O Irmão Jornada do Sangue · Capítulo 38 de 49
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O Irmão

A praça se transformou num campo de testes para a morte. Um jato de água entrou pelos poros do rosto de um homem e rompeu sua cabeça por dentro. Duas mulheres aprisionaram outra pessoa num bloco de gelo, reduziram a temperatura até o corpo desaparecer e ficaram esperando o retorno. Fogo, raios e rajadas de vento atingiam casas, estátuas e pessoas sem distinção.

Quem renascia procurava primeiro quem o matara. Um homem voltou atrás da própria agressora e a derrubou antes que ela o visse. Outros morreram mais de uma vez, interessados em descobrir se cada retorno traria algum poder novo.

O combate perdeu força quando alguns mortos demoraram a reaparecer. Ninguém sabia se tinham escapado da redoma, caído no antigo planeta de ácido ou renascido longe da cidade. O cansaço e essa dúvida venceram a curiosidade. Os últimos ataques cessaram entre incêndios, canais rompidos e pedras espalhadas.

Hefesto subiu nos restos de uma fonte.

— Uma morte não bastava? Aquele homem morreu oito vezes. Oito. O que esperava descobrir, Faracles?

Faracles estava coberto apenas por um tecido que encontrara depois da última volta.

— Pensei que as mortes pudessem nos evoluir.

— E evoluiu?

— Não notei nada.

— Excelente pesquisa. Agora ajude a reparar o que vocês destruíram.

Hefesto ordenou que apagassem os incêndios, reconstruíssem as paredes e procurassem os que ainda não tinham voltado. Quando desceu da fonte, Faracles veio atrás dele.

— Aonde você vai?

— Procurar Apolo com nosso novo amigo. Antes que inventem outra experiência, isso não é um convite.

A notícia reacendeu as conversas. Hefesto chamou André e deixou a praça enquanto os moradores recolhiam corpos que começavam a desaparecer.

— Não podemos ir voando? — perguntou André.

— Já oferecemos espetáculo suficiente. Zeus virá ou enviará alguém. Se voarmos, entregamos o caminho até Apolo.

Seguiram a pé por ruas estreitas. Atrás deles, moradores fechavam rachaduras com pedra líquida e carregavam água em correntes suspensas para apagar os incêndios. André conhecera a Grécia durante a vida na Terra, mas encontrou ali a mistura que existira apenas em ruínas e livros: construções históricas ampliadas por elementos das lendas, estátuas de deuses e máquinas escondidas entre colunas.

Pararam diante de um templo que reproduzia o Partenon.

— Apolo se esconde dentro do lugar mais óbvio? — perguntou André.

— Os guardas de Zeus também fazem essa pergunta e seguem adiante.

André observou o frontão dedicado a Athena.

— Eu conheci Athena. Por que Zeus construiu um templo para ela?

— Queria representar todos os deuses e pretendia trazê-la para cá. Com Athena, Zeus mistura medo, inveja e desejo. Ártemis sabe, embora ele jamais admita.

André lembrou os poderes e os traços retirados de Afrodite e entregues a Ártemis.

— Pretendia fazer com Athena o mesmo que fez com Afrodite.

— A foice estava com ele quando esses planos começaram. Agora está com você.

Hefesto contornou o templo e subiu pela entrada principal. O salão guardava imagens de Athena, pinturas de batalhas e oferendas antigas. No fundo, uma escada descia para um depósito. Ele afastou uma pedra sob a base da entrada e revelou outra passagem.

Os degraus seguintes eram baixos e estreitos. Terminaram numa sala sem portas aparentes.

— Você precisa respirar? — perguntou Hefesto.

— Não.

— E os dragões têm medo de água?

André procurou Jawzahr dentro de si e recebeu tranquilidade. Delfim se recolheu antes que pudesse ser alcançado.

— Jawzahr, não. Delfim tem medo, mas está abrigado dentro de mim.

— Espero que continue assim. Se qualquer um deles reagir, a entrada permanecerá fechada.

Água começou a subir pelo piso. Em poucos segundos, cobriu os dois e ocupou toda a sala. André sentiu o pânico de Delfim contra o peito, preso à lembrança de algum perigo que ele ainda desconhecia. Segurou a reação do dragão até ouvir um mecanismo atrás da parede.

Uma placa de pedra se abriu. A água foi drenada pela passagem e arrastou os dois para dentro. Hefesto fechou a entrada antes que Delfim tentasse escapar.

O espaço oculto era muito maior que o templo acima. A iluminação projetava céu e nuvens sobre o teto, criando profundidade onde existia pedra. Animais circulavam entre jardins internos; André reconheceu cabras e aves que raramente encontrava fora da Terra. Roldanas, rodas e moinhos moviam água e alimentavam pequenas máquinas. Mais adiante, um homem mexia um recipiente de leite sobre uma bancada, e o cheiro quente alcançava a passagem.

— Espero que tenha um bom motivo para me interromper, Hefesto. — Ele continuou trabalhando de costas.

— Trouxe alguém que tomou de Zeus o dragão, a foice e a Brahmashirsha. Serve?

O homem sorriu e começou a virar.

— Serviria, caso fosse...

Apolo parou ao ver a foice nas costas de André.

Hefesto aproveitou o silêncio e apresentou o problema antes que Apolo pudesse voltar à bancada.

— Ele ainda não me contou tudo, mas provou o que carrega. Estamos presos dentro deste planeta. Quem morre renasce aqui. Zeus conserva Érebo no corpo, mas perdeu a arma capaz de submetê-lo. Quando o controle acabar, teremos dois problemas ocupando o mesmo homem. Precisamos de você.

Apolo lavou as mãos e secou-as sem pressa.

— Matar Zeus não resolve nada. Ele renascerá dentro da redoma e voltará ainda mais perigoso. Eu me tornaria inimigo dele e de minha irmã para entregar o mesmo conflito à próxima vida.

— Sua irmã também corre perigo — disse Hefesto.

— O mais sensato seria entregar André e negociar.

Apolo voltou para a bancada. O corpo permaneceu tenso, e seus olhos procuraram o lado esquerdo do santuário antes de baixarem. André acompanhou o movimento. Alguém estava escondido entre as colunas.

Enquanto Hefesto insistia, André criou uma esfera metálica incandescente e a lançou contra uma pilastra vazia. O impacto arrancou parte da pedra e espalhou fogo pelo piso.

Uma mulher saiu do esconderijo antes do segundo disparo.

— Pare. Não vou atacar. Só não destrua o templo.

Ártemis se colocou diante deles. Parte dos traços de Afrodite continuava em seu rosto, e a atração involuntária que André sentira no Novo Olimpo permanecia ao redor dela.

— Irmã — disse Apolo, posicionando-se entre os dois.

— Eu precisava ouvir o que ele sabia.

— Zeus mandou você?

— Não. Zeus fez muito por mim e esteve ao meu lado durante vidas que vocês desconhecem. Eu o amo, e nossa cumplicidade começou muito antes deste planeta.

Ártemis olhou para a foice e apertou as mãos uma contra a outra, contendo o impulso de recuar.

— Mas ele perdeu o controle. Cada novo poder tornou suas decisões mais violentas. Depois que Érebo entrou nele, já não consigo distinguir onde termina Zeus e onde começa a criatura.

Apolo segurou o braço da irmã e conferiu a distância entre ela, André e a foice.

— Por isso veio até mim?

— Vim porque quero ajudá-lo antes que seja tarde. Também quero impedir que Érebo use o corpo dele para destruir o que restou.

Ártemis encarou André e Hefesto. O rosto de Afrodite tornava a expressão familiar, mas a voz continuava sendo dela.

— O que podemos fazer?

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