Vulcano
— Eva!
O nome dela saiu da garganta de Moisés no meio do arrasto. Alguém o puxava pelos braços, os pés batiam contra pedra quente, a visão vinha em manchas vermelhas e pretas. O corpo ainda guardava a memória da biblioteca: luz branca, vidro, tiro, o cálice entre mãos demais, a guarda da Confraria cercada pelos homens do Negociador, Eva caindo. A lembrança terminava ali. Depois vinha aquele lugar.
— Moisés!
A voz de Eva chegou do outro lado da confusão. Ele virou o rosto e a viu sendo puxada por dois homens de roupas vermelhas, rígidas, parecidas com couro endurecido. Ela tentava se soltar, mas a força ainda não obedecia ao corpo. O cabelo grudava no rosto suado, a respiração saía curta, e a mão direita continuava fechada com tanta violência que Moisés soube, mesmo à distância, que a moeda ainda estava ali.
O mundo em torno deles era uma caverna imensa. Vermelha por todos os lados. Chamas subiam de fendas no chão, lava corria em canais laterais, e o teto sumia em fumaça alta. O calor vinha como ataque. Entrava pelo nariz, raspava a garganta, grudava na pele. Moisés tentou firmar os pés, mas recebeu um golpe no estômago e perdeu o ar.
— Peguem o cálice! — gritou uma voz.
O cálice estava no chão, alguns metros atrás, sobre uma pedra negra. Um dos homens vermelhos correu até ele. Moisés puxou o braço, girou o corpo e quase se soltou. Quase. A mão que o segurava apertou seu ombro até os ossos reclamarem.
Uma flecha cortou a fumaça.
Trazia uma corda presa à haste e acertou a base do cálice. O objeto foi arrancado do chão e puxado para o outro lado da caverna. Em seguida, uma chuva de flechas veio das sombras.
— São os fariseus! — alguém berrou.
A palavra não fazia sentido para Moisés, mas o medo nos homens vermelhos fez sentido imediato. Os que o arrastavam se abaixaram. Uma flecha passou rente ao rosto dele e atingiu a parede. Outra acertou um dos homens que seguravam Eva. Ela gritou. O som cortou a confusão com uma nitidez que apagou tudo ao redor.
— Eva!
Dessa vez, Moisés conseguiu se soltar. Acertou o cotovelo no rosto de um homem, arrancou uma faca pequena da cintura dele sem saber direito como, e correu até ela. Havia uma flecha cravada em sua perna. Eva tentava respirar sem gritar, mas a dor contraía cada músculo do rosto.
— Eu estou com você — disse Moisés, pegando-a no colo. — Estou com você.
Ela agarrou a camisa dele com a mão livre. A outra continuava fechada sobre a moeda. Moisés olhou para o caminho do cálice, para as flechas, para as chamas lançadas do fundo da caverna, para os corpos caindo ao redor. Aquilo era guerra. E ele e Eva tinham despertado no meio dela carregando algo que todos queriam.
Seguiu por uma passagem estreita, escura, quase escondida entre duas colunas de rocha. O calor diminuiu pouco. A cada tropeço, Moisés apertava Eva contra o peito e conferia sua respiração. A passagem terminou num beco de pedra lisa. Atrás deles, vozes se aproximavam.
— Moisés — ela murmurou.
— Não fala. Guarda força.
Uma luz se acendeu acima. Uma abertura no teto revelou um rosto feminino inclinado sobre eles. A mulher tinha olhos escuros e pele marcada por fuligem. Antes de falar, examinou a flecha na perna de Eva e a passagem atrás deles.
— Vou tirar vocês daí.
Uma corda caiu.
— Quem é você? — perguntou Moisés.
— Alguém com menos tempo que suas dúvidas. Quebre a ponta da flecha e tire a haste da perna dela. Depois prenda a corda em volta do tronco, usando esses nós. Deixe a ponta alinhada com a coluna, ou ela pode apagar de vez na subida.
Moisés hesitou. Eva já tremia. As vozes atrás deles ficaram mais próximas, e uma língua que ele não conhecia atravessou a passagem com ódio suficiente para dispensar tradução.
— Agora — disse a mulher.
Moisés quebrou a ponta da flecha. Eva gritou quando ele puxou a haste, e o grito morreu no meio, levando junto a consciência dela. Ele amarrou a corda com as mãos escorregando de sangue. A mulher e mais alguém puxaram Eva para cima. A corda voltou. Moisés amarrou no próprio corpo e subiu batendo os joelhos contra a pedra.
Quando saiu, encontrou homens e mulheres de armaduras negras muito finas, cobertas por túnicas de tecido leve. Alguns brilhavam de leve sob a fuligem, como metal aquecido no escuro. A mulher que o ajudara já estava ao lado de Eva, verificando a respiração dela.
— Sei que você tem perguntas — disse ela. — Guarde todas. Precisamos correr.
Moisés tomou Eva nos braços de novo e seguiu o grupo. Saíram da caverna por uma abertura lateral e encontraram uma paisagem tingida pela mesma cor do incêndio: céu avermelhado, árvores de folhas secas, montanhas negras e rios luminosos descendo ao longe. O ar lá fora era melhor apenas por comparação.
Outros guerreiros fugiam na mesma direção. Atrás deles, os homens vermelhos saíram da caverna lançando bolas de fogo. As primeiras atingiram o grupo da retaguarda. Corpos caíram entre as árvores. Moisés apertou Eva contra o peito e correu sem saber para onde, seguindo apenas o movimento coletivo.
Uma artilharia de flechas passou sobre suas cabeças e atingiu os perseguidores. Por alguns segundos, a fuga abriu espaço. Depois vieram mais homens vermelhos, em número maior. Alguns traziam lanças curtas; outros moviam as mãos e acendiam fogo no ar.
Perto da montanha, os que fugiam começaram a se organizar para combate. Moisés viu então um velho no alto de uma entrada rochosa. Barba branca, roupas escuras, corpo magro demais para a força que o lugar lhe atribuía. Ele ergueu as mãos. Uma parte da montanha se soltou.
A pedra gigantesca ficou suspensa sobre todos.
Moisés parou por um instante, incapaz de aceitar o que via. A rocha começou a pegar fogo ainda no ar, até virar um meteoro baixo, enorme, pronto para cair sobre os vermelhos. Do outro lado do campo, outro homem levantou a mão. Um jato de lava atingiu a pedra suspensa e a despedaçou antes da queda. Fragmentos em chamas se espalharam sobre os dois lados.
Gritos vieram de toda parte.
O velho da montanha e o homem vermelho ficaram imóveis, encarando-se através do campo queimado. O vermelho ergueu a mão aberta. O velho repetiu o gesto. Aos poucos, as armas baixaram.
— Trégua temporária — disse a mulher que ajudara Moisés. — Recolhemos os mortos. Ambrósio reconheceu a derrota por enquanto.
— Quem é Ambrósio?
— O pargo deles.
— Isso não explica nada.
— Aqui, explica quase tudo.
Ela apontou para Eva.
— Precisamos cuidar dela.
— Antes você vai me dizer onde estamos.
A mulher o encarou pela primeira vez com alguma paciência. Era jovem, ou trazia juventude no rosto de alguém treinado para amadurecer rápido. Tinha cabelo escuro preso atrás da cabeça, uma cicatriz fina no queixo e sangue seco no antebraço.
— Meu nome é Angra. Você e essa mulher morreram. Não estão mais na Terra. Este planeta se chama Vulcano.
— Como viemos parar no mesmo lugar?
— Duas pessoas não costumam renascer juntas. O Cálice atravessou com vocês e provavelmente manteve as duas passagens na mesma rota. Não sabemos exatamente como. Foi assim que apareceram no ponto em que ele estava sendo disputado.
Moisés escutou a frase e não encontrou dentro de si o espanto que ela merecia. A morte ainda estava perto demais. A biblioteca voltava em pedaços: André, Eva, cálice, moeda, luz, tiro. Se a morte os trouxera até aquele planeta, os feridos deixados na Terra também poderiam ter seguido para outros lugares. A Confraria passara séculos reunindo relatos sobre continuidade sem saber o que acontecia depois da última linha. Agora ele estava do outro lado dela.
— André estava conosco.
— Não sei quem é André.
— Então não sabe o suficiente.
Angra não respondeu. Conduziu-o por uma trilha que contornava a montanha. Atrás da rocha, havia uma base militar improvisada: barracas escuras, fogueiras baixas, armas empilhadas, feridos gemendo sobre macas, gente correndo com baldes de água e potes de substâncias brilhantes. Levaram Eva para uma barraca menor. Moisés tentou entrar junto e foi impedido por dois guardas.
— Eu entro — disse ele.
Angra ergueu a mão, e os guardas cederam.
Dentro, um homem de mãos finas cortou a calça de Eva ao redor do ferimento. Passou uma pasta cinza nos dois lados da perfuração. A pele reagiu de imediato, fechando as bordas com uma velocidade que deixou Moisés tonto.
— Não atingiu osso — disse o curandeiro. — Perdeu pouco sangue. Corpo classe um.
O silêncio que veio depois não combinava com alívio. Os presentes trocaram olhares rápidos. Angra ficou mais atenta.
— Quanto tempo até acordar? — perguntou Moisés.
— Pouco.
— E classe um significa o quê?
— Que ela nasceu aqui com o corpo mais raro possível — disse Angra. — E você provavelmente também.
— Provavelmente?
Angra olhou para a saída da barraca.
— O mestre precisa ver você.
— Eu não vou deixar Eva.
— Se quiser mantê-la viva por mais de uma trégua, vai.
Moisés olhou para Eva. A respiração dela tinha melhorado. A mão direita continuava fechada. Ele se inclinou e tocou o rosto dela com os dedos.
— Eu volto.
Saiu antes que a promessa pesasse demais. Angra o levou a uma barraca maior, guardada por dois homens de armadura negra. Por dentro, a estrutura não lembrava posto de guerra. Tinha tapetes, almofadas, velas, frutas de casca escura, taças de metal e uma névoa perfumada que subia de vasos baixos. No fundo, sentado entre fumaça e luz vermelha, estava o velho da montanha.
— Então este é o prometido do cálice sagrado — disse ele.
A voz tinha peso de pedra arrastada. Moisés sustentou o olhar.
— Meu nome é Moisés.
— E o sangue de dragão finalmente alcançou o segundo nível de vida. Magnífico.
— Onde está o cálice?
O velho sorriu.
— Protegido.
— Essa palavra costuma significar longe do dono.
Angra ficou tensa ao lado dele. O velho, porém, pareceu se divertir.
— Como está a garota?
— Deve acordar em pouco tempo, mestre Myrddin — respondeu Angra. — Corpo classe um.
Myrddin sorriu, satisfeito.
— Como imaginei. Faça o teste nele.
Angra se moveu rápido demais. Moisés viu a lâmina apenas quando ela já abria seu pulso. O sangue saiu em jato curto, junto com o urro de dor e susto. Ele agarrou o braço dela com a outra mão, pronto para quebrá-lo, mas o corte já estava se fechando. Em segundos, havia só uma linha vermelha.
— Esplêndido — disse Myrddin. — Classe um.
Moisés soltou Angra devagar. A vontade de golpeá-la continuou nos dedos.
— Toque em mim de novo sem avisar e eu esqueço que você nos tirou daquela caverna.
— Avisar alteraria sua reação — respondeu ela.
— Era esse o objetivo.
Myrddin ergueu uma das mãos.
— Calma. Vocês chegaram com o cálice, com a moeda e com dois corpos de dragão no meio de uma guerra antiga. A agressividade é compreensível.
— Que guerra?
— Uma guerra que está perto de terminar.
Angra se aproximou do velho.
— Mestre, Ambrósio retomará o ataque assim que recolher os mortos. Se pretende usar o cálice, precisa agir antes que ele reorganize os pargos.
— Entendo sua preocupação, minha querida. Ela é válida. Mas agora tudo muda. Eu poderei sair daqui. Ambrósio também. Se tudo ocorrer como deve, não seremos mais rivais.
Moisés ouviu a frase e sentiu o corpo esfriar apesar do calor de Vulcano.
— E o que acontece com Eva?
— Ela é parte da resposta.
— Eu perguntei o que acontece com ela.
Myrddin abriu os olhos. O sorriso desapareceu.
— Sem vocês, o cálice é relíquia. Com vocês, é passagem.
Moisés repetiu em silêncio: passagem, dragões, classe um, prometido. Myrddin ouvira seu nome e o de Eva, mas continuava chamando os dois de partes de uma resposta.
— Quero voltar para Eva — disse Moisés.
— Voltará.
— Agora.
Myrddin inclinou a cabeça.
Angra acompanhou Moisés até a saída. Lá fora, a trégua cobria o campo com um silêncio instável. Soldados recolhiam corpos entre árvores queimadas. Ao longe, os vermelhos faziam o mesmo. O céu continuava cor de brasa.
— Você salvou nossa vida — disse Moisés, sem olhar para ela. — Obrigado.
— Mas não confia em nós.
— Você tirou Eva daquela caverna. Foi isso que agradeci. O resto ainda não conheço.
Angra não respondeu. Moisés voltou para a barraca médica e encontrou Eva ainda desacordada, o rosto mais calmo, a mão fechada sobre a moeda. Sentou-se ao lado dela, segurou seus dedos e tentou pensar em André. Se ele também tivesse morrido, onde estaria? Se não tivesse, que inferno ficara para trás? Myrddin chamara Eva de garota, corpo classe um, dragão e parte da resposta. Em nenhum momento usara o nome dela. Moisés não sairia dali novamente sem saber o que pretendiam fazer com os dois.