A Jornada do Sangue Jornada do Sangue · Capítulo 45 de 49
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A Jornada do Sangue

André queria começar por aqueles que Érebo havia absorvido.

— Você consegue libertá-los? — perguntou a Ártemis.

— Eu recebi poderes e características de Afrodite, não as pessoas que estavam nela. Érebo ainda carrega todas as partículas que tomou.

Apolo observou as armas presas ao corpo de André.

— Se Zeus ainda tiver a Brahmastra, continua perigoso.

— Não tem. A arma desapareceu quando ele matou Eva. Deve ter renascido com minha irmã.

— E Zeus ficou sem nenhuma das três — Hefesto concluiu.

Uma explosão destruiu o teto do templo. As paredes estremeceram e parte das colunas caiu sobre o salão. Quando a poeira baixou, Zeus estava diante deles.

— Foi por isso que vim. Quero me livrar de Érebo.

Não havia súplica em sua voz.

André se levantou entre os escombros.

— Você não controla mais esse ser. Se o libertar, ele foge.

Zeus estendeu a mão. O ar vibrou ao redor das armas, mas nenhuma delas se moveu.

André havia envolvido as peças em uma interferência capaz de esconder sua assinatura energética. Zeus percebia o poder, mas já não localizava um ponto que pudesse atrair.

— Então era essa a sua clemência? — Hefesto perguntou.

— Eu ainda posso ajudá-lo — André disse. — Se você morrer pela foice, Érebo morre com você. Depois, você renasce livre dele.

André avançou.

Érebo saiu do corpo de Zeus antes do primeiro golpe. A criatura se ergueu atrás dele, expandindo a própria forma, mas parou quando André apontou a foice.

— Termine logo — Apolo gritou.

Zeus saltou contra André com as mãos carregadas de eletricidade. Ártemis entrou no caminho e recebeu o ataque. Caiu aos pés do irmão.

Apolo atingiu Zeus antes que ele disparasse de novo. Os dois atravessaram o que restava de uma parede e continuaram lutando do lado de fora.

Um portal se abriu diante de André. Trovar e Sussurro saíram dele.

— Preciso que confie em mim — Trovar disse.

— Você me ajudou a procurar Eva. Fale.

— Érebo entra em mim como aliado. Não me domina e não absorve quem recusar.

— Ainda há pessoas dentro dele — André disse.

— Eu sei. A foice pode separar as partículas que ele tomou. Ligado a Érebo, consigo abrir uma saída para cada uma e entregá-las ao circuito.

André olhou para Sussurro. Ela confirmou com um movimento breve da cabeça.

— Você aceita essas condições? — perguntou a Érebo.

— Aceito.

— Quantas pessoas você mantém aí?

Érebo não respondeu.

— Então solte todas.

André movimentou a foice. Érebo se desfez antes que a lâmina o alcançasse e entrou no corpo de Trovar. Por um instante, a pele dele escureceu e seus olhos perderam a cor. Sussurro segurou sua mão. Trovar voltou a respirar.

André golpeou o chão com o cabo da arma. Uma explosão de pedra, poeira e energia subiu entre eles e a praça, escondendo Trovar dos que acompanhavam a luta.

A foice reagiu ao que estava dentro dele. Pontos de luz começaram a surgir sob sua pele, acompanhados por vozes que não formavam palavras completas. André reconheceu Hagar. Reconheceu Afrodite. Outras consciências atravessaram a superfície escura depressa demais para que pudesse distingui-las.

Trovar abriu pequenas passagens ao redor do próprio corpo. A redoma respondeu acima da cidade. Uma partícula desapareceu após outra, recebida pelo circuito dos sete planetas e devolvida ao processo de renascimento.

A cada saída, parte dos poderes acumulados por Érebo deixou Trovar. Quando o último ponto de luz atravessou uma passagem, ele caiu sobre um joelho. Sussurro o sustentou.

— Acabou? — André perguntou.

— Ninguém continua preso. Érebo conserva o que aprendeu, mas perdeu as partículas e o acesso aos poderes que dependiam delas.

Ártemis levou a mão ao rosto. Os traços recebidos de Afrodite permaneciam nela.

— Ele não devolveu o que Zeus colocou em mim.

— Porque Zeus não colocou Afrodite em você — Trovar respondeu. — Reproduziu partes do que Érebo havia assimilado. Agora essas alterações pertencem ao seu corpo.

André manteve a foice apontada para Trovar.

— E as condições?

A escuridão voltou aos olhos dele por um instante.

— Érebo entra em mim como aliado — Trovar repetiu. — E sabe o que acontece se romper o acordo.

André baixou a arma. Trovar abriu um portal.

Os dois desapareceram.

— Não! — Zeus gritou.

Uma rajada veio em direção a André. Ele a desviou com a foice, alcançou Zeus e o derrubou com um soco.

— Você matou minha irmã.

Acertou-o de novo.

Zeus tentou se erguer. André continuou até que ele parasse de reagir.

— André, chega — Apolo disse, segurando seu braço. — Ele está vencido.

André ainda olhou para Zeus por alguns segundos. Então se afastou.

Pessoas haviam se reunido ao redor do templo destruído. Um homem saiu do grupo.

— E o que vocês farão conosco agora?

— Isso deverá ser decidido por vocês — André respondeu.

— Quem disse que queremos decidir? Nossa vida funcionava. Zeus mantinha a ordem e nós seguíamos nossos caminhos. Vocês trouxeram a dúvida e chamaram isso de liberdade.

Houve murmúrios de concordância. André esperara alívio; encontrou medo, irritação e pessoas que ainda preferiam saber quem daria as ordens na manhã seguinte.

Zeus conseguiu se levantar.

— Era isso que eu queria preservar — disse, limpando o sangue da boca. — Uma família que não pudesse se dispersar outra vez.

Poseidon e Hades pousaram perto dele. Nenhum dos dois tentou protegê-lo.

— Você nunca nos contou — Poseidon disse.

— Porque transformei parentesco em propriedade. Quanto mais reunia, mais precisava controlar.

Um portal surgiu ao lado de André. Eva e Moisés atravessaram juntos.

— Eva!

André abraçou a irmã. Quando ele a soltou, Moisés a beijou. Zeus observou os três.

— O reencontro daqueles que carregam meu sangue — disse. — Sangue de dragão.

— Que valor você deu a ele? — André perguntou.

— Valor demais. Queria descobrir se o sangue apenas transmite instruções dentro de uma vida ou se a partícula aprende com aquilo que circula pelo corpo e reconstrói certas marcas quando renasce. O sangue de dragão permaneceu em vocês. Depois, André espalhou parte dele entre os vampiros. Eu queria saber por quê.

— E encontrou a resposta?

— Encontrei obsessão. Confundi a jornada do sangue com o direito de decidir o destino de quem o carregava.

Ártemis se aproximou, mas não o abraçou. Ficou ao lado de Apolo.

— Você não voltará a governar sozinho — ela disse.

O homem que havia contestado André protestou. Outras vozes surgiram, umas em defesa de Zeus, outras contra ele. A discussão se espalhou pela praça.

— Eles decidirão se você permanece — André disse. — Sem armas, sem Érebo e sem poder absoluto. Se quiser fazer parte deste lugar, será submetido às mesmas decisões que todos os outros.

Zeus olhou para Poseidon e Hades. Os irmãos não lhe ofereceram resposta.

— Ficarei — disse por fim.

Aquilo não reparava o que havia feito. Apenas impedia que uma rendição fosse confundida com absolvição.

André voltou-se para Eva.

— Sabe para onde devemos ir?

— Paradise. Algo está reunindo gente demais por lá.

André abriu uma passagem com o cajado. Imaginou o planeta, sentiu o instrumento localizar a energia correspondente e fez o espaço ceder.

Os três saíram no meio de uma avenida.

Um veículo desviou por pouco.

— Isso é lugar para aparecer? — o motorista gritou antes de seguir.

Eles flutuaram para sair da pista. Ninguém pareceu especialmente impressionado.

— É a Terra? — Moisés perguntou.

André apontou para um restaurante à margem da avenida. Acima da entrada, a imagem de um frango dividia espaço com o anúncio do melhor frango da região.

— Pelo menos alguma parte dela.

Eles atravessaram cidades que reconheciam, embora os prédios fossem mais altos e veículos cortassem o céu. Os continentes pareciam aproximados, com mares estreitos entre eles. De uma praia, era possível enxergar outra cidade no horizonte.

Subiram até que as construções se tornassem pontos. Ainda assim, não viram curvatura. Paradise reunia muitas versões do mundo estendidas sobre uma superfície grande demais.

— Paradise — Elaryan disse atrás deles.

Moisés se virou imediatamente.

— Você de novo.

— Eu disse que poderiam viver. O planeta da primeira vida de vocês está aí embaixo, junto de cidades e povos trazidos de muitos outros lugares. Escolham o que desejam ser.

— E as crianças? — Eva perguntou.

— Não há novas partículas disponíveis. Corpos podem até iniciar sua formação, mas nenhuma vida nasce sem uma partícula que a sustente. Os animais que já existem continuam por toda parte.

Elaryan apontou para um bando de pássaros que voava muito abaixo.

— Você não veio apenas admirar a vista — Moisés disse.

— Não desta vez. Lúcifer está preparando defesas. Os anjos atacaram a equipe de Emma e voltarão.

Na base, pessoas e simbioses se distribuíam pelos alojamentos. Lúcifer trabalhava com aqueles que desejavam combinar habilidades. Magno e Henri acompanhavam os lobos e as gatas, ainda desconfiados depois do que ocorrera em Kimmer. Os pássaros se aproximavam com menos resistência.

Lúcifer conseguira transmitir uma parte da capacidade da fênix às kinnaras. Não sabia quanto tempo o efeito duraria nem como se comportaria depois de uma morte, por isso interrompera novos testes.

André, Eva e Moisés descansaram antes de se reunirem aos outros.

— Se você me morder, eu me torno vampira — Eva disse ao irmão. — O que acontece com meu dragão?

André liberou sua simbiose. O dragão permanecia enorme. As asas haviam mudado um pouco, mas o restante conservava quase a mesma aparência.

— Ele continua sendo um dragão.

A criatura soltou fumaça pelas narinas.

Eva afastou os cabelos e ofereceu o pescoço. André a mordeu. Ela perdeu as forças, e Moisés a segurou antes que caísse.

— Posso transformá-lo agora — André disse —, ou vocês podem esperar.

Eva despertou antes que Moisés respondesse. A fome veio junto. Ela o alcançou por trás e cravou os dentes em seu pescoço.

Quando Moisés tornou a abrir os olhos, permaneceu alguns segundos olhando para ela.

— Você podia ter perguntado.

— Podia — Eva respondeu.

Ele tocou o lugar da mordida e ficou olhando para Eva. Quando ela segurou sua mão, continuou em silêncio.

Eva retirou a Brahmastra de junto do corpo.

— Ela me acompanhou quando Zeus me matou. Elaryan a guardou durante as primeiras redomas e a devolveu em Fóster. Se os anjos vierem, você saberá usá-la melhor.

André recebeu a arma e a prendeu junto da Brahmashirsha. As peças gêmeas reagiram uma à outra com um brilho breve.

Drácula apareceu no centro da base.

— Chegou a hora. Os anjos estão atacando.

Lúcifer sacou Fragarach.

— Onde?

— Na cidade onde está Adwig.

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