A Chegada de Quem Faltava
Nerfate continuou olhando para André por alguns segundos depois da recusa dele. Aquilo constrangia mais do que qualquer ameaça. André tentou fixar o pensamento em números, contratos e salas de reunião. A estratégia durou pouco. Eva voltava sempre, caída na biblioteca, com a mão fechada sobre a moeda.
— Então, deixem-me organizar esta tragédia — disse Nerfate, voltando-se para Zeus. — Você esteve na Terra, espalhou descendentes, deixou testemunhas registrarem suas ações da maneira que quiseram, permitiu que escrevessem profecias em seu nome e ainda abandonou lá um elemento raro, estranho ao planeta, sem informar nada disso a nós.
Zeus avançou um passo. O ar em torno dele esquentou de imediato.
— Quem você pensa que está chamando de idiota?
O corpo dele explodiu em claridade. Chamas subiram dos ombros, misturadas a raios que estalavam acima da cabeça. André caiu sentado outra vez, mais por reflexo do que por medo consciente. O calor chegou ao rosto, e a areia perto de seus pés escureceu.
Nerfate não recuou. A capa roxa se abriu atrás dela, pesada, enquanto um volume de água subia do nada, girando em torno de seu corpo. O líquido formou um tornado estreito, atravessado por descargas azuis nas bordas.
— É idiota se precisa de confirmação — respondeu ela. — E mais idiota ainda se achou que esse espetáculo me intimidaria.
— Chega.
Hagar não gritou na primeira sílaba. A palavra saiu baixa, mas o deserto obedeceu antes dos outros. Quando ele repetiu, a voz atravessou o círculo.
— Chega!
Uma rajada sem poeira atravessou o círculo. Não levantou areia, não cortou pele, não derrubou André. Apenas apagou as chamas de Zeus, desfez a água de Nerfate e empurrou os dois para trás com precisão humilhante. Zeus caiu sobre um joelho. Nerfate se sustentou com a mão no chão, os cabelos loiros colados ao rosto pela própria água que acabara de criar.
— Velho desgraçado — murmurou Zeus, levantando-se.
André escutou. Pelo modo como os outros fingiram não escutar, todos também haviam escutado. Zeus se pôs de pé e ajeitou a armadura vinho, mas a irritação já tinha perdido a imponência.
Hertho passou a mão pela máscara verde que segurava junto ao corpo.
— A hipótese de profecia cumprida ficou mais fraca. Temos uma cadeia de interferências muito mais concreta: Zeus na Terra, descendência física, objeto contaminado por elemento de fora, relatos humanos, culto em torno de sangue e cálice. A chegada de André a Éden pode ser consequência de uma sucessão antiga de imprudências, não cumprimento de promessa cósmica.
— Consequências antigas também criam caminhos — disse Bel.
— Caminhos, sim. Destino, não.
— A Confraria acreditava na profecia — disse André. — Guardou o cálice e registros sobre a minha família por gerações.
Nerfate voltou os olhos para ele.
— Vi o nome entre as suas lembranças. Eles preservaram fragmentos e tentaram uni-los. Isso prova que a história foi transmitida, não que a interpretação esteja certa.
— Havia outra organização — continuou André. — A Ordo Aeternus. Ou o que restou dela.
— Então os mesmos vestígios passaram por grupos rivais — disse Hertho. — Cada um pode ter alterado o que recebeu para proteger a própria autoridade.
André acompanhava a discussão com atenção desigual. Parte dele queria entender. Outra parte procurava uma porta, mesmo cercado por deserto. Cada frase aproximava sua morte de uma engrenagem que começara antes de seu nascimento, antes de Paulo, antes da empresa, antes até das lendas que ele aprendera a tratar como enfeite de livro. Isso o enjoava mais do que a travessia.
Hagar ergueu o cajado e pousou a ponta na areia.
— Profecia ou acidente, o resultado está diante de nós. Outros já tiveram descendentes físicos em mundos de primeira vida e em mundos posteriores. A transmissão de energia por sangue nunca obedeceu a um padrão estável, mas nunca causou salto direto para Éden. Precisamos saber o que André carrega, o que ativou a passagem e por que os fragmentos lidos por Nerfate convergem para cálice, moeda e sangue de dragão.
— Dragão — disse Zeus, seco.
— Você prefere outro termo? — perguntou Nerfate.
Zeus abriu a boca, desistiu e olhou para o ponto vazio do círculo. A fenda ainda tremia no ar, mais estreita, irritada, cuspindo pequenas faíscas vermelhas.
— Krakor está atrasado demais — disse Juper.
— Krakor nasceu atrasado para qualquer coisa que exija noção de consequência — respondeu Hagar.
A fenda se abriu de uma vez. O raio que deveria trazer o último dos doze entrou torto, rasgando o céu até a areia. Um homem de cabelos e barba vermelhos surgiu no meio da luz com uma queda desastrosa. Bateu no chão, ricocheteou como pedra lançada contra água dura e veio parar aos pés de Hagar, levantando uma faixa de areia.
André esperou que todos reagissem ao homem. Só então viu a outra pessoa agarrada às pernas dele.
Era um rapaz. Estava desacordado, vestido com roupas simples, poeira no rosto e as mãos fechadas com força em torno de uma das botas vermelhas de Krakor. Tinha atravessado junto. Vivo, pelo susto coletivo. Vivo de um modo que, ali, soava mais grave do que morto.
Krakor empurrou o corpo para cima, tossindo areia.
— Antes que alguém comece...
— Você estava conversando com esse rapaz quando o portal abriu — disse Hagar.
A voz dele tinha a calma de professor diante de aluno reincidente. Krakor olhou para o rapaz, depois para os outros, e por fim para o próprio tornozelo, à espera de que a prova material se soltasse sozinha.
— Eu não sabia que ele conseguiria se agarrar.
— Por isso existem regras.
— Tecnicamente, ele quebrou a regra. Eu só estava parado perto.
Hagar fechou os olhos por um instante. André reconheceu aquela expressão. Paulo fazia algo parecido antes de destruir alguém numa reunião, com a diferença de que Hagar carregava cansaço de séculos, não vaidade.
— Não temos contato com pessoas de primeira vida — disse Hagar. — Não abrimos portais perto delas. Não as trazemos vivas para Éden.
— Eu fiz uma promessa ao pai dele — respondeu Krakor.
O círculo ficou mais silencioso. Até Nerfate se calou.
Hagar se abaixou junto ao rapaz e tocou dois dedos em seu pescoço. Depois aproximou a mão do peito, sem encostar.
— Respira. Pulso irregular, mas presente.
— Usem cura — disse Zeus.
— Não — respondeu Hagar.
— Ele pode morrer.
— Justamente. Nunca vimos um corpo de primeira vida atravessar um portal para Éden sem passar pela morte. Não vou despejar energia sobre ele antes de saber o que a travessia fez por dentro.
Dafa já estava ao lado do rapaz, examinando os olhos, a respiração, o modo como os dedos continuavam presos à bota de Krakor. Vaes observava de perto. Agah mantinha as mãos abertas, pronto para repor energia de quem precisasse. André ficou onde estava, esquecido por alguns segundos, e esse esquecimento lhe pareceu uma forma estranha de liberdade.
Hagar levantou-se e moveu as mãos no ar. Madeira apareceu primeiro, em ripas claras que se encaixavam sem martelo. Depois vieram metal, tecido grosso, fibras que lembravam palha e vidro opaco. Os materiais se misturaram acima da areia e desceram em torno do rapaz, criando uma construção pequena, próxima demais de uma casa para ser chamada de abrigo e estranha demais para convencer alguém que acordasse lá dentro.
— Algo parecido com o que ele conhece — disse Hagar. — O bastante para diminuir o choque inicial.
— Você construiu uma casa no meio do deserto com as mãos — disse André, antes de conseguir impedir a frase.
Hagar olhou para ele.
— Sim.
— Claro. Só conferindo a escala do problema.
Dafa soltou os dedos do rapaz da bota de Krakor com cuidado. A cama surgiu dentro do abrigo, suspensa a poucos centímetros do chão, oscilando como água parada. André invejou o conforto com uma sinceridade que o humilhou. Ele havia morrido, acordado em outro planeta, descoberto uma genealogia impossível e ainda assim conseguia sentir ciúme de uma cama.
Todos entraram ou se aproximaram da construção. Por dentro, as paredes mudavam discretamente de posição, ampliando o cômodo conforme mais gente ocupava o espaço. As sombras obedeciam ao movimento dos corpos. Uma mesa nasceu junto à parede e recolheu a própria quina quando Bel passou perto dela.
— Apagamos o que ele viu e o devolvemos a Key — disse Dafa. — Quanto menos tempo passar aqui, menor o dano.
Krakor se colocou entre ela e a cama.
— Ele atravessou um portal agarrado à minha perna. Não sabemos se tentar apagar a memória vai feri-lo.
— Também não sabemos o que acontecerá se ele voltar falando de Éden — respondeu Juper.
— Nem se o corpo sobreviverá a outra travessia — acrescentou Agah.
Hagar observou o rapaz desacordado.
— Ninguém toca na memória dele. Primeiro descobrimos o que a passagem alterou. Se acordar em condições de responder, ouviremos o que tem a dizer.
— Foi por isso que paramos de fazer contato — falou Hagar, encarando Krakor. — Se apenas nós chegamos a este planeta, se apenas nós atravessamos distâncias desse modo, se apenas nós conseguimos nos ocultar de outros seres, existe um motivo para ficarmos fora da história deles.
Krakor limpou areia da barba vermelha.
— E qual é esse motivo, Hagar? Quantas centenas de milênios você passou procurando uma resposta? Quantas vezes caçou falsos deuses? Quantas falsas profecias? Quantos prometidos você interrogou até descobrir que eram só gente assustada?
— Agora há dois seres de primeira vida em Éden no mesmo dia.
— Um morto e um vivo — disse Ártemis.
André ainda não sabia o nome dela. Tinha pele escura, cabelos longos e rosados com adereços, roupa que lembrava uma couraça marinha ajustada ao corpo e ombros protegidos por estruturas curvas. Ela olhava para Hagar com uma alegria provocadora.
— Alguns anos sem nos vermos e vocês conseguem piorar a reunião — continuou ela.
— Alguns anos para você — disse Hagar. — Para mim, noventa e nove.
— E no seu último ano como guardião do espaço-tempo, você recebe um morto de primeira vida e um vivo de carona. Grande encerramento.
— Quem trouxe o vivo foi o criador de mundo ali.
Todos olharam para Krakor. Ele ergueu as mãos, derrotado antes de começar.
— Eu prometi ao pai dele que tentaria reunir o rapaz à irmã. O pai me ajudou em outro mundo. Histórias de sangue me afetam, vocês sabem.
André olhou para o rapaz deitado. Irmã. A palavra encontrou nele uma ferida aberta. Por um momento, o desconhecido deixou de ser um acidente de protocolo e passou a ocupar o mesmo lugar que ele: alguém arrancado do próprio mundo porque amava uma pessoa que ficou longe demais.
O rapaz se mexeu. Primeiro os dedos. Depois a boca. O som saiu embolado, seco, preso entre línguas que o corpo não decidia qual usar.
— Minha... irmã...
Dafa se inclinou sobre ele.
— Calma. Respire. Você está seguro por enquanto.
— Quero saber dela — balbuciou o rapaz. — Só isso importa.
André sentiu o peito apertar. O desconhecido mal conseguia abrir os olhos e já perguntava pela mesma pessoa que o levara até ali: a irmã.
— Ele acordou — disse Dafa, olhando para Hagar. — E está perguntando pela irmã.
— Então perguntamos o que ele quer saber primeiro — respondeu Hagar.
O rapaz abriu os olhos de verdade. Viu o teto que respirava, as paredes móveis, as armaduras, as peles, os cabelos, os dois sóis entrando por uma abertura alta. O pânico veio, mas havia nele uma coragem imprudente, quase ofensiva. Ele tentou se sentar. Dafa segurou seu ombro, e Krakor o ajudou antes que caísse.
— Eu quero saber de tudo — disse o rapaz.
Nerfate se aproximou da cama.
— Resumo curto, então. Meu nome é Nerfate. Você foi trazido para Éden, um planeta onde, até pouco tempo atrás, apenas doze pessoas haviam renascido.
Ela olhou para André.
— Treze, contando o recém-chegado ali.
André não gostou de ser apontado como categoria nova, mas não interrompeu.
— Você, porém, chegou vivo — continuou Nerfate. — Veio agarrado a Sir Krakor, que tem responsabilidade direta pela vida contínua no seu planeta.
— Direta é uma palavra pesada — disse Krakor.
— Correta também.
O rapaz olhou para Krakor com uma mistura de medo e acusação. Krakor sustentou o olhar por menos tempo do que deveria.
— Todos nós morremos — disse Nerfate. — O que menos morreu entre os doze atravessou oito vidas. O que mais morreu...
— Cento e sete — completou Coneli.
— Coneli gosta de números — disse Nerfate. — Use isso como aviso.
André parou de acompanhar a explicação inteira. A voz de Nerfate continuou ao fundo, falando de níveis, travessias, corpos, memória, mundos e energia. Ele olhava para o rapaz e pensava em Eva. Se a morte não acabava tudo, isso deveria consolá-lo. Não consolava. A hipótese de uma próxima vida só tornava maior o espaço entre ele e a irmã. Ela podia estar viva, morta, em outro corpo, em outro mundo, ainda ligada ao que acontecera na biblioteca, carregando a moeda. Todas as possibilidades doíam porque nenhuma cabia em ação imediata.
Quando André voltou ao presente, Krakor defendia uma proposta.
— Podemos ensinar localização a ele. Se morrer ao retornar para Key, pode emitir um sinal. Assim encontramos o rastro.
— Primeiro temos André e a convergência da profecia — disse Hagar. — Segundo, localização exige domínio de técnicas anteriores. Esse rapaz está na primeira vida, vivo, sem adaptação à travessia universal. Ser descendente seu não resolve tudo.
O rapaz, ainda pálido, ergueu o queixo.
— Eu consigo aprender.
Alguns sorriram. Outros não. André invejou aquela certeza com o mesmo desconforto com que invejara a cama. Ele próprio tinha dinheiro, empresa, nome e uma herança cheia de veneno; nada daquilo lhe dava coragem para declarar competência diante de seres que construíam casas no ar.
— Quando foi a última vez que algum de vocês ensinou alguém? — perguntou uma mulher de aparência mais velha, até então calada.
Vaes abriu os braços.
— Somos os doze imortais de Éden. Criamos planetas, destruímos planetas, atravessamos boa parte do Universo, dominamos elementos, matéria e energia. Alguma coisa sabemos explicar.
— Saber fazer e saber ensinar raramente ocupam o mesmo corpo — respondeu Bel.
Hagar pareceu aceitar a crítica sem demonstrar. Caminhou até a abertura da casa e olhou o deserto. O vento entrou de leve, trazendo calor e um cheiro metálico. Depois ele se virou, e a sala se organizou em torno da decisão antes mesmo que fosse dita.
— Zeus, Juper, Dafa e Ártemis vão criar ambientes controlados de fogo, água e vento. O rapaz precisa enfrentar condições próximas às que encontrará se voltar ao próprio mundo. Krakor, Nerfate, Hertho e Bel vão preparar técnicas e ingredientes compatíveis com mundos de nível um e dois, nada que dependa de matéria impossível fora de Éden. Agah repõe energia dos demais. Coneli vigia o espaço-tempo. Vaes explica a André o que puder sobre o Universo enquanto eu trabalho com o recém-chegado.
— E se André quiser procurar a irmã? — perguntou Dafa.
Hagar olhou para ele.
— Ele vai querer. Por isso precisa entender o lugar onde caiu antes de escolher a direção errada com pressa.
André odiou a resposta por ser razoável. Paulo teria tratado sua pressa como fraqueza ou instrumento. Hagar ao menos a incluíra no problema.
Os doze começaram a se mover. A casa abriu passagens onde antes havia parede. O deserto do lado de fora se dobrou em zonas de calor, vapor, vento e sombra. Zeus saiu sem olhar para Nerfate. Nerfate sorriu para as costas dele. Krakor ficou perto do rapaz, inquieto, com a culpa escondida de maneira péssima. Vaes veio até André.
— Vamos começar pelo que você precisa saber para não enlouquecer.
— Existe uma versão curta?
— Não.
— Ótimo. Estou tendo um dia compatível com respostas longas.
Vaes quase sorriu. André olhou uma última vez para o rapaz na cama, depois para o céu de dois sóis além da abertura. Em algum lugar impossível de medir, Eva estava fora do alcance. Sentiu a areia ainda presa entre os dedos dos pés. Antes de tentar voltar, teria que descobrir onde estava.