Na Busca do Certo Jornada do Sangue · Capítulo 43 de 49
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Na Busca do Certo

As correntes mantinham Moisés em pé depois que as pernas deixaram de sustentá-lo. Os pulsos ardiam dentro dos aros, os ombros recebiam a tração do corpo inteiro e a respiração vinha curta, incapaz de repor a energia que seguia para longe. A cada contração da corrente, outra parcela de sua força atravessava o metal, desaparecia na rocha e encontrava Eva acima da atmosfera. Ele não conseguia vê-la, mas reconhecia o caminho aberto entre os dois. Sentia os braços dela estendidos, os dedos perdendo firmeza e a energia dos dois sendo empurrada ao redor de Fóster.

Elaryan acompanhava o trabalho diante de uma abertura na caverna. Às vezes Moisés a chamava de Lilith. Em outras, o nome atual voltava antes da voz. O mesmo acontecia com ele: Adam surgia entre lembranças de uma vida remota, Moisés ocupava as experiências da Terra e dezenas de identidades incompletas disputavam imagens que não traziam data, lugar ou corpo. Pessoas que renasciam poucas vezes podiam organizar o passado em sequência. Os primordiais acumulavam famílias, mortes e afetos suficientes para transformar a memória numa casa cheia de portas abertas ao mesmo tempo.

— Lilith, ainda falta muito?

Elaryan olhou para as linhas de energia que corriam pelas paredes. O brilho diminuía à medida que o campo se aproximava do fechamento.

— Neste planeta, pouco. Eva está cobrindo a última falha sobre o hemisfério norte.

— Então me deixe deitar. Não consigo mais manter as pernas firmes.

— Se eu soltar uma corrente, a distribuição muda. Parte do que você envia retorna ao corpo e abre uma diferença na redoma. Apoie-se nos aros por mais alguns minutos.

Moisés testou os joelhos. A corrente respondeu antes que ele alcançasse o chão e puxou seus braços para cima. A dor devolveu alguma clareza, embora também confirmasse que Elaryan conhecia o funcionamento da prisão melhor do que se importava com quem estava dentro dela.

— Você disse que seriam sete missões.

— Sete planetas. Paradise, Novo Olimpo e Key estão fechados. Fóster termina agora. Depois virão Kimmer, Moonday e Inc.

— Eva faz a redoma, você me mata, eu renasço no planeta seguinte e tudo começa outra vez.

— A morte recompõe a energia que vocês gastam. Sem ela, precisariam de anos entre um campo e outro, e esse tempo acabou.

O processo já se repetira três vezes. Eva trabalhava acima do planeta enquanto as correntes retiravam de Moisés o poder necessário para completar o dela. Perto do fechamento, Elaryan aplicava um soro, escolhia o ponto do renascimento e matava Moisés. Quando ele despertava, ela já o esperava com os aros abertos. Depois buscava Eva, restaurava as forças dela pelo mesmo método e a deixava diante do mundo seguinte. A repetição mantinha os dois separados e oferecia a Elaryan controle sobre cada reencontro.

— O que acontece quando o último campo fechar? — perguntou Moisés. — Sete prisões continuam sendo prisões.

— Isoladas, sim. Enquanto o circuito estiver incompleto, cada redoma impede a saída de matéria, energia e partículas cerebrais. Quando Eva fechar Inc, os sete campos reconhecerão uns aos outros. Armas místicas capazes de abrir passagens poderão circular entre os planetas do conjunto, mas nenhum portal alcançará o que estiver fora dele.

— Então as pessoas poderão sair de Novo Olimpo e chegar a Paradise, por exemplo?

— Se tiverem um instrumento capaz de usar a ligação, poderão. A rede inteira funcionará como um único domínio cercado. Quem morrer renascerá em um dos sete mundos; quem tentar fugir encontrará o campo externo.

Moisés fechou os olhos e seguiu o fluxo até Eva. A explicação resolvia uma dúvida, porém ampliava outra. Sete planetas ligados podiam servir de refúgio ou de jaula. A diferença dependeria de quem controlasse as passagens e soubesse o que existia do lado de fora.

— Todos os seres que ainda vivem estarão nesses planetas?

— Todos os que consegui recolher, além das partículas das pessoas que já morreram. A maior parte do Universo atravessou o limite da expansão e começou a retornar. Cidades, oceanos e espécies inteiras desapareceram antes que seus habitantes percebessem a aproximação. O cinturão permanecerá nesta região até a matéria mais distante interromper o avanço e iniciar o caminho de volta.

— Isso nos dará mais tempo?

— Já está dando. Fora daqui, vários sistemas deixaram de existir. Quando o retorno alcançar os sete planetas, nenhum campo conseguirá segurá-los. Nesse momento tentarei atravessar o colapso com as pessoas que reuniram poder suficiente.

Moisés levantou o rosto. A corrente raspou a pele do pulso quando ele mudou a posição das mãos.

— Você já tentou.

Elaryan se virou. Até aquele instante, falara olhando as linhas de energia; agora sustentava os olhos nele.

— O que fez você chegar a essa conclusão?

— A precisão. Você conhece os planetas, a ordem, os pontos em que Eva deve começar, o momento em que precisa nos matar e o lugar em que cada um vai renascer. Isso não vem de cálculo suficiente para errar nos detalhes. Você repete um procedimento.

Por alguns segundos, apenas o metal das correntes respondeu ao fluxo.

— Sei onde tentativas anteriores falharam.

— Como?

— Essa resposta ainda não pertence a esta conversa.

— E o que existe depois do fim?

— Algo que nunca consegui alcançar.

Moisés tentou recuar, impedido pela corrente. As escrituras, os nomes e as histórias que encontrara na Terra deixaram de ocupar o passado distante e se aproximaram daquela caverna.

— Foi você quem escreveu o segredo? As pistas, as lendas e os textos da Confraria?

— A Confraria reuniu histórias que existiam antes de seus integrantes. Preservei algumas, alterei outras e impedi que a busca pelo Cálice terminasse.

— E Paulo? As mulheres que estiveram com ele na noite anterior à morte?

— A Confraria mantinha agentes encarregados de recuperar o Cálice. Aquelas mulheres cumpriram uma parte da busca.

— E o Prometido?

— A crença antecedia André. Reforcei os caminhos pelos quais ela chegou aos doze. Quando ele apareceu, a profecia determinou como seria recebido.

— Você usou a crença para produzir o acontecimento que ela parecia anunciar.

— Uma profecia não obriga ninguém. Muda o que as pessoas consideram possível, necessário ou sagrado. Algumas obedecem, outras resistem. Eu intervenho quando uma diferença ameaça o que estou tentando preservar.

— Chamando isso de salvação.

— Tentando salvar. O resultado continua fora do meu alcance.

A franqueza não tornou as correntes menos apertadas. Moisés entendeu melhor a escala do plano, mas as redomas continuavam dependendo de pessoas transformadas em instrumentos e de crenças reforçadas até parecerem revelação.

— Quando isso terminar, você vai mesmo deixar Eva e eu juntos?

— Vou. Vocês cumprirão a parte necessária antes disso.

Moisés guardou a resposta sem chamá-la de confiança. A energia diminuiu outra vez e as linhas junto à abertura começaram a se unir. Fóster estava quase fechado.

Elaryan se aproximou e apoiou dois dedos na testa dele. Uma pressão atravessou o crânio, alcançou as lembranças da conversa e fechou o acesso a cada resposta recebida. Moisés tentou conservar o rosto de Paulo, o Cálice, a Confraria e os ciclos, mas as imagens perderam ligação entre si. Restou apenas a sensação incômoda de que compreendera uma parte de Elaryan e concedera a ela um pouco mais de crédito do que desejava.

— O que você fez comigo?

— Bloqueei uma conversa que você ainda não pode carregar. O sentimento ficou porque foi produzido por você.

— Tirar de mim a lembrança que formou esse sentimento também é manipular minha mente.

— Eu não instalei uma convicção. Fechei uma porta.

— Dar outro nome ao ato não devolve a chave.

O brilho nas paredes se uniu e cessou. Elaryan retirou uma seringa do bolso, expulsou uma gota de líquido pela agulha e segurou o braço dele.

— Fóster terminou. Podemos discutir seus critérios éticos depois dos comerciais.

O soro entrou na veia. O coração de Moisés contraiu uma vez, falhou na seguinte e parou. Seu corpo desapareceu antes que as correntes batessem contra o chão.

Ele despertou numa caverna de Kimmer, novamente suspenso pelos pulsos. O ar trazia cheiro de terra úmida e sangue. Elaryan fechava o último aro quando Moisés recuperou a força necessária para falar.

— Isso é mesmo necessário?

— Eva depende de você para completar o campo. Espere aqui. Preciso trazê-la de Fóster.

Elaryan desapareceu e encontrou Eva acima do planeta recém-fechado. A mulher ainda respirava depressa, mas sustentava o corpo sem ajuda. Diante dela, a superfície de Fóster estava coberta por uma camada que já não emitia luz.

— Como ele está? — perguntou Eva.

— Vivo outra vez, forte e esperando por você em Kimmer. Hoje chegou a questionar meus métodos com bastante competência.

— Você respondeu?

— Mais do que deveria. Depois organizei o que ele poderia conservar.

Eva não pediu detalhes. Olhou para a Brahmastra presa junto ao corpo de Elaryan e reconheceu a arma que Zeus lançara através de seu peito.

Elaryan soltou a arma e a ofereceu.

— Ela veio com você desde Novo Olimpo. Eu a mantive comigo enquanto fechavam os primeiros campos. Agora, prenda-a ao corpo.

— Por quê?

— André precisará das duas armas de Brahma. É melhor que esta chegue a ele por você. Se estiver presa quando o soro agir, continuará a acompanhá-la nas próximas mortes.

Eva fixou a Brahmastra junto ao corpo e estendeu o braço.

— Acabe logo. Quero terminar os três campos e encontrá-lo acordado.

Elaryan aplicou a injeção. Eva e a Brahmastra desapareceram e renasceram no espaço diante de Kimmer, onde a energia de Moisés já atravessava o interior do planeta em sua direção. Ela abriu os braços, encontrou o vínculo e começou a empurrar o primeiro arco da nova redoma. O campo nasceu estreito sobre a atmosfera e avançou para os dois lados. Elaryan confirmou que Fóster permanecia integrado ao circuito enquanto Kimmer recebia a primeira faixa de proteção. Antes de partir, recebeu um aviso da equipe de Emma: seres alados haviam surgido sobre Paradise e exigido a retirada dos povos reunidos. Ela transmitiu a informação a Lúcifer e seguiu para o próximo campo. Os invasores voltariam.

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