A Primeira Mulher
Eva acordou presa em pé.
A princípio, enxergava somente escuro. O corpo tentava completar o mundo pelos lugares em que doía: pulsos abertos contra algum tipo de grampo, ombros puxados para fora do eixo, cotovelos amarrados, quadril imóvel, tornozelos separados e presos abaixo do corpo. Tentou fechar as mãos. Os dedos responderam com formigamento. Tentou puxar os braços. A dor subiu até a nuca e arrancou ar de seus pulmões.
Por alguns segundos, ela quis acreditar que ainda estava entre um mundo e outro, dentro daquele intervalo confuso em que a morte apagava parte da cena e deixava outra parte colada na pele. Mas sentia o metal sob as mãos e o frio que subia pelos pés. A prisão fora feita para alguém que poderia romper madeira, pedra e corrente comum.
Ela respirou fundo.
O dragão vermelho respondeu.
Veio primeiro como pressão no peito, uma vontade sem linguagem que não pedia licença. Eva sentiu a garganta se aquecer. Tentou prender, por instinto, e acabou cuspindo fogo. A chama abriu uma faixa de luz diante dela, curta e violenta, suficiente para revelar a vastidão de uma sala circular, colunas negras, chão liso, paredes altas perdidas acima da cabeça e, ao lado, outro corpo preso na mesma posição.
Moisés.
O nome bateu nela junto com o medo. Ele estava desacordado, a cabeça caída para a frente, os cabelos grudados ao rosto, o peito se movendo muito pouco. Antes que Eva conseguisse chamá-lo, a pele dela começou a rachar em escamas. Os ombros se expandiram contra as amarras. A coluna arqueou. A sala respondeu antes da transformação completar a primeira curva.
Um jato de água gelada acertou Eva no rosto e no peito.
O choque queimou de frio. Outros feixes vieram de cima, dos lados, do chão. Congelaram os pulsos, prenderam o pescoço, travaram a mandíbula e cobriram parte das costelas com placas claras. Eva tentou gritar, mas o som saiu quebrado. A força do dragão recuou para dentro dela. Pela primeira vez, a criatura também sentia medo.
Uma voz feminina atravessou a sala.
— Finalmente.
O som vinha doce demais para aquele lugar. Esforço e pressa passavam longe daquela voz. A mulher falava perto e longe ao mesmo tempo, caminhando por trás das colunas sem se mostrar.
— Fico contente que você tenha acordado primeiro. Muitos gostam de imaginar que eu conheço cada detalhe do caminho, mas eu conheço melhor os resultados. O processo ainda me surpreende. Você, por exemplo, demorou menos do que eu esperava.
Eva forçou o pescoço contra o gelo.
— Quem é você?
A mulher riu baixo.
— Essa pergunta viria de qualquer um. De você, eu esperava outra.
— Então me solte e espere direito.
O riso voltou, mais próximo.
Uma silhueta surgiu entre duas colunas. Alta, magra, vestida com um tecido claro que descia sem tocar o chão, a mulher se movia sem ruído. O rosto tinha uma beleza difícil de fixar. Eva piscava e encontrava outra idade: jovem por um ângulo, mais velha por outro, familiar durante meio segundo, inalcançável logo depois.
— Já usei muitos nomes — disse a mulher. — Alguns chegaram à Terra em histórias tortas. Outros nasceram em línguas que nem existem mais. O primeiro continua sendo o que prefiro. Elaryan.
Eva guardou o nome antes de sentir medo dele. Estava diante de alguém que parecia ter chegado antes das regras atuais e sobrevivido a elas.
— O que você quer de mim?
Elaryan se aproximou até ficar abaixo do braço preso de Eva. Ergueu a mão e tocou de leve o gelo em torno do pulso. A superfície se refez onde o calor do dragão tentava abrir uma fissura.
— Quero fazer com você o que fiz comigo, de outro modo. Quero corrigir uma demora que se prolongou demais.
— Isso esclareceu muita coisa.
— Você está usando ironia para se manter acordada. Funciona por pouco tempo.
Eva tentou olhar outra vez para Moisés. A cabeça dele continuava caída.
— O que fez com ele?
— Pouco, por enquanto. O suficiente para que não atrapalhe antes da hora.
— Antes da hora de quê?
Elaryan caminhou devagar em torno dela. Eva escutava o vestido roçar o ar, ou imaginava escutar. A doçura da voz aliviava pequenas partes da dor enquanto Elaryan a mantinha presa.
— Você ainda pensa em si a partir da última vida — disse Elaryan. — Eva Azevedo, irmã de André, filha de Paulo, mulher da Terra, morta no meio de uma guerra que começou antes do seu planeta merecer esse nome. Essa versão importa. Laços recentes costumam mandar no corpo. Mas ela é apenas a última superfície.
— Você está me confundindo com a Eva da Bíblia?
Elaryan sorriu, com paciência fabricada.
— A pergunta melhora.
— Eu perguntei se você me confundiu com a mulher da maçã, da costela, do jardim. Adão, serpente, castigo, essa tragédia mal contada.
— Não confundi. Usei.
O gelo pareceu apertar.
— Usou o quê?
— A história. Encontrei na Terra uma forma possível e a reforcei. Vocês precisavam de uma narrativa pequena o bastante para atravessar línguas, guerras, medo, sacerdotes, cópias, incêndios e traduções. Maçã, costela, jardim, culpa. Quatro imagens simples. Funcionou melhor do que eu previa.
Eva sentiu nojo enquanto a frase terminava de se formar.
— Você criou uma religião?
— Eu criei um caminho de lembrança dentro de culturas que já fariam religiões com ou sem mim. A diferença é que alguns símbolos precisavam sobreviver. Alguns nomes também.
Elaryan estalou os dedos.
A luz veio sem fogo. Entrou pela testa de Eva e desceu pela nuca com violência. O crânio pareceu pequeno para o que voltava. Ela tentou gritar. A garganta falhou. Imagens se acenderam sem ordem: barro úmido nos pés, um céu enorme sem cidade, mãos masculinas cortadas por pedra, uma criança correndo entre árvores baixas, febre, parto, sangue, sepultura rasa. Depois outra vida. Outro rosto no reflexo da água. Outra língua. Um corpo queimado por doença. Uma travessia por aldeias, desertos, tendas, casas de barro. Séculos abrindo espaço entre uma morte e outra.
Eva deixou de respirar por um instante.
Ela tinha sido muitas.
Não lembrava em sequência limpa. Lembrava em punhados. Um marido chamando por ela com outro nome. Um filho nascendo e morrendo antes do primeiro inverno. Um punhal escondido sob tecido. Uma filha com os mesmos olhos de Paulo. Um tempo sem corpo, acompanhando descendentes por corredores, campos, guerras e camas de parto, vendo sem tocar, gritando sem voz. Depois um corpo novo, distante, compatível o bastante para recebê-la. Uma vida reiniciada com lacunas, e a última vida sempre mais forte que as demais.
Quando a onda recuou, Eva chorava sem perceber.
— O que você fez?
— Religuei o que já era seu.
— Isso não responde.
— Responde melhor do que você gostaria. Seres de primeira vida que repetem o nível um quase sempre perdem acesso às vidas anteriores. A estrutura guarda, mas não entrega. Um choque bem aplicado reacende os trechos inativos. Em terráqueos, isso acontece com frequência. A Terra foi um depósito de atrasos, erros e exceções.
Eva respirava com dificuldade. O frio, a dor e as memórias disputavam espaço dentro dela. Mesmo assim, uma pergunta atravessou todas as outras.
— Moisés.
Elaryan parou.
— Sim.
— Ele é quem eu acho.
— Adam.
O nome chegou como um reconhecimento tardio. Eva virou o rosto para ele com o pouco movimento que o gelo permitia. As memórias ainda se rearranjavam por dentro: Moisés na Terra, o homem sedutor e perigoso do clube, o dragão que surgira em Vulcano. Adam. O primeiro filho. A primeira pessoa que a ouvira e respondera. Em outras vidas, companheiro, amante ou apenas alguém que ela procurava tarde demais.
Um som saiu do corpo preso ao lado.
— Estou ouvindo.
Eva sentiu o peito ceder.
— Moisés.
Ele ergueu a cabeça devagar. Os olhos ainda traziam torpor, mas a voz veio inteira, cansada e ferida.
— Adam também serve, pelo visto.
Eva riu e chorou no mesmo fôlego. O gelo mordeu a garganta quando ela tentou virar mais o rosto.
— Você lembrou?
— O bastante. E ouvi o bastante.
Elaryan ergueu a mão. Feixes de água e frio atingiram Moisés, cobrindo-lhe os braços, o peito e parte do rosto antes que ele juntasse força para tentar qualquer coisa. O dragão preto se mexeu por trás dos olhos dele, mas o gelo travou o primeiro impulso.
— A conversa dos dois vai precisar esperar — disse ela.
— Você está fazendo isso por quê? — perguntou Eva.
Elaryan ficou diante dela. Pela primeira vez, a doçura saiu um pouco da voz.
— Porque você foi o primeiro ser deste lado do Universo a carregar uma partícula cerebral capaz de continuar depois da morte. Adam foi seu primeiro descendente. Vocês dois morreram, voltaram, se perderam, se encontraram, acumularam experiência, sangue, memória e anomalia. Enquanto outros subiam de nível e esqueciam a origem, vocês permaneceram presos a ciclos baixos por tempo demais. Isso criou uma coisa rara.
— Rara para quem?
— Para o universo.
— Para você.
Elaryan aceitou a correção com um movimento mínimo da cabeça.
— Também.
Moisés puxou as amarras. O metal rangeu, mas permaneceu no lugar.
— Solte Eva.
— Ainda fiel às ameaças inúteis. Isso também atravessou bem as eras.
— Você fala de amor como ferramenta porque nunca deve ter amado ninguém.
Elaryan olhou para ele com curiosidade real. Durante um segundo, Eva viu cansaço naquele rosto. Depois, o comando voltou.
— Amor é uma das ferramentas mais eficientes que a matéria desenvolveu para obedecer a um caminho sem perceber a obediência. Eu respeito o mecanismo.
— Você não respeita nada — disse Eva.
— Respeito resultados.
Elaryan caminhou até Moisés. Tocou a lateral do corpo dele, logo abaixo das costelas, examinando carne e osso com a atenção fria de uma mesa de cirurgia.
— A versão terrestre preservou a costela porque era simples. A verdade exige adaptação. O corpo dele carrega o suficiente de você para não ser rejeitado por completo. O sangue de dragão impedirá a destruição imediata. A sua estrutura tentará expulsar o invasor, falhará, e então fará o que organismos vivos fazem quando falham em destruir: revestirá, acomodará, transformará.
Eva puxou os braços até sentir a pele rasgar.
— Não.
— O efeito será parecido com uma pérola — continuou Elaryan. — A agressão virará núcleo. O núcleo ensinará ao restante do sistema uma propriedade que você ainda não tem em condição estável.
Ela passou os dedos pelo ponto abaixo das costelas de Moisés.
— A ligação entre vocês permanecerá. A parte dele permitirá que seu corpo use energia mesmo quando a fonte estiver distante.
Moisés encarou Elaryan.
— Imortalidade.
— Indestrutibilidade primeiro. A imortalidade vem como consequência, se o corpo sobreviver à implantação.
— Se?
Elaryan voltou os olhos para Eva.
— Todo nascimento importante contém desperdício.
Eva sentiu o dragão vermelho bater contra a prisão interna. O fogo tentou subir de novo. O gelo respondeu. Eva tremeu, e a sala encheu-se de vapor.
— Você reforçou a história para chegar aqui — disse Eva.
— Reforcei várias. Algumas falharam. Outras chegaram deformadas. Essa bastou.
— E André?
— Seu irmão carrega outro papel. Ainda está aprendendo a morrer no tempo certo.
O nome dele acendeu uma raiva nova, mas Eva não conseguiu segurá-la. Elaryan moveu os dedos, e as amarras nas costas de Moisés se abriram o suficiente para expor a coluna. Ele fechou os olhos antes da dor vir. Eva ouviu o estalo do primeiro golpe.
Moisés gritou.
O som atravessou as memórias de todas as vidas dela. Eva tentou se transformar, tentou quebrar pulsos, cotovelos, quadril, pescoço, tentou mover qualquer parte do corpo. O gelo cresceu com brutalidade. Elaryan mergulhou os dedos nas costas de Moisés e arrancou osso, sangue e luz de uma vez.
Ele perdeu a voz no meio do segundo grito.
Eva viu a peça nas mãos dela. Aquilo excedia uma costela ou uma vértebra comum. Trazia curvas pequenas, ramificações, filamentos escuros e vermelhos, marcas de dragão atravessando tecido humano. Elaryan segurava aquilo com cuidado quase religioso.
— Meu amor — disse Eva, sem saber se falava com Moisés, Adam ou com alguém perdido antes dos dois nomes.
Elaryan veio em sua direção.
— A primeira mulher precisa suportar o primeiro corte.
Eva tentou negar, mas o corpo já não obedecia à negação. O gelo afastou a pele de suas costas. A mão de Elaryan entrou com precisão no centro da coluna.
A dor apagou o restante da sala.
Não houve grito. O corpo de Eva queimou e congelou ao mesmo tempo, a memória de todas as vidas se abriu em branco, e a última coisa que ela viu antes de cair para dentro de si mesma foi Moisés preso ao lado, de cabeça erguida, tentando continuar consciente por ela.