador Jornada do Sangue · Capítulo 11 de 49
Obra Menu

O Jogador

O estádio prendeu o ar quando a bola atravessou o gramado.

Carl Johnson conhecia aquele silêncio. Ele vinha antes do grito, do braço erguido e do abraço entre desconhecidos. Vinha também dos que queriam vê-lo falhar. Esses esperavam com a mandíbula fechada e as mãos agarradas ao encosto da cadeira ou ao tecido da camisa.

A bola saiu do pé de um companheiro perto da linha lateral, alta demais para um passe comum, forte demais para descanso. Carl começou a correr antes que a maioria entendesse o destino dela. Naquela fração, leu todo o campo: os dois zagueiros abrindo o corpo para encurtar espaço, o volante voltando com a perna direita pesada, o goleiro adiantado meio passo, a área riscada pela sombra das torres de iluminação, a faixa de capitão apertando seu braço nos últimos minutos da primeira final de Copa do Mundo que seu país disputava.

Ouvira durante toda a vida que tinha talento. Detestava a palavra.

Talento era o nome que davam ao que ninguém acordara cedo para ver. Talento apagava a miniatura da bola oficial que o pai lhe dera quando ele completou dois anos, ainda guardada entre troféus e placas comemorativas, meio desbotada pelo tempo e intocável por superstição. Apagava a tarde de domingo no parque, a primeira cobertura certa depois de uma sequência de chutes tortos, o riso do pai atrás da câmera tremendo, o vídeo subindo para a internet quando Carl mal sabia amarrar os cadarços. Apagava o tio hipotecando a casa, deixando emprego, discutindo com treinador, carregando mochila, pagando viagem, cobrando estudo, comida, sono e treino sem jamais vender ao menino a ilusão de que bastava nascer especial. Apagava as festas perdidas, os amores adiados, as dores no tornozelo escondidas dentro da chuteira, os insultos engolidos em outro país por causa da pele, da origem, do sotaque da mãe ao telefone e da igreja simples onde ainda colocava parte do salário sem permitir fotografia.

Carl sabia quanto aquela palavra deixava de fora.

A bola caiu. Carl dominou com a lateral do pé direito e deu a ela uma subida curta, limpa, apenas o bastante para ultrapassar os dois primeiros marcadores. O estádio soltou um ruído baixo, quase animal. Ele acelerou da esquerda para o centro, rumo ao ponto onde a bola cairia. Um adversário continuou correndo para acompanhá-lo; os outros dois saltaram contra a bola. Carl esticou a perna para trás e tocou de calcanhar, seco, com efeito. A bola quicou por cima deles, e ele girou o corpo no mesmo movimento, deixando o terceiro marcador passar raspando por sua camisa.

O goleiro fechou o ângulo. Era grande, experiente, acostumado a ocupar a área com o peito aberto e os olhos frios. Naquele segundo, porém, o homem viu Carl chegar com a bola colada à frente e recuou um pensamento. Carl percebeu esse recuo mínimo. Poderia encobrir, driblar, tocar por baixo, esperar o carrinho. Escolheu bater.

O chute levou tudo junto: o pai, o tio, a primeira bola, a hipoteca, as horas extras depois que os companheiros deixavam o centro de treinamento, as crianças com seu nome nas costas, o bairro que assistia em telões improvisados, a camisa da seleção que pesava mais que qualquer prêmio individual. A bola entrou no ângulo direito com violência suficiente para rasgar a rede e cair na arquibancada.

Três toques.

Depois vieram o barulho, os braços, os corpos empilhados sobre ele, as lágrimas que molhavam seu rosto sem que soubesse de quem eram. Anos mais tarde, revia o lance e lembrava do jantar frio quando chegava em casa, do joelho que inchava no inverno e da mão do tio batendo duas vezes no teto do carro antes de cada jogo.

Foi seu vídeo preferido até o fim.

Teve outros lances, alguns mais difíceis, outros mais importantes para a história do esporte e para a memória do próprio país. Ganhou títulos, contratos, prêmios, entrevistas, documentários, pedidos de foto em aeroportos, estátuas, homenagens. Aprendeu a desconfiar de aplauso longo e de elogio com câmera ligada. Envelheceu sem conseguir gastar metade do que ganhara, doou mais do que seus empresários recomendavam, brigou com patrocinador por causa de campanha oportunista e manteve, na garagem de uma casa grande demais para um homem só, o Opala clássico que o pai sonhara comprar e que o filho restaurou peça por peça até o cheiro do estofado velho voltar a existir.

Nas quartas-feiras à noite, quando os médicos ainda permitiam pequenas teimosias, Carl dirigia até o restaurante de Moe para comer devagar, assistir à rodada do campeonato e discutir escalação com os amigos. Saía pela avenida do bairro antigo, janela meio aberta, dedos batendo no volante, ouvindo o motor do Opala.

O convite para o jogo beneficente chegou numa manhã de exames. Um projeto seria erguido na comunidade onde crescera: campos, biblioteca, clínica, salas de aula, cozinha, equipamento de fisioterapia e um lugar seguro para as crianças depois da escola. Os médicos falaram em risco, esforço desnecessário, histórico cardíaco, idade. Carl ouviu com educação, assinou o papel que isentava os organizadores e pediu ao sobrinho que separasse a chuteira branca.

Entrou em campo magro demais, sorridente, com os cabelos brancos curtos e a respiração já medida antes do apito. A torcida sabia que veria poucos minutos. Ninguém exigia nada. Essa gentileza quase o ofendeu.

No primeiro lance, a bola sobrou perto do meio. Carl tocou de primeira para um garoto, recebeu de volta por instinto antigo, deixou o marcador passar, acelerou o que o corpo velho permitiu e bateu cruzado. Gol. Um gol simples diante do que fizera na carreira, suficiente para levantar o estádio.

Ele abriu os braços. Deu dois passos para a comemoração, a perna ainda procurando o terceiro. O gramado subiu em sua direção.

Quando todos chegaram, Carl já tinha partido.

A juventude voltou antes da explicação.

Ele acordou deitado sobre uma terra quente, fina, com gosto metálico grudado no ar e uma luz vermelha atravessando suas pálpebras. Levantou rápido demais e esperou a tontura habitual da velhice. Ela não veio. Os joelhos obedeceram, a coluna endireitou sem dor, o peito recebeu ar com uma amplitude que ele não sentia havia décadas. Olhou para as próprias mãos. Eram firmes, escuras, jovens, marcadas por calos que pertenciam ao auge da carreira. As pernas tinham novamente a prontidão que o mundo chamara de dom para não precisar contar o preço.

Ao redor dele havia soldados, magos, criaturas de pele áspera, homens com armaduras leves, mulheres cobertas de poeira vermelha, todos parados no meio de uma batalha interrompida. Algumas espadas continuavam erguidas. Flechas repousavam em cordas esticadas. O que detinha todos estava no céu.

Um homem flutuava acima do campo de guerra, imóvel, envolvido por uma claridade branca que misturava calor, vento e eletricidade. Nada se aproximava dele. As lanças lançadas de baixo perdiam força e caíam antes de tocar a luz. Feitiços se desfaziam no ar. A poeira subia em círculos largos, empurrada por uma energia que obrigava os dois lados a manter distância.

Carl levou a mão ao peito. O coração batia com força de jovem, mas a última imagem continuava nítida: grama, gol, braços abertos, queda.

Um rapaz de cabelos escuros e rosto sujo de fuligem aproximou-se com uma lança baixa, mais assustado que agressivo.

— Não sei se você escolheu uma boa hora para morrer e aparecer aqui — disse ele, olhando uma vez para Carl e outra para o homem suspenso no céu. — Estamos no meio de uma guerra. Aquele sujeito surgiu lá em cima espalhando calor, parou o combate e ninguém consegue chegar perto. Armas não funcionam. Poderes também não. Eu me chamo Borguem.

Carl olhou para o céu de novo. O homem brilhante continuava suspenso e lembrava os segundos anteriores a um chute, quando todos esperavam para descobrir a direção da força.

— Carl — respondeu, ainda sentindo a voz jovem dentro da garganta. — Carl Johnson.

Borguem repetiu o nome em silêncio, avaliando a roupa estranha e a postura de atleta. Carl quase riu. Ainda não sabia qual parte merecia medo primeiro: a morte, o corpo jovem, a guerra ou o homem aceso no céu.

— Quem é ele? — perguntou.

— Ninguém sabe.

Carl flexionou os dedos e manteve os olhos no homem suspenso. Os dois exércitos esperavam que ele se movesse.

Pela primeira vez em muitos anos, Carl sentiu vontade de correr.

1/1
Menu

Fazer anotação