Direitos Jornada do Sangue · Capítulo 33 de 49
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Direitos

André conduziu Hagar e Bel pelos túneis até Rerniesk. Sussurro continuava desacordada nos braços de Hagar, a cabeça apoiada no ombro dele, enquanto o eco dos passos anunciava a chegada do grupo muito antes que atravessassem a última passagem. Quando os primeiros moradores os viram, recolheram as crianças e fecharam o caminho para as casas escavadas na pedra. André nunca levara estranhos ao esconderijo.

— Fiquem tranquilos. Eles vieram de outro planeta e lutaram ao nosso lado. Os invasores foram derrotados. Nós vencemos.

O medo se desfez aos poucos. Alguém gritou a notícia para o fundo da galeria, outros repetiram, e logo os moradores saíam das casas para cercá-los. Trix atravessou o grupo correndo e segurou André pelos braços.

— Então o plano funcionou? Laura trouxe o antigo rei?

— Trouxe. E muita coisa aconteceu além do plano.

Trix o beijou antes que ele pudesse explicar. Apertou-o com força, o rosto enterrado junto ao pescoço dele, e só o soltou quando precisou respirar.

— Quando as paredes começaram a tremer, achei que tudo fosse desabar. Pensei em tirar o povo daqui, mas não sabíamos para onde correr. Depois fiquei com medo de você não voltar.

André encostou a testa na dela. A celebração ocupava o túnel, porém as rachaduras abertas no teto e o pó acumulado no chão mostravam quanto a comunidade estivera perto de ser descoberta.

— Eu voltei. E trouxe Hagar, Bel e Sussurro. Ela bebeu um pouco além da conta. Eu também bebi, dançamos, tivemos uma festa de verdade. Gostaria que todos nós pudéssemos fazer isso juntos.

Sussurro abriu um dos olhos nos braços de Hagar.

— Ele me trouxe para conhecer você. Eu achei que a mulher fosse a rainha.

O olho tornou a fechar.

— Casado? — Trix afastou o rosto de André.

— Eles não conhecem a história.

— Então conte — pediu Hagar.

André olhou para os moradores reunidos ao redor. Alguns já sabiam, outros conheciam apenas a parte que os mantinha vivos.

— Carmilla e eu assumimos o reino juntos. Eu representava os vampiros dragões que chegaram comigo; ela, os vampiros deste planeta. Laura nos aproximou. Foi meu primeiro amor na Terra e hoje está com Carmilla. O acordo, no entanto, também protegia Trix e todos os que recusaram a transformação.

— Protegia escondendo — disse Trix.

— Sim. Depois que os não vampiros se tornaram raros, começaram as perseguições. A maioria decidiu que todos deveriam ser transformados. Eu recebia os recém-chegados, oferecia a escolha e trazia para Rerniesk aqueles que recusavam. Dizia aos demais que eles não tinham sobrevivido ao processo.

André sentiu os olhares dos moradores. Nenhum deles o condenava, e isso agravava a vergonha.

— Você fez o que conseguiu para nos manter vivos — disse Trix. — Se tivesse enfrentado todo o reino desde o início, este lugar teria sido encontrado muito antes.

Hagar examinou as colunas que sustentavam o teto.

— Quando Athos voltar, podemos levar a comunidade para outro planeta. Há lugares onde ninguém precisará viver embaixo da terra.

— E os próximos? — perguntou Trix. — Outros vão chegar e recusar. Tirar apenas quem está aqui não resolve.

— André continuará oferecendo a escolha — respondeu Hagar. — Quem não quiser ficar será levado também. Criamos uma rota, avisamos o povo e mantemos um lugar preparado para recebê-los.

Um impacto atravessou o teto. A pedra sob os pés de André subiu e caiu, arrancando gritos da comunidade. A proteção que envolvia Rerniesk se partiu num clarão, seguida por uma explosão que abriu uma fenda até a superfície. Terra, placas de rocha e vigas despencaram sobre as casas.

Hagar ergueu os braços. Os escombros pararam no ar e foram desviados para as laterais. Bel abriu outra barreira diante dos moradores, enquanto André cobria Trix com o próprio corpo. Pela abertura no teto, Maxi desceu acompanhado por dezenas de vampiros.

— Eu sabia que você escondia alguma coisa — disse ele, pousando entre as ruínas. — Todo esse povo, André. Durante anos.

Maxi apontou para os moradores.

— Transformem todos.

Os vampiros avançaram, mas encontraram as barreiras de Hagar e Bel. André se colocou entre eles e Rerniesk.

— Eles fizeram uma escolha.

— Eles têm direito de recusar! — gritou Hagar.

— Nós também temos — respondeu Maxi. — Houve uma votação. A maioria aceitou a transformação porque a alternativa era morrer. Enquanto cumpríamos a decisão, André guardava uma saída particular para os amigos.

— A escolha foi oferecida a todos os recém-chegados — disse André.

— Em segredo. Só quem recebeu a sua proteção pôde continuar humano.

André não encontrou resposta que apagasse aquela desigualdade. Hagar avançou um passo.

— A votação de vocês não alcança o sangue deles.

Maxi abriu os braços.

— E quem decide quais direitos ficam acima da maioria? Um juiz acima de todos nós? Basta ter mais poder para se declarar universal?

O corpo dele se rompeu e cresceu. Ossos alongaram-se, asas rasgaram as costas e a cabeça assumiu a forma do enorme dragão-morcego que André já conhecia. Os seguidores fizeram o mesmo. A expansão dos corpos derrubou o restante da cobertura e expôs Rerniesk ao céu.

Hagar sustentou os últimos blocos até que a população alcançasse uma área livre. André assumiu sua forma dracônica e ocupou a abertura inteira, protegendo a fuga.

— Você é maior — disse Maxi. — Nós somos muitos.

André lançou fogo. A chama atingiu um grupo ao lado de Maxi e reduziu corpos e asas a matéria carbonizada. Os sobreviventes se espalharam. Voaram em círculos, atacando por lados diferentes, e André precisou escolher a cada instante entre persegui-los e continuar diante da comunidade.

As primeiras descargas elétricas prenderam os músculos de uma das asas. Garras abriram cortes no dorso; dentes alcançaram seu pescoço. André subiu para afastar a luta dos moradores, mas a perda de velocidade permitiu que os menores o cercassem. Matava vários a cada golpe e recebia outros tantos no lugar. Quando percebeu que acabaria imobilizado, procurou Trix no solo e calculou quanto tempo Hagar precisaria para abrir uma passagem.

Uma sombra cobriu sua cabeça. Dois atacantes perderam o pescoço no mesmo movimento e caíram girando.

— Carmilla?

A rainha passou por ele com sangue nas garras. Laura surgiu do lado oposto e lançou uma sequência de chamas azuis, pequenas e violentas, que atingiram vários inimigos. Outros vampiros dragões preencheram o céu e se alinharam ao rei. Raios, fogo, lava e rajadas de vento cruzaram o campo aberto. Cada lado ganhou espaço à custa de corpos.

Um portal se abriu no solo. Athos saiu dele com Krakor e Afrodite. Ao erguer os olhos, encontrou Rerniesk destruída e centenas de criaturas combatendo acima dos sobreviventes. Subiu até o centro da batalha. Fogo e eletricidade atravessaram o lugar onde estava, sem alterar sua trajetória.

— Basta!

O grito percorreu o ar e a luz partiu do corpo dele. Todos os vampiros foram arremessados ao chão. As formas dracônicas cederam de uma só vez, devolvendo braços, pernas e rostos humanos aos combatentes, que permaneceram imóveis entre as pedras.

Os olhos de Athos perderam as pupilas. O corpo escureceu por inteiro e uma aura vermelha avançou pelo céu. André sentiu a consciência dele tocar a própria pele, atravessar o solo e alcançar tudo ao redor. Por um instante, mover um dedo dependeria da permissão daquele homem.

— Acabou. Nenhuma votação autoriza uma mordida.

A voz alcançou o céu, a terra e cada corpo imobilizado.

— Resolvam isso sem outra guerra. Se não conseguirem, eu voltarei e decidirei por todos.

André viu Maxi caído perto das ruínas. A pergunta feita por ele permanecia sem resposta, agora demonstrada numa escala que nenhum juiz comum alcançaria.

Athos desceu até Sussurro. Seu poder já atravessara pensamentos, lembranças e sentimentos de todos no campo. Quando tocou o rosto dela, Sussurro abriu os olhos e o reconheceu. Também sentia aquela consciência espalhada pela galáxia, mas, ao contrário dos outros, conseguiu alcançá-la. Pousou a mão no peito de Athos e respirou devagar. O vermelho no céu se recolheu. A escuridão deixou a pele dele, e o mundo voltou a caber em corpos separados.

Athos tomou Sussurro nos braços e abriu um portal.

— André, reúna quem quiser partir e venha comigo.

Depois se voltou para Carmilla e Laura.

— Os recém-chegados que recusarem a transformação ficarão sob a proteção da Coroa. Vocês duas vão construir uma comunidade segura e aberta, distante dos grupos que insistem em persegui-los. Eu acompanharei o cumprimento desse acordo.

Athos comunicou a decisão sem aguardar resposta. Maxi continuava preso ao chão; Carmilla recebeu a ordem com a mandíbula rígida. Laura segurou a mão dela.

André se despediu das duas. A aliança imposta no início do reinado havia se tornado amizade durante os anos em Kimmer, e deixá-las ali produziu uma dor que ele guardou para si. Trix entrelaçou os dedos nos dele. Os moradores de Rerniesk atravessaram o portal em seguida, levando o pouco que conseguiram retirar das ruínas.

Do outro lado estava Fóster. A claridade obrigou os recém-chegados a proteger os olhos. Para André, décadas inteiras haviam passado desde que deixara aquele mundo; ali, o intervalo cabia em uma pequena parte da vida dos antigos companheiros. Ele reconheceu Krakor, Hagar, Bel, Hertho, Agah, Coneli e Nerfate. Móretar segurava a Excalibur com uma segurança que ainda não possuía no último encontro. Arthur e Morgana estavam próximos dele, além de muitos rostos que André nunca vira.

— Localizei o rastro de Dafa e Adwig — anunciou Athos. — Depois da expansão que experimentei, consegui senti-las no Universo Um, algumas galáxias além do planeta onde localizamos Médera e Lúcifer.

O nome de Adwig trouxe uma imagem que Athos não procurara. Por um instante, viu a rainha com sua espada nas mãos, cercada por pontos de luz que vinham de direções diferentes. A cena terminou antes que ele reconhecesse o lugar ou entendesse por que entregaria a arma.

Os grupos haviam atravessado crises diferentes e acumulado nomes que os demais desconheciam. Krakor percebeu a confusão.

— Descobrimos quatro grandes rotas de matéria, quatro universos formados a partir da expansão inicial. Eles se afastaram durante eras e agora convergem. A morte de André e sua chegada ao outro lado deram nosso primeiro contato com uma dessas rotas. Vésper foi destruído quando os campos de matéria escura se romperam. Parte de Atlantis sobreviveu reunida numa nova forma de vida, e Silency foi dominada por uma simbiose forçada. Médera e Lúcifer continuam lá.

André acompanhou a explicação em silêncio. Conhecia a própria travessia, mas os demais acontecimentos exigiam um mapa que ninguém tinha tempo de desenhar. Krakor notou então as varinhas nas mãos de Hertho e dos companheiros.

— De onde vieram isso?

Nerfate resumiu a passagem pelo mundo de bruxos. Móretar fora levado pela Excalibur invocada por Morgana; Merlin iniciara uma guerra e sobrevivera; Perenelle, que roubava poderes, acabara vencida por Athena. Hertho e Drácula tinham sido libertados de corpos metálicos antes de Trovar trazer o grupo de volta.

— Athena ficou com os poderes de Perenelle — concluiu Nerfate. — Pode ser que consiga criar outras varinhas.

— Ainda preciso descobrir o que recebi dela — disse Athena.

André olhou ao redor: Excalibur, Arthur, Morgana, Merlin, Afrodite, Athena. As histórias da Terra caminhavam diante dele, corrigiam versões umas das outras e carregavam armas. André desistiu de memorizar tudo naquele momento.

Athos chamou Afrodite para uma conversa reservada. Ela contou que o rastro das duas se cruzava com a energia de Elaryan. Ele se virou de imediato para o grupo.

— Eu sabia. Vou procurar Elaryan e descobrir o que aconteceu com Adwig e Dafa.

Vários se moveram para acompanhá-lo.

— Vou sozinho.

— Você deve me permitir ir — disse Krakor.

— Encontre Teleret com Afrodite e Trovar. Prometi isso à sua esposa e a Adwig. Procure também seu outro filho em Key. Você precisa saber o que aconteceu com ele.

— Então eu vou — declarou Móretar.

— Eu também — disse André. — Elaryan está ligada ao desaparecimento da minha irmã.

— Ninguém virá comigo. Primeiro preciso alcançar Adwig e Dafa e localizar Silency. Não quero perder outra pessoa enquanto procuro por elas.

Athos abriu o portal. Afrodite segurou a mão dele por um instante.

— Tenha cuidado.

Ele partiu antes que o grupo voltasse a insistir.

André observou a comunidade espalhada por Fóster. Os sobreviventes precisavam de casas, comida e uma forma de compreender o novo céu. Móretar chamou Carl e Hermes para substituir as antigas moradias dos vampiros. Hermes reclamou durante o trabalho; Carl derrubou duas casas desativadas e, ao atingir uma terceira ainda desperta, levou uma porta no peito. O susto arrancou a primeira risada dos moradores de Rerniesk desde a batalha.

— Esse povo fica? — perguntou Móretar a André, longe dos demais.

— Fica. Se aceitarem, este será o lar deles.

Trix confirmou com um movimento de cabeça. Alguns moradores ainda observavam as casas com desconfiança, mas já tinham deixado seus poucos pertences junto às portas.

Enquanto as novas construções subiam, André procurou Trovar.

— Você consegue encontrar Eva da mesma forma que pretende localizar o filho de Krakor?

— Afrodite é uma Localizer. Se sua irmã deixou algum rastro de energia, ela pode segui-lo.

Trovar o levou até Afrodite. Krakor e Móretar já se preparavam para partir com ela.

— Mais um encontro de família? — perguntou Afrodite.

— Elaryan estava atrás de Eva. Passei décadas sem saber se ela continuava viva. Preciso encontrá-la.

André hesitou antes de completar:

— Por que você usava outro rosto quando me atacou ao lado de Zeus?

— Elaryan pediu. Nunca explicou o motivo. Prefiro acreditar que sentia inveja da minha beleza.

— Você estava igualmente linda. Eu só não poderia reconhecê-la.

Afrodite recebeu o elogio com satisfação.

— Ainda quer saber se mudei de lado?

— Quero saber se pretende ajudar.

— Pretendo.

Ela dispensou Krakor e Móretar para que seguissem com Trovar, mas Hagar se aproximou ao ouvir o nome de Eva.

— Se vamos entrar em território de Elaryan, vocês precisarão de uma saída rápida.

Afrodite aceitou a companhia. André olhou para Trix uma última vez; ela se aproximou, beijou-o e pediu que voltasse. Hagar abriu o portal a partir do rastro encontrado por Afrodite. Os três atravessaram juntos, em busca da irmã de André.

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