Fechando o Circuito Jornada do Sangue · Capítulo 44 de 49
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Fechando o Circuito

A explosão abriu uma fenda na parede da caverna. Moisés viu a poeira avançar antes de ouvir o estrondo. O campo de Kimmer puxava tanto de sua energia que os sentidos respondiam com atraso.

Dois homens atravessaram a abertura. Um deles carregava mais de uma criatura no corpo e mantinha uma espada pequena junto ao braço. O outro dividia espaço com uma consciência humana e duas simbioses poderosas. Moisés não conhecia os rostos, mas reconheceu neles o tipo de sobrevivente que aprendera a entrar em qualquer lugar preparado para permanecer fechado.

— Quem são vocês?

— Eu me chamo Magno, e este é Lúcifer — respondeu o homem mais próximo. — O que está fazendo preso aqui?

Magno tocou uma das correntes. Moisés sentiu o vínculo com Eva oscilar e gritou:

— Não!

Magno retirou a mão.

— Desculpe. Tudo o que mais quero é sair daqui. Mas, se soltarem uma dessas correntes, posso perder a ligação com a pessoa que depende de mim.

Lúcifer observou as linhas luminosas desaparecendo na rocha.

— Se isso é uma missão e alguém deixou você amarrado no centro dela, Elaryan passou por aqui.

O nome tirou de Moisés o pouco de calma que ainda conservava.

— Vocês a conhecem?

— O suficiente para desconfiar de qualquer necessidade que ela apresente como inevitável — respondeu Lúcifer. — Conte o que está acontecendo.

Moisés fechou os olhos quando outra contração atravessou as correntes. A energia saiu pelos braços, desceu pelo metal e alcançou Eva. Por alguns segundos, ele sentiu os dedos dela perderem força acima da atmosfera. Empurrou mais.

Quando abriu os olhos, Magno e Lúcifer ainda esperavam.

— Meu nome é Moisés. Pelo menos foi o último nome que tive. Eva está acima deste planeta, construindo um campo que vai fechá-lo. Minha energia sustenta a dela à distância.

— Eva é a pessoa que você não pode abandonar — disse Magno.

— É a mulher que amo. Quando terminarmos, Elaryan prometeu nos deixar livres e juntos.

— E o campo? — perguntou Lúcifer.

— Kimmer é o quinto de sete planetas. Separados, os campos impedem a saída de matéria, energia e partículas cerebrais. Quando o último fechar, formarão um circuito. Armas místicas adequadas poderão abrir passagens entre os sete mundos, mas nada alcançará o exterior.

Lúcifer passou a língua sobre uma das presas, pensando. O cheiro do sangue aberto nos pulsos de Moisés o alcançava, porém já não arrastava sua vontade como no vale. A distância enfraquecera a contaminação. Restava a fome da nova simbiose, reconhecível e ainda perigosa.

— Uma prisão grande o bastante para oferecer viagens internas.

— Ou um abrigo para o que restou do Universo — respondeu Moisés. — Ainda não sei qual descrição é mais honesta.

Ao olhar para Magno outra vez, percebeu um brilho muito fraco junto à pele dele. Quase desaparecia sob as outras estruturas que ocupavam o corpo, mas Moisés conhecia aquela marca.

— Você veio da Terra.

Magno encontrou brilho semelhante nele.

— Você também. No seu caso, quase não aparece.

— Muitas vidas, uma simbiose de dragão e tudo o que Elaryan colocou em mim. Imagino que a origem tenha ficado enterrada.

Moisés olhou para Lúcifer.

— Um homem com esse nome entrando nas profundezas de um planeta para me libertar. Existe alguma ironia terrestre que vocês ainda não realizaram?

— Ele não é um anjo caído — disse Magno. — Mas é filho de Odin.

Moisés riu. Lúcifer não.

— Odin foi rei e teve poder — respondeu Lúcifer. — Isso não fez dele um deus.

— Só falta Eva ser a primeira mulher — disse Magno.

O humor deixou o rosto de Moisés.

— Ela foi o primeiro ser deste lado do Universo a carregar uma partícula cerebral capaz de continuar depois da morte. Na primeira vida, eu fui Adam, o primeiro filho dela.

Magno abriu a boca, mas demorou a encontrar a pergunta.

— Filho?

— Depois tivemos outras vidas. Em algumas, fomos amantes; em outras, seguimos caminhos diferentes. Elaryan retirou uma parte da minha estrutura e inseriu em Eva. A lembrança disso sobreviveu na Terra como a história da costela contada ao contrário.

As correntes brilharam sob os pulsos dele.

— Essa parte nos mantém ligados e permite que meu poder chegue até ela. Elaryan disse que a tecnologia dos campos vem de estruturas chamadas Planetas das Crianças.

— Você sabe por que ela está reunindo todo mundo? — perguntou Lúcifer.

— Para impedir que as partículas se dispersem enquanto o Universo começa a voltar ao ponto de onde se expandiu. Foi o que ela nos contou. Também disse que o circuito dará mais tempo a quem estiver dentro.

— Não respondeu à pergunta — disse Lúcifer.

— Foi a única resposta que recebi.

Magno se aproximou das correntes sem tocá-las.

— Não existe outro modo de manter a ligação e tirar você daqui?

Moisés procurou Eva através do fluxo. A fadiga dela respondeu primeiro. Depois veio a persistência que ele reconhecia desde vidas que já não conseguia ordenar.

— Talvez exista, mas não temos tempo para descobri-lo. Se me libertarem agora, podem salvar um homem e derrubar o campo que Eva sustenta com o próprio corpo. Deixem as correntes.

Lúcifer guardou a espada.

— Vamos voltar para a batalha. Depois cobraremos de Elaryan uma solução que não dependa de manter vocês assim.

— Algo me diz que nos veremos outra vez — respondeu Moisés.

Magno e Lúcifer atravessaram a abertura. O som da guerra retornou por alguns instantes e diminuiu à medida que se afastavam.

Moisés permaneceu sozinho até as linhas nas paredes se unirem. A pressão das correntes cessou de uma vez. Seus braços continuaram erguidos, sustentados apenas pelos aros.

Elaryan apareceu diante dele com a seringa preparada.

— Kimmer terminou.

— Magno e Lúcifer estiveram aqui.

— Imagino que tenham oferecido uma solução simples para um problema que não compreenderam.

— Eu pedi que não me soltassem.

Elaryan observou a fenda aberta na parede e depois voltou os olhos para ele.

— Então você compreendeu o suficiente.

O soro entrou na veia. Moisés desapareceu antes de responder.

Despertou em Moonday sob o mesmo metal. A nova caverna era mais fria e recebia luz por uma abertura estreita no teto. Do lado de fora, planícies claras refletiam um céu quase negro. Elaryan terminava de prender o segundo pulso.

— Conheci Lúcifer — disse Moisés, ainda desorientado. — O demônio, filho de um deus. E Magno, que também veio da Terra.

— Preciso perguntar a Ferne se o uso repetido do soro provoca alucinações religiosas.

Moisés tentou reconstruir os rostos. Lembrava-se da espada de Lúcifer, do brilho em Magno e da conversa sobre Eva. As imagens estavam ali, mas a segurança não. Depois de tantas mortes escolhidas por outra pessoa, até uma lembrança verdadeira podia parecer fabricada.

— Eles queriam me libertar. Eu não deixei.

— Nesse ponto, pelo menos, sua alucinação foi responsável.

Eva começou o campo de Moonday. As correntes voltaram a extrair energia, e a discussão perdeu espaço para a dor. Quando a redoma se fechou, Elaryan aplicou outra dose.

Moisés renasceu em Inc.

A caverna final se abria para uma cidade presa numa curvatura impossível. Dos edifícios, ele via primeiro os telhados, voltados para a abertura como se a cidade estivesse deitada na parede interna do planeta. Acima de sua cabeça, um rio acompanhava o teto sem derramar uma gota.

Ao longe, uma faixa do terreno começou a se desprender. A cidade, a pedra sob ela e parte do rio separaram-se do restante do mundo. O fragmento saiu da cavidade e passou a vagar pelo espaço, enquanto sinais de uma batalha riscavam sua superfície.

— Inc é pequeno — explicou Elaryan. — Eva fechará a última abertura quando o fragmento estabilizar. Depois o circuito reconhecerá os sete campos.

— E então termina?

— Para vocês dois, sim.

Moisés acompanhou a cidade afastar-se até o vínculo voltar a puxar seus braços. Eva aguardava acima do planeta, contendo o início do campo enquanto ele fornecia energia. A última redoma avançou mais depressa que as anteriores.

Quando as linhas se encontraram, as correntes se apagaram. Elaryan abriu os aros e amparou Moisés antes que ele caísse.

— André está terminando uma batalha. Você aparecerá ao lado dele. Eva chegará logo depois.

— Nem consigo acreditar que seja verdade.

— Eu sempre cumpro minha palavra.

Elaryan encostou a agulha no braço dele.

— Desta vez, quando acordar, não haverá correntes.

Moisés sentiu o soro entrar. Pensou em Eva antes que o coração parasse e desapareceu dos braços de Elaryan.

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