O Irmão
A praça se transformou num campo de testes para a morte. Um jato de água entrou pelos poros do rosto de um homem e rompeu sua cabeça por dentro. Duas mulheres aprisionaram outra pessoa num bloco de gelo, reduziram a temperatura até o corpo desaparecer e ficaram esperando o retorno. Fogo, raios e rajadas de vento atingiam casas, estátuas e pessoas sem distinção.
Quem renascia procurava primeiro quem o matara. Um homem voltou atrás da própria agressora e a derrubou antes que ela o visse. Outros morreram mais de uma vez, interessados em descobrir se cada retorno traria algum poder novo.
O combate perdeu força quando alguns mortos demoraram a reaparecer. Ninguém sabia se tinham escapado da redoma, caído no antigo planeta de ácido ou renascido longe da cidade. O cansaço e essa dúvida venceram a curiosidade. Os últimos ataques cessaram entre incêndios, canais rompidos e pedras espalhadas.
Hefesto subiu nos restos de uma fonte.
— Uma morte não bastava? Aquele homem morreu oito vezes. Oito. O que esperava descobrir, Faracles?
Faracles estava coberto apenas por um tecido que encontrara depois da última volta.
— Pensei que as mortes pudessem nos evoluir.
— E evoluiu?
— Não notei nada.
— Excelente pesquisa. Agora ajude a reparar o que vocês destruíram.
Hefesto ordenou que apagassem os incêndios, reconstruíssem as paredes e procurassem os que ainda não tinham voltado. Quando desceu da fonte, Faracles veio atrás dele.
— Aonde você vai?
— Procurar Apolo com nosso novo amigo. Antes que inventem outra experiência, isso não é um convite.
A notícia reacendeu as conversas. Hefesto chamou André e deixou a praça enquanto os moradores recolhiam corpos que começavam a desaparecer.
— Não podemos ir voando? — perguntou André.
— Já oferecemos espetáculo suficiente. Zeus virá ou enviará alguém. Se voarmos, entregamos o caminho até Apolo.
Seguiram a pé por ruas estreitas. Atrás deles, moradores fechavam rachaduras com pedra líquida e carregavam água em correntes suspensas para apagar os incêndios. André conhecera a Grécia durante a vida na Terra, mas encontrou ali a mistura que existira apenas em ruínas e livros: construções históricas ampliadas por elementos das lendas, estátuas de deuses e máquinas escondidas entre colunas.
Pararam diante de um templo que reproduzia o Partenon.
— Apolo se esconde dentro do lugar mais óbvio? — perguntou André.
— Os guardas de Zeus também fazem essa pergunta e seguem adiante.
André observou o frontão dedicado a Athena.
— Eu conheci Athena. Por que Zeus construiu um templo para ela?
— Queria representar todos os deuses e pretendia trazê-la para cá. Com Athena, Zeus mistura medo, inveja e desejo. Ártemis sabe, embora ele jamais admita.
André lembrou os poderes e os traços retirados de Afrodite e entregues a Ártemis.
— Pretendia fazer com Athena o mesmo que fez com Afrodite.
— A foice estava com ele quando esses planos começaram. Agora está com você.
Hefesto contornou o templo e subiu pela entrada principal. O salão guardava imagens de Athena, pinturas de batalhas e oferendas antigas. No fundo, uma escada descia para um depósito. Ele afastou uma pedra sob a base da entrada e revelou outra passagem.
Os degraus seguintes eram baixos e estreitos. Terminaram numa sala sem portas aparentes.
— Você precisa respirar? — perguntou Hefesto.
— Não.
— E os dragões têm medo de água?
André procurou Jawzahr dentro de si e recebeu tranquilidade. Delfim se recolheu antes que pudesse ser alcançado.
— Jawzahr, não. Delfim tem medo, mas está abrigado dentro de mim.
— Espero que continue assim. Se qualquer um deles reagir, a entrada permanecerá fechada.
Água começou a subir pelo piso. Em poucos segundos, cobriu os dois e ocupou toda a sala. André sentiu o pânico de Delfim contra o peito, preso à lembrança de algum perigo que ele ainda desconhecia. Segurou a reação do dragão até ouvir um mecanismo atrás da parede.
Uma placa de pedra se abriu. A água foi drenada pela passagem e arrastou os dois para dentro. Hefesto fechou a entrada antes que Delfim tentasse escapar.
O espaço oculto era muito maior que o templo acima. A iluminação projetava céu e nuvens sobre o teto, criando profundidade onde existia pedra. Animais circulavam entre jardins internos; André reconheceu cabras e aves que raramente encontrava fora da Terra. Roldanas, rodas e moinhos moviam água e alimentavam pequenas máquinas. Mais adiante, um homem mexia um recipiente de leite sobre uma bancada, e o cheiro quente alcançava a passagem.
— Espero que tenha um bom motivo para me interromper, Hefesto. — Ele continuou trabalhando de costas.
— Trouxe alguém que tomou de Zeus o dragão, a foice e a Brahmashirsha. Serve?
O homem sorriu e começou a virar.
— Serviria, caso fosse...
Apolo parou ao ver a foice nas costas de André.
Hefesto aproveitou o silêncio e apresentou o problema antes que Apolo pudesse voltar à bancada.
— Ele ainda não me contou tudo, mas provou o que carrega. Estamos presos dentro deste planeta. Quem morre renasce aqui. Zeus conserva Érebo no corpo, mas perdeu a arma capaz de submetê-lo. Quando o controle acabar, teremos dois problemas ocupando o mesmo homem. Precisamos de você.
Apolo lavou as mãos e secou-as sem pressa.
— Matar Zeus não resolve nada. Ele renascerá dentro da redoma e voltará ainda mais perigoso. Eu me tornaria inimigo dele e de minha irmã para entregar o mesmo conflito à próxima vida.
— Sua irmã também corre perigo — disse Hefesto.
— O mais sensato seria entregar André e negociar.
Apolo voltou para a bancada. O corpo permaneceu tenso, e seus olhos procuraram o lado esquerdo do santuário antes de baixarem. André acompanhou o movimento. Alguém estava escondido entre as colunas.
Enquanto Hefesto insistia, André criou uma esfera metálica incandescente e a lançou contra uma pilastra vazia. O impacto arrancou parte da pedra e espalhou fogo pelo piso.
Uma mulher saiu do esconderijo antes do segundo disparo.
— Pare. Não vou atacar. Só não destrua o templo.
Ártemis se colocou diante deles. Parte dos traços de Afrodite continuava em seu rosto, e a atração involuntária que André sentira no Novo Olimpo permanecia ao redor dela.
— Irmã — disse Apolo, posicionando-se entre os dois.
— Eu precisava ouvir o que ele sabia.
— Zeus mandou você?
— Não. Zeus fez muito por mim e esteve ao meu lado durante vidas que vocês desconhecem. Eu o amo, e nossa cumplicidade começou muito antes deste planeta.
Ártemis olhou para a foice e apertou as mãos uma contra a outra, contendo o impulso de recuar.
— Mas ele perdeu o controle. Cada novo poder tornou suas decisões mais violentas. Depois que Érebo entrou nele, já não consigo distinguir onde termina Zeus e onde começa a criatura.
Apolo segurou o braço da irmã e conferiu a distância entre ela, André e a foice.
— Por isso veio até mim?
— Vim porque quero ajudá-lo antes que seja tarde. Também quero impedir que Érebo use o corpo dele para destruir o que restou.
Ártemis encarou André e Hefesto. O rosto de Afrodite tornava a expressão familiar, mas a voz continuava sendo dela.
— O que podemos fazer?