Vida Passada Jornada do Sangue · Capítulo 19 de 49
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Vida Passada

A espada estava na mão de André antes de ele entender o próprio movimento.

O primeiro atacante ainda se desfazia sobre a mesa, e Paulo Azevedo acabava de sumir com a palavra obrigado presa na boca, quando os outros espadachins desceram das galerias. Vieram por cima, pelos lados, pelas passarelas internas do restaurante, dezenas ao mesmo tempo, com lâminas curvas e armaduras leves que absorviam impacto sem atrapalhar salto. André havia feito aulas de defesa pessoal na vida adulta, praticara karatê durante anos quando criança, apanhara e batera o suficiente para conhecer distância, impulso e medo. Nada disso explicava o que aconteceu quando a segunda lâmina veio em direção ao seu pescoço.

Ele girou o punho, baixou o ombro e cortou.

O corpo soube antes da memória. O golpe dispensou beleza e acertou. A lâmina entrou no espaço certo, com o peso certo, e André já estava fora da linha do próximo ataque quando o inimigo se desfez em partículas. A cadeira caiu atrás dele. A mesa virou, pratos e copos se quebraram no piso, e três espadachins ocuparam o lugar onde Paulo estivera sentado. André avançou entre eles.

Uma segunda espada veio parar em sua mão esquerda.

Não lembrava de tê-la tomado. Sentiu apenas a diferença de peso: menor, mais rápida, boa para fechar a guarda e abrir caminho entre corpos próximos. A primeira lâmina alongava o braço. A segunda protegia as costelas. Quando dois homens atacaram juntos, André deixou a maior receber o golpe de cima e usou a menor para cortar por baixo. O movimento trouxe uma imagem que não pertencia ao restaurante.

Noite.

Chuva forte.

Madeira escura sob os pés. Uma rua estreita, telhados baixos, lanternas apagadas pelo vento. Sangue correndo junto da água, espalhando vermelho pela lama. Sangue pesado, quente, insistente, muito diferente do fluido limpo que virava partícula em Rock. Os corpos ficavam. A morte cheirava.

André piscou e voltou ao restaurante.

Um espadachim saltou sobre a mesa virada. André abriu a guarda dele com a espada longa e bateu com o cabo da menor contra a garganta. O homem caiu de joelhos. O corte seguinte o matou. Outro veio pela esquerda, outro pela direita. André atravessou os dois sem pensar nos nomes das técnicas. Os pés trabalhavam sozinhos, curtos, firmes, deslizando no piso molhado por água, vinho e restos de comida. Cada golpe puxava uma lembrança nova.

Roupas antigas. Um tecido preso ao corpo para não atrapalhar a luta. Um pátio de treino. Um homem mais velho corrigindo a posição dos pés sem paciência. Decisões políticas assinadas em salas silenciosas e pagas nas ruas por gente que nunca tocara no poder. Vingança pronunciada com a máscara de justiça. A lâmina erguida contra alguém que implorava tarde demais.

André não sabia se via uma vida inteira ou pedaços arrancados dela pelo atrito do metal.

Os espadachins também perceberam a mudança. No início atacavam em massa, confiando no número. Depois recuaram alguns passos, procurando ângulos, esperando que ele se cansasse, tentando cercá-lo sem se oferecer ao corte seguinte. André respirava com dificuldade, mas desperdiçava cada vez menos movimento. A espada não fazia rodeios. Mão, garganta, joelho, ombro, coração. Quem chegava perto demais sumia.

Aquilo passava da lembrança de ter lutado.

Uma parte dele já havia sido moldada pela espada antes de André Azevedo nascer, antes de Paulo Azevedo morrer em uma reunião, antes de Éden, antes do Cálice, antes dos dragões. Essa parte acordava com calma demais para uma emboscada. André sentiu o nome subir dentro do crânio, primeiro como som estrangeiro, depois como reconhecimento.

Musashi.

Miyamoto Musashi.

André sentiu o peso de ter sido outra pessoa na Terra. A própria origem recuava para antes do pai, dos doze, dos dragões e das profecias. Havia vidas sob a pele, e uma delas sabia matar com uma serenidade que o assustou mais do que os inimigos.

O número de atacantes diminuiu. Alguns corpos se desfaziam antes de tocar o chão; outros eram puxados por algum mecanismo de retirada, deixando apenas o eco do golpe. A sala, antes impecável, virara um campo de vidro quebrado, madeira partida e marcas de lâmina nas colunas. André sentiu movimento do lado de fora. Pelas portas principais, sombras se organizavam. Tinham entendido que o espaço interno favorecia o homem com duas espadas e preparavam outra formação na saída.

Ele saiu mesmo assim.

A porta principal se abriu com um chute. O sol de Rock bateu em seu rosto. Do lado de fora, no terraço suspenso do restaurante, novos espadachins cercavam a passagem em semicírculo. As lâminas avançaram de várias direções. André abaixou-se, deixou uma espada passar sobre a cabeça, cortou o braço que a segurava, girou para longe de uma estocada e empurrou o corpo de um atacante contra dois que vinham atrás. O terraço amplo retirava a vantagem da parede, mas dava espaço ao passo antigo dentro dele. A vida de Musashi conhecia pátios, pontes, lama, madeira. Conhecia homens acreditando que número substituía coragem.

— Parem!

A voz interrompeu o ataque inteiro.

Os espadachins obedeceram sem hesitar. André manteve as duas espadas erguidas e procurou a origem da ordem. Zeus vinha pelo terraço com o cajado de Hagar na mão, acompanhado por Afrodite. Ele mantinha o cajado entre os dois e não lhe dava as costas. Os contornos ao redor dela perdiam nitidez, obrigando André a fazer força para desviar os olhos.

André forçou os olhos para Zeus.

O traidor dos doze vinha irritado, sem medo visível. Trazia no rosto a impaciência de quem considerava a cena inteira uma perda de tempo.

— Uma vergonha — disse Zeus, olhando os espadachins. — Centenas de guerreiros de nível três incapazes de capturar um homem que acabou de acordar para uma espada. Afrodite, eu disse que colocar pai no meio, capangas, restaurante, essa dramaturgia toda, era desperdício.

— Você reclamaria de qualquer plano que não começasse com você entrando pela porta e exigindo adoração — respondeu ela.

Zeus ignorou. Tocou o cajado no chão.

O corpo de André abriu os braços contra a própria vontade. As espadas caíram. Atrás dele, uma árvore ornamental do terraço cresceu de forma violenta, engrossando o tronco, esticando galhos, dobrando fibras em torno das costas e dos punhos. Cipós saíram da casca e prenderam seus braços, peito e tornozelos. O tronco arrancou-se do canteiro com raízes expostas e o ergueu acima do piso, girando devagar no ar.

André tentou chamar fogo, ar, qualquer coisa. Nada respondeu. Zeus o mantinha dentro de uma rede de comando simples e humilhante.

— Patético — disse Zeus. — Descendente meu, profetizado por gente que já devia ter aprendido a mentir melhor, e incapaz de manipular um único elemento contra mim. Veja só. Uma árvore. Bastou uma árvore.

André mordeu a parte interna da boca. O gosto de sangue trouxe calor ao peito, mas ainda pouco.

— Onde está Eva?

Zeus arqueou uma sobrancelha. Afrodite sorriu.

— A irmã? — perguntou Zeus. — Foi um recurso para convencer seu pai. Ideia dela. Não sabemos onde Eva está. No momento, também não me importa.

Eva não estava com eles. O alívio veio misturado à raiva: tinham usado e matado seu pai por uma ameaça falsa.

Zeus ergueu o cajado para abrir passagem.

— Poseidon nos aguarda.

André riu. Primeiro um sopro. Depois um riso curto e dolorido, pendurado no tronco.

Afrodite virou-se para ele, ofendida de verdade.

— Qual é a graça?

— Vocês. A Terra inventou histórias com esses nomes. Zeus, Poseidon, Afrodite. Vendo vocês agora, dá para dizer que a imaginação foi generosa e cruel nos lugares errados.

Afrodite olhou para Zeus.

— O que escreveram sobre mim?

— Nada à altura — respondeu Zeus rápido demais.

— Essa resposta saiu rápida demais. Você mentiu ou se poupou?

André continuou antes que Zeus respondesse.

— Sobre você, eles pelo menos acertaram a parte de ser impossível olhar sem perder alguns segundos de inteligência. Sobre ele, bem... transformaram muita coisa em romance de poder e traição. Alguns detalhes são constrangedores.

Zeus apertou o cajado. Afrodite deu um passo em sua direção e esqueceu André por um instante.

— O que você contou de mim nas suas passagens pela Terra? — perguntou ela.

— Eu não fiquei escrevendo poemas — disse Zeus.

— Claro. Você só destrói povos, prende aliados e depois chama silêncio de grandeza.

Enquanto discutiam, André forçou os punhos contra os cipós. A madeira rangeu, mas não cedeu. Afrodite nem olhou para ele quando levantou dois dedos.

Os pulsos de André se abriram.

O corte não chegava fundo o bastante para matar. Tinha precisão suficiente para fazer o sangue saltar. O calor que permanecia nele desde Rock respondeu à dor. Escamas começaram sob a pele antes que Zeus percebesse.

O tronco explodiu.

André caiu de pé, mas a humanidade do corpo já cedia. Os ombros cresceram, a coluna arqueou, os ossos empurraram carne e luz para fora. Zeus avançou com um soco carregado de eletricidade. O golpe encontrou a cabeça de um dragão branco em formação. As asas abriram-se contra o terraço, destruindo guarda-corpos, mesas externas e parte da fachada. Os espadachins fugiram ou foram lançados para trás pelo vento.

Zeus parou por uma fração.

Foi suficiente.

O dragão abriu a boca. Fogo azul começou a se formar na garganta, mas André não o lançou. Mergulhou para frente, enorme demais para o espaço, rápido demais para o susto de Zeus, e engoliu Zeus e Afrodite juntos.

Por alguns segundos, o terraço inteiro ficou sem som.

Depois o dragão urrou.

A dor veio de dentro. Fogo e eletricidade rasgaram o ventre dele em linhas metálicas. Zeus se transformou lá dentro, assumindo também forma dracônica, garras revestidas por metal e energia cortando a carne que o prendia. O corpo branco de André tentou fechar-se, tentou queimar, tentou esmagar. Não conseguiu. Zeus abriu caminho por dentro, e a combinação de fogo, eletricidade e lâmina viva atravessou o dragão até partir órgãos, ossos e luz.

André morreu antes de tocar o chão.

O corpo desapareceu em partículas brancas. Sangue e fragmentos de matéria dracônica ainda cobriam Zeus e Afrodite quando começaram a se desfazer. Zeus voltou à forma humana gritando de frustração. Tinha matado a caça outra vez.

Afrodite tirou uma porção viscosa do ombro com a ponta dos dedos. Pela primeira vez em muito tempo, demorou um pouco para recuperar a ironia.

— Um dragão — disse Zeus, andando em círculos. — O menino que mal suportava o cajado em Éden agora tem um dragão dentro dele.

— Ainda não aprendeu? — perguntou Afrodite. — Quando você decide que alguém é fraco, costuma parar de olhar.

Zeus virou-se para ela.

— Foi você quem cortou os pulsos dele.

— E você quem o prendeu com uma árvore para provar superioridade.

— Você sabia?

Afrodite limpou os dedos em uma folha do canteiro destruído.

— Eu suspeitei que havia algo no sangue. Queria ver a resposta.

Zeus ergueu o cajado, pronto para atacá-la. Ela não recuou.

— Controle-se — disse. — Ele já renasceu.

— Onde?

Afrodite fechou os olhos por um instante. O rastro de André surgia diferente agora: mais alto, mais raro, atravessado por uma energia de nível quatro e por marcas que não pertenciam apenas à Terra ou a Rock.

— Nível quatro — respondeu. — E vivo. Muito vivo.

Zeus respirou fundo, contendo a fúria por necessidade, não por calma.

— Sem joguinhos agora. Sem pai, sem capangas, sem restaurante. Vamos direto até ele.

Afrodite fez uma reverência lenta, numa provocação evidente.

— Claro, Zeus.

Ele abriu o portal. Ela passou logo depois, já calculando a próxima chance de arrancar o caminho das mãos dele.

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