Entre Duendes e Fadas
Eva e Moisés cortavam o céu de Quantum com os Valerianos ainda atrás.
No tempo de Quantum, semanas haviam passado desde a partida de Elaryan. Os Obenix chegaram à casa ainda na primeira noite e os conduziram para dentro da floresta. O que deveria ser uma pausa se espalhou por reinos, costumes e pequenos conflitos. Eva e Moisés aprenderam com as fadas a manter pensamentos unidos à distância e conheceram Vanaheim quando ajudaram Aegir contra piratas renascidos.
A história deixou de ser pequena quando Baltazar tomou o poder. Os Valerianos passaram a servi-lo, as criaturas de sombra se multiplicaram e Eva e Moisés descobriram que estavam sendo procurados antes de entender o motivo.
A velocidade deles já teria bastado para deixar qualquer patrulha comum perdida entre as nuvens, mas os duendes da guarda-real continuavam no campo de visão, pequenos pontos coloridos que aumentavam e diminuíam conforme o vento mudava. Eram mais rápidos do que o tamanho deles sugeria. Também eram teimosos. Moisés sentia a pressão da perseguição no pescoço, na nuca, na respiração curta que não combinava com o domínio de ar que os dois tinham aprendido a sustentar.
— Precisamos despistar os duendes da guarda-real — disse ele, por telepatia. — São os mais rápidos, mas também os menos inteligentes.
A comunicação mental entre os dois ainda exigia proximidade. Mesmo assim, já era uma conquista rara entre as fadas. Naquele instante, o vínculo servia menos para intimidade e mais para sobrevivência.
Eva olhou para baixo. A linha do mar avançava além das dunas.
— Se entrarmos na água, eles devem se atrapalhar. Mas isso empurra o problema para Aegir. As sereias e os tritões não vão gostar de receber uma perseguição dessas no meio da cidade.
Eva lembrava-se da dívida que o reino de Aegir dizia ter com eles, e isso a incomodava. Dívidas, em guerra, viravam convites perigosos. Ainda assim, Baltazar começava a multiplicar devoradores de almas. Se ele espalhasse aquelas criaturas com velocidade, nenhum povo de Quantum ficaria neutro por muito tempo.
Os Valerianos atacaram antes da decisão. Turbilhões de areia subiram das praias e avançaram pelo ar em filamentos finos. O controle deles era irritantemente preciso. Vencia o vento de Eva e Moisés em pontos pequenos: olhos, boca, ouvido, dobras da pele. A areia não os derrubava, mas roubava concentração. Cada desvio custava altura. Cada piscada abria espaço para a guarda-real encurtar a distância.
Moisés cerrou os dentes.
— Para a água. Ação primeiro, explicação depois.
Os dois mergulharam em direção ao mar. A superfície se abriu em espuma, e o choque gelado engoliu a perseguição inteira. Os Valerianos odiavam água, mas ódio não significava incapacidade. Eles manipularam correntes e partículas minerais no fundo, movendo-se com velocidade suficiente para continuar no encalço.
Vanaheim surgiu adiante.
O Reino Aquático era maior do que a memória de Eva permitia. Torres transparentes cresciam entre corais, vias suspensas conduziam cardumes domesticados, e grandes bolsões de encontro reuniam sereias, tritões e outras formas anfíbias em torno de imagens compartilhadas. Ali, ideias eram trocadas literalmente. Pensamentos ganhavam cor, textura, cheiro, lembrança. Para Eva e Moisés, aquilo lembrava um centro comercial atravessado por sonho; para o povo do mar, era apenas uma tarde movimentada.
Eles escolheram a área mais cheia.
A escolha funcionou e falhou ao mesmo tempo. Os Valerianos chamaram atenção imediatamente. Eram cerca de dez, maiores do que os duendes comuns, de peles roxas, verdes, rosadas, cada um deixando rastros de areia grossa na água. Passaram pela multidão em velocidade agressiva, quebrando estruturas, espalhando imagens mentais alheias, destruindo por método e por arrogância. Eva viu um pensamento coletivo de infância se romper em fragmentos luminosos quando um deles atravessou um bolsão de memória.
Os patrulheiros de Vanaheim reagiram depressa.
Raramente precisavam agir, mas estavam prontos. Redes de água comprimida se fecharam em torno de Eva, Moisés e dos Valerianos. A pressão prendeu braços, pernas e garganta sem ferir. Em seguida, uma corrente mais densa abriu caminho pela multidão, e Aegir apareceu.
O Rei dos Mares vinha sem pressa. A barba flutuava ao redor do rosto, os olhos tinham a calma de quem conhece cada gota do próprio território.
— Eva. Moisés. Quanto tempo.
Ele avaliou a destruição, os patrulheiros, os Valerianos contidos.
— Confesso que, apesar da ajuda que já deram ao meu povo, trazer esses seres para cá demonstra uma saudade pouco educada.
— Solte-nos — exigiu o líder dos duendes. — Somos Valerianos. Temos ordens de Lord Baltazar para levar esses dois. Não vai querer se colocar no caminho dele.
Aegir virou o rosto para ele, quase cordial.
— Em algum momento, deixaríamos de ser neutros na guerra que se aproxima.
Fez um movimento curto com os dedos. A água entrou nos Valerianos por todos os lados. Eles se debateram, engasgaram, perderam cor. Depois desapareceram, sugados por uma pressão que Eva não conseguiu acompanhar com os olhos.
Moisés encarou Aegir.
— Como você ficou tão poderoso?
— Contra seres da terra, debaixo d’água, eu tenho vantagens. Também treinei. Um rei que confia apenas na gratidão do povo envelhece mal.
Aegir caminhou entre os estragos enquanto falava. A cada gesto, uma estrutura voltava ao lugar, um coral se recompunha, uma imagem mental se reunia em torno de quem a perdera. Eva o ajudou na decoração de uma passagem quebrada, ajustando curvas e cores segundo o próprio gosto.
— E vocês? — perguntou Aegir. — Imaginei que estivessem aproveitando a vida. Tempo juntos, paixão, algum intervalo de descanso.
Eva soltou um riso cansado.
— Nós tentamos. Aproveitamos, sim. Mas paz, do jeito que as pessoas prometem, nunca coube muito bem na nossa história.
— Preciso concordar.
A voz de Elaryan surgiu atrás deles.
A água não se moveu para deixá-la entrar. Ela simplesmente estava ali, em pé no fundo do mar, seca dentro do próprio limite. Aegir se ajoelhou na mesma hora. Seus súditos não a reconheceram de início, mas a reverência do rei bastou. Vanaheim se curvou em ondas sucessivas, praça por praça, bolsão por bolsão.
— Meu caro Aegir, não precisa disso — disse Elaryan. — De todo modo, não vou prolongar o inconveniente. Preciso levar esses dois. As férias acabaram.
Um portal se abriu ao lado dela.
Eva e Moisés ficaram parados.
Elaryan ergueu uma sobrancelha.
— Estão esperando convite formal?
— Não podemos ir — disse Moisés. — Baltazar assumiu o poder agora. Está espalhando criaturas capazes de consumir todos.
Elaryan olhou para Eva, não para ele.
— Você também se deixou contaminar por esse apego melodramático? Deixei vocês aqui para terem prazer, e vocês abraçaram as histórias.
Eva sentiu a frase atingir um lugar que ela preferia manter protegido. Elaryan sabia o suficiente para ferir com precisão. Ainda assim, aquela acusação não apagava o que Eva tinha visto em Quantum: povos inteiros construindo beleza, medo, costumes, maneiras de amar, maneiras de errar. Nenhuma daquelas vidas era enfeite de passagem.
— Seria triste abandonar um mundo tão cheio de luz para ser engolido pela escuridão.
— Luz vem, escuridão toma, tudo renasce, tudo se desfaz. A destruição sempre retorna. São ciclos. Qual é a importância de este mundo continuar existindo agora?
Aegir ergueu os olhos, chocado. Havia uma dor particular em ouvir aquilo de alguém que, em outro tempo, ensinara seu povo a crescer em magia, graça e convivência.
Elaryan prosseguiu sem alterar a voz.
— Baltazar já invadiu a floresta dos elfos. As criaturas obscuras varreram fadas e animais fantásticos. Eles podem morrer, renascer melhor, renascer pior ou ficar presos até o fim dos tempos. O universo não se curva diante da nossa preferência estética.
— Elaryan, você pode evitar isso — disse Moisés.
— Abaixe a voz. É indelicado gritar comigo. Eu posso, mas não quero. Esses eventos são insignificantes para o que preciso preservar. Agora vamos. O tempo voltou a correr.
Eva deu um passo à frente. Não sabia se estava desafiando uma deusa, uma antiga condutora do destino ou a única pessoa que conhecia o desenho inteiro do tabuleiro. Sabia apenas que, se entrasse naquele portal calada, algo nela diminuiria.
— Eu sigo o caminho que você pedir. Mas deixe este mundo perdurar pelo tempo que puder. Faça a escuridão de Baltazar sucumbir. Não por ele. Por tudo que nasceu apesar dele.
Elaryan ficou imóvel por um instante.
Quando Eva piscou, já não estavam em Vanaheim.
A floresta das fadas ardia.
A vila surgia rasgada por gritos, fumaça e criaturas de sombra que avançavam sobre casas, pontes vivas e troncos luminosos. Baltazar erguia-se no centro da destruição, gigantesco, grotesco, satisfeito demais para alguém que ainda não vencera. Eva e Moisés flutuavam ao lado de Elaryan, presos por uma força que não os machucava e também não aceitava resistência.
Elaryan estalou os dedos.
Todas as criaturas obscuras daquela vila desapareceram. Nas colinas distantes, outras manchas ainda se moviam entre as árvores.
O silêncio que ficou depois foi quase ofensivo. Baltazar olhou ao redor, depois para ela, e não demonstrou surpresa completa.
— Não imaginei que me impediria.
Ele falava com uma intimidade antiga. Eva percebeu isso no tom, e a percepção lhe deu nojo.
— Não estava nos meus planos — disse Elaryan. — Mas você precisaria de Eva e Adam para criar criaturas fortes o bastante para vencer esta guerra. Decidiu arriscar sabendo que eu viria.
— Minha derrota já estava destinada, segundo você. Achei que pudesse me ajudar, em nome dos velhos tempos.
Baltazar tentou sorrir. A sedução, naquele corpo, era uma ruína insistindo em usar perfume.
— Eu não poderia. Você me trairia. Isso não mudaria o resultado final, mas eu prefiro não fabricar dificuldades extras para algo que já exige precisão demais.
Elaryan se aproximou dele.
— Espero que a luz encontrada aqui alivie eras de escuridão acumulada, pelo menos por um tempo. A resistência que você provocou ainda ajudará de um modo que nunca imaginou.
Ela abriu o portal.
— Adeus, meu caro.
Dessa vez, passou sem olhar para trás. Eva e Moisés foram puxados com ela, ainda tentando entender se tinham salvado Quantum, condenado Quantum a outra forma de ciclo ou apenas conseguido que uma história continuasse respirando por mais algum tempo.