Um Falso Deus Jornada do Sangue · Capítulo 7 de 49
Obra Menu

Um Falso Deus

Hagar levou André para fora da construção quando os outros começaram a desmontar a reunião em tarefas. O deserto recebia a noite de um jeito estranho. A luz dos dois sóis diminuía sem desaparecer por completo, empurrada para o horizonte em faixas vermelhas e douradas. Lua alguma ocupava o céu, ao menos nenhuma que André conseguisse reconhecer. A areia guardava calor suficiente para atravessar a planta dos pés, e o vento vinha em rajadas baixas, cheirando a metal e pedra molhada.

— Vaes ia me explicar o Universo — disse André.

— Vai. Mas antes eu preciso saber de que modo você pensa.

— E andar no deserto ajuda?

— Andar ajuda quase sempre. O corpo aceita melhor certas informações quando está ocupado com outra coisa.

André olhou para ele de lado. Hagar caminhava sem esforço, cajado na mão direita, armadura clara marcada por escamas e plumas que não rangiam nem acumulavam areia. Parecia tranquilo, apesar das decisões que acabara de distribuir sobre a vida dos dois recém-chegados.

— Você lê pensamentos também?

— Leio quando preciso.

— Isso significa sim.

— Significa que, neste momento, seus pensamentos gritam. Com tempo, você aprende a fechar algumas portas.

André não gostou da resposta. Contou os próprios passos, concentrou-se no contato dos pés com a areia e tentou não formar frase alguma. Hagar sorriu, e isso bastou para provar o fracasso.

— Você ainda procura transformar tudo em negociação — disse o velho.

André parou por meio segundo e voltou a andar.

— Ótimo. Até depois da morte eu continuo sendo auditado.

— Você pensou que a passagem de uma vida para outra funcionava por acaso. Depois corrigiu a ideia. Existe aleatoriedade, sim, mas também existem padrões: energia acumulada, mundo de origem, forma da morte, vínculos, interferências externas, matéria estranha no corpo, promessas feitas por seres que deveriam saber ficar calados.

— Krakor.

— Krakor, Zeus, eu, quase todos nós em algum momento.

Hagar enumerou as interferências e incluiu o próprio nome sem tentar se defender. André não sabia se aquilo era honestidade ou distância demais do que fizera.

— E vocês conseguem prever para onde alguém vai?

— Às vezes. Com margem de erro enorme.

— Então é aposta.

— Em parte. Reunimos padrões, erramos previsões e algumas vezes damos nomes grandiosos aos nossos erros.

Aquilo respondia menos do que André esperava. Seres capazes de atravessar mundos ainda discutiam lendas e profecias porque também não sabiam o que havia acima deles.

— Você acredita em Deus? — perguntou André.

Hagar demorou a responder.

— Acredito que existe algo fora do nosso alcance. Deus é uma das palavras usadas para esse vazio. Também acredito que alguém aprendeu a usar esse vazio contra mundos inteiros.

O vento subiu. À distância, a construção criada por Hagar ficou pequena, uma peça clara no meio da areia. André ainda via movimento perto dela: pontos de luz, corpos em armaduras, Krakor inclinado sobre o rapaz vivo, Dafa discutindo com Bel junto a uma parede que se abria e fechava.

— Você falou em falso Deus.

— Sim.

— Um dos doze?

— Se fosse um de nós, a busca já teria terminado em guerra.

André esperou. Hagar continuou andando.

— Procuramos por muito tempo. Alguns de nós procuram por Deus; outros procuram por quem finge ocupar esse lugar. Encontramos rastros em planetas diferentes: sonhos repetidos em povos sem contato, objetos que violavam a química local, aparições incompatíveis com o desenvolvimento de cada mundo, frases idênticas atravessando línguas que jamais se tocaram. O tipo de coisa que funda templos, guerras e famílias inteiras de sacerdotes.

— E a Terra?

Hagar respirou fundo.

— A Terra virou um exemplo perigoso. Zeus passou por lá rápido, de modo atabalhoado, e deixou mais marcas do que aceitava admitir. Um voo, fogo pela boca, algumas histórias mal contadas, relações físicas, descendentes. O suficiente para homens transformarem visita em culto e erro em linhagem sagrada. Depois vieram objetos, textos, interpretações, profecias. Nem tudo nasceu de Zeus. Essa é a parte que nos interessa.

André pensou em Paulo gastando fortunas com museus, artefatos e símbolos. Parte daquele teatro podia ter começado com uma intervenção real.

— Então alguém planta sinais.

— Planta, corrige, provoca, recolhe. Em vários planetas, os sinais terminaram numa comunidade isolada, numa guerra menor ou numa crença que envelheceu até virar canção. Em outros lugares, conduziram a objetos de passagem, linhagens, armas e mapas. Ainda não sabemos quais resultados eram pretendidos.

— E vocês chamam isso de falso Deus porque ele não aparece?

— Chamamos assim porque ele aceita o lugar de Deus sem assumir responsabilidade pelo que desperta.

Hagar parou. A areia mudou sob os pés deles, mais compacta, escura, cortada por veios brilhantes que acendiam e apagavam. André olhou para trás. A construção continuava distante, com uma distância errada, esticada demais para a caminhada curta que haviam feito.

— A profecia sobre você é antiga — disse Hagar. — Mais antiga do que minha chegada a Éden. No meu planeta de primeira vida, Nadovar, povos que ainda viviam em cavernas falavam de um garoto vindo aos sábios eternos para tocar o segredo da vida. Em outros mundos antigos, histórias semelhantes surgiram com diferenças pequenas demais para serem coincidência simples.

— Garoto.

— Sim.

— Eu tenho trinta anos.

— Para nós, isso é quase recém-nascido.

André soltou o ar pelo nariz.

— Confortável.

— A palavra garoto foi dos povos, não minha. O problema é outro. Essa profecia atravessou planetas antigos e depois sumiu nas gerações novas de mundos de primeira vida. A Terra recebeu mitos variados, barulhentos, cheios de evidências úteis para fé e ruins para investigação. A profecia central, porém, chegou até você por vias misturadas: sangue de Zeus, cálice, moeda, Paulo, Eva, Moisés, Negociador. Muitos caminhos para uma única sala.

André ouviu o nome da irmã e perdeu parte da atenção. A imagem dela na biblioteca interrompia qualquer arquitetura cósmica. Hagar percebeu.

— Você volta a ela sempre que alguma informação o ameaça.

— E me impede de aceitar essa conversa com calma.

— Bom. Calma demais em Éden costuma matar a urgência.

André encarou o velho.

— Vocês são tão poderosos quanto parecem?

Hagar ficou imóvel.

Hagar fixou os olhos nele. O céu escureceu depressa. A claridade horizontal sumiu, engolida por uma cor vermelha que começou no horizonte e subiu em placas, tingindo as nuvens. André sentiu o cheiro primeiro: ferro, sal, carne aberta. Uma gota caiu em seu braço.

Vermelha.

Depois outra. E outra. Em segundos, o deserto recebeu uma chuva grossa, quente, escura. André recuou, mas os pés afundaram na areia e ficaram presos. Tentou puxar a perna direita. A areia apertou o tornozelo. Tentou gritar, mas o sangue entrou na boca com gosto mineral e viscoso.

— Hagar!

O velho continuava a poucos metros, parado, seco sob a chuva impossível.

Raios caíram perto de André. O primeiro abriu uma cratera fumegante. O segundo partiu uma pedra ao meio. O terceiro atingiu o chão tão perto que a luz apagou o mundo por um instante. André forçou os joelhos, os ombros, as mãos. Nada soltava. A chuva pesava nos cílios. O ar rareava dentro dele.

Três bolas de fogo nasceram acima das nuvens. Vieram descendo devagar, enormes, com caudas brancas e bordas negras. O calor chegou primeiro. A pele de André ardeu. O corpo novo, limpo demais até aquele instante, começou a doer com violência. O peito apertou. O sangue entrava pelo nariz, pela boca, pelos olhos. Ele não pensou em empresa, em Paulo, em profecia. Pensou em Eva, e em que morrer outra vez sem saber onde ela estava seria ridículo.

Quando o fogo tocou sua pele, a dor explodiu.

André caiu de joelhos e abriu os olhos no deserto intacto.

Sem chuva. Sem sangue. Sem raios. Sem fogo. Hagar continuava diante dele, agora com a ponta do cajado apoiada na areia. André levou as mãos ao rosto. Secas. Tocou a boca. Nada. Mesmo assim, o corpo lembrava. A garganta ainda tentava expulsar sangue que nunca estivera ali.

— O que foi isso?

— O que você acha que foi?

— Uma ilusão.

— Seu corpo discorda.

— Então aconteceu.

— A areia discorda.

André olhou para o chão. Nenhuma marca de raio, nenhuma cratera, nenhum rastro de sangue. Só as pegadas dos dois.

— Você está brincando comigo.

— Estou ensinando.

— Isso tem diferença?

— Algumas vezes, pouca.

Hagar voltou a caminhar. André demorou dois passos para segui-lo, e odiou ter seguido. O velho mantinha o ritmo de passeio, mas alguma coisa na relação entre os dois havia mudado. Antes, Hagar era um ancião perigoso pela quantidade de respostas que possuía. Agora, era perigoso porque podia desmontar a confiança de André no próprio corpo.

— Poder não se resume a destruir — disse Hagar. — Eu alterei o que você viu, ouvi e sentiu. Você ainda não sabe se toquei sua percepção, sua memória, o tempo ou a matéria ao redor.

— Você sabe?

— Nem sempre.

Essa honestidade piorou tudo.

Caminharam em silêncio por um tempo. A noite de Éden terminou diante deles de modo gradual. No limite do deserto, André viu uma linha escura que não combinava com areia. Árvores. Uma floresta surgia no horizonte, densa, de troncos altos e folhas quase negras. O vento trouxe cheiro de terra úmida. Pela primeira vez desde que acordara ali, André viu algo que lembrava vida comum, e a lembrança veio tão forte que doeu.

Então a tempestade começou sobre a floresta.

Raios desceram em sequência, atingindo as copas. Chamas correram pelos galhos, rápidas, alimentadas por uma chuva que, em vez de apagar, transformava fogo em fumaça pesada. Hagar acelerou. André correu atrás dele, tropeçando na passagem da areia para a terra dura. Quando chegaram perto, as chamas se apagaram de uma vez. A fumaça subiu em colunas pretas e se abriu para os dois sóis retornando no horizonte.

— Esse espetáculo leva anos para se repetir — disse Hagar. — Aproveite.

André olhou para as árvores chamuscadas, para o chão molhado, para o céu claro demais.

— O nascer dos sóis ou uma floresta incendiada durante uma tempestade?

— A noite terminando. Noites são raras aqui.

— Vocês criaram essa floresta?

— Não.

— Então alguém colocou fogo nela?

— A natureza não precisa de alguém para produzir isso.

André quase riu. A risada morreu quando Hagar levantou a mão e uma chama pequena apareceu na palma dele. Depois a pergunta veio com a mesma naturalidade de quem oferece água.

— O que você acha de morrer de novo?

André deu três passos para trás.

— Acho que você precisa melhorar sua abordagem.

— Quero treinar você junto com o rapaz trazido por Krakor. Quando estiver preparado, a hipótese mais eficiente seria provocar outra morte e observar o caminho da sua partícula. Se você saltar, para onde salta. Se retorna, por qual trilha. Se permanece, com que alteração.

— Você está falando de me matar.

— Estou falando de método.

— Use essa palavra de novo e eu começo a entender por que alguém inventou religião para ter medo de vocês.

Hagar fechou a mão, apagando a chama.

— Não vou matar você. Os doze juraram nunca mais tirar uma vida e impedir, dentro do possível, que outros façam isso.

— Nunca mais?

Hagar desviou os olhos para a floresta que esfriava.

— Alguns planetas merecem o nome de prisão. Outros, de inferno. Lugares onde a morte deixa de ser interrupção e vira única saída. Encontramos povos renascendo no mesmo cárcere, amarrados aos mesmos corpos, repetindo fome, dor e trabalho até esquecerem o próprio nome. Salvamos muitos. Também erramos em nome da salvação.

— E agora você promete não matar, mas fala disso comigo para ver minha reação.

— Também.

— Pelo menos você admite.

— É verdade.

André olhou para a mão vazia de Hagar. Paulo disfarçava violência de cuidado. Hagar acabara de apresentar violência como método. André não sabia qual dos dois o assustava mais.

Ao longe, a construção se ampliava. Novas paredes surgiam, ligadas à primeira por corredores suspensos. Os doze se moviam em pontos diferentes. Uma zona de vapor subia à esquerda; do outro lado, ventos desenhavam círculos na areia; mais adiante, Zeus erguia colunas de fogo que se apagavam longe do chão. No centro, o rapaz trazido por Krakor estava sentado, ainda fraco, cercado por Dafa, Bel e o próprio Krakor.

— Já sentiu fome aqui? — perguntou Hagar.

André demorou a entender a pergunta.

— Não sei.

— Sede?

— Também não.

— Dor você sentiu.

— Isso você fez questão de garantir.

Hagar aceitou a acusação sem defesa.

— Precisamos descobrir quais necessidades o corpo mantém depois de chegar a Éden. Você morreu antes da travessia. Ele veio vivo. A diferença entre vocês pode nos ensinar muito.

— Fico feliz em servir ao estudo.

— Você quer voltar por Eva. Vai precisar de conhecimento, energia e aliados. Eu posso oferecer as três coisas, desde que você suporte o preço de aprender com alguém que já deixou de ser humano há tempo demais.

André olhou para o rapaz no centro dos outros. O desconhecido também perguntara pela irmã. André ainda não sabia seu nome, mas reconhecia a urgência que o mantinha de pé.

— E se eu disser que não confio em você?

— Não confie. Observe.

André passou a língua pelos dentes, ainda procurando gosto de sangue. Não encontrou. A lembrança da chuva persistia. Hagar seguiu em direção ao grupo. André foi atrás, observando o rapaz desfalecido havia pouco, os doze imortais em torno dele e os ambientes impossíveis erguidos para treino. Não sabia o que fariam com o jovem nem o que Hagar ainda chamaria de aula. A pergunta sobre morrer outra vez o acompanhou até a construção.

1/1
Menu

Fazer anotação