O Mago dos Magos Jornada do Sangue · Capítulo 17 de 49
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O Mago dos Magos

Merlin despertou sob ataque.

A primeira sensação foi de calor cortando a pele. A segunda veio em choque elétrico, atravessando músculos que ainda não tinham obedecido a nenhuma ordem. Quando abriu os olhos, viu sobretudos escuros, capuzes baixos e braços erguidos em círculo ao redor dele. Nas mãos daqueles homens havia galhos trabalhados, finos e duros, apontados para seu corpo. Das pontas saíam raios de cores diferentes: alguns queimavam, outros rasgavam, outros entravam pela carne e faziam os ossos vibrarem.

Ele não conhecia aquele mundo.

O chão era de pedra clara, molhada por uma garoa recente. Havia torres estreitas ao redor da praça, telhados inclinados, janelas altas e uma névoa que segurava o cheiro de fumaça perto das ruas. Os homens que o atacavam não usavam espadas, lanças ou máquinas. Canalizavam energia pelos pedaços de madeira, e aquilo, para qualquer pessoa nascida em certas histórias da Terra, lembraria magia de livros infantis e lendas famosas. Para Myrddin, reunido novamente depois de ter vivido como dois homens, era uma técnica desconhecida tentando matá-lo antes que terminasse de respirar.

O próximo raio acertou-lhe o peito.

Merlin fechou a mão.

O ar em volta dele explodiu em fogo. Não saiu da madeira de ninguém, não saiu de boca de dragão, não veio de máquina alguma. Nasceu da pressão que ele impôs à matéria em um círculo breve e brutal. Os homens mais próximos foram lançados contra o chão e contra as paredes da praça. As capas pegaram fogo. Alguns largaram as varinhas. Outros arrastaram-se para longe, batendo nas próprias roupas, e os que ainda estavam de pé hesitaram tempo suficiente para que ele se levantasse sem tocar os pés no chão.

Quando Merlin começou a flutuar, os homens se calaram. Sangue escorria de um corte aberto em sua testa, mas a ferida já se fechava. Ele ergueu os braços lentamente e deixou o corpo subir um pouco mais, apenas para vê-los levantar o rosto. A satisfação o surpreendeu. Depois, agradou.

Criou nuvens sobre a praça.

A garoa virou chuva pesada, e a chuva, por capricho dele, parou no ar antes de tocar o chão. Centenas de gotas ficaram suspensas, brilhando diante das fachadas. Merlin moveu dois dedos; a água subiu em vez de cair. Um dos soldados gritou. Outro tentou correr e escorregou na pedra molhada. Em seguida vieram pequenos furacões, redemoinhos que arrancaram capuzes, derrubaram escudos, viraram carroças e empurraram corpos para os cantos. Quando Merlin estalou os dedos, um raio caiu dentro da própria nuvem baixa e iluminou seu rosto por baixo.

Ele caminhou entre os caídos sem tocar o solo.

Perto de um corpo carbonizado, viu uma das varinhas. Desceu o suficiente para pegá-la. A madeira era lisa, fria, mais pesada do que o tamanho indicava. Havia veios internos que respondiam ao calor de sua mão, canais talhados por dentro ou formados pela própria árvore antes do corte. Galho comum nenhum guardaria aquela resposta. A peça ampliava uma intenção, estreitava energia bruta, obrigava o poder a sair por uma direção precisa. Merlin apontou-a para o céu e forçou fogo através dela.

A coluna subiu espessa, clara no centro e vermelha nas bordas, abrindo a camada de nuvens até deixá-las girando em volta do furo. O clarão pôde ser visto a muitos quilômetros. Alarme nenhum soou, mas a cidade respondeu com sinos. Portas bateram. Pessoas se esconderam nas janelas. Os primeiros soldados fugidos voltaram pouco depois trazendo uma tropa maior, formada por homens e mulheres com armaduras leves, varinhas longas, bastões metálicos e equipamentos que lembravam artilharia portátil.

Merlin sorriu.

O ataque veio em salvas. Lâminas de luz cortaram a praça; correntes elétricas prenderam-se ao ar; projéteis de pedra cresceram no meio do caminho. Um disparo atingiu Merlin no ombro e o empurrou para baixo. Ele perdeu altura, bateu o joelho na pedra e sentiu raiva antes de sentir dor. A varinha respondeu ao aperto da mão. Da ponta dela saiu uma lâmina de gelo comprimido, fina e quase invisível no primeiro instante. Merlin moveu o braço em arco.

A linha gelada atravessou a primeira fileira.

Corpos se abriram. Os que morreram desapareceram antes que todas as partes tocassem o chão. O sangue que restou espirrou na pedra e vaporizou ao alcançar o fogo. A lâmina derreteu logo depois do golpe, transformou-se em vapor e voltou a deixar a varinha limpa. Os sobreviventes pararam. Até os que tremiam mantiveram as pontas das armas baixas. Merlin subiu de novo, flutuando no centro da praça, coberto de chuva suspensa, fuligem e sangue alheio.

— Ajoelhem-se diante de mim.

A ordem percorreu a praça sem grito. Alguns caíram de joelhos por reflexo, outros por cálculo, outros porque as pernas perderam firmeza. Três soldados correram por uma rua lateral. Merlin acompanhou a fuga com os olhos, mas não levantou a varinha.

— Deixem que vão — disse. — Gente apavorada costuma levar notícias com eficiência. Preciso que tragam quem manda em vocês.

Os ajoelhados trocaram olhares. Ninguém queria ser o primeiro a falar. Um homem jovem, de rosto estreito, levantou a cabeça rápido demais e logo tornou a baixá-la. Merlin desceu até ele.

— Você tem nome.

— Christer — respondeu o soldado, quase sem voz. — Meu nome é Christer.

— Então use esse nome, Christer. Por quem você lutava?

O rapaz engoliu em seco. A chuva suspensa acima deles fazia pequenas sombras em seu rosto. Ele olhou para os companheiros e encontrou neles mais medo do chefe ausente do que do homem flutuando diante da praça.

— Dom Agrippa. Somos soldados de Dom Agrippa.

— Soldados ou propriedade?

Christer não respondeu de imediato. Outro homem, mais velho, com metade da barba queimada, falou ajoelhado atrás dele.

— Ele controla nossos corpos. Pode parar um braço no meio de um golpe, abrir nossas mãos, quebrar joelhos. Também tira membros e recoloca depois, se quiser mostrar que pode. Ninguém serve por fidelidade.

Merlin ouviu sem interromper. Agrippa precisava de um artifício para controlar corpos e de demonstrações repetidas para manter o medo. Ainda assim, havia submetido uma cidade inteira.

— E vocês acreditam que ele lutaria por vocês? — perguntou Merlin.

Christer soltou uma risada curta, nervosa, que morreu assim que nasceu.

— Dom Agrippa luta para continuar sendo Dom Agrippa.

O segundo ataque chegou antes que Merlin respondesse.

Centenas de soldados apareceram nas entradas da praça e nas passarelas entre as torres. Atrás deles, uma figura subiu pelo ar usando discos de metal presos aos pés e aos pulsos. O homem usava um casaco branco de gola alta, luvas com inscrições e uma coroa estreita de prata enfiada nos cabelos. Tinha o rosto comprido, os olhos fundos e a calma treinada de quem viu muita gente obedecer.

Agrippa levantou as mãos.

Merlin sentiu a primeira onda tentar entrar pelo ouvido. Não vinha como pensamento. Vinha em vibração, uma ordem minúscula carregada pelo ar, desenhada para alcançar articulações antes da vontade. Ele compreendeu o método no meio do ataque. Abriu camadas de gás em torno do próprio corpo, separou frequências, bloqueou a passagem sonora e deixou apenas um resto inofensivo tocar a pele.

Depois fingiu ceder.

O braço direito dele levantou devagar, seguindo o comando de Agrippa. A cabeça inclinou-se. Uma perna dobrou no ar. A praça prendeu a respiração. Agrippa abriu um sorriso largo. Merlin esperou até que ele baixasse as mãos.

Então gargalhou. Agrippa entendeu antes dos demais. Merlin endireitou o corpo e subiu mais alguns metros.

— Você comanda este planeta inteiro ou divide o domínio com outro vaidoso?

Agrippa fechou o rosto. As mãos tremeram dentro das luvas.

— Todos em Alvenor respondem a mim. Sou a maior força deste planeta. A única.

— Era uma informação útil.

Merlin moveu a varinha para baixo. O ar ao redor de Agrippa endureceu em torno dos tornozelos, dos punhos e da garganta. Corda alguma apareceu; mesmo assim, o corpo dele foi puxado contra a própria vontade, primeiro para frente, depois para baixo. Os discos metálicos falharam. Agrippa caiu de joelhos no centro da praça, diante dos soldados que havia comandado pela dor.

— Enquanto eu estiver vivo, ninguém seguirá você — disse Agrippa, tentando manter a voz firme.

— Isso pode ser resolvido.

Merlin ergueu a varinha.

— Pare, Myrddin!

O nome atravessou a praça com mais força que qualquer raio. Merlin interrompeu o golpe. Poucas pessoas naquele mundo poderiam chamá-lo assim. Menos ainda teriam direito de fazê-lo sem morrer no segundo seguinte.

Arthur caminhava pela rua principal, sem pressa, com a mão próxima ao punho da espada presa à cintura. Não vestia armadura brilhante. Usava couro escuro, botas gastas e uma capa presa por fivela simples, mas a arma ao seu lado anulava qualquer disfarce. Excalibur carregava uma claridade própria, contida na bainha, reconhecível mesmo para quem nunca ouvira seu nome.

Merlin olhou primeiro para a espada. Depois para o rosto de Arthur. Lembrou de guerras, conselhos recusados, confiança quebrada e destinos que nenhum dos dois conseguira impedir.

— Ele é um verme — disse Arthur, parando a poucos passos. — A morte não será castigo bastante para ele.

— Que frase conveniente para quem chegou depois da praça tomada.

— Eu estava preparando a prisão de Agrippa desde que cheguei a Alvenor. Faltava pouco.

Merlin olhou para o tirano ajoelhado, para Christer, para os corpos espalhados, para os soldados que não sabiam se tinham sido libertados ou apenas transferidos de dono. Ergueu a varinha em um movimento curto. A lâmina de gelo saiu de novo, atravessou Agrippa em cortes rápidos, e o corpo do governante se desfez antes de alcançar o chão.

Arthur não se moveu. Apertou os lábios.

— Não me importo para onde ele irá — disse Merlin. — Se renasce, se evolui, se domina outro planeta depois. Aqui, agora, ele atrapalhava.

— Muita coisa mudou em você.

— Que alguma coisa tenha mudado em você também. A partir deste instante, Alvenor responde a mim. Eu sou o mestre deste planeta. O mago dos magos.

Arthur levou a mão ao punho de Excalibur, mas não sacou a espada.

— Nenhuma história entre nós vai me impedir de matá-lo, se for preciso.

Merlin respondeu com um sorriso curto.

— Digo o mesmo.

Arthur olhou ao redor. Christer permanecia ajoelhado, porém agora fitava Merlin com o mesmo medo que antes entregara a Agrippa. A mão de Arthur se afastou de Excalibur. Ele se virou, deu alguns passos e parou antes da rua estreitar entre as torres.

— Vou lhe dar tempo para mostrar que tipo de líder pretende ser — disse, sem olhar para trás. — Se usar esse poder para repetir Agrippa com outro nome, voltarei. E desta vez Excalibur não ficará na bainha.

Merlin não respondeu.

Deixou Arthur ir. Depois voltou-se para os soldados ajoelhados, ainda suspenso no ar, com a varinha na mão e a cidade inteira em silêncio ao redor. A chuva que mantivera parada desde o início enfim caiu sobre Alvenor, lavando pedra, sangue e cinza. Ninguém se levantou antes que ele permitisse.

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