O Deserto
André abriu os olhos com areia na boca. Sentiu o gosto de pó, o calor mordendo a nuca, grãos colados ao rosto, dentro da camisa, presos no cabelo e raspando entre os dentes. Tentou cuspir, mas a língua estava seca demais. O primeiro pensamento coerente veio quebrado: o tiro. Depois a explosão. Depois Eva caída no chão da biblioteca com a moeda fechada na mão. Moisés atravessando o combate com a guarda da Confraria. Depois nada.
Ele rolou de lado e apoiou as mãos na areia. A pele dos braços trazia proporções que ele não reconhecia. Os músculos respondiam com leveza estranha, o abdômen doía de um modo limpo, quase atlético, e a própria respiração cabia melhor no peito. André olhou para as mãos, abriu e fechou os dedos, procurou o sangue do tiro, a marca da bala, qualquer rasgo que provasse continuidade entre a biblioteca e aquele lugar. Encontrou unhas limpas, veias diferentes. O coração disparou.
Levantou-se cambaleando. O horizonte era feito de areia, pedras baixas e uma luz avermelhada que não combinava com nenhum céu que ele conhecesse. Quando ergueu o rosto, viu dois sóis. Um maior, branco e agressivo; outro menor, mais baixo, dourado, quase alaranjado. Aquilo deveria encerrar qualquer esperança de explicação simples. Ainda assim, André tentou montar uma sequência aceitável: sobrevivera, fora sequestrado de novo, drogado, levado a algum deserto, colocado em cenário montado. A hipótese morreu antes de terminar. Nenhuma empresa, culto ou criminoso teria como pendurar outro sol no céu.
O som veio primeiro como motor distante. André se virou, procurando aeronave, drone, helicóptero, qualquer coisa que pertencesse a uma categoria conhecida. As nuvens se juntaram rápido demais acima dele, escurecendo o deserto em faixas de sombra. Um raio desceu à sua frente e atingiu a areia com um estouro seco. André caiu sentado, protegendo o rosto, enquanto a fumaça subia do ponto de impacto. Quando ela se abriu, havia um homem ali.
Ele tinha cabelos brancos, curtos, olhos cor de mel e uma armadura clara marcada por detalhes escuros que lembravam escamas e plumas. Uma proteção cobria parte do rosto e se recolheu para dentro da própria pele quando ele deu o primeiro passo. André ainda estava no chão e, mesmo assim, percebeu a surpresa no rosto do homem.
O homem não perguntou se André estava bem. Aproximou-se, examinou seus braços, o rosto, o modo como respirava, depois deu dois passos para trás. Havia algo de médico naquela inspeção. André pensou em rir da falta de explicação, mas não conseguiu. O homem ergueu um cajado e golpeou o chão.
Raios subiram da areia para o céu. Não caíram. Subiram. André viu as descargas fixarem pontos ao redor dele, formando um círculo. Em cada ponto, uma figura surgiu por meio de luz, vento e estalo. Armaduras, máscaras, capas, cabelos impossíveis, peles de tons que a Terra reservava para pintura ou sonho. Dez pessoas o cercavam, e um último ponto continuava aberto, uma fenda fina tremendo no ar.
— Hagar, isso não pode ser verdade — disse um homem de armadura verde, retirando a máscara. — Eu estou vendo mesmo isso?
— Não sei, Hertho. Foi por isso que chamei todos imediatamente.
Hagar. André guardou o nome do homem branco porque precisava se agarrar a alguma coisa. Hertho olhava para ele com espanto quase ofensivo. Outros cochichavam. Uma mulher de cabelos prateados e orelhas levemente pontiagudas aproximou-se um pouco, fascinada demais para disfarçar.
— A profecia finalmente se concretizou? O garoto destinado a desvendar o segredo da vida está diante de nós?
— Não existe tal coisa como profecia, Bel — respondeu um homem de armadura azul escura e porte largo. A voz dele tinha autoridade de quem já se cansara daquela discussão antes de André nascer. — Hagar, de onde você tirou esse menino?
— Juper, eu não tirei de lugar algum. Senti a energia vital aparecer no deserto e vim. Ainda não conversamos.
O ponto vazio continuava tremendo. Hagar lançou um olhar irritado para a fenda.
— Krakor ainda não chegou, o que é coerente com a capacidade dele de transformar qualquer segundo perdido em um problema para todos nós.
— Da última vez tentamos matá-lo — disse outra voz. — Alguma resistência ao convite é compreensível.
André escutava sem conseguir acompanhar. As palavras chegavam em uma língua que ele compreendia, mas o entendimento vinha atrasado, cheio de ruído. A luz dos dois sóis aumentava e diminuía em ondas. Cheiros sem nome entravam por seu nariz: metal quente, areia molhada sem chuva, pele, fumaça, algo doce e podre ao mesmo tempo. A boca tentou formar uma pergunta, e a voz saiu errada.
— Eu... eu...
O som da própria fala o feriu. O corpo respondeu com formigamento, náusea, dor atrás dos olhos. As pessoas ao redor se moveram, algumas preocupadas, outras curiosas, e a soma de armaduras, cores, nomes e olhares empurrou André para o limite. Ele levou as mãos à cabeça.
— Ele está em crise — disse um homem de rosto esguio, armadura prateada escura e pele sobre os ombros. — Primeira morte, provavelmente. Agah?
— Vaes, eu conheço protocolos de socorro para crises pós-primeira morte em mundos de vento, água e fogo — respondeu uma mulher ruiva, de armadura dourada. — Aqui, com alguém que nem deveria estar aqui, prefiro não fingir competência.
— Excelente — André tentou dizer, mas só conseguiu pronunciar metade da palavra.
Uma mulher de cabelos curtos, muito escuros, pele clara, olhos claros e armadura azul com ombreiras vermelhas atravessou o círculo. Não pediu licença aos outros. Agachou diante dele, segurou seus ombros com firmeza e aproximou a boca do ouvido dele.
— Meu nome é Dafa. Ouça só a minha voz. Feche os olhos.
André obedeceu porque desobedecer exigiria energia demais.
— Respire pelo nariz. Devagar. Não procure explicação agora. O ar entra, o peito abre, o ar sai. Só isso.
Ele puxou ar. Doeu. Soltou. Doeu menos.
— De novo. Sinta os pés, mesmo que pareçam longe. Mexa os dedos. Isso. Agora as mãos. Não tente entender tudo de uma vez.
O nome dele na boca dela provocou um susto menor que os outros. André repetiu a respiração. Os cheiros diminuíram. A luz parou de cortar. O círculo de desconhecidos deixou de ser uma parede e voltou a ser um conjunto de pessoas absurdas, o que já era alguma melhora.
— Pode abrir os olhos — disse Dafa.
Ele abriu. Ela soltou seus ombros e continuou ao lado dele.
— Você morreu — disse ela. — Ou atravessou algo muito parecido com morte. Está em outro mundo. Diga seu nome e o planeta de origem. Depois eles explicam o que conseguirem sem transformar sua cabeça em ruína.
André engoliu em seco.
— Meu nome é André. Pelo menos era. Não sei se este corpo é meu. Eu lembro da Terra. Earth. Um planeta azul, terceiro de um sol. Oito planetas, ou nove, dependendo de quando a pessoa estudou. Nós discutíamos Plutão mais do que resolvíamos fome, então isso diz alguma coisa.
Alguns rostos mudaram. Surpresa, alegria, receio. O homem de armadura verde, Hertho, soltou uma risada curta.
— A Terra. É claro.
— É claro por quê? — André perguntou.
— Porque é um mundo avançado o bastante para criar instrumentos impressionantes e primitivo o bastante para usá-los contra a própria convivência. Alguns aqui tiveram participação no desenvolvimento simbólico de lá. Não é, Zeus?
André seguiu o olhar dele até um homem forte, de barba e cabelos escuros compridos, armadura vinho, postura desconfortável. Zeus. O nome entrou em André com um acúmulo de infância, mitologia, estátuas, livros, piadas ruins e tempestades. O homem não sorriu. Apenas deu de ombros, como alguém que preferia não ter sido chamado.
— Zeus? — André repetiu.
— A compreensão de línguas costuma vir com a morte — explicou Hertho. — Os nomes, infelizmente, vêm com as histórias que cada povo inventou em torno deles.
Hagar retomou o centro antes que André se perdesse no fascínio.
— Vamos ao básico. Conhecemos cinco níveis de planetas. Nos de nível um, a vida surge pela primeira vez. Corpos se formam, crescem, acumulam experiência, e uma partícula no cérebro preserva o que aquele ser se tornou. A explicação mais consistente que encontramos é que, na morte, uma descarga concentrada nessa partícula inicia a recriação em outro planeta. Em geral, a primeira passagem conduz a um mundo de nível dois.
André tentou acompanhar. Partícula cerebral. Morte. Recriação. Planetas. Repetiu as palavras em silêncio para não perder nenhuma.
— Este corpo veio dela? — perguntou, olhando outra vez para as próprias mãos.
— Veio das informações que ela conseguiu conservar — respondeu Hagar. — A forma costuma guardar relação com a vida anterior, mas não reproduz cada marca nem a mesma idade. Seu corpo parece ter alcançado uma fase de maior vigor. Ainda teremos de examiná-lo.
— Então eu morri na biblioteca.
— Ao que tudo indica — disse Hagar. — A questão é que você não deveria ter vindo para cá. Este é Éden, o único planeta de nível cinco que conhecemos. Em milênios, apenas doze renascimentos ocorreram aqui. Onze de nós estamos diante de você. O último ainda não conseguiu atravessar o portal porque sua relação com pontualidade é ofensiva.
A fenda tremeu, vazia.
— Krakor? — perguntou André, por puro reflexo.
— Krakor — confirmaram três vozes, com graus diferentes de irritação.
Hagar continuou, agora mais medido.
— Todos nós vivemos em planetas dos quatro níveis anteriores. Em Éden, aprendemos a atravessar distâncias sem depender de outra morte e a escolher os mundos aos quais tentamos chegar. Também aprendemos a mover outros seres e a intervir em planetas. Por isso fomos chamados de deuses, mestres, monstros ou profetas em lugares menos preparados para nos entender. Paramos de fazer contato com mundos de primeira vida porque uma visita breve pode alterar séculos de desenvolvimento. O tempo também não ajuda. Meses na Terra podem equivaler a décadas aqui, às vezes mais. A relação muda conforme a posição dos planetas e o percurso entre eles.
Alguns no círculo começaram a cochichar. Hagar baixou as sobrancelhas, e uma rajada de vento atravessou o chão sem levantar areia. O silêncio voltou. André, apesar do pânico, reconheceu a dinâmica de sala de reunião: gente poderosa, entediada com explicações que já conhecia, sendo disciplinada por alguém que ainda levava protocolo a sério.
— E a profecia? — perguntou Bel, a mulher prateada.
Hagar demorou antes de responder. Pela primeira vez, a voz dele perdeu um pouco da firmeza.
— Em nossos mundos anteriores, cada um de nós ouviu alguma variação de uma lenda: um jovem surgiria diante dos sábios mais poderosos do Universo trazendo as respostas para o segredo da vida. Com o tempo, quase todos aprendemos a desconfiar das versões. Ainda assim, mantivemos um protocolo. Quando o guardião do espaço-tempo encontra uma ocorrência compatível, convoca os demais por raio e portal imediato. Foi o que fiz.
— E agora estamos aqui — disse um homem alto, de pele azul clara, cabelos no mesmo tom e armadura translúcida que deixava parte do peito visível.
— Estamos, Coneli — disse Hagar. — E precisamos de informação antes de reverência.
A palavra reverência incomodou André. Ele lembrou do cálice, da moeda, do diário de Paulo, do Negociador, de Moisés tocando a mão de Eva. As lembranças vinham em pedaços mais nítidos. A bala apontada para seu peito. A luz branca. Eva. O corpo dele inclinou para a frente.
— Minha irmã estava comigo.
Uma mulher de pele amarelada, cabelos loiros, armadura dourada e capa roxa olhou para ele de um modo diferente. André sentiu uma mão invisível na parte interna da lembrança.
— Ele recuperou fragmentos da morte — disse ela aos outros. — Havia uma profecia antes da passagem. Um cálice, uma moeda, uma mulher chamada Eva e algo sobre sangue de dragão.
O círculo mudou. A expressão de quase todos se voltou para Zeus.
— Ah, por favor — disse Zeus, enfim. A voz era grave, cansada e menos divina do que André esperava. — Eu voei e soltei fogo pela boca uma vez.
— Uma vez — repetiu a mulher de capa roxa. — E, por causa dessa única vez, você virou rei, deus, ameaça, amante, monstro e ancestral em versões suficientes para ocupar bibliotecas.
— Nerfate, eu não sabia que eles fariam tanto com uma cena.
— Você raramente sabe o que os outros farão com suas cenas.
André olhou de um para outro, tentando conciliar o Zeus das histórias com aquele homem desconfortável sendo julgado por seus iguais. A estranheza o ajudou. Se podiam se irritar, se defender, errar e ser ridicularizados, não precisavam ser deuses.
— Eva está viva? — perguntou André.
Nerfate voltou os olhos para ele.
— Não consigo alcançar isso daqui.
— Então me levem de volta.
Alguns riram diante do absurdo do pedido. Dafa não riu. Hagar também não.
— Não sabemos ainda o que trouxe você — disse Hagar. — E ninguém volta de uma primeira travessia apenas por vontade. Primeiro precisamos entender por que uma partícula de nível um apareceu em Éden carregando memória de cálice, dragão e profecia.
André sentiu a areia sob os pés nus e fechou as mãos. O corpo novo obedecia, mas não consolava. Ele havia passado a vida tentando escapar da herança de Paulo. Agora estava em um deserto de dois sóis, diante de seres que tinham nomes de deuses, ouvindo que sua morte podia cumprir uma lenda. O planeta, apesar dos dois sóis, ficava em segundo plano diante da irmã caída no chão da biblioteca, com uma moeda presa na mão.
— Então entendam rápido — disse ele. — Porque, se minha irmã ficou para trás, eu não tenho nenhum interesse em ser resposta para segredo nenhum.