Vampiros contra Vampiros
Lúcifer acordou sozinho na caverna. O leito de pedra conservava o formato do corpo, mas Carmilla, Laura e o dragão tinham desaparecido. Ele ficou de pé e sentiu as quatro criaturas dentro de si: Fevo, Cami, a Fênix e a simbiose vampírica recém-nascida. Três delas se tocavam em pontos que antes mantinham separados; a Fênix circulava ao redor da fusão sem permitir que a absorvessem.
Gritos atravessaram a entrada selada. Vieram acompanhados por choques, pedras quebradas e uma quantidade de asas batendo do lado de fora. Lúcifer explodiu a rocha que fechava a passagem e saiu em voo.
Uma guerra ocupava o céu. Lobisomens com asas de morcego caíam sobre os vampiros, mordendo, rasgando e continuando o ataque mesmo depois de perder braços ou partes do rosto. Os defensores assumiam formas de dragão, lançavam fogo e alteravam as correntes de ar, mas cada lobo morto renascia em outro ponto do mesmo quadrante e voltava à luta. O chão recebia corpos novos mais depressa do que os vampiros conseguiam derrubá-los.
Quatro lobos cercaram Lúcifer. Ele comprimiu fogo no próprio corpo e liberou uma explosão esférica. As criaturas se desfizeram; a onda atingiu outras dezenas, que desapareceram entre as chamas e começaram a renascer perto das cavernas. Lúcifer permaneceu no centro, intacto, observando a repetição.
Um dragão azul pousou diante dele e voltou à forma humana. Carmilla vestia uma armadura escura, presa por peças de metal vermelho, e uma coroa estreita mantinha os cabelos longe do rosto. A transformação lhe dera sinais de autoridade que a conversa na caverna ocultara.
— Não perguntei seu nome.
Lúcifer derrubou outro lobo com um golpe no peito e abriu espaço entre os dois antes que a criatura renascesse.
— Costuma deixar desconhecidos desmaiados na cama depois de sugar o pescoço deles?
— Sugar sangue é o mais perto que chego desse tipo de intimidade com homens.
— Lúcifer. Meu nome é Lúcifer. E gosto de desafios.
— Você perdeu a parte em que mencionei homens.
— Entendi, vosamu. Na minha língua, a palavra serve para tratar alguém com uma intimidade que ainda será conquistada. Além disso, depois dessa mordida, já não sei quanto de mim continua cabendo na definição de homem.
Carmilla lançou fogo sobre dois lobos que vinham por trás dele e abandonou o assunto.
— Preciso cuidar de uma guerra.
— Por que eles atacam?
— Acreditamos que sejam vampiros-lobos. Algum evento de morte em massa os trouxe para cá. Quando morrem, renascem neste mesmo lugar e recomeçam.
Lúcifer acompanhou três reaparecimentos. Todos aconteciam dentro de uma área limitada, apesar do tamanho do planeta.
— Então vocês estão lutando do jeito errado. Eles renascem apenas neste quadrante?
— Até agora, sim. Alguma força mantém o grupo reunido.
— Retire seus vampiros daqui e deixe os lobos comigo.
Carmilla avaliou o campo antes de responder. Em seguida, lançou um sinal luminoso para o alto. Os dragões interromperam os confrontos individuais e começaram a recuar em círculos, atraindo os lobos para o centro. Lúcifer permaneceu no ponto de maior concentração e passou a lutar apenas com as mãos, movendo-se o suficiente para manter o interesse das criaturas.
Quando o último vampiro saiu da área, ele procurou Fevo. O porgaro respondeu com uma força muito maior que a conhecida. Cami e o dragão-morcego estavam unidos a ele, enquanto a Fênix continuava separada, abrigada junto ao calor do peito. Lúcifer liberou a fusão.
O corpo que surgiu era vermelho e largo, com a face indestrutível de Fevo, os chifres grossos do porgaro, a cauda comprida do cavalo-marinho e duas asas de morcego capazes de cobrir a entrada da caverna. Fogo vazava entre os dentes. A fúria da criatura atingiu Lúcifer junto com a transformação, e por alguns instantes ele precisou disputar o movimento das patas.
O plano inicial consistia em perfurar o solo e atrair os lobos para uma cavidade. Fevo desceu com força superior ao cálculo. Os chifres abriram a pedra, as chamas derreteram as camadas mais resistentes e a gravidade começou a aumentar ao redor do buraco. Lobos em voo perderam altura. Os que tentaram fugir foram puxados de volta, arrastando outros consigo.
Lúcifer retomou o controle completo e escapou do vórtice. Quando a maior parte das criaturas caiu, criou um campo de força da superfície até próximo do núcleo, fechando a abertura numa rede invisível. Os lobos que morreram do lado de fora começaram a renascer dentro da prisão, atraídos pelo mesmo ponto que antes os devolvia à batalha.
Carmilla regressou enquanto Lúcifer recuperava a forma humana e verificava quanto da própria energia permanecia presa ao campo subterrâneo.
— Funcionou. Você os prendeu.
— Por enquanto. Manter esse campo exige energia, e eu desconheço o limite desta simbiose.
— Chegou a hora de usar o sinal que nos ensinaram para chamar Athos.
— Vocês tinham um sinal durante todo esse tempo?
— Fomos orientados a usá-lo apenas diante de perigo extremo.
Um portal se abriu antes que Carmilla completasse o gesto. Dele saíram vampiros armados, lobisomens sob controle e soldados de outras espécies. O homem à frente manteve as mãos visíveis, mas sua comitiva se espalhou em formação de ataque.
— Afastem-se da prisão — ordenou Carmilla. — Digam quem são.
— Meu nome é Magno. Sou rei e responsável por muitas dessas criaturas. Os lobos que vocês prenderam pertencem ao meu povo.
— Eles nos atacaram sem parar e renasceram aqui cada vez que morreram.
— Trouxe uma forma de curá-los e levá-los para casa.
Carmilla observou o exército atrás dele, contou as fileiras de vampiros e lobisomens e procurou máquinas ou armas ocultas entre os soldados.
— E devemos acreditar que vieram apenas buscar os lobos?
— Se quiséssemos dominar vocês, teríamos começado antes da conversa.
— Nossos vampiros se transformam em dragões.
Ela assumiu outra vez a forma azul. A cabeça se ergueu acima dos soldados, e as asas abriram espaço entre as árvores.
— Então meus lobos representam ameaça ainda menor depois de curados — respondeu Magno.
— Morrer deixou de detê-los. Isso muda qualquer cálculo.
Lúcifer reconheceu algo na voz do recém-chegado, uma cadência guardada de outra vida.
— Henri?
Magno voltou o rosto para ele. O reconhecimento desarmou sua postura durante um instante e também trouxe a cautela de duas vidas reunidas.
— Lúcifer? Sou eu. Magno e Henri ocupam o mesmo corpo agora. Você não chegou a conhecer esta parte.
Ele avançou um passo, mas os vampiros de Carmilla ergueram as armas. Magno parou.
— Quero chamar uma pessoa para avaliar o que está acontecendo — disse Carmilla. — Athos conhece o fluxo dos renascimentos e pode atravessar os planetas.
— Vocês conhecem Athos?
— Temos um sinal.
— Então use. Quanto mais tempo esperarmos, mais energia Lúcifer gastará mantendo a prisão.
Carmilla desenhou no ar o chamado ensinado por André. Athos surgiu poucos segundos depois, acompanhado por um homem de roupas escuras e rosto pálido. Magno reconheceu o primeiro; os vampiros reagiram ao segundo com uma atenção instintiva.
— Onde está André? — perguntou Carmilla. — E quem você trouxe?
— André está preso e precisa ser libertado. Eu vi a batalha que começa aqui. Se eu a impedir, este grupo não chegará até ele.
Athos falou com desconforto, preso a um fragmento que ainda considerava uma visão. Carmilla abaixou a cabeça de dragão até os olhos ficarem na altura dele.
— Quem decidiu isso?
— Ninguém decidiu. Eu vi acontecer e ainda não consigo explicar mais do que isso. Este é Drácula, rei do povo que veio com ele. Sinto muito. Se eu interferir agora, mudarei o que precisa surgir depois da batalha.
A afirmação não descrevia uma lei do universo. Athos defendia uma repetição que considerava necessária. Lúcifer percebeu a diferença, mas ele já começava a abrir a passagem de volta.
— É bom ver você também, Lúcifer. Eu sabia que sobreviveria.
— Sobreviver é modo de dizer. Você precisa explicar...
O portal fechou antes do fim da frase, levando Athos e qualquer possibilidade de interrogá-lo sobre a origem daquelas instruções.
Drácula atravessou o abdome de Carmilla com a mão. O golpe veio sem aviso, subiu por dentro do corpo e destruiu o coração. A forma de dragão cedeu, Carmilla voltou à aparência humana por um instante e desapareceu.
Laura gritou. A voz carregou o ar, derrubou soldados próximos e fez as árvores se curvarem. Sangue escorreu dos olhos de Lúcifer. Drácula recuou para junto do próprio exército, e as duas formações abandonaram qualquer tentativa de negociação.
Dragões, vampiros e lobisomens avançaram ao mesmo tempo. Lúcifer liberou fogo pelas mãos e voou na direção de Drácula, enquanto Laura abria caminho atrás dele. A prisão subterrânea continuava exigindo energia, os lobos renasciam dentro dela e, acima do solo, uma guerra prevista por Athos e iniciada pelo homem que ele deixara para trás acabava de começar.