A Nova Casa Jornada do Sangue · Capítulo 22 de 49
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A Nova Casa

Ninguém aplaudiu no primeiro segundo.

A praça ainda tentava entender o lugar onde Zeus estivera. O cajado de Hagar desaparecera com Afrodite, Carl respirava no chão, soldados se levantavam devagar, e André mal sustentava o próprio corpo depois de voltar à forma humana. Ninguém parecia aliviado. Todos calculavam o que um dragão capaz de derrotar Zeus significava para Fóster, Elaryan, Poseidon e a rotina de obedecer para sobreviver.

Hermes entendeu antes dos outros.

Começou a bater palmas.

O som saiu isolado, quase ofensivo no meio da poeira. Cronos olhou para ele com espanto. Hermes continuou, primeiro em ritmo lento, depois com força maior. Alguns soldados o acompanharam por reflexo. Depois outros. A praça inteira acabou aplaudindo. Ninguém queria ser o último a reconhecer o possível vencedor.

André olhou para Hermes.

— Não sei o que isso significa, mas me entregar para a sua deusa continua fora dos meus planos.

— De maneira nenhuma — disse Hermes, aproximando-se com as mãos erguidas, palmas para fora. — Você acabou de salvar Fóster de uma intervenção direta de Zeus. Para nós, isso tem outro nome.

— Qual?

— Proteção.

Cronos fechou a cara.

— Hermes.

— O que foi?

— Cuidado com a palavra.

— Eu estou escolhendo a palavra justamente por isso.

André alternou o olhar entre os dois. O cansaço dificultava a paciência, mas também segurava a vontade de transformar a conversa em ameaça. Carl gemia no chão. Dois soldados se aproximaram para ajudá-lo. André deu um passo na direção deles.

— Devagar.

Os soldados pararam.

Hermes ergueu um dedo.

— Carl está vivo. Vão levá-lo para tratamento.

— Nem com o meu, se for para prender.

— Não pretendo prendê-lo.

— Pretende usar.

Hermes sorriu sem negar.

— Todos aqui usam o que têm para não serem esmagados.

Cronos se aproximou de Carl e verificou a respiração do rapaz. Parecia incomodado com a situação, mas tomou cuidado ao virar a cabeça dele e examinar o ferimento. André guardou a informação.

— Ele precisa de repouso — disse Cronos. — A amplificação drena o sistema nervoso.

— Então cuidem dele — respondeu André. — E não transformem isso em coleira.

Hermes olhou em volta. A multidão continuava ali, esperando uma fala, uma ordem, uma imagem simples para contar depois. Ele se voltou para André em voz mais baixa.

— Se você ficar parado nessa praça, alguém vai inventar a versão por você.

— E a sua versão é melhor?

— É mais útil.

— Para quem?

— Neste momento, para todos que não querem ver Afrodite voltando com reforços e encontrando você dormindo no chão.

André não respondeu. A parte dele que ainda pensava como empresário reconheceu a manobra. Hermes transformava uma ameaça em abrigo, abrigo em vínculo, vínculo em dívida. O problema era que, depois de tudo, ainda continuava sendo uma oferta razoável.

— Você quer que eu vire protetor de Fóster.

— Quero que você tenha um lugar para ficar antes de decidir o que vai virar.

Cronos soltou um ruído impaciente.

— Ele não pode virar nada contra Elaryan.

— Cronos ainda está desaprendendo o medo — disse Hermes.

— Eu estou lembrando que medo mantém planetas inteiros vivos.

André encarou Cronos.

— E mortos por dentro.

Cronos recebeu a frase sem resposta imediata. A praça continuava aplaudindo em ondas fracas, cada vez menos sincera, cada vez mais constrangida.

— Eu não sou salvador de vocês — disse André. — Também não sou soldado de Elaryan. Quero encontrar Eva, entender onde estou e ficar longe de qualquer pessoa interessada demais no meu destino.

Hermes assentiu.

— Uma residência ajuda em pelo menos duas dessas coisas.

— Como uma casa resolve uma deusa?

— Em Fóster, casas são território. Território tem regra. Regra dá tempo.

André riu sem humor.

— Esse planeta transforma tudo em contrato?

— Os civilizados chamam de sociedade.

— Os honestos chamam de armadilha com móveis.

Hermes gostou da resposta.

— Venha ver a armadilha, então.

Ele assobiou. Uma Rér dourada desceu entre as estruturas suspensas, fina e comprida, com espaços marcados para os pés e hastes laterais de segurança. Lembrava uma prancha de metal feita por alguém que considerava queda uma falha moral do passageiro.

— Não — disse André.

— Ele é seguro.

— Todo mundo diz isso antes da pior ideia do dia.

— Você acabou de lutar no alto da atmosfera.

— Sem depender de uma prancha dourada com presilhas.

Cronos passou por ele e subiu primeiro.

— Se o veículo falhar, Hermes morre antes de nós.

— Isso deveria me tranquilizar?

— A mim tranquiliza.

André subiu. O mecanismo prendeu os pés e subiu pela perna até firmar a coluna com uma faixa de energia. O corpo reagiu com recusa, lembrando o Tempérium. Hermes percebeu.

— Não é contenção. É equilíbrio.

— Tudo que prende diz isso.

O veículo disparou.

Fóster abriu-se abaixo deles. A cidade passava da ideia comum de cidade; uma arquitetura de camadas. Jardins cresciam em plataformas altas, rios finos corriam dentro de canais transparentes, pontes se dobravam conforme o tráfego, e mansões se espalhavam em regiões altas, afastadas da praça, olhando para o restante do mundo com a discrição arrogante de quem nasceu acima. André viu bairros menores, campos distantes, torres militares e uma muralha viva circundando parte do horizonte.

— Vocês moram ali? — perguntou ele, quando Hermes apontou para um conjunto de casas enormes.

— Eu e Cronos dividimos aquela — respondeu Hermes. — Ele chama de posto administrativo. Eu chamo de casa para irritá-lo.

— Funciona?

— Todo dia.

Desceram diante de um terreno vazio cercado por árvores baixas. O silêncio do lugar contrastava com a praça. Ali, a vitória já chegava filtrada, sem aplauso, sem sangue, sem gente calculando sobrevivência a poucos metros de distância.

Hermes ficou diante de André.

— Permite?

— Não sei o que você vai fazer.

— Vou ler o modelo de abrigo que sua mente reconhece como casa.

— A resposta piorou.

— Posso construir sem tocar em você, mas sairia genérico. Fóster detesta casas genéricas.

André pensou em recusar. Pensou em Eva. Pensou em Paulo desaparecendo com a palavra obrigado presa na boca. Pensou no cansaço atravessando músculo, osso e memória. No fim, abaixou a cabeça meio centímetro.

— Rápido.

Hermes tocou as laterais de sua testa.

O choque veio leve, mas profundo. Não abriu memórias como Elaryan fizera com Eva; apenas puxou formas. André sentiu a mente oferecendo imagens antes de autorizar: um corredor estreito, azulejo quebrado, a sala da segunda casa da infância, o quintal onde o cachorro roera cadeiras, a poltrona gasta que se ajustara ao corpo de Paulo, o apartamento adulto com televisão grande que ele nunca comprara, a varanda de um condomínio onde passara mais tempo prometendo descanso do que descansando.

Hermes afastou as mãos. Entre os dedos dele, uma energia azul girava com a largura exata da cabeça de André.

— Que invasivo — disse André.

— Você tem uma relação complicada com descanso.

— Eu não abri espaço para comentário.

Hermes lançou a energia no centro do terreno.

O chão respondeu.

Primeiro vieram raízes. Grossas, claras, subindo e descendo ao mesmo tempo, costurando o solo. Depois paredes brotaram delas, assumindo textura de alvenaria, madeira, vidro, telha, metal. A casa cresceu em camadas. André reconheceu a fachada da infância, mas havia um quintal maior, uma varanda mais aberta, janelas do apartamento adulto, uma garagem que nunca existira e uma árvore no canto esquerdo, mistura de mangueira, ipê e alguma planta de Fóster que ele não sabia nomear.

André demorou a respirar quando a construção terminou.

— Isso não é minha casa — disse ele.

Hermes observou a construção.

— É a casa que sua memória aceitou montar.

— Não é a mesma coisa.

— Nunca é.

— Todo mundo em Fóster recebe uma dessas?

Hermes demorou um instante antes de responder.

— Não. Moradia pessoal é uma concessão real.

— Então vocês não estão me abrigando. Estão me comprando.

— Estamos lhe dando um território. O preço depende do que você decidir fazer com ele.

Cronos cruzou os braços, desconfortável.

— Explique as regras antes de se empolgar.

— Sim. A casa está enraizada no planeta. Para destruí-la em definitivo, seria preciso destruir Fóster ou convencer sua mente de que ela deixou de ser sua. Ela se repara, se adapta, aprende pequenas preferências e obedece ao proprietário dentro dos limites da lei.

— Dentro da lei — repetiu André.

— Fóster tem trauma com casas autônomas — disse Cronos.

Hermes abriu um sorriso.

— Cronos tem trauma com casas autônomas.

— Houve um incidente.

— Houve uma janela agressiva.

— Três ministros ficaram feridos.

— Nenhum morreu.

— Graças a mim.

André olhou para a casa.

— Ela obedece a mim?

— A você, ao planeta e a certos protocolos. Nessa ordem, quando a política está saudável. Em dias ruins, discutimos.

Hermes ergueu as mãos e criou uma esfera de fogo sobre o terreno. A bola cresceu até cobrir parte do céu, quente o suficiente para fazer André dar um passo para trás.

— Que tal não testar isso com a casa que acabou de nascer?

— Você precisa confiar nela.

— Eu confiaria mais se ninguém tacasse uma estrela no telhado.

Hermes lançou.

A esfera destruiu metade da construção, abriu o telhado, espalhou fogo pela sala e derrubou a varanda. André avançou por instinto, mas as raízes responderam antes dele. Saíram do chão em fileiras, desmontaram os fragmentos sólidos da esfera, sugaram calor, abafaram oxigênio e reconstruíram a casa por dentro do próprio estrago. Em menos de um minuto, a fachada estava inteira. Até a janela torta voltou ao mesmo lugar.

André ficou quieto.

— Pode entrar — disse Hermes. — É sua.

— Você acabou de provar que ela sobrevive a você, não que eu posso confiar nela.

Hermes virou-se para a casa.

— Ataque agora.

Nada aconteceu.

— Viu?

— Vi você dando ordem para uma parede.

— Agora mande você.

Cronos arregalou os olhos.

— Não.

— Só um teste controlado.

— A última vez que você disse isso, uma escadaria tentou julgar um senador.

— Ela tinha argumentos.

André quase sorriu. Quase.

— Casa — disse baixo. — Ataque os dois.

A primeira resposta foi discreta: um prego saiu da moldura da porta e voou na direção de Hermes. Ele desviou rindo. Depois vieram parafusos, lascas de madeira, dobradiças, pequenos pedaços de vidro e uma cadeira inteira atravessando a janela restaurada. Hermes desviava com facilidade no começo. Cronos não. Criou escudos elétricos, resmungou, tropeçou para trás e acabou com cortes rasos no braço.

— Pare! — gritou Cronos. — Mande parar!

— Pare — disse André.

A casa obedeceu imediatamente.

Cronos apontou para Hermes.

— Isso deveria ser ilegal.

— É ilegal quando a intenção é matar.

— A intenção da cadeira estava obscura.

— A cadeira foi expressiva.

André passou a mão no rosto. O absurdo da conversa quase o ajudava a esquecer o resto. Quase.

Hermes retomou o tom sério.

— Você terá alguns dias. Poucos, se Afrodite for direta. Menos ainda se Elaryan decidir atravessar o problema sozinha. Vou enviar informações sobre Fóster, nossos processos, limites legais e tudo que sabemos sobre Poseidon, Zeus e o uso do cajado. Cronos vai garantir que Carl seja tratado.

Cronos assentiu, contrariado.

— E Eva? — perguntou André.

Hermes não respondeu depressa.

— Se Afrodite a localizou, Elaryan também pode ter feito isso.

— Isso não me ajuda.

— Respostas úteis nem sempre chegam primeiro.

André encarou a casa, depois a cidade distante.

— Eu não vou ficar aqui brincando de recomeço enquanto minha irmã está presa.

— Você também não vai salvá-la morto de novo sem descobrir quem a prendeu.

A frase irritou André porque tocou no lugar certo. Hermes aproveitou.

— Descanse. Recupere o corpo. Aprenda o planeta. A casa vai protegê-lo melhor do que uma praça cheia de testemunhas.

O veículo dourado voltou a flutuar ao lado deles. Hermes subiu. Cronos demorou um pouco mais.

— Não ordene ataques por curiosidade — disse Cronos.

— Vou tentar sobreviver à tentação.

— Estou falando sério.

— Eu também.

Cronos olhou para Carl sendo levado por soldados ao longe, em uma maca luminosa.

— O rapaz fica sob minha responsabilidade. Ele acordará.

— Faça com que acorde livre.

Cronos sustentou o olhar dele.

— Farei com que acorde vivo. A liberdade em Fóster costuma exigir negociação.

O veículo partiu.

André ficou sozinho diante da casa.

Por algum tempo, não entrou. A fachada era familiar demais para permitir confiança. Havia a cor errada da parede certa, o tamanho exato da janela de outro endereço, o quintal de uma infância que ele lembrava com ternura e raiva em proporções instáveis. Quando abriu a porta, o cheiro veio primeiro.

Casa velha depois da chuva.

Não chovia em Fóster naquele momento, mas o corredor cheirava a tarde suspensa. A poltrona de Paulo estava na sala, gasta no lugar dos braços, funda no assento. As cadeiras da cozinha tinham marcas de dentes dos cachorros. Um azulejo quebrado perto da entrada trazia a lembrança de uma bola chutada onde não devia, um quadro caído e o pai prometendo consertar. Ficara quebrado por anos.

André tocou o azulejo.

— Você também veio me assombrar?

A casa não respondeu.

No quarto, encontrou uma mistura impossível de vidas. A cama do apartamento adulto. A escrivaninha que desejara na adolescência. Uma televisão enorme na parede, exatamente a que quase comprara três vezes e desistira por achar desperdício. Quando ligou, encontrou catálogos de séries da Terra, temporadas que nunca terminara, filmes guardados para fins de semana que a empresa engolira.

A casa reunia promessas pequenas que ele fizera a si mesmo e nunca cumprira.

Sentou na beira da cama. O colchão se ajustou ao corpo dele. Uma série antiga apareceu sugerida na tela. Ele lembrou de um episódio sobre paraíso, morte e repetição eterna de momentos felizes. Na época, achara a ideia bonita. Ali, cercado por móveis reconstruídos por um planeta vivo depois de uma guerra entre dragões, já não parecia.

Paraíso sem pessoas era depósito.

Pensou em Eva. Pensou em Moisés. Pensou em Paulo. Pensou em Carl, usado por todos porque seu poder servia. Pensou em Hermes oferecendo abrigo com uma mão e vínculo com a outra.

A casa estalou, acomodando-se ao vento.

André se deitou sem tirar os sapatos.

— Só hoje — disse ao teto. — Só hoje eu descanso.

Não acreditou em si mesmo. Mesmo assim, fechou os olhos.

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