O Rei das Fadas Jornada do Sangue · Capítulo 39 de 49
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O Rei das Fadas

Érebo levou eras para encontrar uma passagem que pudesse atravessar. Teletransportar matéria exigia poderes que ele nunca possuíra e corpos raros demais para serem encontrados por acaso. Ainda assim, do planeta das fadas, sentia uma atividade crescente num mundo distante que durante muito tempo estivera vazio: portais abertos em sequência, pessoas transportadas, estruturas inteiras arrancadas de um ponto e depositadas em outro. Em algumas ocasiões, massas comparáveis a planetas cruzavam aquela região.

Outro fenômeno o interessava ainda mais. O tempo sofria interrupções. Érebo percebia a ausência de movimento, a falha breve entre um instante e o seguinte, embora continuasse incapaz de localizar quem produzia aquilo. A hipótese de outros universos deixara de ser especulação. Alguma coisa os aproximava, e seres capazes de atravessar as fronteiras começavam a interferir no fluxo da matéria.

Para aproveitar uma dessas rupturas, ele precisaria expor a própria existência. O plano exigia uma arma mística, alguém disposto a empunhá-la e uma passagem surgindo no momento do golpe. Se errasse o cálculo, morreria. Se acertasse, abandonaria o reino que usara durante tantas vidas para permanecer escondido.

Perder a coroa não lhe causava tristeza. As fadas produziam luz com o corpo, podiam comprimir a própria energia até reproduzir a fome de um buraco negro e dobravam plantas, águas e ventos sem instrumento algum. Mesmo assim, organizavam a vida ao redor de florestas, ritos e limites escolhidos para proteger o planeta. Evitavam alterar o curso dos rios, pediam licença aos anciãos para derrubar uma árvore e interrompiam construções quando raízes antigas ocupavam o terreno. O palácio crescia a partir da madeira viva, obedecendo ao ritmo das estações, e nenhum aposento podia ser ampliado à força. Érebo via desperdício naquela disciplina. Poder sem domínio lhe causava desprezo.

Tomar Oberon fora simples. Érebo entrara no rei e consumira sua partícula cerebral sem encontrar resistência duradoura. Guardava memórias, hábitos e gestos suficientes para ocupar o trono, porém a consciência original desaparecera num ponto que ele não conseguia alcançar. Restava a possibilidade de Oberon ter se refugiado em Smoth, o sapo ligado a ele por simbiose. O animal passava os dias no quarto real, saltando entre almofadas, vasos e a borda da janela. Às vezes se detinha diante de Érebo e o observava por tempo demais. Nenhum pensamento acompanhava aqueles olhos, nenhum pedido ou ataque, mas Érebo evitava tocá-lo. Mantinha o sapo solto por repulsa à ideia de reconstruí-lo dentro da própria mente e por uma cautela que jamais admitiria.

Titania foi a única parte daquela vida que despertou nele algum interesse constante. Na primeira noite depois de tomar Oberon, Érebo entrou nos aposentos dela e usou o corpo do marido para oferecer uma intimidade que o verdadeiro rei nunca buscara daquela forma. Conhecia as lembranças do casal, os desejos que Titania calara e cada reação que o corpo de Oberon aprendera ao longo dos séculos.

Ela recebeu o beijo acreditando estar com o homem que amava. Érebo usou as lembranças de Oberon para conduzir o encontro, sabendo onde o marido costumava hesitar e o que Titania nunca lhe pedira em voz alta. Quando o prazer atravessou o corpo dela, a pele se acendeu. Primeiro veio uma explosão branca que tomou o quarto; depois, a luz permaneceu em pontos móveis sobre os braços, o ventre e as pernas. A matéria escura de Érebo sofria com a exposição, mas a carne de Oberon o protegia e lhe permitia observar o fenômeno de dentro.

Nas noites seguintes, Titania acreditou que o marido finalmente rompera uma distância antiga entre os dois. Érebo cultivou essa impressão. Passou a visitar o quarto dela, dividiu refeições que o casal antes fazia em alas separadas e ouviu histórias que já conhecia pelas memórias roubadas. Titania interpretou o interesse como reparação e começou a contar às pessoas próximas que Oberon se libertara de alguma tristeza antiga. Fora dos aposentos dela, Érebo governava pela humilhação e pela ameaça, contido apenas pelo receio de revelar sua presença cedo demais. Com Titania, preservava gestos de cuidado e lhe entregava a atenção que encontrara nas lembranças de Oberon, mas que ele raramente demonstrara. A diferença bastou para que ela confundisse invasão com mudança.

Érebo esperou até sentir uma nova ruptura aproximar-se. Decorou cada frase de sua despedida, colocou a Fragarach ao alcance da mão e chamou Titania ao quarto. Quando ela entrou, encontrou Oberon junto à cama, com a espada apoiada numa mesa baixa. Érebo deixou a matéria escura escapar pelo pescoço do rei, abriu parte da forma esfumaçada diante dela e voltou para dentro.

— Que criatura é você? Saia do corpo do meu marido.

— Eu ocupo este corpo desde a primeira noite em que ele procurou você.

Titania recuou. Procurou a porta, mas uma rajada a fechou e manteve a maçaneta presa.

— Está mentindo.

— Posso provar.

Érebo pegou a Fragarach e apontou a lâmina para a garganta dela. O poder da espada paralisou Titania dos pés ao maxilar, deixando livres apenas a voz e os olhos.

— Esta arma obriga quem está sob sua ponta a responder com a verdade. Diga qual foi a noite em que sentiu mais prazer.

— A primeira em que você veio ao meu quarto desse jeito.

Ela tentou mover a mão e descobriu que nem os dedos obedeciam.

— Mas, se era você, aquilo foi uma violação. Eu aceitei meu marido. Você usou o corpo dele e tudo o que sabia sobre nós.

Érebo apreciou a precisão da resposta. Durante anos, observara Titania converter a transformação do marido em esperança. Agora via essa lembrança apodrecer dentro dela sem precisar acrescentar palavra alguma. Ela chorava sem alterar a voz, e a luz sob sua pele oscilava entre a garganta e os olhos, presa num corpo que a espada mantinha imóvel.

— A espada encontrou a verdade.

— Encontrou a sua fraude.

Érebo baixou a Fragarach devagar, soltou a imobilidade de Titania e lhe ofereceu o cabo com a lâmina voltada para si.

— Então faça suas perguntas. Se a resposta não lhe servir, libertarei Oberon e você poderá me matar.

Ela demorou a aceitar. Smoth saltou da janela para uma almofada, e o movimento desviou seus olhos por um instante. Titania pegou a espada, apontou-a para a garganta de Érebo e verificou a imobilidade dele antes de falar.

— Oberon continua aí dentro? Ele viu o que você fez? Alguma vez conseguiu impedir você?

— A partícula dele permanece comigo, mas não recebo pensamento algum. Oberon pode ter se escondido no sapo. Também pode ter se perdido quando eu o consumi.

Titania olhou para Smoth. O braço que sustentava a espada tremeu, porém a ponta continuou encostada à pele do marido.

— Você fez tudo aquilo porque me ama?

— Não. — A resposta saiu limpa por causa da arma. — Usei o corpo de Oberon, as lembranças dele e a confiança que você depositava nele. Queria prazer e domínio.

Titania apertou o cabo até as articulações dos dedos perderem a cor. A Fragarach continuou firme contra a garganta dele.

— Por que me tratou com cuidado durante todo esse tempo?

— Porque gostava de sua companhia. E porque, quanto mais você confiasse, menos suspeitaria.

A Fragarach impedia qualquer embelezamento. Érebo conhecia a força daquela sinceridade e a usara no cálculo: Titania sairia da sala destruída, mas livre da dúvida que poderia fazê-la hesitar diante do golpe.

— Você quer que eu o mate.

— Quero atravessar uma passagem que se abrirá em poucos instantes. Para alcançá-la, preciso sair de Oberon no caminho de uma arma mística. Você lançará a Fragarach contra mim. Se acertar antes do portal, eu morro. Se a passagem surgir primeiro, você recupera seu marido e eu desapareço.

— Então tudo isto também faz parte de seu plano.

— Sim.

Titania começou a retirar a espada, dividida entre cortar a garganta do invasor e alcançar o homem caído dentro dele, mas Érebo falou com força:

— Se afastar a ponta, eu recupero o movimento. Enterre a lâmina agora ou faça exatamente o que vou dizer.

— Que garantia tenho de que libertará Oberon?

— Nenhuma além da necessidade. Afaste-se até a porta, prepare o lançamento e mantenha a lâmina voltada para mim. Saírei do corpo. Atire quando enxergar minha forma.

Ela caminhou de costas, sem abandonar o alvo. Ao alcançar a porta, ergueu a Fragarach sobre o ombro. Érebo deixou Oberon cair para a frente e se desprendeu dele numa massa de fumaça espessa. Titania lançou a espada.

O corte no espaço surgiu entre a ponta da Fragarach e a matéria escura. Érebo se comprimiu e atravessou. A espada entrou logo atrás dele, perto o bastante para arrancar parte de sua estrutura, e a passagem se fechou antes que Titania pudesse recuperá-la.

Do outro lado, Érebo caiu numa cidade construída sob o oceano. Torres transparentes atravessavam a água, ligadas por corredores em que peixes circulavam acima das cabeças dos habitantes. A pressão do mar sustentava paredes curvas que tremiam a cada alteração no campo gravitacional. Ele absorveu a primeira pessoa que encontrou sozinha e tomou dela idioma, localização e história recente. Atlantis pertencera a Atlas e sobrevivera à derrota de Poseidon. A cidade inteira fora transportada para Vésper, onde dois governantes mantinham o reino depois do aprisionamento do antigo soberano.

A convergência dos universos já alcançara o planeta. Campos de matéria escura puxavam Vésper para uma região em que estruturas incompatíveis começavam a ocupar o mesmo espaço. A destruição viria antes que Érebo encontrasse outra passagem. Morrer junto com o planeta o lançaria numa conexão desconhecida, sem garantia de que sua partícula sobreviveria inteira.

Ele procurou uma morte menor e controlável. Espalhou veneno pela água de Atlantis e usou a mente recém-absorvida para chamar a pessoa mais poderosa do planeta. Silency percebeu a convocação e seguiu até o palácio. Quando chegou, Érebo entrou nela. A resistência veio no mesmo instante: ela fechou partes da memória, alterou o ritmo do próprio coração e tentou romper a ligação entre a criatura e os músculos. Érebo dominou os movimentos maiores, mas precisou disputar cada gesto fino.

O veneno já circulava pelo corpo. Ele poderia interromper o efeito usando os poderes de Silency, mas permitiu que avançasse. A morte a levaria para outro planeta, e ele renasceria dentro dela. Depois, bastaria esperar o retorno de Athos, o homem que Silency conhecia e que atravessava distâncias sem depender de arma mística. Érebo pretendia tomar esse poder.

Vésper rompeu-se antes que o plano completasse todas as etapas. Silency morreu com Érebo dentro dela e carregou a Fragarach para a vida seguinte, porém conservou controle suficiente para esconder a espada. Ela aproveitou um intervalo entre a morte e o domínio pleno do corpo renascido, moveu a mão por conta própria e entregou a arma a um lugar que Érebo não conseguiu reconstruir pelas lembranças. Ele sentiu a Fragarach desaparecer de seu alcance e descobriu tarde que a mulher presa por dentro ainda podia interferir em ações pequenas. A resistência não o expulsava, mas lhe negava o instrumento que preparara durante tanto tempo.

Athos também não surgiu no momento esperado. Érebo acompanhou a instabilidade entre os universos, avaliou os seres que chegavam e abandonou a ideia de depender de um único alvo. Outros poderes podiam ampliar sua capacidade de domínio. Precisava apenas de paciência e de uma nova arma.

A oportunidade apareceu durante a disputa entre Merlin e Cronos. A foice do tempo estava no centro do combate, única arma capaz de submetê-lo em vez de apenas matá-lo. Érebo alcançou Cronos, entrou em seu corpo e tentou tomar a foice no instante em que Merlin atacou. O campo se fragmentou em energia, matéria escura e golpes que ele já não conseguiu organizar. Sua memória terminou ali.

Quando a consciência voltou, Érebo ocupava o corpo de Zeus. Poseidon e Hades sustentavam o irmão entre os dois enquanto a foice permanecia próxima. Uma força ligada à arma o mantinha comprimido, fraco demais para sair e incapaz de alcançar os movimentos do hospedeiro. O deus testava fragmentos do poder absorvido, primeiro com cautela, depois com a confiança crescente de alguém que descobrira um depósito de vidas alheias dentro de si. Érebo procurou Silency, Cronos e todas as outras partículas que carregava. Continuavam dentro dele, misturadas a conhecimentos e poderes que Zeus começava a explorar.

Érebo ignorava o que o deus fizera no intervalo apagado. Sabia apenas que sobrevivera à foice e agora tinha outro carcereiro. Ficou quieto dentro de Zeus, acompanhou cada poder roubado e esperou a primeira falha de controle.

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