Um Cenário Inesperado
Drácula voou na direção de Magno enquanto a guerra se espalhava sob os dois. Trocaram poucas palavras no ar e abandonaram o campo juntos, desviando dos dragões que vieram atrás. Lúcifer acompanhou a fuga a uma distância maior. A morte de Carmilla ainda lhe queimava os olhos, mas atacar sem compreender o acordo entre os dois apenas prolongaria a confusão.
Drácula e Magno desceram sob a copa de uma floresta densa. Os dragões cercaram a área e interromperam a perseguição. Nenhum deles lançou fogo contra as folhas nem tentou derrubar os troncos para abrir passagem.
— Por que não queimam a floresta? — perguntou Lúcifer, aproximando-se dos perseguidores.
— As árvores são sagradas.
— Eles mataram sua rainha.
— Ainda assim, não destruiremos as árvores.
Lúcifer examinou as asas abertas sobre a copa e apontou para o espaço entre os galhos.
— Então usem o vento. Arranquem os dois do chão e lancem-nos para cima.
A solução circulou entre os dragões. Eles se distribuíram ao redor da floresta e bateram as asas na mesma direção. Rajadas entraram por baixo da copa, encontraram Drácula e Magno e os arremessaram acima das árvores. Os primeiros perseguidores abriram a boca e lançaram fogo.
Lúcifer liberou a Fênix. A ave atravessou as chamas e se desfez dentro delas, absorvendo calor suficiente para desaparecer do campo de visão. Renasceu atrás dos dragões com o dobro do tamanho, escamas sobrepostas às penas e fogo concentrado no bico. O ataque os alcançou à queima-roupa.
As chamas não queimaram carne. Inibiram as simbioses, fecharam as formas dracônicas e devolveram os perseguidores ao corpo humano durante a queda. Quando tocaram o solo, a Fênix também recuou para dentro de Lúcifer. Ele desceu ao lado de Drácula e Magno.
— Preciso compreender por que você fez aquilo — disse Lúcifer. — Carmilla negociava. Conhecia Athos, queria ajudar a libertar André e não atacou seu povo. Você atravessou o coração dela assim que Athos partiu.
— Recebi ordens para não revelar o plano.
— Seu povo também está morrendo lá fora — disse Magno. — Se espera que eu ajude, comece a falar.
Drácula olhou para a copa, avaliou o tempo que os dragões levariam para recuperar as simbioses e cedeu.
— Todos os participantes desta guerra precisam morrer. Vampiros, lobos e soldados dos dois lados. As mortes devem ocorrer em confrontos diretos, sem destruir o planeta inteiro. O renascimento produzirá novas evoluções, e os sobreviventes voltarão a se reunir depois para lutar ao lado uns dos outros.
— Eles não podem saber — concluiu Lúcifer. — Conhecer o objetivo alteraria a forma de lutar e poderia interferir na evolução.
— Foi o que Athos me disse.
A resposta não retirava de Drácula a responsabilidade pelo golpe. Lúcifer entendeu por que Athos partira antes do primeiro ataque. A morte de Carmilla tornava qualquer negociação impossível. Visão ou plano, aquilo usava a dor de Laura e a lealdade dos vampiros para garantir que a batalha continuasse.
Magno baixou a voz e manteve os olhos em Drácula, menos disposto a perdoar do que a impedir outra morte inútil.
— Entendo por que a missão exige segredo. Ainda assim, você matou uma rainha diante de quem tentava negociar.
— Eu precisava iniciar um confronto que nenhum dos lados abandonaria pela metade.
— Podemos continuar matando os inimigos? — perguntou Lúcifer. — Ou cada morte precisa obedecer a um cálculo que só quem deu as ordens conhece?
— Não recebi essa precisão. Precisamos impedir que um lado massacre o outro antes que todos atravessem a experiência.
Magno olhou na direção da prisão subterrânea criada por Lúcifer. O campo continuava ativo e consumia a energia dele mesmo àquela distância.
— Então chegou a hora de liberar os lobos. Eles equilibram a batalha.
Os três voltaram pelo mesmo caminho. Os dragões que haviam recuperado a forma já tinham deixado a floresta, e nenhuma nova perseguição surgiu. Quando alcançaram o campo principal, o céu estava vazio. Fogo algum cruzava as árvores. Armas e gritos tinham desaparecido.
— Morreram todos tão rápido? — perguntou Lúcifer.
Magno ergueu uma das mãos, pedindo silêncio. Um gemido veio de longe, cessou e retornou acompanhado por outros. Eles seguiram o som até a borda de um vale.
Lá embaixo, a guerra tinha mudado de natureza. Lobos e vampiros mordiam uns aos outros sem formação, alvo ou defesa. Alguns sugavam o sangue de pessoas que, ao mesmo tempo, bebiam de outros corpos. Fileiras improvisadas se formavam ao redor dos feridos; quem conseguia uma abertura enterrava os dentes e era atacado pelas costas no instante seguinte.
Armas estavam abandonadas entre as pedras. Dragões incompletos se arrastavam com asas reduzidas, incapazes de sustentar a transformação enquanto bebiam. Lobos mordiam os próprios braços quando nenhum corpo ficava ao alcance. A fome atravessara as divisões da guerra: aliados disputavam a mesma vítima, inimigos protegiam por alguns segundos quem ainda conservava sangue e logo o atacavam também.
— O que aconteceu com eles? — perguntou Drácula.
Um jato de sangue subiu do vale e espalhou gotas sobre os três. Drácula recebeu uma delas no rosto, passou a língua pelos lábios e perdeu o controle. Mergulhou sobre o grupo mais próximo e começou a beber.
Lúcifer sentiu a fome entrar pelas gengivas. A Fênix respondeu com calor e conteve o impulso antes que suas presas crescessem. Ao lado dele, Magno fechou os olhos, lutando contra o Lobo Alfa dentro de si.
— A sede alcançou meu lobo — disse Magno. — Eu também sou uma simbiose, e Suzaku está ajudando a segurar o controle. Mesmo assim, precisamos sair do alcance do cheiro.
Subiram até o ar ficar limpo. Drácula permaneceu no vale, misturado aos demais.
— E agora? — perguntou Lúcifer.
— O homem que trouxe as ordens está lá embaixo. Sem ele, teremos de descobrir o que contaminou todos.
Magno reconheceu um vampiro que escapava do vale perseguido por dezenas de criaturas.
— Paole!
O vampiro voou até eles. Lúcifer e Magno atacaram os perseguidores ao mesmo tempo: fogo pela esquerda, ar comprimido pela direita. Paole atravessou a abertura e se protegeu atrás dos dois, mas outro grupo subiu do vale.
Lúcifer retirou a Fragarach do esconderijo junto ao corpo. Silency lhe entregara a espada e um aviso apressado antes de partir; também ensinara a camuflá-la. A lâmina era pequena, porém cada corte fazia o atingido desaparecer no mesmo instante.
Magno sacou a adaga dupla. Ao girá-la, produziu rastros cortantes que avançavam muito além do alcance dos braços e separavam tudo que encontravam. Ele evitava olhar diretamente para os próprios soldados quando os golpes os alcançavam.
— Sua arma é mística? — perguntou Lúcifer.
— Sim. A sua também?
— Uma espada comum não faria isto.
Lobos desceram sobre eles. Magno retirou um disco metálico preso sob a roupa e o apontou para o céu. Um raio veio de uma região distante, atingiu o objeto e foi devolvido em todas as direções. Magno curvou o corpo sobre Lúcifer e Paole enquanto a descarga eliminava os perseguidores.
— Outra arma mística? Você carrega uma coleção?
— Apenas estas duas.
— Apenas duas. Que vida modesta.
Paole respirava com dificuldade, mas ainda mantinha os olhos livres da fome.
— O que aconteceu no vale? — perguntou Magno.
— O sangue das gatas-lobas. Bastaram os primeiros ferimentos. Lobos e vampiros que tocaram nelas, ou em alguém já contaminado, sentiram uma fome impossível de conter. Beber esse sangue aumentou a necessidade e eliminou qualquer preferência. Agora atacam qualquer corpo que ainda tenha sangue.
Paole contou que tentara retirar companheiros do vale. Os que voltavam à razão longe do cheiro recuperavam algum controle, mas bastava sangue contaminado tocar a pele ou alcançar o ar próximo para a fome recomeçar. Cada resgate criava novos perseguidores e devolvia o vampiro salvo ao centro da multidão.
— E quando o sangue acabar?
— Os lobos estão em desvantagem. Morrem quando são drenados. Vampiros sobrevivem vazios, então continuarão até restarem apenas os guardiões, que preservam sangue suficiente para alimentar os demais. Os lobos que estavam presos também foram libertados, mas durarão pouco.
Os guardiões, explicou Paole, tinham regeneração e reserva superiores. O sangue deles sustentava grupos inteiros durante crises e, naquele cenário, prolongava a compulsão. Enquanto um permanecesse vivo, os vampiros teriam uma fonte para disputar. Quando a fonte acabasse, a fome continuaria, mas já sem alimento capaz de renovar a batalha.
Magno olhou para o vale e depois para Paole. A decisão chegou ao rosto antes do movimento.
— Entendi. Desculpe. Espero encontrar você de novo.
A adaga atravessou o peito de Paole. O vampiro desapareceu sem tempo de reagir. Lúcifer recuou no ar.
— Vocês precisam parar de matar conhecidos no meio de uma conversa. Meu coração já sofreu o bastante.
— Precisamos eliminar os guardiões — disse Magno. — Sem reserva de sangue, os vampiros perderão o motivo que os mantém reunidos. Alguns se atacarão por causa da guerra; os outros ficarão vulneráveis quando a fome consumir as forças.
Lúcifer apontou para uma fila de vampiros que se alternavam sobre três corpos protegidos no centro do vale.
— Aqueles são os guardiões?
— Três deles. Eram dez. Agora são nove, contando Paole.
— Você reconhece os outros seis?
Magno demorou a responder. Seis rostos se misturavam entre centenas de vampiros cobertos de sangue, transformações parciais e corpos renascidos.
— Não lembro do rosto de todos.
Lúcifer acompanhou a multidão abaixo. Atacar todos enquanto estavam distraídos reduziria a guerra, mas também o colocaria em contato com o sangue das gatas-lobas. O cheiro já alcançava aquela altura e começava a vencer o calor da Fênix.
Duas concentrações de energia o atingiram quase ao mesmo tempo. A primeira surgiu acima do planeta e desapareceu antes que ele localizasse a origem. A segunda permaneceu sob a pedra, longe do vale. Nenhuma vinha daquela fome.
Lúcifer segurou o braço de Magno.
— Sentiu isso?
Magno olhou para o céu e depois para ele.
— Não.
— Há alguém nas profundezas. E outra pessoa acima do planeta.