Sangue Puro
Mais de um século havia passado desde que a luz de Memento matara André e os vampiros em Fóster, levando-os a renascer em Kimmer.
A rua do palco estava vazia.
O cenário imitava uma cidade antiga, de esquinas curvas, luminárias altas e fachadas estreitas demais para abrigar qualquer vida confortável. O frio da noite entrava por frestas falsas, mas a jovem em cena tremia com competência. Pele dourada, vestido curto cor-de-rosa, cabelos loiros arrepiados pelo vento artificial. Ela caminhava para casa sem encontrar a própria rua, olhando para trás a cada ruído, ouvindo o coração crescer dentro do peito até ocupar a casa de espetáculos inteira.
Uma sombra atravessou suas costas.
Ela se virou. Nada.
A sombra passou pela frente.
A plateia permaneceu em silêncio absoluto. Em Kimmer, vampiros sabiam apreciar fome encenada. Conheciam o ritmo de uma caça, a delicadeza do medo, a crueldade de adiar um golpe já decidido. A atriz apertou o passo, quase correndo, e as esquinas do cenário se moveram discretamente para fazê-la andar em círculo. Quando o desespero alcançou seu rosto, um homem surgiu diante dela.
— Jovem, este horário é perigoso para alguém tão frágil andar sozinha. A cidade costuma ser tranquila, mas deve ter ouvido as notícias. Animais selvagens estão soltos. Pessoas foram destroçadas. Estou indo para outro lado, mas posso acompanhá-la até sua casa.
Ele tinha pele muito clara, traços elegantes e uma voz grave o bastante para parecer proteção. A jovem levou a mão ao peito.
— Obrigada. Não quero incomodar. Mas, mesmo sem conhecê-lo, sua companhia me acalma. Eu já quase não sabia onde estava.
Ela sorriu. A plateia respirou junto.
Por trás dela, o homem também sorriu. As presas surgiram devagar, longas, teatrais, brilhando na pouca luz.
— Você jura que os vampiros eram retratados assim no seu planeta de origem? — perguntou Carmilla.
André estava ao lado dela, num camarote suspenso reservado aos soberanos. Usava preto dos pés ao pescoço, tecido justo, capa escura e uma coroa discreta, igual à de Carmilla, ouro fino com pequenas pedras. Seu corpo trazia músculos mais definidos do que em qualquer vida anterior, mas a pele guardava a frieza dos mortos. Carmilla, em vermelho, pertencia àquela casa de espetáculos: cabelo escuro, rosto fino, pele quase transparente, botas altas e a elegância de quem governava sem precisar levantar a voz.
— Juro — disse André. — Dei várias ideias de cenas, mas o público adora esse clichê. O vampiro não vai direto ao sangue. Ele cerca, seduz, assusta, faz a vítima querer fugir e ficar ao mesmo tempo. Na Terra, também gostavam desse tipo de fantasia sobre vocês.
— Sobre nós — corrigiu ela.
André aceitou com um sorriso pequeno. Ainda havia momentos em que a palavra vampiro lhe batia por fora.
Xergog entrou sem olhar para o palco. Era líder de Borguenhood, capital do planeta, e chamava a si próprio de guardião do rei com uma seriedade que André já desistira de combater. Usava roupa parecida com a dele, mas cheia de símbolos e detalhes azuis na capa.
— Majestades, o Conde Orlok chegou.
Carmilla não desviou os olhos da cena.
— Faça-o entrar.
André se inclinou para ela.
— Última chance de desistir.
— Já passamos desse ponto.
O camarote fechou-se para o teatro. As paredes deslizaram, a luz mudou, e a estrutura girou até virar uma sala privada dentro do Castelo do Rei. Kimmer tinha construções assim: edifícios que fingiam ser lugares separados, quando pertenciam todos ao mesmo corpo gigantesco de pedra, metal e sombra.
Orlok entrou curvando-se.
— Majestades. A honra é minha, sempre. Perdoem interromper a peça.
— Conde Orlok, você sabe que é bem-vindo — disse Carmilla. — E o assunto merece a interrupção. Decidimos que chegou a hora de incluir os vampiros da geração Beta na Grande Reforma.
O conde ficou imóvel.
Orlok carregava sinais de glória antiga. Ombros largos, corpo magro, calvície assumida, coluna levemente curva. O rosto expressivo trazia rugas e cicatrizes que ele tratava com orgulho, cada uma ligada a uma história que contava melhor depois da terceira taça. A pele muito escura era rara entre os tradicionais e, naquele povo, símbolo de linhagem forte. Ele podia caminhar sob qualquer sol de Kimmer, enquanto muitos vampiros ainda dependiam de sombra mesmo depois de receberem sangue de dragão.
— Minha rainha — disse ele —, desde a ascensão do rei André, temos um acordo. A mudança estrutural para a condição dracônica alcançaria as cidades novas, as comunidades abertas, os que escolheram entrar na Reforma. Mergowhood ficaria fora. A cidade clássica abriga os primeiros vampiros. Posso ter boa vontade, e tenho, mas os tradicionalistas não permitiriam isso sem guerra.
— A guerra já está chegando — respondeu André.
Orlok voltou-se para ele.
— Entre nós?
— Contra algo maior. Os universos vão convergir, e esse contato vai quebrar as bases que sustentam Kimmer. Não falo de morte para vampiros. Falo do fim da nossa forma de existir.
Carmilla apoiou a mão na mesa. André conhecia o aviso: manter a conversa longe do pânico.
— A chegada dos vampiros dracônicos serviu como preparação — disse ela. — Laura viu isso antes de todos nós acreditarmos. O que vem agora exige que a geração Beta sobreviva à própria tradição.
Orlok respirou fundo.
— Os puros vão ouvir ameaça onde vocês dizem proteção.
— Eles sempre ouviram ameaça quando alguém pronunciou futuro — disse André.
A frase saiu mais dura do que ele pretendia. Orlok não se ofendeu. Tinha sido inimigo, aliado, adversário de mesa e defensor improvável do rei em momentos em que André ainda nem sabia governar a própria força.
— Majestade, confio em você desde a primeira vez que lutou por mim diante dos meus, quando eu mesmo mal merecia sua intervenção. Estarei ao seu lado. Mas sou apenas uma voz. Respeitada, sim. Suficiente, nunca.
— Leve quem puder confiar para Carikhood — disse André. — O povoado precisará de proteção. Quanto aos tradicionalistas, Carmilla e eu vamos lidar com eles.
Orlok entendeu a ordem e o risco. Curvou-se, deu dois passos para trás e saiu.
Quando a porta se fechou, André olhou para Carmilla.
— Laura chega a tempo?
— Ela diz que sim.
— Diz ou vê?
Carmilla demorou a responder. Laura tinha sustentado Kimmer com visões que quase ninguém suportava ouvir. Décadas atrás, a primeira anunciara a chegada de um novo rei e de vampiros que se transformariam em dragões. Por muito tempo, chamaram aquilo de loucura. Carmilla permaneceu ao lado dela quando a corte preferia afastar os olhos.
— Agora ela vê apenas nossa vitória — disse Carmilla. — As outras linhas sumiram.
André tentou se agarrar a isso.
Laura fora seu primeiro amor na Terra. Em Kimmer, ela renascera em outro corpo, vivera longe dele e construíra com Carmilla uma relação que a corte preferia tratar em silêncio. André aprendera a amá-la sem exigir que o reencontro devolvesse o passado.
Agora Laura estava fora do planeta, trazendo de volta o antigo rei morto.
A visão dizia que somente ele convenceria a geração Beta a aceitar a Grande Reforma sem romper Kimmer em guerra aberta. Em outra linha, os universos convergiam e seres desconhecidos aprisionavam todos os vampiros. Durante anos, as duas visões se alternaram. Prisão. Vitória. Prisão. Vitória. Desde a viagem, segundo Carmilla, Laura só enxergava a vitória.
— Ela conseguiu ver detalhes novos? — perguntou André.
— Não. Mas continua se comunicando comigo. A nave voltou ao eixo de Kimmer. Ela está com ele.
André fechou os olhos por um instante. Laura tinha o poder de vincular a mente a pessoas de grande afinidade. Com Carmilla, o laço se manteve forte mesmo à distância. Com André, nunca surgiu. Ele aprendera a conviver com isso.
— Que assim seja.
Carmilla tocou sua mão.
O camarote voltou a se abrir para o teatro. No palco, a jovem já oferecia o pescoço ao vampiro com uma entrega que destruía qualquer leitura de inocência. O ator hesitava, dominado por desejo e cerimônia. Ela levou os dedos aos cabelos dele.
— Quero ser completamente sua — dizia a personagem.
O vampiro fincou as presas. O sangue jorrou em arco exagerado, belo e obsceno, enquanto a plateia observava em concentração religiosa. A vítima gemia, arranhava, puxava o corpo dele para mais perto. Terror e prazer encenados com a precisão de uma cultura que fizera do apetite uma arte.
Carmilla assistiu em silêncio por alguns segundos.
— Olhando assim, dá certa saudade.
André sorriu sem jeito.
— De morder pessoas no palco?
— De desejar sem assembleia, reforma, profecia e fim de universo entre uma coisa e outra.
Ele não respondeu. O palco continuou brilhando em vermelho. Sangue puro, pensou André, era o nome que os antigos davam ao medo de mudar.