Mesmos Interesses? Jornada do Sangue · Capítulo 21 de 49
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Mesmos Interesses?

André despertou ouvindo homens discutirem sobre morte.

O chão sob suas costas era duro, avermelhado, aquecido pelo sol de um planeta que ele ainda não conhecia. Abriu os olhos sem se mover de imediato. Depois de morrer em Rock, dentro do próprio dragão, aprendera a desconfiar do primeiro minuto. O ar tinha cheiro de metal quente e terra seca. Acima dele, um céu alaranjado se abria com nuvens finas, cortadas por estruturas suspensas que lembravam pontes, fortalezas e jardins impossíveis.

À sua frente, dois homens estavam caídos no chão, apoiados nos cotovelos, sujos de poeira, com sangue escuro marcando o rosto e a roupa. Diante deles, outro homem permanecia de pé. Era alto, musculoso, vestido com uma armadura clara que deixava os braços livres, cercado por soldados com lanças longas e lâminas na ponta. O grupo inteiro tinha a atenção presa nos prisioneiros, e isso deu a André alguns segundos para entender que, ao menos por enquanto, ninguém o aguardava.

Um dos homens caídos ergueu a cabeça.

— Você não vai nos devolver vivos.

O líder não respondeu. Apenas observou.

O ar acima dos prisioneiros começou a girar. Primeiro poeira. Depois areia. Depois lascas finas, transparentes e afiadas. André sentiu o impulso de se levantar, mas ficou parado. As lâminas avançaram contra o homem armado e chegaram fracas ao escudo invisível em torno dele. Duas atingiram a proteção nos ângulos escolhidos pelos próprios prisioneiros, voltaram pelo mesmo caminho e entraram em suas têmporas.

Os dois se desfizeram antes de tombar.

Tinham usado a própria técnica para morrer. A prisão deles, fosse qual fosse, pesava mais que o próximo renascimento.

André se sentou.

As lanças se voltaram para ele no mesmo instante.

O corpo respondeu melhor que no nível anterior. Havia calor sob a pele, força nos dedos, uma percepção mais ampla das distâncias. Também havia cansaço. A morte recente ainda passava pelo peito como uma queimadura interna. Jawzahr, o dragão branco, não dormia; apenas aguardava em algum lugar fundo demais para obedecer a um chamado simples.

— Quem é você? — perguntou o homem de armadura.

André levantou devagar, com as mãos abertas.

— André. Acabei de morrer. Ou renascer. Estou começando a achar que no meu caso essas duas coisas entraram em sociedade.

Alguns soldados apertaram as lanças.

— De qual planeta?

— Rock.

A resposta aliviou um pouco o rosto do homem.

— Raros os que chegam de Rock. Costumam entender regras.

— Eu entendia algumas até ontem.

— Sou Cronos.

André soltou ar pelo nariz.

— Claro.

Cronos estreitou os olhos.

— Sua primeira vida foi na Terra.

— Foi. A mitologia de lá deixa alguns encontros constrangedores.

— Elaryan falou sobre isso. Diz que encontrou na Terra imagens semelhantes às de outros povos e reforçou nomes, símbolos e previsões que precisavam permanecer, mesmo deformados.

André pensou em Zeus e Afrodite sujos de sangue dracônico em Rock, em Elaryan citada por eles como destino, em Eva possivelmente perdida em alguma engrenagem semelhante. A palavra previsão incomodou. Depois do que ouvira, profecia nenhuma merecia inocência.

— Ela reforça muita coisa, pelo visto.

Cronos avaliou a frase, procurando ofensa.

— Você fala da nossa deusa com descuido.

— Eu falo de quase todo mundo com descuido quando acordo em outro planeta depois de ser aberto por dentro.

O líder não gostou, mas também não mandou atacar. André aproveitou a pausa.

— Antes de decidir se eu mereço uma cela, um interrogatório ou uma visita guiada, preciso avisar uma coisa. Sou um dragão. E estou sendo caçado.

Dessa vez os soldados deram um passo para trás.

Cronos continuou imóvel.

— Caçado por quem?

— Zeus e Afrodite.

O nome de Zeus acendeu a praça.

Cronos saltou para o alto. O ar estalou em torno dos braços dele, e relâmpagos saíram de suas mãos em várias direções, marcando o céu com linhas brancas. Os soldados se ajoelharam. André ficou de pé, porque já tinha ajoelhado o bastante para um dia.

— Hermes! — gritou Cronos.

A resposta veio dentro de um raio.

Um homem surgiu ao lado dele com velocidade absurda. Era parecido com Cronos no rosto e na postura, mas mais magro, mais leve, com uma elegância de lâmina guardada. Os soldados baixaram ainda mais a cabeça.

— Qual incêndio exige berro público? — perguntou Hermes.

Cronos apontou para André.

— Poseidon mandou Zeus e Afrodite atrás dele. Dragão. Recém-renascido de Rock.

Hermes olhou André de alto a baixo.

— Isso não é um incêndio. É uma oportunidade embrulhada em suicídio.

— Perdemos os Mestres do Ar agora mesmo — disse Cronos, indicando o lugar vazio onde os prisioneiros haviam morrido. — Se Zeus chegar aqui, teremos como negociar tempo.

— Ou teremos como entregar a Elaryan uma prova nova da nossa inutilidade.

André ergueu a mão.

— Desculpem interromper o planejamento sobre o que fazer com meu corpo, mas eu voto na opção em que ninguém me entrega.

Hermes desceu ao chão com um sorriso controlado.

— Você pode votar. Aqui isso já é um avanço.

Cronos lançou-lhe um olhar duro.

— Não provoque.

— Estou sendo hospitaleiro.

André olhou em volta. Fóster exibia civilização demais para a quantidade de medo reunida naquela praça. Torres claras, veículos finos movendo-se acima das ruas, jardins geométricos, soldados obedientes, gente observando de janelas distantes. Poder bem administrado. Pior tipo.

— Vocês servem Elaryan?

Hermes respondeu primeiro.

— Todos servem alguém até encontrarem uma vantagem em chamar isso de aliança.

— Hermes.

— Ele precisa saber em que chão caiu, Cronos. Sim, André, este planeta reconhece Elaryan. Sim, Zeus e Afrodite têm prestígio junto a ela. Sim, Poseidon costuma transformar interesses particulares em missões sagradas. E sim, se entregarmos você sem pensar, podemos sobreviver à semana.

— E se não entregarem?

Hermes abriu os braços.

— Podemos sobreviver à história.

Cronos respirou fundo. Os dois queriam escapar do mesmo domínio, mas não concordavam sobre quanto risco suportariam.

— O que vocês podem fazer contra Zeus? — perguntou André.

— Lutar, pouco — disse Hermes. — Ganhar, menos ainda.

— Ótimo começo.

— Matar você antes que ele o leve poderia funcionar.

André piscou.

— A hospitalidade piorou rápido.

— Eu disse poderia. E você renasceria em outro lugar, longe dele.

— Ou mais perto.

— Exato.

Cronos encarou o horizonte. O céu começou a mudar de cor em um ponto distante. Um rasgo vertical, dourado nas bordas, abria-se no ar.

— Eles chegaram.

— Ainda falta uma peça — disse Hermes.

André seguiu o olhar dele. Alguém vinha correndo pela avenida suspensa, rápido demais para o corpo parecer comum. O rapaz derrapou no chão perto deles, levantando poeira, ofegante e com os cabelos grudados na testa.

— Carl — disse André.

O rapaz o reconheceu de Vulcano. Não sorriu. A última vez que André o vira, Carl protegia uma criança segundos antes da explosão.

— Você sobreviveu.

— Tenho feito isso por etapas.

— A explosão trouxe você para cá?

— Trouxe. A criança não veio comigo.

Cronos olhou de um para o outro.

— Vocês se conhecem?

Carl evitou responder.

Hermes aproximou-se dele.

— Desde o incidente do cálice, Carl consegue intensificar por contato uma propriedade energética que já esteja ativa. A energia dele não obedece ao padrão de Fóster. Com ele, você pode quebrar o que Zeus trouxer.

— Pode — repetiu André.

— É a palavra que temos agora.

O portal terminou de abrir.

Afrodite atravessou primeiro. A praça perdeu alguns segundos olhando para ela, inclusive soldados treinados para morrer sem piscar. Zeus veio atrás com o cajado de Hagar na mão e o humor de quem fora humilhado há pouco demais para fingir grandeza.

— Cronos e Hermes — disse Zeus. — Que surpresa desagradável. Elaryan ainda permite que vocês administrem este planeta?

Hermes inclinou a cabeça.

— Também é bom ver você, Zeus. Percebo que a última missão correu muito bem. Trouxe o dragão amarrado? Ou veio perguntar se alguém viu por onde ele fugiu?

Afrodite sorriu para o chão.

Zeus ergueu a mão. Duas peças metálicas saltaram do portal e envolveram André antes que ele conseguisse mover o braço. A primeira fechou os ombros e o peito, prendendo os braços junto ao corpo. A segunda agarrou as pernas. O metal apertou, liso por fora, vivo por dentro, drenando o calor no ponto de contato.

André caiu de joelhos.

— Tempérium — disse Afrodite. — Finalmente uma ideia útil.

Ele tentou aquecer o corpo. O calor subiu até encontrar o metal e morreu. Tentou chamar Jawzahr. O dragão bateu contra alguma barreira surda. A simbiose continuava ali, furiosa, mas sem acesso à superfície.

— Esse material inibe despertar dracônico — disse Zeus. — Agora vamos evitar teatro.

— Jawzahr — murmurou André.

Nada.

Carl começou a se mover por trás dele.

Hermes entrou na frente de Zeus com calma excessiva.

— Antes de partir, Afrodite poderia nos prestar uma ajuda. Os Mestres do Ar morreram fugindo da nossa custódia. Uma vergonha. Se ela localiza qualquer rastro, pode encontrar onde renasceram.

Zeus gargalhou.

— Vocês perderam dois prisioneiros e querem que eu pare uma captura para limpar a sua incompetência?

— Não a sua. A dela.

Afrodite olhou para Hermes.

— Cuidado.

— Sempre.

Carl chegou às costas de André. Tocou primeiro o metal, depois a pele exposta na nuca. O corpo dele brilhou em azul pálido. O Tempérium retirava calor de André para impedir a transformação. Carl ampliou essa propriedade até o metal resfriar além do próprio limite e começar a se contrair.

Afrodite percebeu antes de Zeus.

— Zeus.

O primeiro estalo veio baixo.

Zeus virou tarde.

O Tempérium rachou.

A pele de André congelou sob a peça, mas o corpo novo reagiu no mesmo instante. Calor subiu dos ossos, encontrou o frio de Carl e abriu uma passagem violenta entre os dois. André expandiu os ombros. A trava do peito estourou. A dos tornozelos se partiu em seguida.

Jawzahr emergiu.

Zeus avançou, já se transformando. Afrodite recuou três passos.

— Não — disse ela. — Tem energia demais aí.

Zeus não escutou.

O corpo dele cresceu, cobrindo-se de escamas escuras, metal e eletricidade. André também cresceu, mas o crescimento não parou onde parara em Rock. Carl ainda estava em contato com ele, preso ao campo que a simbiose abriu. Jawzahr não o devorou em carne; envolveu sua energia, puxou o impulso amplificador para dentro da transformação e preservou o corpo do rapaz em uma dobra de luz junto ao peito dracônico.

André sentiu o susto de Carl lá dentro.

— Fica comigo só mais um pouco — pensou, sem saber se a frase chegava.

Chegou.

O dragão branco abriu as asas sobre a praça.

O vento jogou soldados contra as paredes. Hermes puxou Cronos para trás. Afrodite ergueu uma barreira fina, quase invisível, apenas para não ser arrastada.

Zeus voou primeiro.

André foi atrás.

Os dois atravessaram a camada baixa da atmosfera de Fóster deixando fogo, eletricidade e fragmentos de nuvem rasgados para trás. Zeus atacava com experiência. Usava as garras metálicas para abrir caminho, cuspia fogo em jatos curtos, manipulava o ar em torno das asas de André para quebrar estabilidade. Em Rock, isso bastara. Agora André percebia o truque no início do movimento. Carl ampliava a leitura. Jawzahr respondia com raiva e precisão.

O primeiro golpe de André acertou a lateral do pescoço de Zeus.

O segundo rasgou uma asa.

O terceiro empurrou o dragão escuro contra uma faixa de rocha suspensa acima da cidade. Zeus quebrou a rocha com o próprio corpo e voltou cuspindo fogo. A rajada queimou o peito de André e o lançou para baixo. A queda abriu uma cratera fora da praça, perto de um jardim amplo. Por um instante, o mundo ficou branco de dor.

Zeus pousou diante dele.

— Você continua sendo guiado por outros — disse. — Pai, irmã, dragão, um menino amplificador. Elaryan pode dar um destino melhor do que essa coleção de impulsos.

André ergueu a cabeça. A boca dracônica soltava fumaça azul.

— Meu destino não precisa de guia.

— Todo mundo precisa.

— Eu já vi o bastante de gente chamando coleira de caminho.

Zeus abriu as asas para atacar.

André puxou Carl para mais fundo no campo de luz.

Não houve mordida, nem carne rompida, nem morte. Houve fusão temporária de energia. O poder de Carl encontrou o fogo branco de Jawzahr e multiplicou o calor até a própria atmosfera ao redor deles vibrar. A garganta de André acendeu. O fogo que veio dali passava da chama. Era uma coluna concentrada de luz, calor e pressão, tão intensa que o solo vitrificou antes do disparo tocar Zeus.

O dragão escuro tentou erguer as garras metálicas.

A coluna o atravessou.

Zeus se desfez no ar.

O cajado de Hagar caiu girando, intacto, e bateu no chão aos pés de Afrodite.

André pousou diante dela com dificuldade. O corpo de Carl caiu para fora da dobra de luz, vivo, tremendo, inconsciente, mas respirando. O dragão branco inclinou a cabeça para Afrodite. Ela segurou o cajado sem pressa, embora os dedos denunciassem tensão.

— Você poderia tentar — disse André.

Afrodite olhou para o lugar onde Zeus havia desaparecido. Depois para Carl. Depois para Hermes, Cronos e os soldados que começavam a se levantar.

— Eu tento quando a vitória me diverte.

Ela abriu um portal com o cajado de Hagar.

Antes de atravessar, encarou André uma última vez. A beleza continuava ali, mas agora carregava cálculo e uma irritação nova, quase respeito.

— Elaryan vai querer ver isso de perto.

— Diga a ela para entrar na fila.

Afrodite sorriu.

— Ela inventou a fila.

O portal se fechou.

André voltou à forma humana devagar. A pele queimava, os ossos davam a impressão de terem sido recém-colocados no corpo, e Carl ainda respirava no chão ao lado. Hermes e Cronos se aproximaram com cuidado. Nenhum dos dois sabia se devia agradecer, prender, ajoelhar ou fugir.

André olhou para eles.

— Vamos conversar sobre interesses, então.

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