Revolução Jornada do Sangue · Capítulo 26 de 49
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Revolução

Alguém entrou na taverna sem terminar de respirar.

— Os reis estão no Grande Arco. Vão falar agora.

A frase bastou. Bancos rasparam no chão, copos ficaram pela metade, conversas morreram sem despedida. O lugar se esvaziou numa pressa tão coletiva que André levou alguns segundos para entender que aquilo, em Fóster, equivalia a um alarme. Ninguém corria daquele jeito por curiosidade comum. Arthur já estava em pé, com a mão perto da espada, os olhos acesos pela chance de participar de qualquer coisa que tivesse rei, povo e anúncio no mesmo instante.

Hertho saiu por último, olhando a rua pela porta aberta.

— Eles costumam falar assim?

— Pelo visto, quase nunca — disse Agah. — A cidade inteira está indo.

Arthur se virou para eles com toda a seriedade que a situação permitia.

— Imagino que, mesmo com a espada comigo, vocês sejam capazes de impedir que alguém a tome de mim. Menos vocês, claro.

André achou graça, mas não riu. Arthur conseguia obedecer e mandar na mesma respiração, sempre convencido de que a sinceridade resolveria o restante.

— Fique perto da gente — disse Agah. — Perto mesmo.

— Ótimo.

Arthur reduziu o passo na mesma hora, tão obediente que Hertho lançou a André um olhar seco, quase divertido.

— Esse rapaz ainda vai nos dar trabalho.

A rua conduzia todos para uma construção que André viu surgir aos poucos entre telhados, torres baixas e placas douradas suspensas por mecanismos invisíveis. O Grande Arco fazia jus ao nome. Duas colunas largas se uniam no alto, formando uma passagem colossal, e uma ponte atravessava sua parte superior, usada menos para travessia e mais para domínio da vista. Dali, qualquer voz alcançaria a cidade inteira. Naquele momento, três figuras estavam no alto: Cronos, Hermes e um homem mais jovem, de postura simples demais para estar entre dois reis sem parecer refém ou milagre.

O povo se comprimia ao redor do arco. Alguns subiam em muros, outros se apoiavam em ombros alheios, e ninguém protestava. Todos queriam ver. Todos queriam ouvir. André sentiu a multidão vibrar antes de qualquer palavra.

Cronos deu um passo à frente.

— Meu povo...

Ele parou. Virou o rosto para o terceiro homem. O gesto durou pouco, mas alcançou a praça inteira. André viu Hermes apertar a boca, impaciente. Cronos retomou, corrigindo o próprio tom.

— Povo de Fóster. Viemos diante de vocês, eu, rei Cronos, e meu companheiro secular, rei Hermes, sob a orientação do profetizado de nossa deusa, para anunciar mudanças na ordem do planeta.

A multidão permaneceu quieta. Até Arthur, que respirava alto, ficou imóvel.

— A partir de agora, o trabalho obrigatório deixa de existir. Cada pessoa poderá escolher o ofício que deseja exercer, pelo tempo que considerar justo, sem perder direito sobre sua casa, suas posses ou seus instrumentos. Hermes e eu usaremos nossos poderes, todas as manhãs, para preparar plantações, conduzir colheitas e abastecer as feiras, de modo que ninguém precise servir outro corpo para merecer alimento.

Uma mulher perto de André cobriu a boca. Um homem mais velho começou a chorar antes de qualquer aplauso. A notícia demorava a caber nas pessoas. Cronos prosseguiu, menos firme.

— Continuam proibidos os crimes contra a integridade, contra a ordem comum e contra os bens de cada cidadão. A liberdade anunciada hoje exige responsabilidade de todos.

Ele tornou a olhar para o homem ao lado. Dessa vez, a pausa revelou desconforto. André conhecia pouco Cronos, mas conhecia poder suficiente para perceber quando alguém o pronunciava com palavras emprestadas.

— Ninguém mais deve pertencer a ninguém.

O silêncio arrebentou. A praça explodiu em gritos, abraços, gente se ajoelhando, gente rindo sem saber para quem olhar. No alto do arco, Cronos e Hermes encaravam aquela alegria com uma perplexidade que nenhum deles conseguiu disfarçar. Tinham governado Fóster por tempo demais sem imaginar que o fim da servidão produziria uma festa.

Hertho, ao lado dele, estreitou os olhos.

— Aquele homem trouxe aos dois uma verdade que eles nunca quiseram enxergar.

— Você sabe quem é?

— Não.

— Então esse pode ser o melhor instante para sairmos daqui — disse André. — Testamos a Excalibur e vamos embora antes que a cidade descubra outro jeito de ruir.

Hertho concordou sem entusiasmo. Arthur desembainhou a espada com solenidade excessiva, erguendo a lâmina um pouco acima da cintura. A multidão ainda comemorava quando o ar se abriu em vários pontos, primeiro em pequenos tremores de luz, depois em corpos inteiros surgindo no meio da praça. Dezenas. Centenas. Pessoas caíam de joelhos, de costas, em pé, tropeçando umas nas outras, todas recém-arrancadas de suas mortes.

Coneli mudou a postura antes de falar.

— Evento de morte em massa. Hertho.

Hertho já tinha a mão erguida. Agah puxou Arthur pelo ombro, mas ele resistiu, ofendido pela desconfiança.

— Essas pessoas precisam ser acolhidas.

— Arthur, vem para cá — gritou André.

— Fique tranquilo, meu amigo.

O primeiro renascido saltou sobre o pescoço de Arthur. O corpo entrou no ar com velocidade absurda, boca aberta, dentes alongados, mãos fechadas em garra. Um golpe de fogo de Hertho atingiu a criatura antes do contato. Ela caiu queimando, contorceu-se por um segundo e levantou de novo, furiosa, com o rosto inteiro deformado pela fome.

Arthur levou a mão ao pescoço intacto.

— Que coisa foi essa?

— Vampiros — disse Hertho.

A palavra atravessou o grupo ao mesmo tempo em que a praça mudava de som. Gritos de festa deram lugar a gritos de dor. Os recém-chegados mordiam qualquer pessoa ao alcance, não para matar depressa, mas para beber. Quem caía era sugado até a pele perder cor; segundos depois, erguia-se com os mesmos dentes, a mesma sede, a mesma violência entregue ao sangue. A revolução de Fóster, anunciada havia poucos minutos, era agora um banquete.

— Eles transmitem a alteração pelo sangue — disse Coneli. — Rápido demais.

André sentiu o estômago fechar. A lógica lhe veio antes do medo.

— Se chegaram mortos aqui, podem morrer de novo.

— A questão é descobrir com quê.

Hertho tomou a Excalibur das mãos de Arthur sem pedir licença e atravessou a lâmina no pescoço do vampiro mais próximo. A cabeça rolou, o corpo desapareceu antes de tocar o chão.

— Com isto.

Um homem de Fóster viu o golpe e agarrou um facão abandonado perto de caixas de colheita. Atacou o vampiro que mordia sua companheira. A lâmina comum bateu na pele sem abrir corte. O vampiro se virou e cravou os dentes no pescoço dele com tanta força que o sangue espirrou no rosto de quem tentava ajudar.

Hertho cortou outro, depois outro. A Excalibur desenhava círculos curtos, práticos, sem beleza. Cada cabeça separada eliminava um corpo. A notícia se espalhou entre os próprios monstros com rapidez instintiva. Eles pararam de avançar diretamente sobre o grupo e passaram a cercá-lo, rosnando entre cidadãos em fuga, incêndios pequenos e corpos que se levantavam transformados.

Do alto do Grande Arco, Cronos viu a espada.

Mesmo à distância, André percebeu o reconhecimento em seu rosto.

— Precisamos sair — disse Agah.

— Eu também vi — respondeu Hertho.

Eles correram abrindo caminho pelo meio do tumulto. Hertho ia à frente, Excalibur em punho; André puxava Arthur quando o rapaz tentava parar para socorrer cada pessoa; Coneli e Agah protegiam as laterais. Atrás deles, Cronos saltou do arco. Asas se formaram em suas costas durante a queda, grandes, quentes, feitas de luz e carne, e ele voou sobre a praça com a velocidade de quem abandonara qualquer tentativa de parecer rei.

— Portal? — perguntou André.

— Já tentei.

— Tentou direito?

Arthur fez a pergunta com sinceridade. Hertho não respondeu com palavras. Girou a espada, derrubou três vampiros que vinham pelo flanco e lançou ao rapaz um olhar que bastou.

Cronos pousou diante deles. Antes mesmo de tocar o chão, lançou fogo contra os vampiros mais próximos. As chamas não os destruíram. Transformaram suas roupas, cabelos e peles em tochas móveis. A fumaça subiu grossa, a luz embaralhou distâncias, e criaturas incendiadas passaram a atacar com mais pânico, levando calor para todos os lados.

— Passe a Excalibur para mim.

A voz de Cronos cortou a praça.

Hertho manteve a lâmina baixa, pronta.

— Tente pegar.

Agah deu um passo à frente e assumiu sua simbiose. O corpo cresceu em volume dourado, coberto por uma forma que lembrava ave marinha e monstro antigo ao mesmo tempo, bico largo, asas pesadas, patas firmes. Jatos de água saíram de sua boca com violência suficiente para derrubar vampiros, apagar fogo e abrir um corredor de vapor. Por alguns segundos, o mundo virou água, fumaça e dentes.

Cronos estendeu a mão.

— Volte para mim, Excalibur.

A espada tremeu. Hertho travou o punho nas duas mãos. Os músculos de seu braço saltaram sob a roupa. A lâmina puxava para Cronos com vontade própria, e André sentiu, pela primeira vez, que a arma podia escolher contra eles.

Coneli atacou em seguida. Sua simbiose tomou o corpo com violência: um urso branco, humanoide, enorme, olhos claros e mãos capazes de esmagar pedra. Ele caiu sobre Cronos, prendeu seus braços e os cobriu de gelo. A temperatura roubou o ar ao redor; a fumaça virou cristais; o chão estalou sob os pés de André.

Arthur encarou aquilo de boca aberta.

— Todos vocês viram animais?

Cronos respondeu à prisão com calor. O gelo ferveu em vapor branco, os braços se libertaram, e ele torceu os membros de Coneli até o som da fratura vencer o barulho da praça. Coneli caiu de joelhos, e Agah tentou alcançá-lo, ainda mantendo os jatos de água contra os vampiros.

André sentiu a luz subir pelos olhos.

— Agora eu.

O dragão dentro dele abriu as costelas por dentro, sem pedir licença. A garganta ardeu. O fogo começou a nascer na boca. Cronos apontou novamente para a espada, mais furioso, mais certo.

— Excalibur. Cumpra seu destino e siga para aquele a quem você deve pertencer.

Dessa vez Hertho perdeu. A lâmina arrancou-se de suas mãos e avançou em direção a Cronos. Por um instante mínimo, o rei sorriu.

A espada atravessou seu peito.

O sorriso desapareceu. Uma luz se prendeu ao contorno da lâmina, abriu-se em linhas brancas, e Cronos sumiu sem grito. A Excalibur continuou seu trajeto, ignorando as mãos vazias do rei, Hertho e Arthur, e subiu até o Grande Arco. O homem que estivera ao lado dos reis levantou a mão e recebeu a espada.

Arthur caiu de joelhos.

— A espada finalmente encontrou seu prometido.

A luz arrancada de Cronos aderiu à lâmina. De dentro do metal, outro brilho respondeu e se misturou a ela. A energia se expandiu acima do arco, ganhou corpo, asas, uma cabeça alongada e patas sugeridas em nuvem compacta. Um animal branco, imenso, feito de luz densa, abriu-se sobre Fóster. Quando iluminou a praça, os vampiros pararam. A fome lhes escapou do rosto. Dentes ainda estavam ali, sangue ainda manchava bocas e roupas, mas os olhos deixaram de procurar pescoços.

O animal recolheu a própria luz e voltou à espada. Depois entrou no corpo do homem que a segurava.

Arthur continuava ajoelhado. Primeiro os vampiros o imitaram. Depois, os habitantes que tinham sobrevivido também dobraram os joelhos, um a um, até que o Grande Arco ficou cercado por uma cidade prostrada diante de alguém que, minutos antes, quase ninguém conhecia.

André olhou para Hertho. Agah tentava estabilizar Coneli, e Hertho mantinha as mãos sobre os braços quebrados do companheiro, trabalhando com uma concentração sombria.

— Você consegue me explicar o que acabou de acontecer?

Hertho nem ergueu o rosto.

— Não faço a mínima ideia.

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