Fechando o Circuito
A explosão abriu uma fenda na parede da caverna. Moisés viu a poeira avançar antes de ouvir o estrondo. O campo de Kimmer puxava tanto de sua energia que os sentidos respondiam com atraso.
Dois homens atravessaram a abertura. Um deles carregava mais de uma criatura no corpo e mantinha uma espada pequena junto ao braço. O outro dividia espaço com uma consciência humana e duas simbioses poderosas. Moisés não conhecia os rostos, mas reconheceu neles o tipo de sobrevivente que aprendera a entrar em qualquer lugar preparado para permanecer fechado.
— Quem são vocês?
— Eu me chamo Magno, e este é Lúcifer — respondeu o homem mais próximo. — O que está fazendo preso aqui?
Magno tocou uma das correntes. Moisés sentiu o vínculo com Eva oscilar e gritou:
— Não!
Magno retirou a mão.
— Desculpe. Tudo o que mais quero é sair daqui. Mas, se soltarem uma dessas correntes, posso perder a ligação com a pessoa que depende de mim.
Lúcifer observou as linhas luminosas desaparecendo na rocha.
— Se isso é uma missão e alguém deixou você amarrado no centro dela, Elaryan passou por aqui.
O nome tirou de Moisés o pouco de calma que ainda conservava.
— Vocês a conhecem?
— O suficiente para desconfiar de qualquer necessidade que ela apresente como inevitável — respondeu Lúcifer. — Conte o que está acontecendo.
Moisés fechou os olhos quando outra contração atravessou as correntes. A energia saiu pelos braços, desceu pelo metal e alcançou Eva. Por alguns segundos, ele sentiu os dedos dela perderem força acima da atmosfera. Empurrou mais.
Quando abriu os olhos, Magno e Lúcifer ainda esperavam.
— Meu nome é Moisés. Pelo menos foi o último nome que tive. Eva está acima deste planeta, construindo um campo que vai fechá-lo. Minha energia sustenta a dela à distância.
— Eva é a pessoa que você não pode abandonar — disse Magno.
— É a mulher que amo. Quando terminarmos, Elaryan prometeu nos deixar livres e juntos.
— E o campo? — perguntou Lúcifer.
— Kimmer é o quinto de sete planetas. Separados, os campos impedem a saída de matéria, energia e partículas cerebrais. Quando o último fechar, formarão um circuito. Armas místicas adequadas poderão abrir passagens entre os sete mundos, mas nada alcançará o exterior.
Lúcifer passou a língua sobre uma das presas, pensando. O cheiro do sangue aberto nos pulsos de Moisés o alcançava, porém já não arrastava sua vontade como no vale. A distância enfraquecera a contaminação. Restava a fome da nova simbiose, reconhecível e ainda perigosa.
— Uma prisão grande o bastante para oferecer viagens internas.
— Ou um abrigo para o que restou do Universo — respondeu Moisés. — Ainda não sei qual descrição é mais honesta.
Ao olhar para Magno outra vez, percebeu um brilho muito fraco junto à pele dele. Quase desaparecia sob as outras estruturas que ocupavam o corpo, mas Moisés conhecia aquela marca.
— Você veio da Terra.
Magno encontrou brilho semelhante nele.
— Você também. No seu caso, quase não aparece.
— Muitas vidas, uma simbiose de dragão e tudo o que Elaryan colocou em mim. Imagino que a origem tenha ficado enterrada.
Moisés olhou para Lúcifer.
— Um homem com esse nome entrando nas profundezas de um planeta para me libertar. Existe alguma ironia terrestre que vocês ainda não realizaram?
— Ele não é um anjo caído — disse Magno. — Mas é filho de Odin.
Moisés riu. Lúcifer não.
— Odin foi rei e teve poder — respondeu Lúcifer. — Isso não fez dele um deus.
— Só falta Eva ser a primeira mulher — disse Magno.
O humor deixou o rosto de Moisés.
— Ela foi o primeiro ser deste lado do Universo a carregar uma partícula cerebral capaz de continuar depois da morte. Na primeira vida, eu fui Adam, o primeiro filho dela.
Magno abriu a boca, mas demorou a encontrar a pergunta.
— Filho?
— Depois tivemos outras vidas. Em algumas, fomos amantes; em outras, seguimos caminhos diferentes. Elaryan retirou uma parte da minha estrutura e inseriu em Eva. A lembrança disso sobreviveu na Terra como a história da costela contada ao contrário.
As correntes brilharam sob os pulsos dele.
— Essa parte nos mantém ligados e permite que meu poder chegue até ela. Elaryan disse que a tecnologia dos campos vem de estruturas chamadas Planetas das Crianças.
— Você sabe por que ela está reunindo todo mundo? — perguntou Lúcifer.
— Para impedir que as partículas se dispersem enquanto o Universo começa a voltar ao ponto de onde se expandiu. Foi o que ela nos contou. Também disse que o circuito dará mais tempo a quem estiver dentro.
— Não respondeu à pergunta — disse Lúcifer.
— Foi a única resposta que recebi.
Magno se aproximou das correntes sem tocá-las.
— Não existe outro modo de manter a ligação e tirar você daqui?
Moisés procurou Eva através do fluxo. A fadiga dela respondeu primeiro. Depois veio a persistência que ele reconhecia desde vidas que já não conseguia ordenar.
— Talvez exista, mas não temos tempo para descobri-lo. Se me libertarem agora, podem salvar um homem e derrubar o campo que Eva sustenta com o próprio corpo. Deixem as correntes.
Lúcifer guardou a espada.
— Vamos voltar para a batalha. Depois cobraremos de Elaryan uma solução que não dependa de manter vocês assim.
— Algo me diz que nos veremos outra vez — respondeu Moisés.
Magno e Lúcifer atravessaram a abertura. O som da guerra retornou por alguns instantes e diminuiu à medida que se afastavam.
Moisés permaneceu sozinho até as linhas nas paredes se unirem. A pressão das correntes cessou de uma vez. Seus braços continuaram erguidos, sustentados apenas pelos aros.
Elaryan apareceu diante dele com a seringa preparada.
— Kimmer terminou.
— Magno e Lúcifer estiveram aqui.
— Imagino que tenham oferecido uma solução simples para um problema que não compreenderam.
— Eu pedi que não me soltassem.
Elaryan observou a fenda aberta na parede e depois voltou os olhos para ele.
— Então você compreendeu o suficiente.
O soro entrou na veia. Moisés desapareceu antes de responder.
Despertou em Moonday sob o mesmo metal. A nova caverna era mais fria e recebia luz por uma abertura estreita no teto. Do lado de fora, planícies claras refletiam um céu quase negro. Elaryan terminava de prender o segundo pulso.
— Conheci Lúcifer — disse Moisés, ainda desorientado. — O demônio, filho de um deus. E Magno, que também veio da Terra.
— Preciso perguntar a Ferne se o uso repetido do soro provoca alucinações religiosas.
Moisés tentou reconstruir os rostos. Lembrava-se da espada de Lúcifer, do brilho em Magno e da conversa sobre Eva. As imagens estavam ali, mas a segurança não. Depois de tantas mortes escolhidas por outra pessoa, até uma lembrança verdadeira podia parecer fabricada.
— Eles queriam me libertar. Eu não deixei.
— Nesse ponto, pelo menos, sua alucinação foi responsável.
Eva começou o campo de Moonday. As correntes voltaram a extrair energia, e a discussão perdeu espaço para a dor. Quando a redoma se fechou, Elaryan aplicou outra dose.
Moisés renasceu em Inc.
A caverna final se abria para uma cidade presa numa curvatura impossível. Dos edifícios, ele via primeiro os telhados, voltados para a abertura como se a cidade estivesse deitada na parede interna do planeta. Acima de sua cabeça, um rio acompanhava o teto sem derramar uma gota.
Ao longe, uma faixa do terreno começou a se desprender. A cidade, a pedra sob ela e parte do rio separaram-se do restante do mundo. O fragmento saiu da cavidade e passou a vagar pelo espaço, enquanto sinais de uma batalha riscavam sua superfície.
— Inc é pequeno — explicou Elaryan. — Eva fechará a última abertura quando o fragmento estabilizar. Depois o circuito reconhecerá os sete campos.
— E então termina?
— Para vocês dois, sim.
Moisés acompanhou a cidade afastar-se até o vínculo voltar a puxar seus braços. Eva aguardava acima do planeta, contendo o início do campo enquanto ele fornecia energia. A última redoma avançou mais depressa que as anteriores.
Quando as linhas se encontraram, as correntes se apagaram. Elaryan abriu os aros e amparou Moisés antes que ele caísse.
— André está terminando uma batalha. Você aparecerá ao lado dele. Eva chegará logo depois.
— Nem consigo acreditar que seja verdade.
— Eu sempre cumpro minha palavra.
Elaryan encostou a agulha no braço dele.
— Desta vez, quando acordar, não haverá correntes.
Moisés sentiu o soro entrar. Pensou em Eva antes que o coração parasse e desapareceu dos braços de Elaryan.