Uma História Padrão
O orvalho acordou Eva antes da memória.
Gotas pequenas caíam em sua testa, uma a uma, frescas demais para o corpo que acabara de ser aberto ao meio por Elaryan. Ela não levantou de imediato. Sentiu folhas sob as costas, macias, moldadas ao seu tamanho, e ouviu uma correnteza próxima atravessando pedras. O ar tinha cheiro de flor azulada, terra úmida e alguma fruta que ela não conhecia. Por um instante curto, o lugar conseguiu fazer o impossível: reduziu a dor a uma lembrança distante.
Então a lembrança voltou.
Moisés preso. O grito dele. A peça arrancada da coluna. A mão de Elaryan abrindo caminho nas costas dela. A dor que apagara o restante da sala. Eva sentou de uma vez.
O corpo respondeu sem fraqueza.
A coluna não latejava. Os pulsos não traziam marca. A pele estava limpa e quente. Aquilo a assustou mais do que uma ferida aberta. Árvores de tronco claro e folhas entre verde e azul, flores que desciam do violeta ao roxo, duas luzes solares filtradas por copas altas, insetos translúcidos movendo-se em linhas lentas. A beleza parecia calculada para impedir o pânico.
Eva tentou se desesperar e não conseguiu.
A calma no peito não vinha dela.
— Dormiu bem?
Elaryan desceu do céu sem pressa. Tocou o solo com leveza, vestida agora com tecidos claros, curtos, feitos para o calor e para a umidade daquele planeta. Trocara sala de tortura por fábula. A mudança ofendia Eva quase tanto quanto a tranquilidade imposta ao corpo.
— Onde está Moisés?
— Bom dia para você também.
Eva se levantou. As pernas estavam firmes. A roupa ainda era a última que lembrava, suja de memória, embora limpa aos olhos.
— Onde ele está?
— Vivo. Tratado. Longe daqui.
— Isso deveria me acalmar?
— Deveria impedir que você desperdice energia com a hipótese errada.
Eva avançou um passo. Elaryan ergueu dois dedos, e a roupa dela mudou. O tecido antigo cedeu a uma vestimenta do mesmo estilo da de Elaryan, leve, ajustada ao corpo, própria daquela mata. Eva puxou a barra com irritação.
— Você não consegue deixar o corpo de ninguém em paz?
— Tenho problemas com ineficiência. Esse é o vestuário local. Se vamos observar, convém não parecermos invasoras.
— Nós somos invasoras.
Elaryan sorriu.
— Você aprende rápido quando quer ferir.
— Eu quero ferir você.
— Ainda não pode.
A resposta não veio em tom de ameaça. Veio como diagnóstico. Eva odiou mais por isso.
Elaryan começou a caminhar. A floresta abriu caminho sem que folhas ou galhos encostassem nela. Eva ficou parada por um momento, recusando-se a seguir. A calma artificial continuava ali, amortecendo a urgência. Quando percebeu que ficar também obedecia ao controle, andou.
— Que planeta é esse?
— Um entre milhares. O nome local varia conforme o reino, a língua, a guerra mais recente e a vaidade do cartógrafo. Para o que quero mostrar, o nome importa pouco.
— Claro. Pessoas nunca importam quando atrapalham sua explicação.
— Pessoas importam quando revelam padrão.
Eva apertou os dentes.
— Você me trouxe para uma aula.
— Trouxe para uma redução de escala. Você ainda pensa o universo a partir da sua família, da Terra, de André, de Moisés. Natural. Insuficiente.
Elaryan estalou os dedos.
O cenário mudou.
Eva sentiu a tontura da transição, mas não caiu. Estavam suspensas dentro de uma sala de trono. Abaixo, um homem de meia-idade ouvia conselheiros com a postura cansada de quem precisava parecer seguro enquanto todos ao redor transformavam medo em protocolo. Bandeiras verdes e douradas desciam das paredes. Guardas ocupavam as portas. Do lado de fora das janelas altas, a cidade de pedra clara descia por colinas até um rio.
— Ele pode nos ver?
— Não. Nem ouvir. Dobrei luz e som ao nosso redor.
— Que conveniente.
— Para observação, sim.
Elaryan apontou para o rei.
— Kaled. Considerado bom, justo, dedicado. Herdou o trono de um pai rude, vaidoso, infiel, mas administrativamente eficiente. A sociedade prosperou sob o pai e se sente moralmente melhor sob o filho. Essa combinação costuma produzir crise.
— Porque bondade atrapalha?
— Porque símbolos limpos exigem inimigos sujos.
Eva olhou para o homem no trono. A exaustão já marcava o rosto dele.
— E você forneceu o inimigo.
— Reforcei a profecia.
— Que surpresa.
Elaryan recebeu a ironia com prazer quase discreto.
— Baltazar já existia. Tinha poder para criar criaturas que consomem luz e gente. Também tinha ressentimento, talento e fome de reconhecimento. Eu não precisei inventá-lo. Apenas organizei o modo como os outros leriam sua ascensão.
— Você chama isso de organizar?
— Chamo de evitar desperdício histórico.
O ar acima do trono cintilou. Eva viu imagens sobrepostas: uma cidade apagada por sombras vivas, gente correndo, luzes engolidas, o rei Kaled ajoelhado diante de um corpo que ainda não chegara. Depois uma mulher surgia em outro lugar, recém-renascida, carregando poder suficiente para enfrentar as criaturas. O rosto dela entrava e saía do foco, ainda procurando encaixe dentro da visão.
— Alice — disse Elaryan. — A salvadora prometida. Kaled já imagina que ela possa se tornar o amor destinado ao rei. Alice deseja Drevuz e começou a recuperar vidas que não compreende. Se o curso permanecer próximo do padrão, enfrentará Baltazar e descobrirá que o monstro também foi produzido por abandono, orgulho e oportunidade. Pode haver equilíbrio suficiente para que este planeta respire por mais alguns séculos.
Eva olhou para ela.
— Você fala da vida das pessoas como sinopse.
— Quando se vive tempo demais, muitas vidas ficam com estrutura repetida.
— Isso é crueldade ou cansaço?
Pela primeira vez, Elaryan demorou meio segundo a mais.
— Os dois podem dividir a mesma boca.
Novo estalo.
Agora estavam à beira de um lago alimentado por uma cachoeira.
Alice e Drevuz estavam dentro da água, afastados da trilha e alheios às duas observadoras. Elaryan não desviou. Eva sentiu vontade de empurrá-la para longe dali.
— Não.
— Não o quê?
— Você não vai transformar isso em espetáculo.
— Já é parte da história.
— É parte da vida deles. Existe diferença.
Elaryan encarou Eva com curiosidade.
— Seu corpo se tornou indestrutível há pouco e você ainda protege pudores de primeira vida.
— Eu protejo limites. Você deveria experimentar.
Alice puxou Drevuz para perto e o beijou. O corpo dela enrijeceu no mesmo instante. Ela se afastou sem ar, e Drevuz retirou as mãos.
— Foi assim comigo — disse Eva.
— Em você, usei choque direto. Nela, o gatilho veio pelo contato, pela memória corporal e pela repetição entre vidas. O corpo entendeu antes da razão.
Drevuz perguntou se a havia machucado. Alice respondeu que se lembrara. Ficou sentada perto da água, tentando separar imagens de vidas diferentes. Alguns minutos depois, outra sequência a atingiu. O mundo perdeu nitidez ao redor dela, e Drevuz a segurou antes que caísse.
Eva sentiu um aperto na garganta.
— Você sabia que isso aconteceria.
— Conhecia o resultado.
— E ficou olhando.
— Também estou olhando para você reagir.
— Para quê?
— Para saber se a indestrutibilidade preservou sua escala humana.
Eva se virou para ela.
— Você fez isso comigo para medir se eu ainda me importo com gente?
— Fiz muito mais do que isso.
Elaryan apontou para Alice caída. Por um instante, a percepção de outra mulher se soltou dela e retornou para algum lugar distante.
— Uma experiência tentou enviar a partícula essencial de outra pessoa para um planeta predeterminado. A viajante permaneceu no próprio corpo, mas sua consciência se ligou a Alice no instante em que ela renasceu. Durante algum tempo, recebeu o que Alice sentia sem controlar nenhuma escolha. Esse colapso encerrou a ligação. Alice permanecerá aqui sem sequer saber que foi observada.
— Você está me mostrando exceções dentro do seu padrão.
— Exato.
— Então o padrão não é tão padrão.
Elaryan sorriu.
— Agora chegamos ao ponto.
O rio desapareceu.
Veio um deserto vermelho.
Eva afundou os pés na areia quente. O céu ali era amplo e hostil. Elaryan subiu alguns metros, abrindo os braços. Nuvens nasceram do nada. A tempestade caiu com violência: água grossa, vento, granizo, raios. O primeiro raio atingiu Eva no peito e a jogou de joelhos. Doeu. O segundo atravessou seu ombro. O terceiro fez o mundo inteiro piscar.
Ela continuou viva.
Elaryan fechou a mão, e a tempestade morreu. O fogo veio em seguida. Eva ardeu da cabeça aos pés. A pele queimou sem se abrir. O cabelo pegou fogo e voltou a existir conforme a chama passava. Ela tentou respirar e não encontrou ar. Elaryan havia retirado todos os gases ao redor dela. O corpo insistiu no movimento automático do peito, mas não precisava dele. A falta de oxigênio causava terror; não causava morte.
Depois vieram as armas.
Centenas. Lâminas, lanças, estacas, discos, flechas, metais que Eva não conhecia. Todas desceram ao mesmo tempo. Bateram em sua pele, em seus olhos, garganta, ventre, costas, coxas. A dor existia, concreta, múltipla, mas nenhuma ponta atravessou. As armas caíram ao redor dela como chuva inútil.
Eva ficou de pé devagar, com a expressão ofendida.
— Você queria me mostrar que não pode me matar?
Elaryan desceu até tocar a areia.
— Queria mostrar que quase nada pode.
— Quase.
— Sua mente ainda pode ceder. Culpa, medo e desejo de fim continuam encontrando espaço. O corpo agora suporta mundo demais. A pergunta é se você suporta.
Eva respirou por hábito. O ar voltara.
— Essa é a sua grande lição? Que eu deveria parar de me importar com assuntos pequenos porque agora sou grande?
— Assuntos pequenos matam civilizações inteiras quando repetidos por tempo suficiente. Amor, ciúme, herança, orgulho, fome, humilhação, promessa. A diferença é que alguns seres ficam presos à superfície desses conflitos. Outros aprendem a mexer na arquitetura.
— Como você.
— Como eu.
— E a arquitetura desse planeta é uma mulher usada como salvadora, um rei usado como símbolo, um vilão usado como peso, uma profecia usada como trilho e duas pessoas conectadas por um acidente que você acha interessante.
Elaryan não negou.
— Sim.
Eva sentiu o próprio olhar mudar. Não porque concordasse. Porque começava a entender o tamanho da prisão.
— Você quer que eu pare de tentar salvar pessoas e comece a salvar desenhos.
— Quero que você veja o desenho antes de escolher onde sangrar.
— Eu ainda escolheria Moisés.
— Eu sei.
— André.
— Também.
— Então você falhou.
Elaryan aproximou-se, calma, satisfeita de um modo que irritou Eva.
— Não, minha querida. Você acabou de provar que a implantação preservou o centro. Agora falta descobrir se esse centro aprende a governar o corpo indestrutível que recebeu.
Eva olhou para as armas espalhadas, para a areia marcada por raios, para o horizonte vermelho e vazio. Pensou em Alice desmaiada nos braços de Drevuz, em Kaled esperando uma salvadora fabricada, em Baltazar transformado em função narrativa, em Moisés distante e vivo, segundo a mulher que não merecia confiança alguma.
— Eu não vou ser sua.
Elaryan sorriu com tristeza fabricada, ou verdadeira demais para Eva distinguir.
— Ninguém precisa me pertencer para crescer dentro do caminho que preparei.
Eva deu um passo na direção dela.
— Um dia eu vou destruir esse caminho.
Pela primeira vez desde o despertar no bosque, Elaryan pareceu satisfeita sem precisar fingir leveza.
— Agora sim — disse. — Essa já é uma pergunta melhor.