Localizer Jornada do Sangue · Capítulo 15 de 49
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Zeus não lembrava quando uma mesa despertara tanta saudade pela última vez.

O banquete de Afrodite trazia pratos que Zeus não via desde antes de muitos mundos perderem o próprio nome, frutas de casca escura que estalavam entre os dentes, carnes sem equivalência animal simples, pães densos, bebidas raras e temperos que resistiam à criação direta de matéria. Zeus conseguia montar corpos, abrir passagens e dobrar energia, mas ainda não reproduzia certos sabores. Sunco, principalmente. Uma taça bastara para fazê-lo lembrar dos tempos em que ainda podia prolongar um prazer.

Poseidon indicou a antessala dos quartos com um movimento largo. O primeiro aposento era o maior, disse, e o mais completo. Zeus percebeu a provocação na generosidade e a aceitou mesmo assim. Ártemis não discutiu. Corpos como os deles podiam atravessar longos períodos sem sono, alimento ou respiração, mas o cansaço já diminuía a precisão dos dois.

Afrodite esperou algumas horas.

Quando entrou, Zeus e Ártemis dormiam. Ele estava virado de lado, com um braço sobre a cintura dela; Ártemis mantinha a mão próxima ao peito dele. Afrodite parou à porta e observou os dois. O vestido verde, justo ao corpo e brilhante como escama fina, fazia pouco ruído quando ela caminhava. Por alguns segundos, deteve o olhar na tranquilidade com que dormiam juntos.

Foi até Zeus por trás e beijou-lhe o pescoço.

O perfume dela entrou nele antes do toque terminar. Zeus acordou com o corpo respondendo a uma ordem que a mente recusava. Tentou se afastar, prendeu a respiração por hábito inútil e sentiu os próprios impulsos mudarem sem seu comando. O movimento despertou Ártemis. Ela entendeu a situação e segurou Zeus pelo ombro, tentando afastá-lo de Afrodite.

Afrodite começou a cantar.

O canto não usava palavras. A voz se espalhou pela sala em vibração e comando. Zeus parou de lutar. Ártemis olhou para Afrodite e perdeu o movimento no meio do caminho. Os dois ficaram imóveis, conscientes do que acontecia e incapazes de recuperar o comando do corpo.

Afrodite prosseguiu mesmo enquanto Zeus tentava recuar e Ártemis procurava mover os braços. O canto fazia os corpos responderem contra a vontade dos dois.

Quando terminou, deixou os dois na cama, exaustos e lúcidos demais para que o esquecimento os protegesse.

— Vocês podem me odiar — disse, recolocando a roupa sobre si com a mesma naturalidade com que alguém fecha uma porta. — Podem desejar minha morte, podem pensar o que quiserem de mim. O maior prazer que seus corpos já conheceram fui eu quem dei. Isso também é uma prisão. Durmam mais um pouco. Quando acordarem, iremos encontrar o garoto.

Zeus tentou responder. A voz não saiu. Ártemis virou o rosto para o lado oposto, rígida, respirando com uma regularidade artificial. Afrodite saiu sem olhar para trás. Logo depois, o mesmo comando os fez dormir.

Quando despertaram, nenhum dos dois falou de imediato.

Zeus levantou primeiro. Foi direto ao suporte atrás da cortina lateral, onde deixara o cajado de Hagar preso à parede. O objeto continuava ali. Afrodite não entrara para roubá-lo. Ártemis vestiu-se em silêncio, sem olhar para Zeus.

— Eu devia ter previsto — disse ele.

— Você prevê planos — respondeu Ártemis, sem olhar para ele. — Ela entrou pelo corpo.

Na sala principal, havia outro café montado. Poseidon já estava à mesa, satisfeito com a própria hospitalidade. Afrodite, ao lado dele, sorriu ao vê-los entrar.

— Bom dia — disse ela. — Espero que tenham descansado.

Poseidon ergueu os olhos, percebendo tarde demais a tensão.

— Afrodite, não comece.

— Tem razão — respondeu ela, com doçura falsa. — Exagerei na hospitalidade.

Zeus segurou o cajado com mais força.

— Você tirou de nós o controle do corpo.

Poseidon perdeu parte da cor no rosto. Olhou para Afrodite. Ela não baixou os olhos.

— Foram preservados — disse ela. — Existe diferença.

— Diferença que só interessa a quem faz — disse Ártemis.

Poseidon afastou o prato. Ninguém respondeu a Afrodite.

Afrodite se serviu de uma fruta pequena e mordeu devagar.

— Querem encontrar André ou querem transformar esta manhã em julgamento sem tribunal?

Zeus respirou pelo nariz, mais perto de atacar do que de responder. Poseidon interveio antes que a sala virasse campo de guerra.

— O tridente não sairá daqui nas suas mãos — disse ele a Afrodite.

Ela riu baixo.

— Eu ia pedir com educação.

— E eu ia recusar com lucidez. Você não atravessará o Universo com meu artefato de teletransporte.

— Então confia em Zeus para me levar e me trazer? Corajoso. Ele tem talento para aprisionar aliados inconvenientes.

Poseidon já havia preparado a resposta. Chamou Heleno.

O rapaz entrou pela lateral da sala, sério. Zeus o reconheceu e lembrou de decisões que, na época, chamara de necessárias. Heleno inclinou a cabeça para Poseidon e recebeu o tridente.

— Heleno irá com vocês — disse Poseidon. — Usa meu tridente em missões que exigem passagem. É de minha confiança. E, pelo que vejo, Zeus também conhece bem a arte de acumular inimigos.

Zeus não respondeu.

— Vamos — disse.

Abriu um portal com o cajado de Hagar. Ártemis passou primeiro. Afrodite veio logo atrás, Heleno com o tridente e, por último, Zeus. Saíram em Key, no ponto de passagem entre lados do Universo, e dali Zeus abriu novo portal para Éden.

O lugar estava diferente sem André.

A morada provisória guardava sinais de pressa: marcas no chão, uma cadeira tombada, cinzas de uma pequena fogueira apagada, ausência dos que Zeus dispersara. O cajado pesou mais na mão dele. Afrodite caminhou pelo espaço sem respeito nenhum pela casa alheia, examinando paredes, objetos e manchas com a precisão de uma investigadora cercada por versões falsas.

— Você sabe como uma Localizer trabalha? — perguntou ela.

— O suficiente.

— Então sabe pouco. Eu não adivinho pessoas no vazio. Preciso reconhecer o tipo de energia e preciso conhecer o lugar onde vou procurar. Se André estiver em um planeta por onde nunca passei, posso sentir direção, ruído, distância, mas não nome. Para dar nome ao planeta, tenho que ter pisado nele ou atravessado seu campo. E preciso de algo impregnado com energia dele.

Ártemis olhou para o cajado.

— O sangue dele ficou nas pontas.

Afrodite já estendeu a mão. Zeus puxou o cajado para perto do peito.

— Você pode sentir sem tirá-lo de mim.

Ela sorriu, inclinando a cabeça.

— Se eu quisesse fugir com esse cajado, Zeus, já teria feito. Talvez levasse vocês dois também, apenas para tornar sua perseguição mais desagradável.

— Toque logo — disse Ártemis.

Afrodite pousou os dedos sobre a parte metálica. Havia sangue ressecado nas pontas, escuro, quase negro. A expressão dela mudou quando se concentrou. Procurou no sangue marcas de dor, morte recente e deslocamento. André carregava uma energia instável: Terra, Éden, o cajado, a própria morte e algo branco que não vinha de Zeus nem de Hagar.

Afrodite fechou os olhos.

Viu calor.

Veio uma sequência de marcas, sem imagem limpa: um céu vermelho, um campo de batalha interrompido, casulos, fogo subterrâneo, o cálice falhando nas mãos de três pessoas, uma explosão planetária, depois outro mundo, ordenado, tecnológico, com frio ao Norte e uma multidão ajoelhada diante de um homem que já começava a virar lenda. No meio disso, dois dragões. Um branco. Um preto. A mulher que deveria completar o terceiro estava fora daquele ponto.

Afrodite abriu os olhos.

— Ele passou por um planeta de fogo e já saiu dele.

— Saiu? — perguntou Zeus.

— O planeta acabou.

Heleno apertou o tridente.

— Isso reduz ou aumenta nosso problema?

— Aumenta — disse Afrodite. — A energia dele está viva em outro mundo, também ligado a fogo, mas mais organizado. Não conheço o nome. Para localizá-lo com precisão, preciso atravessar planetas desse lado do Universo, especialmente os de fogo e eletricidade.

Zeus encarou-a, tentando separar informação de teatro.

— Você já sabe onde começar.

— Sei. Leve-me para todos os planetas de fogo que conhece.

— Isso pode levar tempo.

— Então finalmente temos algo em comum: nenhum de nós tem tempo.

Zeus abriu o primeiro portal.

Viajaram.

O primeiro planeta era de pedra azul e vulcões baixos, povoado por criaturas que respiravam enxofre e dormiam em poços quentes. Afrodite pisou, abriu a percepção, negou com a cabeça. O segundo tinha mares de lava sob pontes de metal, e ali o rastro de André confundiu-se por um instante com dragões mortos havia séculos. Nada. O terceiro era quase todo deserto de vidro, belo demais para vida desprotegida. Nada. Em cada chegada, Heleno mantinha o tridente pronto, Ártemis vigiava cada respiração de Afrodite, e Zeus sentia o atraso crescer dentro do peito.

No quarto mundo, Afrodite parou antes de Zeus abrir o portal de saída.

— Volte.

— Para onde?

— Para o anterior, mas não pelo mesmo ponto.

Zeus obedeceu, irritado por precisar obedecer. O portal se abriu sobre uma plataforma pública de um planeta claro, de arquitetura curva, jardins suspensos e linhas azuis de energia correndo pelas ruas. Assim que atravessaram, alarmes mudos acenderam em torres distantes. Afrodite virou o rosto para o Norte.

— Rock — disse Heleno, reconhecendo a sinalização. — Não é exatamente um planeta de fogo puro. Eles trabalham fogo e eletricidade.

Afrodite sorriu sem alegria.

— É aqui.

No horizonte, uma coluna de fogo negro subia de uma região habitada. Outra luz, branca, movia-se em alta velocidade na direção dela.

Zeus segurou o cajado com força.

— André.

Ártemis já olhava para a coluna escura.

— E aquilo?

Afrodite respondeu com os olhos fixos no Norte. O sangue de André indicava a mesma direção da coluna de fogo.

— O motivo pelo qual chegamos tarde.

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