Eva Jornada do Sangue · Capítulo 34 de 49
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Eva

O portal se fechou atrás de André, Hagar e Afrodite. Os três flutuavam acima de um planeta azul, já além da atmosfera, cercados pelo silêncio do espaço. À frente deles, uma mulher movimentava os braços sobre a curvatura do mundo. Fios de energia saíam de suas mãos, desciam até as nuvens e se espalhavam numa trama que tentava envolver o planeta inteiro.

André reconheceu o rosto antes de aceitar o que via.

— Eva?

Ela interrompeu o movimento por um instante. Parte da trama perdeu altura, e Eva tornou a puxá-la com as duas mãos. O esforço contraía seus ombros e deixava os dedos trêmulos.

— É você mesmo? — André se aproximou. — O que está fazendo?

A voz da irmã alcançou a mente dele. Os lábios se moviam por hábito, mas nenhuma palavra atravessaria o vazio entre os corpos.

— André. Eu poderia perguntar como me encontrou, mas já vi coisas suficientes para não me surpreender com um portal aberto no lugar certo.

Afrodite sustentava o caminho que seguira até ali. Hagar observava a energia lançada sobre o planeta, procurando algum sinal de ataque.

— Pensei que Elaryan mantivesse você prisioneira — disse André. — Vim para resgatá-la.

Eva estendeu os braços outra vez. A rede luminosa avançou alguns quilômetros e voltou a ceder.

— Minha fase de prisioneira terminou há muito tempo. Agora estou ocupada. Podemos marcar um chá com bolachas em outra ocasião. Na Terra, se você sentir falta dela.

O modo casual de dispensá-lo feria mais que uma ameaça.

— O que aconteceu com você? O que Elaryan fez?

— Ela me tornou o ser mais poderoso deste universo. Posso ter ultrapassado até mesmo o poder dela. Durante o processo, aprendi que certas coisas importam e outras apenas consomem o tempo que precisamos usar.

— Minha chegada entra na segunda categoria?

Eva fechou os olhos. Os fios permaneceram presos às mãos, esticados até o limite.

— Você foi meu irmão em uma vida, André. Uma vida importante, a última que tive num planeta de nível um. Antes dela, tive outras famílias, outros afetos, outros nomes. Não posso procurar cada pessoa que amei em todas essas existências.

— Eu não sou cada pessoa.

— Para você, não. Para mim, é diferente.

André chegou perto o bastante para tocar o braço dela, mas conteve a mão ao sentir a energia que percorria sua pele.

— Você se lembra de quem foi antes?

— Eu fui Eva. A primeira.

A trama ao redor do planeta oscilou. Eva puxou os braços para o peito e recuperou uma parte do terreno perdido.

— Fui o primeiro ser deste lado do universo a carregar uma partícula cerebral capaz de continuar depois da morte. Muitos animais nascem, vivem e terminam no próprio corpo. Comigo surgiu outra possibilidade.

André procurou qualquer sinal de ironia. Encontrou cansaço.

— E Moisés?

— Era Adam. Meu primeiro filho.

O nome atingiu Eva com mais força que a presença do irmão. Pela primeira vez, ela desviou os olhos do planeta.

— Ele nasceu de mim. Elaryan reforçou, ao longo de muitas vidas, a história da costela contada ao contrário, embora a parte mais cruel tenha acontecido depois. Adam foi a primeira pessoa que me ouviu e respondeu. Passamos outras vidas juntos na Terra. Em algumas, fomos amantes; em outras, encontramos caminhos diferentes. Houve períodos em que nossas partículas vagaram sem corpo por tanto tempo que perdi qualquer medida dos anos. Ainda assim, voltávamos a nos encontrar.

— Até Elaryan separar vocês.

— Até ela usar uma parte dele para me transformar.

Eva abriu uma das mãos. Sob a pele, uma camada escura acompanhou o movimento dos dedos e desapareceu quando ela tornou a fechá-los.

André percebeu que nem todos os fios nasciam nas mãos dela. Alguns alcançavam primeiro a camada escura sob a pele e só então eram lançados em direção ao planeta.

— Elaryan retirou uma parte de Moisés e a colocou em mim. Minha estrutura reagiu ao material dele e criou esta proteção. É uma evolução da pele dos dragões. Meu corpo não pode ser destruído pelos meios que conhecemos.

— E onde ele está?

— Não sei. Consigo senti-lo, mas não localizar.

— Por que Elaryan continua mantendo Moisés preso?

Eva demorou a responder.

— Ela disse que a ligação entre nós conserva esta forma. Se ele for libertado, posso perder o que recebi.

— E por que você precisa continuar indestrutível?

— Porque preciso terminar o que ela...

— O que Elaryan mandou? — André cortou a frase. — Você ainda aceita a palavra dela depois de tudo que ela fez? Ela separou vocês, usa Moisés para controlar seu corpo e ainda decide o que você deve considerar importante.

Os fios de energia se agitaram. Hagar ergueu a mão, preparado para abrir um portal, mas Afrodite pediu que esperasse.

— Você não conhece o que está em risco — disse Eva.

— Então me conte.

— Não posso.

— Ou ela proibiu?

Eva puxou a trama com violência. A luz ao redor do planeta se contraiu, e uma lágrima se desprendeu do rosto dela, congelando perto da bochecha.

— Eu compreendi o que tenho de fazer. Também compreendi quais desejos pertencem apenas a mim. Encontrar Moisés, voltar para a Terra, reconstruir uma família com você: tudo isso é meu. O que estou fazendo alcança muito mais gente.

— Isso foi o que ela ensinou você a repetir.

— Vá embora, André.

Ele segurou o pulso da irmã. A camada sob a pele reagiu e lançou seu braço para trás.

— Eva...

— Vá embora!

Hagar abriu o portal. André tentou se soltar quando ele e Afrodite o puxaram, mas os três atravessaram antes que Eva perdesse outra parte da energia estendida sobre o planeta.

Chegaram a Fóster junto às casas em construção. André não parou. O corpo cresceu durante o voo, rompeu as roupas e assumiu a forma dracônica antes de deixar a atmosfera. No espaço, reuniu oxigênio ao redor das escamas e ateou fogo. A explosão formou uma esfera incandescente, próxima do calor de uma estrela, alimentada por rajadas que ele lançava sem alvo.

Afrodite e Hagar surgiram fora do alcance das chamas. Hagar conteve parte da expansão com uma barreira, enquanto Afrodite esperava André perceber que eles estavam ali.

— Estamos com você — disse Hagar. — Eva está viva. Ela tem poder para se defender.

— Ela virou uma ferramenta de Elaryan.

André lançou outra explosão. A luz cobriu o rosto dos dois.

— Eva sabe que está sendo pressionada — disse Afrodite. — Também sabe que Moisés é mantido preso para garantir sua obediência. Ainda assim, escolheu continuar. Arrastá-la à força só entregaria a Elaryan outra prova de que todos querem decidir por ela.

— Então deixamos minha irmã envolver um planeta com uma energia que ninguém compreende?

— Descobrimos o que ela está fazendo. Arrastá-la só faria você repetir o que Elaryan fez.

A chama começou a diminuir. O corpo de André recuperou traços humanos, embora asas, garras e placas escuras ainda cobrissem partes dele.

— Precisamos voltar ao começo. Hagar, você descobriu por que me levaram ao Éden? O que me tornava especial? De onde veio a profecia que falava de mim?

— Não encontrei a origem. Sua chegada rompeu um padrão mantido por milênios e trouxe mais perguntas que respostas. Sem ofensa.

— Nenhuma.

André olhou para Afrodite. Uma lembrança ligou o ataque na Terra, a morte e a mudança que o conduzira ao Éden.

— Zeus.

Ela entendeu.

— Já procurei por ele. Depois da morte, seu rastro desapareceu. Pode ter mudado a própria estrutura ou aprendido a ocultar a energia de um Localizer.

— Ele criou a ruptura que me levou até vocês. Se alguém souber por que meu caminho foi alterado, é ele.

Hagar apontou para o planeta acima do qual tinham encontrado Eva.

— Podemos começar por lá. A energia dela precisava chegar à superfície. Alguma coisa embaixo sustenta ou recebe o processo.

— Entrar naquele mundo sem saber o que Eva está fazendo seria um risco — disse Afrodite.

— Para os habitantes também — respondeu André. — Vamos descobrir quem vive lá.

Hagar usou o rastro da energia recolhido durante o encontro. O portal os depositou diante de uma escadaria larga, construída com pedra negra. Colunas cercavam um salão aberto para um céu carregado de nuvens. No alto dos degraus, Zeus estava sentado num trono gigantesco. Vestia preto, segurava uma foice e trazia duas correntes cruzadas sobre o peito. A barba continuava a mesma; o homem, não.

Zeus abriu um sorriso ao vê-los.

— Resolvi assumir o papel que Elaryan preparou para mim. Só agora compreendo por que ela me mandava espalhar histórias grandiosas a meu respeito. Naquela época, o nome ainda era uma promessa.

Ele se levantou e apoiou a foice no degrau.

— Agora sou. Sejam bem-vindos ao verdadeiro Novo Olimpo.

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