Lúcifer
Athos os encontrara havia pouco tempo. Depois que ele partiu, Lúcifer voltou a tentar reconhecer a paz quando ela surgia.
Médera pouco contribuía para a definição comum da palavra: era intensa, imprudente, franca e tratava o prazer com a mesma disposição que dedicava a uma batalha. Para ele, contudo, paz significava viver ao lado de alguém que nunca escondia a intenção, dividia a cama sem exigir exclusividade e permanecia quando o resto do mundo se tornava insuportável.
Ela fora esposa de Krakor e mãe de Adwig numa vida distante. Carregava preocupações sobre as quais raramente falava, sobretudo depois do que acontecera com Silency e da separação do grupo. O planeta onde os dois viviam começou a adquirir uma identidade construída a partir deles: lugares de encontro barulhentos, casas abertas, celebrações longas e poucas regras sobre quem podia amar quem. Pela primeira vez em várias vidas, Lúcifer conseguia acordar sem preparar uma fuga.
Ainda desconfiava da tranquilidade. Suas passagens pelo universo acumulavam crueldades suficientes para transformar qualquer intervalo feliz numa armadilha aguardando o momento certo. Num desses intervalos, enquanto beijava Médera, Poseidon surgiu diante dos dois.
O corpo continuava reconhecível, mas o poder tinha crescido. A água no ar se reuniu ao redor dele antes de seus pés tocarem o solo, e a pressão derrubou paredes próximas. Lúcifer empurrou Médera para trás e respondeu com fogo. Nesta vida, Cami também lhe dera controle sobre a água; ele fechou uma camada líquida sobre as chamas, comprimiu vapor e lançou a mistura contra Poseidon.
O deus abriu o ataque ao meio. Lúcifer insistiu, alternando calor, lâminas de água e golpes físicos, e durante alguns movimentos conseguiu acompanhar a velocidade dele. Subiram acima das construções numa sequência de impactos. Só então Lúcifer olhou para baixo.
A cidade já estava destruída. Ruas abertas em fendas, telhados esmagados, árvores arrancadas, corpos e destroços espalhados sob uma névoa de água e poeira. Poseidon fizera tudo enquanto lutava com ele, sem conceder à destruição um gesto visível. Médera veio pelo ar para ajudar, mas um raio atingiu seu peito e a arremessou para longe. Ela caiu entre duas paredes quebradas e não voltou a se mover.
Poseidon segurou Lúcifer pela garganta. Em vez de retirar o ar de seus pulmões, forçou água para dentro deles. A pressão cresceu por trás das costelas e impediu qualquer tentativa de respirar.
— Quero apenas o tridente.
— Ele não está conosco.
— Eu vi vocês com aquela arma enquanto estava preso. Vi vocês brincarem com o que pertencia a mim.
Lúcifer tentou incendiar o braço que o prendia. Poseidon conteve o fogo numa esfera e atravessou o abdome dele com o punho.
— Onde está?
Lúcifer moveu os lábios sem produzir som suficiente. Fez um gesto curto, pedindo que o outro se aproximasse. Poseidon levou o ouvido até sua boca.
— No meio do seu rabo.
A cabeçada atingiu o rosto do deus. No mesmo movimento, Lúcifer expulsou dos cabelos uma pequena lâmina, que perfurou a testa de Poseidon e interrompeu seus músculos por alguns segundos. Ele se soltou, retirou a água dos pulmões e fugiu.
Poseidon veio atrás com velocidade superior. Bloqueava uma direção, abria outra e lançava ataques calculados para obrigá-lo a descer. Lúcifer percebeu tarde que a perseguição o conduzia. Quando tentou mudar a rota, atravessou o campo de uma máquina camuflada entre os escombros e perdeu o controle do corpo.
Braços metálicos o prenderam numa estrutura estreita. Poseidon removeu sua pele, fixou a carne exposta entre placas e acionou um ciclo que alternava calor e frio. Cada período queimava o que o anterior congelara. A regeneração trabalhava apenas para renovar tecido suficiente para a máquina destruí-lo outra vez.
Médera recuperou a consciência quando Poseidon quebrou seus braços e pernas. Ela tentou recompor os ossos; uma força inserida pelo deus repetiu as fraturas no mesmo instante. Poseidon deixou os dois presos aos ciclos e vasculhou o planeta. Abriu construções, revirou cavernas, rompeu camadas do solo e drenou reservatórios em busca do tridente.
A Fragarach permanecia camuflada junto ao corpo de Lúcifer, no ponto em que Silency a escondera antes da separação. Poseidon procurava o tridente e não percebeu a segunda arma.
Quando retornou, já aceitara que a arma estava em outro lugar. Médera fechou os olhos e fingiu continuar desacordada. Lúcifer recebeu o deus com um sorriso.
— Encontrou no meu rabo? Eu avisei que precisava procurar direito.
Poseidon reconheceu a provocação. Também reconheceu o objetivo: Lúcifer queria um golpe forte o bastante para morrer. Mesmo assim, atacou. A descarga atravessou a máquina, rompeu o peito de Lúcifer e deixou o coração quase destruído. O deus foi embora antes do último movimento.
Médera chamou por ele assim que conseguiu abrir os olhos. Lúcifer tentou responder, mas os pulmões falharam. O frio da máquina entrou pela carne exposta, a regeneração cessou e o planeta desapareceu.
Ele acordou numa cama de pedra dentro de uma caverna. Levantou o tronco com violência, procurando Poseidon, Médera e qualquer instrumento de tortura que pudesse estar escondido. Duas mulheres o observavam a alguns passos. Atrás delas, um dragão ocupava parte da passagem.
— Calma. Tudo ficará bem — disse a mulher de voz mais doce. — Meu nome é Carmilla, e esta é Laura. Precisamos fazer uma pergunta. Você gostaria de se tornar vampiro?
Lúcifer conferiu os pulsos, o peito recomposto e a distância até a saída.
— Costumam receber todo morto com essa pergunta?
— Recebemos todos os recém-chegados — respondeu Laura. — E conseguimos contê-lo, caso tente atacar. Preferimos conversar.
Ele olhou outra vez para o dragão e sentou, ainda preparado para saltar.
— Então conversem.
Carmilla explicou que quase toda a população daquele planeta era vampírica. O sangue servia menos como alimento do que como impulso impossível de ignorar. Cada pessoa mordida recebia uma nova simbiose e se transformava. Depois que Athos interrompera a guerra, a transformação deixara de ser obrigatória. Enquanto a comunidade aberta ainda era construída, os recém-chegados que recusavam a mordida permaneciam nas cavernas sob proteção da Coroa.
— Transporte para onde?
— Um homem capaz de teletransportar pessoas prometeu buscar periodicamente quem recusasse — disse Carmilla. — Ainda não retornou.
— Qual é o nome dele?
— Athos.
Lúcifer riu e relaxou os ombros pela primeira vez desde que acordara naquela caverna. A coincidência só podia pertencer à vida dele.
— Claro. Tinha de ser Athos.
Carmilla continuou sem compreender a intimidade contida na resposta, concentrada na escolha que precisava oferecer ao recém-chegado.
— Existe outro detalhe. Nossa simbiose vem de um dragão-morcego. Quando bebemos sangue, ela produz uma nova criatura que ocupa o corpo da pessoa mordida. Você receberá essa ligação.
— Já tenho três.
Laura se aproximou, interessada e cautelosa, mantendo espaço suficiente para recuar caso as criaturas reagissem.
— Três simbioses?
— Fevo, um porgaro; Cami, um cavalo-marinho; e uma Fênix.
— Os resultados ficam imprevisíveis quando alguém já possui outra simbiose — disse Laura. — Alguns mantêm as duas separadas. Em outros, elas se fundem, quase sempre com características de dragão dominando a forma. Nunca vimos uma reação envolvendo três.
Lúcifer fechou os olhos e procurou os companheiros. Fevo respondeu primeiro, atraído pela promessa de um corpo maior e asas. Cami acompanhou a empolgação e começou a testar movimentos que ainda não possuía. A Fênix enviou calor através do peito dele, interessada na possibilidade de misturar renascimento, sangue e transformação.
— Os três querem tentar. Eu também. Isso não significa que ficarei aqui quando Athos voltar.
— Essa conversa será entre vocês — respondeu Carmilla.
Ela avançou e cravou os dentes no pescoço dele. Lúcifer sentiu o sangue sair e outra criatura entrar pelo mesmo ponto, pequena no início, depois ramificada entre as simbioses.
— Confesso que esperava escolher por onde você começaria a sugar.
Laura conteve um sorriso e acompanhou a perda de força dele, pronta para intervir caso a transformação saísse do controle.
— Pelo lugar em que você está pensando, a experiência teria bem menos encanto.
Lúcifer ainda tentou responder. A força abandonou seus braços, a caverna perdeu contorno e as quatro criaturas dentro dele se encontraram no escuro.