Aprisionados
André renasceu sob o mesmo céu. Reconheceu a gravidade, o calor seco e a redoma construída por Eva, brilhando além da atmosfera.
O Sol ocupava quase a mesma posição. André podia ter passado algum tempo sem corpo, mas o terreno ainda guardava a fumaça das explosões. Renasceu longe do Novo Olimpo, porém no mesmo hemisfério. A primeira decisão útil foi sair do espaço aberto antes que Zeus, Poseidon ou Hades procurassem as armas.
A foice, o cajado de Hagar e a Brahmashirsha tinham voltado com ele. André segurou a arma menor e tentou repetir o teletransporte que usara durante a luta. Conseguiu atravessar uma longa distância, mas a redoma impediu qualquer passagem para fora do planeta. A prisão alcançava matéria, energia e partículas cerebrais.
Uma cidade ocupava o vale abaixo. Entrar com três armas místicas nas mãos atrairia atenção, e escondê-las no campo deixaria um rastro que Zeus poderia seguir. O metal dos destroços subiu, amoleceu e se moldou aos ombros, formando um suporte para as três peças. Quando André desejou ocultá-las, o conjunto perdeu o brilho e se confundiu com as roupas.
Ele tocou a estrutura. Nunca manipulara metal com tanta precisão. Podia ser efeito da evolução, de Jawzahr, de Delfim ou das armas; nenhuma hipótese ajudaria enquanto estivesse exposto. Desceu para a cidade.
As construções reproduziam a arquitetura da Grécia Antiga com dimensões maiores e materiais que André nunca vira na Terra. Colunas, pórticos e estátuas seguiam tanto registros históricos quanto descrições mitológicas. Os habitantes usavam túnicas e peças metálicas adaptadas à vida cotidiana.
André pensou nas histórias que Zeus espalhara sob orientação de Elaryan. A pergunta sobre lenda ou profecia perdera parte do sentido: uma história reforçada no passado podia conduzir pessoas a reproduzi-la no futuro.
Ao entrar na cidade, reorganizou as fibras das roupas até imitarem as peças usadas pelos moradores. André conteve o impulso de testar mais.
Procurava abrigo quando ouviu vozes na praça central. Dezenas de pessoas cercavam um homem de postura rígida e braços marcados por queimaduras antigas. A discussão já atraía quem passava.
— Precisamos agir — disse uma mulher. — Zeus perdeu o controle.
— Agir com o quê? — respondeu outro homem. — Ele tem a foice da morte, armas capazes de destruir planetas e poder para explodir qualquer um com um raio. Só conserva súditos porque gosta de ser adorado.
— Existe alguém capaz de enfrentá-lo.
— Mesmo que aceitasse, seria derrotado.
— Zeus também tem um dragão — acrescentou alguém. — Ninguém luta contra tudo isso.
André se aproximou da roda, e as pessoas abriram espaço para observar o forasteiro.
— E se Zeus tivesse perdido o dragão, a foice e uma das armas atômicas?
Os rostos se viraram para ele. A pergunta interrompeu várias conversas ao mesmo tempo.
— Isso não aconteceria — disse o homem de braços queimados.
— Considere que aconteceu. Érebo continua dentro de Zeus, mas a foice está com outra pessoa. Uma das armas gêmeas também. Nesse cenário, quem vocês procurariam?
O homem avaliou André dos pés ao rosto.
— Com o poder de Érebo instável e uma arma equivalente contra ele, Apolo teria chance. Ainda seria uma luta péssima.
— Onde encontro Apolo?
Alguns riram. Outros olharam para as costas de André, tentando identificar o volume oculto sob o suporte.
— Apolo é irmão de Ártemis — explicou uma mulher. — Afastou-se dos dois quando percebeu o que Zeus estava fazendo.
O homem de braços queimados assumiu a conversa.
— Quem é você e por que faz perguntas tão específicas?
— Meu nome é André. Zeus me chama de profetizado, embora eu tenha pouca confiança nesse título. Delfim está dentro de mim. Também carrego a foice e a Brahmashirsha, se a pronúncia estiver certa.
As risadas aumentaram. O homem ergueu a mão e silenciou parte da praça.
— Escolheu um momento ruim para brincar. Saia antes que eu precise prendê-lo.
André tornou a foice visível e a retirou do suporte. Cortou o ar acima da praça. A lâmina abriu uma fenda escura, e a pressão puxou poeira, cestos e pessoas que estavam perto demais. Ele girou a cabeça da arma e fechou a ruptura antes que alguém fosse arrastado para dentro.
Os moradores caídos se levantaram, gritando e recolhendo tudo que a pressão espalhara pela praça.
— Chega! — O homem avançou. — Não sei que truque usou, mas colocou todos em risco.
André guardou a foice e revelou a Brahmashirsha. O metal da arma produziu um brilho que fez o homem interromper o passo.
— Se ainda duvidam, reconheçam quem estava com Zeus.
Nuvens escuras se reuniram sobre a cidade. André liberou Jawzahr e Delfim. Os dragões atravessaram o céu lado a lado, testando as asas e perseguindo um ao outro acima das torres. A praça ficou em silêncio.
— Delfim — disse uma voz. — É o dragão de Zeus.
O homem de braços queimados se aproximou devagar.
— Eu me chamo Hefesto. Você realmente tomou tudo isso dele. Ainda assim, não conseguiu vencê-lo?
— Só consegui a foice porque me matei. Zeus usou a Brahmastra contra mim, matou minha irmã e tentou fugir antes que a redoma se fechasse. Eu o derrubei, mas Poseidon e Hades chegaram. Recolhi as armas e atravessei meu peito com a foice. Renasci aqui.
Hefesto olhou para a estrutura no céu.
— A redoma foi criada por sua irmã?
— Eva terminou antes de morrer. Ninguém consegue sair, nem por teletransporte. Ao que tudo indica, nossas partículas também ficaram presas.
Uma mulher segurou o braço de Hefesto.
— Você disse que renasceu aqui. Se morrermos agora, voltamos para este planeta?
— Foi o que aconteceu comigo.
O medo percorreu a praça numa mudança visível de postura. Pessoas se afastaram umas das outras e começaram a discutir em grupos menores.
— Antes dessa redoma, por que vocês não tentavam fugir pela morte? — perguntou André.
Hefesto apertou a mandíbula e conferiu a redoma antes de responder.
— Zeus nos mostrou o destino dos mortos. Eles renasciam no núcleo de outro planeta, presos num ácido que derretia e curava o corpo sem cessar. A ameaça manteve todos vivos e obedientes.
— Isso acontecia antes de Eva fechar o planeta. A regra mudou.
Um homem retirou uma lâmina da cintura.
— Então podemos morrer e voltar aqui?
— Não sabemos onde cada pessoa renascerá — advertiu Hefesto. — Nem quanto tempo levará. Guardem as armas.
O primeiro golpe ocorreu no outro lado da praça. Uma mulher atravessou o peito de um homem com uma lança de gelo. Ele caiu e desapareceu. Gritos começaram antes que Hefesto alcançasse os dois.
O morto renasceu junto a uma fonte, respirou uma vez e lançou fogo contra a mulher que o atacara. A descoberta se espalhou mais rápido que qualquer ordem. Pessoas correram para amigos, inimigos e familiares, algumas pedindo ajuda para morrer, outras aproveitando a ausência de consequência definitiva para resolver antigas vinganças.
Água, fogo, gelo e eletricidade cruzaram a praça. André recolheu os dragões, ocultou as armas e ergueu barreiras de pedra e ar entre os grupos, enquanto Hefesto tentava conter uma cidade que acabara de descobrir que continuava presa até depois da morte.