A Chuva de Meteoros Jornada do Sangue · Capítulo 13 de 49
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A Chuva de Meteoros

O céu de Vulcano incendiou antes que alguém decidisse obedecer a Myrddin.

A primeira pedra não vinha de pargo nem de fariseu. Cruzou a atmosfera deixando um risco grosso de fogo, muito acima das montanhas, e explodiu longe o bastante para ninguém morrer no impacto inicial. O chão, porém, recebeu o golpe. A vibração subiu pelos pés, atravessou joelhos, dentes, costelas, e fez as fendas abertas pelo cálice cuspirem lava em jatos irregulares. Depois veio a segunda pedra. Depois outra. Logo, eram tantas que ninguém conseguia contá-las.

O campo de batalha se desfez.

Pargos e fariseus correram para lados diferentes, mas o planeta não oferecia mais lado seguro. Magos ergueram barreiras de fogo, ar e pedra; algumas seguraram fragmentos menores por segundos, outras se partiram sobre as cabeças de quem as sustentava. Eva, André e Moisés tentaram mover os elementos sem compreender ainda o alcance dos dragões dentro deles. Eva puxou calor para longe de um grupo de crianças e quase caiu quando o dragão vermelho respondeu com mais força do que sua vontade suportava. Moisés desviou uma chuva de rochas pequenas para o vale, abrindo crateras no próprio caminho por onde os refugiados tentavam passar. André levantou a mão e conteve uma pedra inteira no alto, branca de calor nas bordas, mas a energia que segurava o meteoro tremia junto com o braço.

Carl procurou o cálice no chão e o afastou com o pé, receoso de tocá-lo outra vez. A peça rolou, bateu numa rachadura e ficou presa ali, suja de terra vermelha.

— Agora! — gritou Myrddin. A voz dele quase se perdeu no estrondo seguinte. — Tem que ser agora!

Ambrósio olhou para o céu, depois para os próprios soldados. Outra pedra explodiu atrás das montanhas. Myrddin estendeu a mão. O líder dos pargos hesitou antes de segurar a mão do inimigo que também era parte dele.

Os dragões reagiram antes dos três escolhidos entenderem a forma do ritual. O vermelho saiu de Eva em uma labareda larga, sem abandoná-la por completo; o preto se desenrolou de Moisés com o som de escamas raspando no ar; o branco emergiu de André trazendo consigo um frio luminoso no centro da chama. As três criaturas cuspiram fogo sobre Myrddin e Ambrósio. Não houve grito. Os dois corpos foram consumidos juntos até não restar nenhum deles.

No lugar dos dois surgiu um homem que André nunca tinha visto.

Merlin abriu os olhos no meio da chuva de meteoros. Flutuava acima do campo quando ergueu os braços. As pedras que vinham do espaço reduziram a velocidade, uma por uma, até ficarem presas no céu, ardendo sem cair. O planeta inteiro ficou sob uma abóbada de fogo suspenso.

Eva respirou com dificuldade. André desceu ao lado dela. Moisés manteve as asas abertas, pronto para atacar se a união recém-criada se voltasse contra eles. Carl ficou atrás, a mão na própria perna, sentindo a inutilidade de qualquer corrida diante de um céu parado.

Merlin aproximou-se.

— Eu não disse tudo — falou. Na voz, André reconheceu Myrddin e Ambrósio. — O núcleo precisa ser destruído. As jaulas de calor não podem ser abertas por fora. Enquanto Vulcano existir, todos que morrerem aqui continuarão presos ao mecanismo que nós criamos.

— Você está falando de matar todo mundo — disse André.

— Estou falando de libertar todos os mortos e todos os vivos ao mesmo tempo.

— Isso é só outro nome para matar todo mundo — respondeu Eva.

Merlin demorou a responder. A chuva de meteoros continuava parada sobre eles, e cada pedra segurada no alto deixava o ar mais pesado, mais vermelho, mais difícil de respirar.

— A morte neste Universo não termina no corpo — disse ele. — Vocês já sabem disso pelo modo mais brutal. Vulcano, porém, interrompe a passagem. O núcleo guarda as consciências presas e alimenta a guerra com cada troca de mortos. Se o núcleo cair, o planeta acaba, mas a prisão também.

Moisés avançou um passo.

— E por que devemos acreditar em você?

— Não devem. Devem olhar.

Merlin abriu a mão. Uma das fendas no chão se iluminou até revelar sombras humanas comprimidas em compartimentos de calor. Pessoas que já tinham morrido continuavam ali, empilhadas na luz ardente do centro de Vulcano, esperando que a morte de um inimigo comprasse a liberdade de uma delas. André sentiu o estômago virar. Eva apertou seu braço. Moisés olhou de uma extremidade da fenda à outra, mas não conseguiu enxergar o fim da prisão.

Uma pedra escapou do controle de Merlin e caiu nas montanhas. O impacto abriu uma coluna de lava que subiu até cobrir metade do horizonte.

— Não tenho tempo para convencer vocês melhor do que isso — disse Merlin.

Ele recolheu todos os meteoros suspensos em uma única massa de fogo, metal, ar e eletricidade. A estrutura cresceu acima dele, alimentada pela própria catástrofe que deveria impedir. Depois virou-se para as fendas por onde Moisés havia trazido os casulos.

André entendeu o que Merlin faria.

Eva correu até o cálice, arrancou-o da rachadura e voltou com ele entre as mãos. A peça queimava, mas não a expulsava. Ela estendeu o objeto para André e Moisés.

— Se isto trouxe a gente até aqui, faz alguma coisa.

Os três tocaram o cálice.

Nada aconteceu.

O metal permaneceu frio em alguns pontos e insuportavelmente quente em outros. André pensou em Zeus, em Afrodite e na promessa de salvação que sempre trazia uma condição imposta por outra pessoa. Pensou em Paulo no hospital. Pensou em Eva, ali, ainda viva. Podiam chamar a morte de passagem quantas vezes quisessem. Ele continuava sem aceitá-la.

Merlin lançou a massa contra o núcleo.

O primeiro impacto não destruiu Vulcano. Abriu o planeta.

A terra partiu em linhas enormes, iluminadas por baixo. Cidades distantes sumiram atrás de paredes de poeira. Barreiras erguidas por magos se desfizeram, e os povos que haviam lutado até pouco antes começaram a se agarrar uns aos outros sem perguntar lado, cor, uniforme ou culpa. Algumas pessoas correram. Outras ajoelharam. Muitas ficaram paradas, sem ter para onde ir.

Carl encontrou uma criança caída perto de uma pedra, levantou-a no colo e a segurou contra o peito.

O calor tomou o campo.

Eva encostou a testa no ombro de André. Moisés fechou as asas ao redor dos dois. André segurou a irmã com toda a força. O dragão branco se agitou dentro dele quando a luz os alcançou.

Vulcano explodiu.

André abriu os olhos e se levantou de uma vez.

— Ah, finalmente — disse uma voz aguda demais perto do rosto dele. — Você foi um dos últimos recém-chegados a despertar. Eu já estava começando a organizar explicações alternativas, e nenhuma delas era boa.

André tentou dar um passo e quase caiu. O corpo era jovem e poderoso, mas o chão o puxava com uma força à qual ainda não estava acostumado. Um rapaz baixo, de olhos enormes e cabelo cortado em linhas irregulares, segurou-o pelo braço com habilidade ensaiada e o empurrou para uma poltrona moldada em curva, onde as costas de André se encaixaram sem folga.

— Calma. A adaptação física é rápida, a cabeça demora mais. Seu corpo sabe onde está antes de você saber, o que é inconveniente para conversas, quedas e primeiras impressões. Abra a boca.

O rapaz enfiou uma fruta pálida na boca de André.

André mastigou por reflexo e quase engasgou.

— Quem é você? — conseguiu perguntar, com a língua pesada.

— Somas. Equipe de boas-vindas. Sou responsável por você desde que o encontrei. Eu gostava mais quando recebia pessoas que não atraíam multidões.

Somas falava rápido, olhando para a porta, para o teto, para um painel luminoso na parede e de volta para André.

— Meu nome é André.

— Sim, eu sei. Isso raramente ajuda, mas é bom quando a pessoa confirma.

— Onde eu estou?

— Rock. Planeta de nível três, especializado em fogo e eletricidade, com tecnologia suficiente para monitorar clima, abalos, chegadas em massa, quedas de corpos, variações no campo energético e visitantes capazes de causar devoção espontânea. Nós vivemos em média uns duzentos anos, dependemos de comida e água, temos um sistema social razoável, muitas regras, alguns vícios administrativos e uma população inteira que decidiu que você é notícia antes mesmo de você saber o nome do planeta.

André levou a mão ao rosto. A explosão ainda estava atrás dos olhos. Vulcano, Eva, Moisés, Carl, Merlin, a criança no colo de Carl, a asa preta fechada sobre seu corpo. Tudo retornava em blocos sem ordem.

— Eva e Moisés.

Somas parou de falar por tempo suficiente para a sala ficar séria.

— Três dragões foram registrados na destruição de Vulcano. Dois chegaram a Rock. Você e o homem chamado Moisés. A mulher ainda não apareceu nos registros daqui.

André tentou levantar outra vez. A poltrona segurou parte do movimento, e a gravidade fez o resto. Somas empurrou-o de volta sem esforço.

— Não, não, não. Você vai cair, eu vou preencher relatório, alguém vai perguntar por que deixei um dragão recém-chegado quebrar o rosto antes de receber alimentação básica, e essa conversa vai piorar para nós dois.

— Onde está Moisés?

— No Norte. Região desabitada. Fria, instável, péssima para visitas, excelente para alguém que quer procurar sozinho uma pessoa que os registros ainda não localizaram neste planeta. Ele se isolou assim que conseguiu se mover direito. Não reagiu bem ao desaparecimento dela.

— Então eu vou para lá.

— Vai, mas depois de comer.

Somas apertou um botão no braço da poltrona. Uma mesa redonda subiu do chão, já coberta por pratos, tigelas e frutos de cores que André não sabia nomear. O cheiro despertou uma fome imediata.

— Tudo vegetal — explicou Somas, animando-se de novo. — Nada sintético. Os alimentos aqui não servem apenas para sustentar o corpo. Alguns ajudam o cérebro, outros estabilizam energia, outros regulam humor. O portim que enfiei na sua boca não tem gosto, porque seria rude começar com uma experiência gustativa violenta enquanto você ainda decidia se estava vivo. Esses aqui têm sabor.

André comeu.

O primeiro fruto era doce e espalhou calor pelo peito. O segundo tinha textura de massa crua e deixou os dedos vibrando. Um filamento verde, que Somas chamou de proar, afastou o peso do corpo. Em outro prato, pedaços azulados trouxeram uma tristeza tão súbita que André largou a tigela.

— Croim — disse Somas, puxando o prato para longe. — Péssima escolha minha. Muito nutritivo, muito depressivo. Você fez a cara de quem acabou de descobrir que não pertence a lugar nenhum, o que pode ser verdade, mas não precisa ser resolvido durante a refeição.

André olhou para ele.

— Você fala demais.

— Sim. É uma técnica de sobrevivência.

André quase riu. Logo voltou a pensar em Eva.

— Eu preciso encontrar Moisés.

— Eu sei. E vou com você. Regra local: recém-chegado sem tutor fora da área de adaptação é considerado foragido, especialmente quando causa vigília popular. Além disso, eu não voo. Se você voar, terá que me carregar ou esperar transporte. Espero que escolha transporte. Tenho ossos a preservar.

André levantou mais devagar. O corpo aceitou melhor. A porta diante dele era redonda e alta, semelhante a uma janela feita para gente que não tinha medo de queda. Quando se abriu, a luz de Rock invadiu a sala.

Do lado de fora, havia uma multidão.

Pessoas sentadas em plataformas, deitadas em pequenas cabanas, agrupadas sob toldos, penduradas em estruturas metálicas e alinhadas nas passagens começaram a se ajoelhar assim que André apareceu. O movimento se espalhou em ondas silenciosas. Ninguém gritou. Ninguém correu. O silêncio tornou a cena ainda mais desconcertante.

André parou no limiar, sem saber se recuava, falava ou procurava uma saída lateral.

Somas surgiu ao lado dele, olhou para a multidão e perdeu, por um instante, toda a alegria nervosa.

— Eu devia ter preparado um discurso — disse baixo. — Ou uma fuga.

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