O Empresário Jornada do Sangue · Capítulo 3 de 49
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O Empresário

André atravessava os corredores da empresa seguido por olhares que abandonavam telas e documentos quando ele passava. Depois da morte de Paulo, esperavam que ocupasse o prédio com a mesma naturalidade do pai. Ele ainda entrava em cada sala preparado para encontrar o velho exigindo relatórios e corrigindo posturas.

Dona Fátima vinha atrás com uma pilha de pastas contra o peito. A medalhinha de Nossa Senhora prendia nos cabelos grisalhos e a obrigava a fazer pequenos malabarismos sem derrubar os documentos.

— Sr. André, precisamos confirmar sua presença na reunião com os investidores japoneses.

— Não vou a essa reunião, Dona Fátima. Os diretores conhecem os números melhor do que eu.

— Conhecem os números, mas não herdaram a assinatura do seu pai.

André parou. Dois analistas que vinham em sentido contrário diminuíram o passo e fingiram procurar alguma coisa no celular.

— É exatamente disso que estou tentando fugir.

— Então fuja depois de saber o que está deixando para trás.

Ele olhou para a porta da sala de reuniões no fim do corredor.

— A senhora não desiste mesmo.

— Sou mãe, viúva, avó e temente a Deus. O senhor não é o pior problema que já enfrentei.

A corrente se enroscou outra vez. André soltou a medalha dos cabelos dela e a devolveu. Dona Fátima a beijou depressa.

— Entre, ouça e não deixe japonês esperando. Eu também tenho pressão alta.

A reunião durou mais do que André gostaria. Encontrou dois erros numa projeção, fez perguntas que os diretores não esperavam e percebeu que sua participação alterava decisões. Saiu irritado com a utilidade que acabara de provar.

Dona Fátima o esperava do lado de fora com o café já frio.

— Sobreviveu.

— Eles também.

— E corrigiu a previsão de custos antes que fosse enviada.

— A senhora estava ouvindo atrás da porta?

— Eu trabalho aqui há trinta anos. Não preciso encostar o ouvido em porta nenhuma para saber quando um diretor sai contrariado.

André pegou o copo da mão dela e bebeu mesmo frio. Dona Fátima sorriu, satisfeita demais para fingir neutralidade.

Já passava do horário de almoço. Recusou o motorista e desceu para a rua. Na esquina, lembrou de quando encontrava Laura ali, ainda estagiário, e conseguia desaparecer no meio da tarde sem que sua ausência virasse relatório.

Laura vinha à memória com cheiro de pão quente, cabelo preso de qualquer jeito e uma risada capaz de desmontar a solenidade do sobrenome Azevedo. Durante o câncer, ela emagrecera sem perder a mania de zombar dos médicos que falavam com André e a excluíam da conversa. Ele perguntava por prazos, percentuais e novos tratamentos até que Laura mandava guardar a planilha imaginária. Depois da morte dela, Paulo dissera que algumas perdas precisavam ser incorporadas ao planejamento. André nunca o perdoara pela frase.

Foi pensando nela que não percebeu o carro parando junto ao meio-fio. A porta abriu antes que recuasse. Dois homens encapuzados desceram; um segurou seu braço, o outro acertou sua barriga. A segunda pancada veio na lateral do rosto. Depois houve motor, tecido úmido contra a boca e escuridão.

André acordou amarrado a uma cadeira de ferro. O quarto era baixo, iluminado por velas nos cantos. Homens se moviam entre as sombras, sem pressa. A cabeça latejava e a língua tinha gosto de sangue e remédio. Procurou uma câmera, uma janela, qualquer erro. Não encontrou nada útil. Respirou devagar para manter a voz firme.

— Não existe ninguém autorizado a transferir dinheiro em meu nome. Se isso é sequestro, eu mesmo vou ter que pagar o resgate, o que complica a logística de vocês.

Uma risada curta veio do canto esquerdo. Depois uma voz mais firme atravessou a sala.

— Sabemos quem é. E não procuramos dinheiro.

O homem se aproximou o bastante para que André visse a boca sob o capuz.

— Sou o Negociador. Seu pai protegia um cálice de ouro ligado a uma linhagem antiga. Precisamos que o encontre.

— Meu pai colecionava muitas coisas. Algumas de gosto duvidoso.

— Esse objeto não era exibido como vaidade. Paulo fazia parte da Ordo Aeternus e era conhecido entre nós como o Empresário. O título agora cabe a você.

— Vocês sequestram todos os herdeiros ou é um benefício exclusivo do cargo?

— Preferimos chamar de convocação. Encontre o Cálice e leve-o ao escritório central. Quando estiver lá, saberemos.

— E se eu procurar a polícia?

— Seu pai passou a vida inteira evitando isso. Talvez descubra o motivo antes de repetir a pergunta.

André mexeu os dedos contra a corda. O nó não cedeu.

— Faça tudo direito e poderemos ser bons amigos — disse o Negociador. — O que escolhe?

— Costumo pedir referências antes de uma amizade.

Outro homem surgiu com uma seringa.

— A referência está na casa de Paulo.

A agulha entrou no pescoço. André acordou horas depois no jardim da mansão, deitado sobre a grama úmida, com a camisa amarrotada e o gosto químico ainda preso à garganta. Ficou imóvel até confirmar que conseguia mover braços e pernas. A casa estava escura e o portão permanecia fechado.

Pegou o celular para chamar a polícia. Antes de completar a ligação, lembrou do acionista que se aproximara no funeral e dissera que o conhecimento de Paulo era uma herança sem preço. Se o cálice não existisse, entregaria tudo à polícia. Se existisse, queria saber por que o pai o escondera antes de permitir que outras pessoas vasculhassem a casa.

No escritório, conferiu gavetas e armários até encontrar um compartimento trancado atrás de uma fileira de livros. A chave usada por Paulo ficava no mesmo chaveiro do carro, guardado numa caixa sobre a estante. Dentro havia um caderno de capa marrom, um amuleto de metal e documentos dobrados.

As primeiras páginas traziam anotações em latim e nomes que André reconheceu de conselhos empresariais e capas de revistas. No alto de uma folha, leu Ordo Aeternus. Outras páginas mencionavam uma divisão dedicada aos arquivos, origem do grupo que passou a se chamar Confraria do Segredo. Paulo registrara disputas pela posse de objetos e usara a empresa para transportá-los sem chamar atenção.

André encontrou o título Empresário perto do nome do pai. Abaixo, uma frase fora sublinhada duas vezes: “O braço de custódia não pode reunir o Cálice e a moeda.”

Continuou lendo. Havia referências a duas meninas separadas depois da morte da mãe, adoções registradas por famílias diferentes e uma linhagem que Paulo começara a acompanhar tarde demais. Um dos nomes havia sido cortado. O outro permanecia ao lado de uma anotação curta: primeira esposa.

André fotografou as páginas e ligou para Eva.

Ela chegou sozinha, com o cabelo ainda úmido da chuva e o telefone apertado na mão. André abriu a porta preparado para uma pergunta agressiva. Eva o abraçou.

Ele demorou um instante, depois passou os braços ao redor da irmã. Quando se afastaram, nenhum dos dois comentou o que acabara de acontecer.

Eva reparou no hematoma perto do olho dele e tocou a pele com a ponta dos dedos.

— Foram eles?

— Parte do convite.

— Você devia ter me ligado assim que acordou.

— Eu ainda não sabia se tinha acordado de verdade.

— Eu tenho uma coisa para contar — disseram ao mesmo tempo.

Eva riu primeiro. André apontou para o escritório.

— Fui sequestrado hoje.

O sorriso desapareceu.

— O quê?

Ele mostrou o caderno, o amuleto e as fotografias. Contou sobre o Negociador, o título do pai e a exigência do cálice. Eva ouviu sem interromper. Quando ele terminou, abriu no telefone as imagens que fizera na Confraria.

— Passei as últimas semanas com um homem chamado Moisés. Ele conhecia o pai e me levou até uma divisão da mesma ordem.

— O homem que desaparece e reaparece quando quer?

— Esse.

— E você achou razoável segui-lo até uma sociedade secreta?

— Você foi sequestrado, acordou no jardim e decidiu investigar sozinho. Não vamos disputar decisões ruins hoje.

André aceitou o golpe e pegou o telefone dela. As fotografias mostravam o dragão, o cálice, a moeda e as filhas gêmeas sob o mesmo ramo. Um dos lados terminava no nome de uma mulher que ele não conhecia. O outro seguia por registros rasurados até Paulo Azevedo.

— Ele colocou você em perigo? — perguntou André.

— Ainda não sei.

— Excelente.

— André, olhe as fotografias.

— O caderno diz que a primeira esposa do pai vinha de uma das gêmeas — disse André. — Sua mãe.

Eva ampliou a imagem.

— A outra mulher é a mãe de Moisés.

— Tem certeza?

— Ele me mostrou o nome.

Os dois permaneceram diante das telas. A informação era simples demais para o tamanho do efeito.

— Então ele é seu primo — disse André.

Eva fechou a fotografia e ligou para Moisés. Ele atendeu de imediato.

— Preciso que venha à casa de Paulo. Agora.

Moisés chegou pouco depois. André o reconheceu pelas descrições de Eva: olhos verdes, barba rala e uma calma que parecia ensaiada até desaparecer diante das duas páginas colocadas lado a lado.

Ele leu primeiro o caderno de Paulo. Depois abriu a fotografia da Confraria e aproximou o telefone do rosto.

— Eu não sabia — disse.

Eva cruzou os braços.

— Você sabia que Paulo procurava o outro ramo.

— Sabia. Não sabia que chegava até você.

— Isso muda o quê?

Moisés olhou para ela antes de responder.

— Ainda não consigo responder.

— Consegue responder se teria se aproximado de mim sabendo?

Moisés fechou o caderno.

— Não.

Eva esperou o restante.

— Não teria se aproximado ou não consegue responder?

— Não teria usado o que sabia para chegar até você. Se teria conseguido ficar longe depois de conhecer você, eu não sei.

Ela recuou um passo. Preferia aquela incerteza a outra explicação sobre destino.

André permaneceu entre os dois, puxou o caderno para perto e bateu a mão sobre a mesa.

— Então responda outra coisa. O que a Ordo quer com o cálice?

— A Ordo original deixou de existir como unidade. A Confraria preserva textos. O grupo do Negociador controla artefatos e mantém os títulos usados para movimentar dinheiro, empresas e governos. Paulo impedia que um lado reunisse tudo.

— A anotação se refere a esse grupo como o braço de custódia.

— É um dos nomes que usam. Se o Negociador passou o título de Empresário para você, pretende obrigá-lo a continuar o trabalho de Paulo sem explicar as regras.

Eva voltou ao caderno.

— Eu me lembro do Cálice. Era pequeno, com uma moeda encaixada na frente. Paulo o colocou na ala segura do complexo cultural, perto da biblioteca antiga.

— Então vamos buscá-lo — disse André.

— O Negociador pode estar esperando exatamente isso — avisou Moisés.

— Ele sabe onde moro, onde trabalho e por onde caminho. Esperar aqui não melhora nada.

Moisés pegou o celular.

— Vou chamar pessoas da Confraria. Vocês entram pela portaria principal. Eu encontro vocês na biblioteca com a guarda.

Eva segurou o braço dele antes que saísse.

— Você vai mesmo voltar?

Moisés sustentou o olhar dela.

— Vou.

André guardou o caderno, a chave e o amuleto na pasta de couro. Eva colocou o telefone na bolsa. Saíram juntos até o carro, mas Moisés seguiu em outra direção.

Durante o caminho, André manteve os olhos na pista. Eva voltou a abrir as fotografias da Confraria, mas nenhum dos dois mencionou Moisés. A chuva aumentou perto do complexo cultural, apagando os prédios mais distantes e deixando visível apenas o caminho até a biblioteca.

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