Místicos Refugiados
André deixou o Castelo pelo alto da torre.
Subiu primeiro sozinho, cortando as correntes mornas de Kimmer com o corpo frio. A cidade ficou menor sob seus pés: pontes, cúpulas, avenidas escuras, luzes vermelhas nas casas de espetáculo, as marcas de uma capital que aprendera a obedecer a um rei recém-inventado. Mais acima, perto do limite da atmosfera, ele chamou Jawzahr.
O dragão saiu dele com uma violência familiar.
Voaram lado a lado. As baforadas de fogo aqueciam a pele de André, e esse calor ainda o surpreendia. Desde que se tornara vampiro, o frio havia se instalado em seu corpo com a naturalidade de um segundo sangue. As mordidas em Fóster tinham drenado quase tudo dele e afetado também Jawzahr. O dragão continuava poderoso, mas carregava uma fúria nova, contaminada por algo de morcego, de fome, de caverna. Aqueles voos serviam para gastar essa raiva antes que ela encontrasse alguém.
Toda mordida vampírica deixava um herdeiro na vítima. O morcego que habitava o agressor plantava outro, uma simbiose pronta para crescer. Com André, Jawzahr impediu a invasão completa. O morcego encontrou caminho pelo DNA e alterou pouco. No sentido contrário, o sangue de dragão dominou os vampiros que o atacaram. Quando renasceram, cada simbiose havia se tornado um dragão diferente.
Por alguma lógica de atração entre mundos, André e os vampiros morreram em Fóster e renasceram em Kimmer, um planeta de vampiros de outro universo. A semelhança inicial enganava. Ali, a morte carregava regras próprias. Ninguém tratava a mudança de planeta como novo nível. Nenhum deles vinha de mundos conhecidos por André. As vidas anteriores tinham produzido comunidades soltas, famílias pequenas, alianças locais. Rei, para os nativos, era figura de arbitragem, alguém chamado quando um conflito pedia sabedoria, não uma mão sobre todas as gargantas.
Os vampiros que chegaram com André triplicaram a população. Trouxeram mutação, fome, vantagem biológica e uma força coletiva que Kimmer nunca precisara administrar. André percebeu cedo que alguém teria de impor ordem aos recém-chegados e assumiu essa responsabilidade.
Laura e Carmilla apareceram logo depois.
As duas já sofriam com o isolamento dos tradicionais. Os mais antigos não as atacavam, mas desviavam convites, cortavam conversas, reduziam afetos a inconveniências privadas. As gerações novas lidavam melhor com amores entre pessoas do mesmo sexo; os antigos preferiam chamar de tolerância aquilo que, na prática, era distância. Com André demonstrando poder sobre os vampiros dracônicos, Laura e Carmilla viram uma chance de acelerar mudanças que Kimmer empurrava há séculos.
As visões de Laura guiaram o encontro.
Ela soube antes dele.
Quando André a viu, tudo o que vivera com ela atravessou seu corpo. Laura estava ali, em outra pele, outra história, outro olhar, mas ainda carregava alguma coisa que reconhecia nele o menino da Terra. Ele a abraçou com força. O calor que nasceu entre os dois confundiu lembrança e corpo.
— La... Laura... Eu não consigo acreditar.
Ela chorou também, mas chorou de outro lugar. André entendeu isso apenas depois.
— Como você veio parar aqui?
A pergunta ficou sem resposta suficiente. Por um tempo, tentaram encostar o passado no presente. Houve desejo, ternura, uma experiência a três com Carmilla que deixou mais perguntas do que continuidade. O amor de Laura por André havia mudado de forma. Restavam afeto, curiosidade, uma parceria possível. O centro dela já pertencia a Carmilla, e André precisou aprender que reencontrar alguém não devolve o tempo que a pessoa viveu longe.
Enquanto André tentava compreender o reencontro, os vampiros dracônicos se espalhavam. Suportavam o sol melhor do que os nativos, evoluíam depressa e transmitiam pela mordida uma versão ampliada da própria condição. A transformação virou desejo e moeda de negociação. Carmilla e André criaram regras, Laura antecipou riscos e Kimmer aceitou reformas em troca de proteção.
Então André conheceu Trix.
Ela era humana, frágil apenas para quem media força por presas, asas ou domínio de sangue. Trix pertencia aos místicos, um povo que recusava simbiose, mordida e dependência vampírica. Preferiam continuar sem animal interior e sem a fome herdada. Para André, que já via Kimmer ser seduzido pela transformação, aquela recusa ganhou importância.
Quando a comunidade vampírica começou a defender identidade obrigatória para permanência no planeta, Trix e os místicos viraram problema político. Carmilla e Laura já conheciam a existência do grupo. Usaram a ligação de André com Trix para criar uma solução e, ao mesmo tempo, puxar o poder para o centro. A proposta vinha simples por fora: esconder os místicos, garantir sua segurança, restaurar a realeza, coroar André, coroar Carmilla e manter Laura na corte como duquesa.
Por trás da proteção vieram concessões, acordos, cargos e privilégios distribuídos a quem poderia incendiar a reforma. Em pouco tempo, os mais fortes tinham sido ouvidos mais vezes do que os vulneráveis. André, que assumira o trono para conter o caos, percebeu tarde demais que também criava um sistema em torno da própria exceção.
Essa culpa o acompanhava nos voos até Trix.
Jawzahr recolheu as asas e diminuiu com ele. André dominava uma particularidade rara: conseguia reduzir a própria simbiose até uma forma pequena, mistura de morcego e dragão, discreta o bastante para atravessar frestas e sombras. Assim chegava ao esconderijo dos místicos sem chamar patrulhas, cortesãos ou curiosos.
A cidade subterrânea deles ficava abaixo de camadas de pedra e metal trabalhado. Muitos místicos manipulavam metais; outros controlavam ar com precisão delicada. Tinham aberto ruas, jardins, casas e canais de luz natural captada da superfície e reproduzida no alto das cavernas. Quem nascesse ali poderia acreditar em céu, se ninguém explicasse a prisão.
André pousou perto do jardim elevado.
Trix já o esperava.
Ela correu para ele, e André correu também. O abraço veio primeiro, apertado e demorado; depois o beijo. O cheiro do pescoço dela subiu limpo, vivo, perigoso. André se afastou no mesmo instante.
Esse era o limite cruel de amar alguém com sangue correndo quente no corpo. Mesmo poderoso, mesmo capaz de produzir sangue suficiente para reduzir a necessidade de se alimentar, o instinto ainda falava. A simbiose pulsava. As presas às vezes tentavam nascer antes da vontade.
Trix tocou o rosto dele.
— Você sempre faz isso.
— Faço para continuar merecendo voltar.
Ela sorriu com uma tristeza paciente. Trix não queria transformação, eternidade nem o poder oferecido por uma mordida. André sabia disso e mantinha as presas longe dela.
— Gosto de olhar seus olhos — disse ela. — Eles entregam quando você chega aqui carregando o castelo inteiro nas costas. O que aconteceu?
André sentou-se com ela sob a árvore do jardim. As flores subterrâneas abriam pétalas claras, alimentadas pela luz roubada da superfície. Jawzahr, pequeno, enrolou-se perto das raízes.
— Laura está voltando. Se a visão dela se cumprir, a invasão começa em breve.
— Então você veio se despedir?
— Vim tentar fingir que consigo impedir tudo.
Trix entrelaçou os dedos nos dele.
— Você vai fazer o que puder.
— E se isso não bastar?
— Então eu ainda prefiro ter escolhido por mim até o último instante.
A resposta feriu e confortou na mesma medida. André, que em outros tempos imaginara a imortalidade como vitória, agora temia morrer longe dela e temia ainda mais sobreviver a ela. Abraçou Trix de novo, com cuidado para manter a boca longe do pescoço, e ficou ali, sob um céu falso muito bem construído, tentando guardar o momento sem esmagá-lo com a certeza de que poderia ser o último.