Sangue Irresistível Jornada do Sangue · Capítulo 27 de 49
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Sangue Irresistível

O homem com a Excalibur saltou do Grande Arco.

Ele girou uma vez no ar, desceu com um joelho quase tocando o chão e a lâmina apoiada ao lado do corpo. Quando se ergueu, a praça acompanhou o movimento. Vampiros, sobreviventes, guardas, gente ferida, gente ainda coberta de sangue: todos levantaram o rosto ao mesmo tempo.

Arthur continuou ajoelhado.

O homem atravessou a multidão sem pressa, abrindo caminho sem ordenar nada. Ainda parecia descobrir o que recebera, mas a cidade já o tratava como rei. André observou a cena com o corpo cansado da fuga, da luta e da impressão de que Fóster mudava de governo sem pedir licença à própria história.

O homem parou diante de Arthur.

— Esta espada é sua, Arthur?

A pergunta vinha com o nome correto. Arthur ergueu os olhos e, pela primeira vez desde que André o conhecera, demorou a responder.

— Não, meu senhor. Essa espada agora é sua.

O homem inclinou a cabeça, paciente.

— A humildade em um rei é uma das qualidades mais admiráveis. Mas você entendeu a frase pelo lado errado. Eu afirmei: esta espada é sua.

Arthur abriu a boca, fechou, depois aceitou a confusão.

— Não entendi.

— Levante-se.

Arthur obedeceu. O homem segurou a Excalibur entre os dois, sem entregá-la, sem escondê-la.

— A Excalibur pertence a quem tem dignidade para empunhá-la e força para chamá-la de volta quando for necessário. Um guardião justo de espada sempre será seu dono. Então, Arthur, ela é minha neste instante, mas também será sua enquanto você continuar sendo capaz de merecê-la. Um rei verdadeiro deixa de estar no trono muito antes de deixar de ser rei.

Arthur recebeu aquelas palavras em silêncio. O homem o abraçou de lado.

— Agora posso me apresentar. Meu nome é Móretar. E vocês?

Hertho, que até então cuidava dos braços quebrados de Coneli, ergueu a cabeça de imediato.

— Móretar?

Agah também interrompeu o próprio esforço de estabilização. Coneli, pálido, soltou uma risada curta de dor e surpresa.

— Não acredito que não reconhecemos você — disse Hertho. — Eu sou Hertho. Ele é Agah, este aqui é Coneli, e ali está André.

Móretar olhou para cada um, demorando alguns segundos a mais do que o aceitável para alguém que reencontrava antigos conhecidos.

— Eu também não reconheci nenhum de vocês. Essas roupas confundem bastante. Precisamos conversar em algum lugar. E beber.

André pensou na taverna de onde tinham saído havia pouco, mas não conseguiu rir. A praça ainda cheirava a fumaça, sangue e carne queimada.

Móretar se virou para a cidade.

— Antes disso, há algumas coisas por resolver. Vou dar minhas primeiras ordens a quem nunca aprendeu a recebê-las. Hermes!

O nome ecoou pela praça, não ampliado por poder bruto, e sim repetido pelas bocas do povo. Cronos gritava de cima; Móretar falava de dentro. Em pouco tempo, Hermes surgiu conduzindo a Rér, a placa dourada que deslizava pelo ar.

O antigo rei desceu sem encarar os vampiros ajoelhados.

— Hermes, autorize moradias pessoais para todos. Cidadãos antigos, renascidos recém-chegados e os vampiros que conseguirem permanecer sob controle. Ninguém dormirá em praça pública porque a nossa estrutura social demorou demais para admitir espaço.

— Mas, Móretar...

O povo reagiu antes dele terminar. Pescoços se viraram, mandíbulas se fecharam, olhos cansados ganharam uma ameaça coletiva. Hermes engoliu o resto da frase.

— Rei Móretar — corrigiu.

A tensão diminuiu um pouco. Só um pouco.

— Isso comprometerá quase toda a organização do planeta — continuou Hermes. — A maioria dos cidadãos ainda não tem casa pessoal. Abrir exceção agora exigiria abrir para todos. E nada garante que conviver com essas criaturas seja seguro.

Hertho ouviu sem afastar as mãos dos braços de Coneli. André viu nele a mesma estranheza que sentia. Hermes carregava um poder imenso; mesmo assim, falava com Móretar com o medo de quem descobre tarde que perdeu o lugar dentro do próprio sistema.

Móretar manteve a voz baixa.

— Hermes, eu não pedi opinião. Dei uma ordem. Você usava esse argumento para negar casas aos cidadãos, mas menos de um centésimo do planeta está ocupado. Mais de vinte por cento das casas dos sonhos pertencem a poucos proprietários, muitas separadas por distâncias ridículas e mantidas vazias por direito acumulado. Pelas minhas contas, todos aqui recebem uma moradia e ainda teremos mais de trinta por cento de área livre para novos renascidos.

Agah se aproximou de André.

— Ele está lendo estruturas inteiras do planeta — murmurou. — Hermes está assustado porque Móretar sabe coisas que acabou de aprender.

Móretar apontou para os vampiros ajoelhados.

— Quanto mais cedo começar, mais cedo essas pessoas terão paredes, portas e responsabilidade própria. Quanto à segurança, Memento é capaz de conter vampiros nesse nível. Não abuse da minha paciência usando medo administrativo para preservar privilégio.

Hermes abaixou a cabeça. A Rér virou sem ruído, e o antigo rei partiu para executar uma ordem que, poucas horas antes, ele teria esmagado com uma frase.

Móretar respirou fundo.

— Agora, a taverna. Não faço ideia de onde aprendi o caminho, mas meu corpo sabe.

A cidade ainda se reorganizava quando eles chegaram ao mesmo lugar. A taverna estava lotada. Gente comemorava, chorava, bebia, abraçava desconhecidos. Alguns vampiros permaneciam nos cantos, imóveis, com os olhos baixos e a boca fechada por esforço. A luz de Memento os mantinha contidos, mas André enxergou a fome trabalhando sob a pele.

— Majestade, sente-se aqui — disse um homem, levantando depressa.

Outros fizeram o mesmo. Móretar recusou com a mão.

— Ninguém vai perder a própria festa para me ceder banco. E o barman também merece comemorar.

Ele estendeu uma das mãos. Um jato de ar saiu de seus dedos e se dividiu em fios quase invisíveis. O teto subiu. Vigas se deslocaram, tábuas vieram de fora, pregos atravessaram madeira, paredes se expandiram, um segundo piso surgiu, depois um terceiro. A taverna cresceu ao redor das pessoas sem derrubar copos nem apertar corpos. Em seguida, mangueiras brotaram da máquina de cerveja e se distribuíram pelas mesas. Cada uma ganhou um pequeno ponto de serviço.

Tranco, o responsável pelo balcão, olhou aquilo com a alegria de um trabalhador libertado de uma noite impossível.

— Em casa de fiedouros não se come field — disse alguém.

A frase provocou risos. André não entendeu o ditado, mas captou o sentido quando Tranco abandonou o balcão e sentou para beber com os outros.

— Impressionante — disse André.

Móretar pegou uma caneca e bebeu um gole longo demais para quem dizia estar no controle.

— Isso não vem de mim sozinho. Memento fez a maior parte. O animal que vocês viram na praça não apenas acalmou os vampiros. Ele enxerga conexões. Agora mesmo está ligando as máquinas de cerveja às colheitas de cevada e às outras tavernas. Na próxima vez, junto com a bebida, virão petiscos de Sabim e Sovierum por essas mangueiras.

Ele tomou outro gole. Os olhos se arregalaram.

— Caramba. Bebida gelada desce e sobe com força.

Coneli, ainda sofrendo enquanto Hertho ajustava seus braços, riu sem som. Móretar tomou outro gole e voltou a olhar a caneca antes de prosseguir.

Móretar apoiou a caneca na mesa.

— Contem o que aconteceu com vocês. Temos cerca de seis horas antes da luz de Memento perder efeito sobre os vampiros. Depois disso, a sede volta. Eu disse a Hermes que saberia resolver, mas a próxima emissão de luz, se vier com a mesma força, elimina todos eles.

A calma da frase secou a mesa.

Hertho terminou de imobilizar um dos braços de Coneli e falou primeiro.

— Ficamos presos aqui até André morrer e chegar. Zeus o rastreou. Os dois lutaram. Um amigo dele, com um poder incomum, fortaleceu a simbiose que André carrega agora.

Móretar olhou para André com interesse direto.

— Qual simbiose?

André hesitou. A resposta, ali, dentro de uma taverna cheia de vampiros famintos, ganhou um gosto ruim.

— Dragão.

A palavra caiu em lugares errados.

Alguns vampiros ergueram o rosto. Primeiro os mais próximos. Depois outros, mais ao fundo. A luz de Memento ainda agia, mas a fome encontrou uma fresta nova, mais funda que a ordem recebida. Um deles respirou pela boca. Outro apertou a borda da mesa até a madeira rachar. O ar mudou.

Arthur percebeu junto com André.

— Não quero assustar ninguém, mas acho que eles querem o sangue dele.

Hertho se levantou.

— Corre, André.

André não pediu confirmação. Saiu pela porta e disparou pela rua. Atrás dele, cadeiras caíram, mesas viraram, corpos rasgaram o limite da obediência. Os primeiros vampiros vieram em velocidade absurda, e os outros os seguiram pelo instinto coletivo de quem sentiu a mesma promessa dentro do sangue de um dragão.

A cidade recém-liberta abriu caminho para uma caçada.

André ganhou distância por poucos segundos. Quando ouviu unhas no chão atrás de si, deixou a simbiose tomar o corpo. Ossos cresceram, pele cedeu a escamas, braços se alongaram em asas. Ele saltou e subiu, cuspindo fogo contra os que alcançavam fachadas e telhados.

Os vampiros também mudaram.

Não viraram uma única coisa. Cada corpo encontrou sua própria versão de morcego: alguns pequenos e negros, outros enormes, coloridos, deformados, com asas largas demais, mandíbulas de bicho impossível, caudas, chifres, membranas translúcidas. A noite de Fóster se encheu de asas atrás do dragão.

André lançou fogo. Queimou fileiras inteiras. Muitos perderam altitude, mas continuaram voando em chamas. Outros atravessaram o calor e fecharam o cerco. Dentes rasgaram a membrana de suas asas, o dorso, o pescoço. Um peso de corpos o puxou para baixo. Ele tentou subir de novo, mas cada mordida bebia e exigia mais.

Caiu.

O impacto devolveu sua forma humana. Os vampiros despencaram sobre ele em seguida, já sem qualquer traço de reverência por Móretar, Memento ou Fóster. Sugavam seu sangue de todos os lados. André sentiu a vida sair e voltar, sair e voltar, num ciclo cruel. O dragão renovava o que os vampiros roubavam. Ele não morria. Também não conseguia se libertar.

Quando Móretar chegou, trouxe a Excalibur em uma mão e a luz branca na outra. Memento surgiu acima dele, menor que na praça, porém mais concentrado. A claridade atingiu André e os vampiros ao mesmo tempo.

Por um instante, André viu o rosto de Hertho ao longe, a boca aberta em ordem inútil.

A luz atravessou André e os vampiros. O sangue parou de correr; por um instante, ele sentiu cada corpo ao redor ficar imóvel.

Depois, todos desapareceram.

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