Bebidas Jornada do Sangue · Capítulo 32 de 49
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Bebidas

André ria de Krakor com uma facilidade que o desarmava.

Depois de tanta morte, tanta nave descendo em fogo, tanto dragão sendo lançado contra o céu de Kimmer, aquela mesa tinha uma desordem quase indecente. Krakor falava com as mãos, com as sobrancelhas, com a inclinação do copo, e cada detalhe de suas aventuras mudava um pouco quando ele voltava ao mesmo ponto. André percebia as contradições e ria mais por causa delas. Aquilo era raro. Não a graça, mas a sensação de estar diante de alguém que poderia virar amigo antes de virar peça de guerra.

Na mesa estavam Hagar, Bel, Sussurro e uma mulher que André ainda não conhecia pelo nome. Ela se mantinha calada, distante do barulho, olhando para um ponto perdido à frente. A beleza dela atraía o olhar mesmo naquela imobilidade, e isso incomodou André pela sensação de familiaridade que não conseguia organizar. Athos permanecia em pé, um pouco afastado. O jeito simples dele contrastava com o cuidado que todos demonstravam quando atravessavam seu campo de atenção.

André inclinou-se para Krakor.

— Quem é ele?

Krakor acompanhou o olhar e abaixou a voz, embora continuasse sorrindo.

— Aquele é Athos. Não deixe que ele perceba que estou dizendo isso, mas estamos falando do ser mais poderoso do Universo.

André engasgou com a bebida. Parte dela voltou para o copo, parte caiu na mesa.

— Ele?

— Elaryan pode fazer frente. A tensão entre esses dois lados tem ocupado bastante nossas dores de cabeça.

— Então é ele que enfrenta Elaryan? O mais poderoso? Um deus? — André limpou a boca com as costas da mão e sentiu vergonha da própria surpresa. Athos, visto dali, podia ser confundido com um homem cansado aguardando alguém terminar de conversar.

Athos virou o rosto para a entrada antes que Krakor respondesse. Vários vampiros se acumulavam perto das colunas, fingindo interesse nas bebidas, na música baixa, nas mesas vizinhas. O disfarce durou pouco. Maxi vinha à frente, o líder do Movimento Modernista, com a segurança de quem tinha uma votação inteira escondida atrás dos dentes.

— Não quero estragar a noite — disse Athos —, mas esses vampiros estão interessados demais em nós. E não gosto da direção desse interesse.

Krakor interrompeu a história sobre a capitã de um planeta onde ficara preso sem poderes. André já entendia a aproximação antes de Maxi chegar à mesa.

— O que pretende, Maxi?

— Temos regras, meu rei. Regras que vossa majestade aceitou e que tornamos irrevogáveis. Ninguém permanece neste planeta sem se transformar.

— Essas pessoas salvaram Kimmer. São visitantes, não renascidos daqui, e não ficarão por muito tempo. Agora nos dê privacidade.

Maxi olhou para os outros, medindo coragem.

Athos sorriu sem alegria. As presas surgiram em sua boca por um instante, antigas, limpas, terríveis, e voltaram a sumir.

— Se a palavra do rei não bastar, vocês conhecerão uma espécie de vampiro que não desejam conhecer.

O silêncio assentou a ameaça com mais eficiência que qualquer grito. Krakor abriu os braços, satisfeito.

— Ah, claro. Você já foi vampiro, Athos. Eu tinha esquecido.

— Não ficou dominante no meu sangue. Outras coisas se sobrepuseram. Mas uma vez vampiro, sempre vampiro.

Athos parou no meio da frase seguinte. O rosto perdeu a cor da conversa. Os olhos se fixaram em algo que não estava no bar, e a mão dele procurou apoio no ar.

— Krakor, precisamos ir.

— Agora? Acabamos de salvar um planeta. A diversão mal começou.

— Agora.

Athos ergueu a mão. O portal demorou a obedecer, abrindo aos arrancos, com bordas instáveis.

— Médera.

O nome destruiu o sorriso de Krakor. Ele se levantou sem piada, sem protesto. Athos agarrou Krakor pelo braço e puxou também a mulher silenciosa. Os três desapareceram antes que André conseguisse perguntar qualquer coisa.

Hagar e Bel tinham se distraído com um jogo de palavras que alguns vampiros faziam em outra mesa. Sussurro, cercada por curiosos, contava que já fora sugadora de sangue em um planeta inteiro de seres alados. André olhou para o lugar vazio deixado por Athos e pensou em correr até Trix. A vontade veio forte. Queria contar que tinham vencido, que Laura voltara, que havia uma saída para os místicos. Ainda assim, Krakor prometera voltar, e André não sabia se aquele portal anunciava apenas urgência ou desastre.

Sentou-se perto de Sussurro.

— Então existia sangue suficiente para todo mundo?

Ela sorriu para ele, satisfeita com a pergunta.

— Existia um grupo capaz de produzir sangue sem se esgotar. Alimentavam cidades inteiras. No nosso mundo, a noite durava muito, o gelo preservava quase tudo, e o sol raramente passava de uma lembrança pálida no horizonte. A sede era parte da vida, mas aprendemos a administrá-la antes que virasse crime.

André ouviu com atenção. Sussurro falava com doçura, apesar da história cheia de frio e dentes. Em certos momentos, a voz dela lembrava Trix, e isso tornava a conversa confortável demais.

Mais bebidas chegaram. Algumas seguiram receitas que Krakor tinha deixado com o atendente, usando ingredientes que André não conhecia e que Krakor, por algum absurdo pessoal, sabia combinar melhor que qualquer nativo. O primeiro gole queimou a língua, desceu macio e golpeou a cabeça depois. O segundo trouxe calor para os ombros. O terceiro dissolveu a distância entre risos.

Em pouco tempo, Sussurro estava ao lado dele. Os dois riam da mesma história sem lembrar onde a graça tinha começado. Outros pediram copos iguais. Havia séculos de contenção na maneira como os vampiros pediam mais bebida e aumentavam a voz.

Bel ouviu um vampiro declamar um verso torto, bêbado demais para terminá-lo. Corrigiu a melodia com a própria voz sem perceber. Cantou dois compassos e calou o lugar inteiro.

Hagar ficou imóvel.

— Faz tempo que não ouço sua voz, Bel.

Ela tentou desviar com um gesto pequeno, mas os olhos ao redor pediam continuação. Hagar sorriu.

— Eles merecem. Eu também.

Bel recomeçou.

A canção tinha perda, estrada e retorno. Não pedia piedade. A voz dela atravessava a taberna com uma precisão antiga, capaz de alcançar vampiros que nunca tinham escutado música fora de hinos de guerra, luto ou poder. André viu dois utensílios no balcão e lembrou de um violão. O pensamento bastou. O ar trouxe as peças até suas mãos; calor amoleceu metal, frio fixou curvas, um talher virou cordas finas. Em segundos, havia um instrumento torto, improvisado, surpreendentemente afinado.

Ele tocou.

O instrumento entrou sob a voz de Bel. Vampiros que antes rondavam a mesa baixaram os copos. Alguns fecharam os olhos. Outros encararam as mãos de André, divididos entre medo e encanto. Quando a canção terminou, ninguém comemorou de imediato.

Hagar quebrou o momento com uma batida na mesa. Depois outra, com o pé marcando o chão. Disse a nota que queria para André, subiu no tampo e começou um canto de taverna, antigo, sujo, feito para pés cansados e garganta aberta. André acompanhou no Violoprato. No segundo refrão, metade do salão repetia. No terceiro, as mesas já tinham sido empurradas. Hagar puxou Bel pela mão, saltou com ela para o meio do espaço aberto, trocou de par, trouxe outros para dentro, e a festa tomou o lugar.

Sussurro dançou com André.

Ela era leve, rápida, perigosa de um modo alegre. Ele estava bêbado o bastante para esquecer a medida exata das distâncias. Quando percebeu, os dois saíam por um corredor lateral, rindo baixo, guiados por mãos que se tocavam há tempo demais. André sentiu o corpo compreender antes da cabeça.

Parou.

— Sussurro, espera.

Ela voltou, ainda sorrindo, e quase caiu contra ele. André a segurou pelos braços.

— Eu quero continuar — disse André. — Esse é o problema. Mas amo outra pessoa.

Sussurro levou alguns segundos para entender.

— Então me leva para conhecer essa pessoa.

— Não acho uma boa ideia.

— Por quê? A gente não fez nada. Quero conhecer a mulher que fez você parar.

André respirou fundo.

— Ela não é a rainha.

Sussurro franziu a testa. A voz dela saiu alta demais.

— Então você mantém uma vida dupla?

Alguns vampiros olharam para o corredor.

— Não é isso.

— Pode dizer que não gostou de mim.

— Venha comigo. Eu explico fora daqui.

André viu Hagar pela janela e fez um gesto curto. Hagar entendeu rápido; Bel entendeu antes. Os dois chegaram enquanto, atrás deles, vampiros bêbados tentavam tocar o Violoprato com mais entusiasmo que talento.

— Hagar, Sussurro bebeu demais e quer conhecer a mulher por quem sou apaixonado. A situação é delicada, preciso de sigilo, e eu claramente não estou sabendo administrar.

Bel passou atrás de Sussurro e aplicou um golpe limpo no pescoço dela. Sussurro apagou nos braços de Hagar.

André ficou com a boca aberta.

— O que você fez?

— Um golpe que interrompe por alguns instantes a ligação entre o corpo e os sentidos. Só funcionou porque ela está bêbada. Em condições normais, teria me quebrado antes de eu chegar perto.

Bel ajeitou Sussurro nos braços de Hagar.

— Você devia aprender.

— Eu vou fingir que ouvi isso em outra noite.

— E eu vou fingir que acredito. Agora conte a situação e nos leve até esse problema. Podemos ajudar.

— Confio em vocês. Enquanto Krakor não volta, pode ser bom.

Hagar olhou ao redor pela primeira vez com atenção real.

— Krakor foi para onde?

— Athos abriu um portal com dificuldade, levou Krakor e a outra mulher. Disse Médera.

Bel perdeu parte do humor.

— Ele levou Krakor e Afrodite às pressas? Então alguma coisa aconteceu em Vésper.

— Afrodite? Aquela mulher era Afrodite?

A lembrança de Zeus veio com atraso. A aparência mudara, mas a atração continuava ali, quase uma assinatura.

— Você já ouviu nossas histórias sobre Zeus — disse Bel. — Muita coisa nasceu de inspiração torta. Não exagere na dose de admiração, eu detesto fã descontrolado, principalmente quando o fã não é meu.

— Eu a vi com Zeus quando ele me atacou. Por isso estranhei. Ela mudou de lado?

— Afrodite tem nos ajudado. Por enquanto, é o que posso dizer.

Hagar acomodou melhor Sussurro no colo e indicou a saída com o queixo.

— Já que esperar é a única opção inteligente, vamos esperar ajudando você. Onde fica essa mulher que não é rainha?

André olhou uma última vez para a taberna. A música seguia torta, alta, viva. Era bom que Kimmer tivesse aquilo por alguns minutos. Do lado de fora, a noite do planeta continuava cheia de regras, feridas e gente escondida.

Ele pensou em Trix.

— Num lugar que eu escondi por tempo demais.

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