Zeus Jornada do Sangue · Capítulo 35 de 49
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Zeus

Zeus desceu um degrau do trono e abriu os braços para apresentar o salão do Novo Olimpo, as colunas e o planeta que tomara para si. A foice em sua mão tinha o cabo quase da altura dele. Duas correntes saíam de pontos opostos das costas, cruzavam o peito e sustentavam armas atrás dos ombros. As roupas pretas, o metal e o céu carregado compunham uma imagem que ele certamente ensaiara.

— Na Terra diziam que o mundo dava voltas. Também diziam que o mundo era pequeno. Duas frases pobres para uma verdade que só compreendi depois de morrer mais uma vez. Distâncias acabam quando aprendemos a atravessá-las, e toda relação retorna em outra posição.

Ele apontou a foice para Afrodite.

— Você voltou ao meu salão ao lado de Hagar e do homem que chamaram de profetizado. Eu também voltei, mas finalmente alcancei o nome que Elaryan me ensinou a repetir durante tantas vidas.

Afrodite examinou as correntes.

— Vestir preto e colecionar armas não tornou seu discurso menos cansativo.

— Sentiu minha falta.

— Senti vontade de arrancar esse sorriso.

Ela avançou, e o ar ao redor perdeu velocidade. Cada movimento de André e Hagar se alongou, e Afrodite atravessou os degraus enquanto um fragmento de segundo se abria para ela. Já usara aquela técnica contra Poseidon e contra o próprio Zeus. Chegou ao trono com a mão pronta para tocar o rosto dele, ainda escolhendo entre gelo e eletricidade.

Zeus virou os olhos em sua direção.

Tudo parou. A técnica de Afrodite retardava uma área; a dele interrompeu o tempo muito além do salão. Nuvens ficaram imóveis no céu, partículas de poeira suspenderam a queda e a energia lançada por Eva deixou de avançar ao redor do planeta.

Zeus caminhou entre os três. Não precisava falar; lançou o pensamento diretamente às mentes congeladas.

— Minha querida, hoje tenho mais poder que qualquer um de vocês. Elaryan mandou a irmã desse rapaz trabalhar acima do planeta. Eu poderia matá-la, mas quero descobrir o resultado.

Manter aquela interrupção exigia dele um esforço que começava a marcar as veias do rosto. Zeus segurou o pulso de Afrodite, virou a mão dela contra o próprio pescoço e retornou ao trono. Quando o tempo correu novamente, a descarga preparada por Afrodite atingiu sua própria pele. Ela recuou, surpresa, sem qualquer ferimento.

— O que você fez?

— Elaryan sabia que eu encontraria Cronos. Sabia também no que eu me transformaria. Ainda consegue me irritar mesmo depois de eu ultrapassar o poder dela.

— Ultrapassou? — Afrodite massageou o pulso. — Você fala com muita necessidade de provar.

Hagar atacou enquanto os dois discutiam. Uma cortina de fogo cobriu a escadaria, seguida por ar comprimido que arremessou fumaça e pedra contra o trono. Ele sabia que os golpes não feririam Zeus; usou-os para esconder a aproximação. Quando surgiu ao lado do deus, prendeu o braço que segurava a foice e tentou arrancá-la.

Zeus abriu a mão. A arma escapou dos dedos, cruzou o corpo dele e se fixou na outra mão, atraída por uma força invisível. A lâmina atravessou as costas de Hagar.

André avançou, mas as correntes de Zeus se soltaram e o atingiram no peito. Hagar ainda segurou o cabo por um instante. Uma matéria negra saiu da cabeça de Zeus, abriu-se sobre os ombros dele e tomou a forma de uma criatura sem rosto. Afrodite perdeu o deboche.

— Érebo. Foi essa criatura que levou Silency.

A sombra envolveu Hagar. Uma corrente luminosa saiu do corte e percorreu a lâmina da foice, puxando matéria, energia e a partícula cerebral dele. André agarrou uma das pontas escuras, mas seus dedos atravessaram a criatura. Hagar tentou alcançar o cajado caído nos degraus. O braço se desfez antes de tocá-lo.

Érebo consumiu o restante e retornou ao corpo de Zeus. Uma onda de energia explodiu no salão, arrancou blocos das colunas e lançou André e Afrodite para o piso inferior.

André se levantou procurando Hagar. Restavam o cajado e a marca da foice na pedra.

— Aquela criatura absorveu uma companheira de Athos — disse Afrodite. A voz dela falhou na última palavra. — Agora levou Hagar.

— Eu controlo Érebo com a foice do tempo — respondeu Zeus. — Cada ser consumido entrega a ele a própria partícula, o conhecimento e o poder. Como Érebo vive dentro de mim, tudo isso fica ao meu alcance.

André olhou para o cajado. Afrodite também.

— Como Cronos conseguiu essa foice? — perguntou André.

A pergunta oferecia tempo. Enquanto Zeus falasse, Afrodite poderia chegar à arma de Hagar e André encontraria alguma abertura.

— Agora você quer ouvir minha história.

Afrodite saltou. O cajado subiu antes dela e atravessou o salão até a mão livre de Zeus. Ele o prendeu às costas junto das outras armas.

— Nem pense nisso.

— Eu não devia ter devolvido esse cajado a Hagar — disse Afrodite.

— Sua lista de decisões ruins cresceu muito desde que me traiu. Mas André pediu uma explicação, e ele merece saber quanto colaborou para isto.

Zeus apoiou a foice no ombro e voltou ao centro do salão, satisfeito por ter recuperado a atenção dos dois.

— Quando André me matou, renasci num planeta que estava sendo arrastado para um buraco negro. Outros mundos seguiam a mesma queda. Eu ainda desconhecia a convergência dos universos, só sabia que não conseguia me teleportar e que nenhum dos meus poderes deteria o colapso.

André lembrava o golpe que o matara. Zeus contava a morte sem raiva, usando-a para engrandecer o retorno.

— A explosão me trouxe para este planeta. Quase ninguém renascia aqui, portanto o lugar guardava poucos rastros. A convergência também trouxe Cronos e Merlin. Os dois morreram poderosos e voltaram muito acima do que tinham sido. Pela primeira vez, eu estava diante de homens capazes de me tratar como inferior.

— Deve ter sido doloroso — disse Afrodite.

— Foi instrutivo.

Zeus deslizou a mão pela lâmina.

— Merlin descobriu que uma das armas místicas mais poderosas estava escondida neste mundo. Cronos encontrou a foice antes dele e decidiu usá-la para eliminar o mago. Um terceiro ser também a procurava: Érebo, o primeiro nascido neste universo.

Uma faixa de escuridão percorreu o pescoço de Zeus e desapareceu sob a roupa quando ele pronunciou o nome de Érebo.

— Érebo atravessou todas as eras sem morrer. Qualquer arma mística poderia matá-lo, mas apenas esta foice seria capaz de submetê-lo. Ele esperou Cronos se distrair, dominou seu corpo e tentou tomar a arma. Merlin atacou os dois. Eu observava perto o suficiente para agir e longe o suficiente para ser esquecido.

— Você deixou os três se destruírem — disse André.

— Eu deixei que fizessem o trabalho mais difícil.

Zeus ergueu a foice, acompanhando com os olhos a luz que corria pela lâmina até a ponta.

— Roubei-a e toquei Érebo com a ponta. A arma puxou sua essência e o filtrou para dentro de mim. Depois usei a foice contra Cronos. Merlin escapou quando o campo começou a ruir. Foi assim que descobri o que vocês acabaram de ver acontecer com Hagar. Enquanto eu conservar a foice, Érebo obedecerá.

— Você não sabia que a arma faria isso — disse André. — Apostou.

O sorriso de Zeus diminuiu. Seus dedos se fecharam no cabo, e a lâmina deixou de oscilar diante de André.

— Elaryan fez povos repetirem histórias sobre feitos que eu ainda não havia realizado nesta vida. Quando vi Érebo e a foice, senti que aquele gesto completava uma narrativa preparada para mim. Chame de aposta, se isso o consolar.

André reconheceu o mecanismo. Elaryan não precisava ordenar um gesto. Reforçava uma crença até que alguém confundisse repetição com destino.

Zeus mostrou as palmas das mãos. Linhas de metal percorriam a carne, entravam sob as unhas e seguiam pelos pulsos.

— Derreti parte das mãos e fundi fragmentos da foice aos ossos. Todas as armas místicas foram forjadas com o mesmo material. Posso atraí-las depois que reconheço sua energia. A distância não interrompe o chamado, mas primeiro preciso localizar a arma. Érebo conhece quinze. Quatro já são minhas.

— A foice, as duas atrás de você e o cajado de Hagar — contou André.

— O cajado acaba de completar a coleção.

O ar ao lado do trono se abriu. Uma mulher atravessou a passagem e tocou o ombro de Zeus. André e Afrodite reconheceram o rosto ao mesmo tempo.

— Ártemis — disse André.

— Não — respondeu Afrodite.

Zeus acompanhou o medo nos dois.

— Enquanto eu alcançava o verdadeiro Zeus, meu amor também evoluía para a deusa que sempre deveria ter sido. Érebo pode consumir um ser inteiro, mas aprendi a retirar partes do que ele absorve e dividi-las com outras pessoas. Ártemis recebeu imortalidade e poderes escolhidos por mim.

Ártemis desceu um degrau e observou Afrodite dos pés ao rosto.

— Ela continua bonita demais.

— Posso corrigir essa injustiça — disse Zeus.

Ele apontou a foice para Afrodite.

— Gostaria de consumir a deusa do amor, minha querida?

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