Uma Vida Tranquila? Jornada do Sangue · Capítulo 18 de 49
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Uma Vida Tranquila?

André acordou em uma cama redonda, grande demais para uma pessoa só.

O primeiro movimento foi procurar dor. Encontrou várias. O ombro ardia onde Moisés o mordera na forma de dragão; as costelas reclamavam quando puxava ar; a garganta raspava por dentro com gosto de fumaça. Ainda assim, conseguiu se sentar e observar o lugar. A sala era imensa, triangular, com paredes tão distantes que pareciam pertencer a outro cômodo. O teto de vidro deixava o sol entrar filtrado por placas móveis que acompanhavam a luz. A cama ficava suspensa no centro, sobre uma plataforma alta, e uma escada larga de madeira descia em espiral até o piso.

Quando chegou perto da borda, viu a multidão.

Centenas de pessoas ocupavam o chão ao redor da plataforma; a quantidade passava fácil disso nos corredores laterais. Algumas usavam uniformes claros, outras roupas comuns de Rock, todas olhando para cima. O murmúrio subiu antes dos gritos. Bastou que percebessem André de pé para a sala inteira explodir em palmas, chamados, lágrimas, braços erguidos. Ele recuou para o centro da cama por instinto. Depois da batalha, da droga, de Moisés desaparecendo diante dele, acordar sendo celebrado tinha alguma coisa de erro administrativo.

Somas estava lá embaixo, ao lado de representantes do escritório do Organizador. Ergueu uma das mãos, pedindo calma a André. Vraddo estava ausente. Depois André saberia que o governante fora chamado para outra emergência: vazamentos em tubulações do centro Norte da capital, incêndios provocados pela onda de calor e sistemas de resfriamento trabalhando no limite. Rock reparara depressa os danos mais visíveis, mas parte da infraestrutura continuava falhando.

André achou a escada e começou a descer.

O silêncio veio de uma vez. Era pior que o aplauso. Cada passo na madeira ecoava pela sala. No meio da descida, o pé dele falhou no degrau largo e o corpo inclinou para frente. Segurou o corrimão com as duas mãos. Uma risada curta escapou de alguns grupos, logo engolida por culpa ou protocolo. André respirou melhor ao ouvir aquilo.

— Ótimo — murmurou. — Ainda tropeço. Isso ajuda.

Em Rock, tropeçar ajudava mesmo. As diretrizes de segurança haviam concluído que impedir a aproximação popular alimentaria culto e boatos. Depois de ver André como dragão branco sobre a capital, a população precisava vê-lo também magro, machucado, sonolento e capaz de quase cair de uma escada. Por isso permitiram a aglomeração.

Quando André chegou ao piso, Somas aproximou-se depressa.

— Diga que agradece a preocupação — orientou em voz baixa. — E que, se precisarem de você, podem contar com você.

— Eu posso prometer isso?

— Agora, sim. Depois discutimos detalhes.

André virou-se para a multidão. Sentiu a frase preparada subir pela garganta e morrer no meio do caminho. Viu rostos de pessoas que perderam casas, turnos de trabalho, parentes, uma cidade inteira de normalidade. Viu também olhos encantados demais, e essa parte o assustou.

— Obrigado por terem esperado eu acordar — disse, mais baixo do que a sala esperava, mas o sistema distribuiu a voz. — Eu não sei direito o que vocês viram de mim lá fora. Eu lembro de pedaços. Lembro de Moisés. Lembro de fogo. Se precisarem de mim para consertar alguma coisa que eu ajudei a quebrar, eu vou tentar.

O aplauso voltou, agora menos histérico. Somas aceitou. O Organizador também pareceu aceitar, porque as portas laterais se abriram com suavidade e a multidão começou a escoar em faixas ordenadas. Em poucos minutos, a sala ficou quase vazia, limpa demais para quem acabara de abrigar uma devoção.

A vida tranquila começou depois disso.

Ou o que Rock chamava de tranquilidade. André recebeu uma casa, roupas, acesso a transporte, alimentação, assistência médica, tutoria de adaptação e uma agenda. A agenda importava mais que todo o resto. Ela surgia em telas, pulseiras, painéis de parede, avisos de voz e projeções discretas no caminho. Compromissos obrigatórios vinham marcados em azul escuro. Compromissos sugeridos, em verde. Horários livres, em branco. Cancelamentos eram permitidos, desde que feitos dentro de prazo e com justificativa aceitável. Recusar tarde demais reduzia pontos de confiabilidade; acumular reduções alterava comida, conforto, moradia, acesso a tecnologia e prioridade de atendimento.

As restrições chegavam por pontos, prazos e perda de acesso.

No começo, André achou tudo absurdo. No terceiro dia, percebeu que parte dele gostava. O encontro começava no horário. O transporte chegava quando a tela prometia. Uma visita técnica não atrasava duas horas nem sumia sem resposta. Se alguém cancelava, o sistema avisava e compensava. Aquilo tinha o encanto perigoso de um mundo no qual promessas pequenas eram cumpridas.

Ele pensou no pai mais vezes do que gostaria.

Paulo Azevedo teria amado e odiado Rock com a mesma intensidade. Amado a pontualidade, os indicadores, a previsibilidade, a recompensa por disciplina. Odiado a falta de espaço para ser maior que o mecanismo. André imaginou o que teria acontecido se aniversários, jogos, apresentações escolares e almoços de domingo valessem pontos de confiabilidade social. Paulo teria comparecido mais ou encontrado outro jeito de transformar o comparecimento em cobrança.

Os dias seguiram. Consultas médicas. Relatórios sobre a batalha. Treinos de contenção. Conversas com Somas. Avaliações discretas sobre a droga que recebera. Palestras de adaptação nas quais André aprendia a pedir remarcação sem parecer agressivo. Caminhadas por ruas já reconstruídas, onde pessoas paravam para olhar e fingiam que não olhavam. À noite, às vezes, vinha a imagem de Moisés pela metade, pedindo desculpas antes de desaparecer.

Então a agenda mostrou um compromisso novo.

Almoço com Paulo Azevedo.

André ficou parado diante da tela até ela escurecer por falta de toque. O nome era comum na Terra. Fora da Terra, em Rock, em uma agenda controlada por um sistema que raramente desperdiçava coincidências, aquela normalidade não servia de abrigo. Ele abriu os detalhes: local reservado, assunto sigiloso, presença confirmada, comparecimento recomendado. O coração bateu rápido demais para o corpo ainda em recuperação.

Pensou em cancelar.

O dedo chegou a tocar a opção de remarcação. A tela pediu motivo. André apagou a frase antes de terminar. Medo de almoçar com um morto não soava uma justificativa favorável para seu relatório de adaptação. Fechou a agenda, tomou banho, vestiu a roupa clara que Rock recomendava para compromissos formais e foi.

O restaurante ficava no alto de um edifício de vidro curvo, com vista para uma faixa da capital que a batalha já não mostrava. Mesas afastadas, plantas baixas entre os corredores, funcionários silenciosos e sensores quase invisíveis nas colunas. André chegou cedo. Escolheu sentar de frente para a entrada. Quando o outro Paulo Azevedo entrou, o primeiro sentimento foi alívio.

Não reconheceu o pai.

O homem tinha a idade aproximada de André, alguns anos a mais no máximo. O rosto, no entanto, trazia algo conhecido na linha do queixo, na maneira de prender os lábios antes de falar, no modo de olhar a sala antes de olhar para a pessoa. Sentou-se à mesa e pousou as mãos uma ao lado da outra, em postura de reunião.

— Estranho, não é? — disse Paulo.

André soltou o ar devagar.

— Nem me fale. Eu passei metade da manhã tentando decidir se vinha ou se fingia uma crise de adaptação. A orientação dizia assunto sigiloso. Seu nome é o mesmo do meu pai, inclusive. Um nome comum, eu sei, mas este universo anda abusando das coincidências.

Paulo não sorriu.

— Você não brilhou para mim.

— Perdão?

— Pessoas do mesmo planeta de origem se reconhecem pelo brilho. Você não brilhou.

— Há um campo abafando minha energia — disse Paulo, baixo. — Eu ainda vejo um pouco em você, meu filho.

André prendeu a respiração. Olhou de novo, dessa vez para os detalhes que tinha evitado: a inclinação da cabeça, o jeito de respirar antes de uma frase difícil, a pequena impaciência nos dedos. A juventude confundira tudo. A semelhança com ele próprio escondia o pai no lugar mais óbvio.

— Me encontrou, André?

Ele demorou a responder. Na memória, Paulo estava no hospital, sem cor, já perto da morte. Depois veio o homem de reuniões, de faltas, de cobranças e de presentes caros que chegavam no lugar de desculpas. Agora tinha quase a idade do próprio filho.

— Demorei para decidir se devia vir — continuou Paulo. — Primeiro eu não tinha certeza. Depois ouvi sobre o outro dragão. Eva. Quando soube o nome, não tive mais dúvida. Tentei vê-lo antes, mas você estava cercado por aquela multidão. Quando cheguei perto, levaram você para conter Moisés. Depois achei melhor deixá-lo ter uma vida tranquila sem a figura do seu carcereiro por perto.

André riu sem humor.

— Minha vida nunca foi tranquila. Pelo que pude perceber, ela também não tem esse projeto. E abandone esse discurso de vítima antes que eu perca a fome. Você o usava para me empurrar culpa quando eu tinha quinze anos. Funcionou algumas vezes depois, admito. Hoje, não.

— Você ficou preparado para tudo. Tenho orgulho disso.

— Não ouse transformar o estrago em método. Eu poderia ter me tornado forte com um pai que não me tratasse como projeto, investimento ou objeto de correção. Se sente orgulho, sinta apesar de você.

Talheres e passos continuaram soando nas outras mesas. Paulo baixou os olhos.

— Você tem razão — disse Paulo. — Eu precisava ouvir isso.

— Não. Você precisava chegar até essa frase para pedir alguma coisa. Então peça.

Paulo ergueu o rosto. A boca tremia, mas os olhos procuravam os cantos do restaurante, os sensores, as plantas, a equipe parada perto do corredor.

— Preciso que me mate.

André não reagiu de imediato.

— Por que você pediria a morte em um planeta de paz burocrática? Imaginei que Rock fosse seu paraíso particular.

— Eu trouxe vícios de outras vidas — disse Paulo. — Poder, mando, dinheiro, deferência. Aqui eu era parte de uma estrutura, nunca acima dela. Fiquei doente de mim mesmo. Virei pária. Cumpri compromissos, gastei os pontos que restavam e comprei o direito de chegar até você. Segundo os sábios daqui, uma morte pelas mãos de alguém muito poderoso aumenta a chance de uma próxima vida em lugar melhor.

André afastou a cadeira alguns centímetros.

— O senhor deveria me conhecer melhor. Eu dificilmente mataria você por uma causa nobre. Por uma fuga egoísta, menos ainda. Se precisa de tutor, intervenção, casa menor, agenda assistida, seja lá qual for a punição burocrática daqui, eu posso tentar ajudar.

Paulo inclinou-se sobre a mesa.

— André, escute. Eu tentei avisar de outro jeito. Não consegui.

A voz dele mudou. Perdeu a camada ensaiada. Ficou rápida, fina, apertada.

— Fui capturado por alguém poderoso que procura você. Continue normal. Não olhe para cima. Não sei quanto nos ouvem. Disseram que estão com Eva. Usaram meu nome, minha ficha, meu pedido de encontro. Eu não sabia como avisar. Vão atacar a qualquer momento. Me mate, por favor. Não deixe que me levem de novo.

André manteve as mãos sobre a mesa. Cada músculo do corpo quis levantar. Ele segurou. O restaurante continuava igual, bonito, controlado. Só então reparou que a equipe havia sumido das laterais. As plantas tremiam sem vento. Nas galerias superiores, sombras se deslocavam por trás dos vidros.

— Estão vendo? — perguntou André, quase sem mover a boca.

— De todos os lados.

O primeiro espadachim caiu do andar superior com a lâmina já descendo.

André puxou o ar em torno dele e trouxe o corpo do atacante para a própria mão. O homem perdeu o equilíbrio no meio do salto. A espada escapou. André a tomou pelo cabo, girou com a cadeira ainda atrás das pernas e cortou a cabeça do espadachim antes que os pés dele tocassem o chão. O corpo desapareceu em partículas sobre a mesa, deixando a lâmina limpa demais para o que acabara de fazer.

No mesmo movimento, André atravessou o peito de Paulo.

O pai segurou o punho da espada com as duas mãos. Não para impedir. Para firmar o golpe. O rosto perdeu dor antes de perder forma.

— Obrigado — balbuciou.

Paulo Azevedo desapareceu, e os espadachins desceram em massa das galerias.

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