O Empresário
André atravessava os corredores da empresa seguido por olhares que abandonavam telas e documentos quando ele passava. Depois da morte de Paulo, esperavam que ocupasse o prédio com a mesma naturalidade do pai. Ele ainda entrava em cada sala preparado para encontrar o velho exigindo relatórios e corrigindo posturas.
Dona Fátima vinha atrás com uma pilha de pastas contra o peito. A medalhinha de Nossa Senhora prendia nos cabelos grisalhos e a obrigava a fazer pequenos malabarismos sem derrubar os documentos.
— Sr. André, precisamos confirmar sua presença na reunião com os investidores japoneses.
— Não vou a essa reunião, Dona Fátima. Os diretores conhecem os números melhor do que eu.
— Conhecem os números, mas não herdaram a assinatura do seu pai.
André parou. Dois analistas que vinham em sentido contrário diminuíram o passo e fingiram procurar alguma coisa no celular.
— É exatamente disso que estou tentando fugir.
— Então fuja depois de saber o que está deixando para trás.
Ele olhou para a porta da sala de reuniões no fim do corredor.
— A senhora não desiste mesmo.
— Sou mãe, viúva, avó e temente a Deus. O senhor não é o pior problema que já enfrentei.
A corrente se enroscou outra vez. André soltou a medalha dos cabelos dela e a devolveu. Dona Fátima a beijou depressa.
— Entre, ouça e não deixe japonês esperando. Eu também tenho pressão alta.
A reunião durou mais do que André gostaria. Encontrou dois erros numa projeção, fez perguntas que os diretores não esperavam e percebeu que sua participação alterava decisões. Saiu irritado com a utilidade que acabara de provar.
Dona Fátima o esperava do lado de fora com o café já frio.
— Sobreviveu.
— Eles também.
— E corrigiu a previsão de custos antes que fosse enviada.
— A senhora estava ouvindo atrás da porta?
— Eu trabalho aqui há trinta anos. Não preciso encostar o ouvido em porta nenhuma para saber quando um diretor sai contrariado.
André pegou o copo da mão dela e bebeu mesmo frio. Dona Fátima sorriu, satisfeita demais para fingir neutralidade.
Já passava do horário de almoço. Recusou o motorista e desceu para a rua. Na esquina, lembrou de quando encontrava Laura ali, ainda estagiário, e conseguia desaparecer no meio da tarde sem que sua ausência virasse relatório.
Laura vinha à memória com cheiro de pão quente, cabelo preso de qualquer jeito e uma risada capaz de desmontar a solenidade do sobrenome Azevedo. Durante o câncer, ela emagrecera sem perder a mania de zombar dos médicos que falavam com André e a excluíam da conversa. Ele perguntava por prazos, percentuais e novos tratamentos até que Laura mandava guardar a planilha imaginária. Depois da morte dela, Paulo dissera que algumas perdas precisavam ser incorporadas ao planejamento. André nunca o perdoara pela frase.
Foi pensando nela que não percebeu o carro parando junto ao meio-fio. A porta abriu antes que recuasse. Dois homens encapuzados desceram; um segurou seu braço, o outro acertou sua barriga. A segunda pancada veio na lateral do rosto. Depois houve motor, tecido úmido contra a boca e escuridão.
André acordou amarrado a uma cadeira de ferro. O quarto era baixo, iluminado por velas nos cantos. Homens se moviam entre as sombras, sem pressa. A cabeça latejava e a língua tinha gosto de sangue e remédio. Procurou uma câmera, uma janela, qualquer erro. Não encontrou nada útil. Respirou devagar para manter a voz firme.
— Não existe ninguém autorizado a transferir dinheiro em meu nome. Se isso é sequestro, eu mesmo vou ter que pagar o resgate, o que complica a logística de vocês.
Uma risada curta veio do canto esquerdo. Depois uma voz mais firme atravessou a sala.
— Sabemos quem é. E não procuramos dinheiro.
O homem se aproximou o bastante para que André visse a boca sob o capuz.
— Sou o Negociador. Seu pai protegia um cálice de ouro ligado a uma linhagem antiga. Precisamos que o encontre.
— Meu pai colecionava muitas coisas. Algumas de gosto duvidoso.
— Esse objeto não era exibido como vaidade. Paulo fazia parte da Ordo Aeternus e era conhecido entre nós como o Empresário. O título agora cabe a você.
— Vocês sequestram todos os herdeiros ou é um benefício exclusivo do cargo?
— Preferimos chamar de convocação. Encontre o Cálice e leve-o ao escritório central. Quando estiver lá, saberemos.
— E se eu procurar a polícia?
— Seu pai passou a vida inteira evitando isso. Talvez descubra o motivo antes de repetir a pergunta.
André mexeu os dedos contra a corda. O nó não cedeu.
— Faça tudo direito e poderemos ser bons amigos — disse o Negociador. — O que escolhe?
— Costumo pedir referências antes de uma amizade.
Outro homem surgiu com uma seringa.
— A referência está na casa de Paulo.
A agulha entrou no pescoço. André acordou horas depois no jardim da mansão, deitado sobre a grama úmida, com a camisa amarrotada e o gosto químico ainda preso à garganta. Ficou imóvel até confirmar que conseguia mover braços e pernas. A casa estava escura e o portão permanecia fechado.
Pegou o celular para chamar a polícia. Antes de completar a ligação, lembrou do acionista que se aproximara no funeral e dissera que o conhecimento de Paulo era uma herança sem preço. Se o cálice não existisse, entregaria tudo à polícia. Se existisse, queria saber por que o pai o escondera antes de permitir que outras pessoas vasculhassem a casa.
No escritório, conferiu gavetas e armários até encontrar um compartimento trancado atrás de uma fileira de livros. A chave usada por Paulo ficava no mesmo chaveiro do carro, guardado numa caixa sobre a estante. Dentro havia um caderno de capa marrom, um amuleto de metal e documentos dobrados.
As primeiras páginas traziam anotações em latim e nomes que André reconheceu de conselhos empresariais e capas de revistas. No alto de uma folha, leu Ordo Aeternus. Outras páginas mencionavam uma divisão dedicada aos arquivos, origem do grupo que passou a se chamar Confraria do Segredo. Paulo registrara disputas pela posse de objetos e usara a empresa para transportá-los sem chamar atenção.
André encontrou o título Empresário perto do nome do pai. Abaixo, uma frase fora sublinhada duas vezes: “O braço de custódia não pode reunir o Cálice e a moeda.”
Continuou lendo. Havia referências a duas meninas separadas depois da morte da mãe, adoções registradas por famílias diferentes e uma linhagem que Paulo começara a acompanhar tarde demais. Um dos nomes havia sido cortado. O outro permanecia ao lado de uma anotação curta: primeira esposa.
André fotografou as páginas e ligou para Eva.
Ela chegou sozinha, com o cabelo ainda úmido da chuva e o telefone apertado na mão. André abriu a porta preparado para uma pergunta agressiva. Eva o abraçou.
Ele demorou um instante, depois passou os braços ao redor da irmã. Quando se afastaram, nenhum dos dois comentou o que acabara de acontecer.
Eva reparou no hematoma perto do olho dele e tocou a pele com a ponta dos dedos.
— Foram eles?
— Parte do convite.
— Você devia ter me ligado assim que acordou.
— Eu ainda não sabia se tinha acordado de verdade.
— Eu tenho uma coisa para contar — disseram ao mesmo tempo.
Eva riu primeiro. André apontou para o escritório.
— Fui sequestrado hoje.
O sorriso desapareceu.
— O quê?
Ele mostrou o caderno, o amuleto e as fotografias. Contou sobre o Negociador, o título do pai e a exigência do cálice. Eva ouviu sem interromper. Quando ele terminou, abriu no telefone as imagens que fizera na Confraria.
— Passei as últimas semanas com um homem chamado Moisés. Ele conhecia o pai e me levou até uma divisão da mesma ordem.
— O homem que desaparece e reaparece quando quer?
— Esse.
— E você achou razoável segui-lo até uma sociedade secreta?
— Você foi sequestrado, acordou no jardim e decidiu investigar sozinho. Não vamos disputar decisões ruins hoje.
André aceitou o golpe e pegou o telefone dela. As fotografias mostravam o dragão, o cálice, a moeda e as filhas gêmeas sob o mesmo ramo. Um dos lados terminava no nome de uma mulher que ele não conhecia. O outro seguia por registros rasurados até Paulo Azevedo.
— Ele colocou você em perigo? — perguntou André.
— Ainda não sei.
— Excelente.
— André, olhe as fotografias.
— O caderno diz que a primeira esposa do pai vinha de uma das gêmeas — disse André. — Sua mãe.
Eva ampliou a imagem.
— A outra mulher é a mãe de Moisés.
— Tem certeza?
— Ele me mostrou o nome.
Os dois permaneceram diante das telas. A informação era simples demais para o tamanho do efeito.
— Então ele é seu primo — disse André.
Eva fechou a fotografia e ligou para Moisés. Ele atendeu de imediato.
— Preciso que venha à casa de Paulo. Agora.
Moisés chegou pouco depois. André o reconheceu pelas descrições de Eva: olhos verdes, barba rala e uma calma que parecia ensaiada até desaparecer diante das duas páginas colocadas lado a lado.
Ele leu primeiro o caderno de Paulo. Depois abriu a fotografia da Confraria e aproximou o telefone do rosto.
— Eu não sabia — disse.
Eva cruzou os braços.
— Você sabia que Paulo procurava o outro ramo.
— Sabia. Não sabia que chegava até você.
— Isso muda o quê?
Moisés olhou para ela antes de responder.
— Ainda não consigo responder.
— Consegue responder se teria se aproximado de mim sabendo?
Moisés fechou o caderno.
— Não.
Eva esperou o restante.
— Não teria se aproximado ou não consegue responder?
— Não teria usado o que sabia para chegar até você. Se teria conseguido ficar longe depois de conhecer você, eu não sei.
Ela recuou um passo. Preferia aquela incerteza a outra explicação sobre destino.
André permaneceu entre os dois, puxou o caderno para perto e bateu a mão sobre a mesa.
— Então responda outra coisa. O que a Ordo quer com o cálice?
— A Ordo original deixou de existir como unidade. A Confraria preserva textos. O grupo do Negociador controla artefatos e mantém os títulos usados para movimentar dinheiro, empresas e governos. Paulo impedia que um lado reunisse tudo.
— A anotação se refere a esse grupo como o braço de custódia.
— É um dos nomes que usam. Se o Negociador passou o título de Empresário para você, pretende obrigá-lo a continuar o trabalho de Paulo sem explicar as regras.
Eva voltou ao caderno.
— Eu me lembro do Cálice. Era pequeno, com uma moeda encaixada na frente. Paulo o colocou na ala segura do complexo cultural, perto da biblioteca antiga.
— Então vamos buscá-lo — disse André.
— O Negociador pode estar esperando exatamente isso — avisou Moisés.
— Ele sabe onde moro, onde trabalho e por onde caminho. Esperar aqui não melhora nada.
Moisés pegou o celular.
— Vou chamar pessoas da Confraria. Vocês entram pela portaria principal. Eu encontro vocês na biblioteca com a guarda.
Eva segurou o braço dele antes que saísse.
— Você vai mesmo voltar?
Moisés sustentou o olhar dela.
— Vou.
André guardou o caderno, a chave e o amuleto na pasta de couro. Eva colocou o telefone na bolsa. Saíram juntos até o carro, mas Moisés seguiu em outra direção.
Durante o caminho, André manteve os olhos na pista. Eva voltou a abrir as fotografias da Confraria, mas nenhum dos dois mencionou Moisés. A chuva aumentou perto do complexo cultural, apagando os prédios mais distantes e deixando visível apenas o caminho até a biblioteca.