Uma Luta Impossível Jornada do Sangue · Capítulo 36 de 49
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Uma Luta Impossível

André olhou para o céu aberto acima do Novo Olimpo. Eva continuava no espaço, pequena àquela distância, com os braços ligados à trama que envolvia o planeta. Ele desconhecia a função daquela estrutura, mas a irmã entregara a própria liberdade para terminá-la. Se não podia derrotar Zeus, ainda podia impedir que ele chegasse até ela. Zeus acompanhou o olhar.

— O homem anunciado como salvador do universo morreu, renasceu num planeta de nível seis e atravessou mundos para me encontrar. Seu grande destino consiste em ganhar alguns minutos para a irmã?

André percebeu a pergunta por trás da provocação. Zeus conhecia a capacidade de Elaryan de preparar acontecimentos e temia ocupar um lugar previsto por ela.

— Você acredita mais nessa profecia do que eu.

— Acredito que Elaryan nunca desperdiça uma peça.

Zeus abandonou o trono e caminhou até Afrodite. Ela cruzou os braços diante do peito, tentando usar uma técnica de impedimento capaz de quebrar o corpo de quem a tocasse. A mão dele atravessou a defesa, segurou-a pela cabeça e a ergueu.

— Solte-a — disse André.

Zeus fez um corte sob o queixo de Afrodite. Érebo saiu de seu corpo, envolveu-a e começou a puxar energia e sangue pela lâmina. André lançou centenas de esferas de fogo. Zeus apagou todas no ar com um movimento dos olhos.

Afrodite ainda tentou alcançar Ártemis. Seus dedos perderam a forma primeiro, seguidos pelos braços e pelo rosto. Quando Érebo absorveu o último fragmento, retornou para junto da foice.

Zeus cortou uma porção da criatura. O material escuro se debateu no ar, soltando um som que fez o piso vibrar, enquanto o corpo principal recompunha a parte arrancada. Zeus guiou o fragmento até Ártemis e o introduziu no peito dela.

Luz e energia explodiram ao redor da mulher. Quando o brilho cedeu, Ártemis tinha traços de Afrodite no rosto e vestia as roupas que ela usara. A alteração ia além da aparência: André sentiu a mesma atração involuntária que sempre acompanhava a deusa do amor, agora ligada a outra pessoa.

Ártemis passou os dedos pelo tecido, ajustou a roupa nos ombros e contemplou o próprio reflexo numa placa de metal caída.

— Confesso que sempre quis usar este figurino.

André recuou. Fugir em velocidade despertaria uma perseguição que terminaria com o tempo paralisado; ficar parado ofereceria o pescoço à foice. Zeus desceu os degraus na mesma medida.

— Está tentando fugir devagar?

— Estou tentando descobrir qual ideia demora mais para dar errado.

— Finalmente uma avaliação honesta — disse Zeus, rindo.

— Pensei numa coisa. Érebo acabou de gritar quando você o cortou. Ele carrega Hagar, Afrodite, Silency, Cronos e sabe quantos outros. Deve estar satisfeito em viver preso dentro de você.

A faixa escura no pescoço de Zeus se agitou.

— A foice impede qualquer resistência.

— A arma impede ou ele obedece por medo dela? Se Érebo descobrir que tem força suficiente para lutar por dentro, você consegue controlar todos ao mesmo tempo?

Zeus ficou imóvel por uma fração de segundo. André não precisava convencê-lo; bastava levar a dúvida até a criatura que escutava através dele.

Um raio saiu da mão do deus. André se transformou antes do impacto, e Jawzahr recebeu a descarga sobre as escamas. O dragão respondeu com fogo, seguido por um jato de ácido azul que congelava tudo que tocava. Bateu as asas e lançou um furacão contra o trono. Zeus atravessou as chamas, mas precisou usar a foice para desviar o ácido e fincar os pés no piso.

Quando ele tentou interromper o tempo, Jawzahr soltou um urro. O som atingiu primeiro o corpo de Zeus, vindo de dentro. A concentração se rompeu e o salão continuou em movimento.

— Delfim! — Zeus levou a mão ao peito. — Acalme-se!

Jawzahr tornou a chamar. André compreendeu que o dragão de Zeus continuava vivo, comprimido entre o homem e Érebo. O segundo urro arrancou uma resposta. O corpo de Zeus cresceu, as roupas se romperam e Delfim assumiu o controle.

O dragão voou em direção às nuvens, lançando fogo sem escolher alvo. Jawzahr o seguiu. André se separou do próprio dragão e montou em suas costas para manter a consciência livre. Delfim tentava expulsar Zeus e Érebo enquanto as armas presas às correntes batiam contra seu dorso.

Jawzahr chamou outra vez. Delfim reduziu a velocidade e virou a cabeça. Os dois se reconheceram pelo olhar.

André saltou sobre as costas dele e alcançou a primeira corrente. Seus dedos tocaram uma arma menor que a foice, feita do mesmo metal. No mesmo instante, Zeus e Érebo foram expulsos do dragão. Os três avançaram para o conjunto de armas.

Zeus chegou à foice primeiro. Golpeou Érebo para submetê-lo novamente, mas a lâmina também abriu um corte no flanco de Delfim. O dragão caiu, e o grito de dor atravessou o vale abaixo do Olimpo.

André arrancou a arma menor da corrente e voltou para Jawzahr. Zeus recuperou Érebo, a foice e outra arma de cabo longo. O cajado de Hagar continuava preso às costas dele.

Zeus tentou absorver Delfim. O dragão ferido bateu uma das asas e o lançou para longe. André desceu até ele e tocou seu focinho. Delfim o recebeu com olhos cansados.

— Posso levar você comigo?

André manteve uma mão sobre Jawzahr e outra sobre Delfim. Os dois dragões aceitaram. Seus corpos se desfizeram em energia e entraram nele.

Zeus olhou para o espaço vazio onde Delfim estivera.

— Ele escolheu você.

A frase saiu sem ironia. Logo depois, Zeus ergueu a arma de cabo longo.

O disparo abriu uma linha branca no céu. A matéria ao redor perdeu forma, e a explosão engoliu André numa claridade que apagou o Novo Olimpo. No espaço, Eva viu a luz alcançar a trama que construía. Lágrimas se soltaram de seu rosto, embora seus braços continuassem trabalhando.

Zeus baixou a arma. Tinha destruído o companheiro de eras junto com André e ainda perdera tempo. Quando olhou para Eva, enxergou a estrutura completa: uma redoma sólida começava a se fechar ao redor do planeta.

Ele abriu um portal, mas uma descarga atravessou a passagem antes que pudesse entrar. André surgiu entre a fumaça, coberto por queimaduras, segurando a arma menor. Ela absorvera parte do ataque e devolvia a energia acumulada. O raio atingiu Zeus, seguido por outra explosão atômica. O planeta tremeu. Colunas do Novo Olimpo racharam e cidades distantes sentiram o solo se mover.

André pousou com dificuldade. Zeus permaneceu de pé, porém respirava com a boca aberta e já não sustentava o corpo sem a foice. Cada um segurava uma das armas gêmeas.

— Nunca imaginei usar a Brahmastra contra uma pessoa e vê-la sobreviver.

— Então essa é a Brahmastra.

Zeus ergueu a arma longa. A superfície metálica ainda liberava calor, e pequenas descargas corriam do cabo até a ponta.

— Ela transforma uma pequena carga em destruição molecular. Pode eliminar até uma partícula cerebral. Usei-a uma vez antes e destruí um planeta inteiro.

André mostrou a arma que roubara. Era menor, sem cabo longo, e concentrava a luz num ponto junto à lâmina.

— E esta?

— Brahmashirsha. Menor e ainda mais poderosa. Encontrei escrituras junto dela, mas nunca consegui ativá-la.

— Eu não a ativei. Usei para conter seu ataque. A energia acumulada saiu quando apontei para você.

— E eu dissipei parte dela com a Brahmastra.

Os dois sabiam que não repetiriam o golpe naquele estado. A redoma de Eva fechava os últimos espaços no céu.

— Eu não queria chegar a isto, André — disse Zeus. — Sua irmã está terminando uma prisão. Quando a estrutura fechar, ninguém sairá deste planeta. O núcleo já foi abalado pelas explosões e pode destruir tudo aqui dentro.

— Então pare de lutar.

— Eu ainda tenho uma saída para mim.

Zeus arremessou a Brahmastra para o alto. Abriu diante da arma um portal estreito, incapaz de receber seu corpo. A ponta desapareceu e surgiu no espaço, diante de Eva. Ela atravessou o peito da mulher.

Eva perdeu altura, mas fechou as mãos uma última vez. A abertura restante na redoma desapareceu. Só então ela e a Brahmastra sumiram.

André voou até Zeus e o atingiu no rosto. O deus caiu entre os destroços. André montou sobre ele e continuou golpeando até que parasse de reagir. A cada soco, procurava a irmã no céu e encontrava apenas a redoma concluída.

Um portal se abriu ao lado dos dois. Poseidon atravessou primeiro. O homem que veio depois tinha um rosto desconhecido, mas as memórias de Delfim forneceram o nome: Hades.

André viu o cajado de Hagar ainda preso às costas de Zeus. Arrancou-o, tomou a foice da mão caída e manteve a Brahmashirsha junto ao corpo. Poseidon ergueu o tridente.

Sem esperar o ataque, André virou a foice contra o próprio peito e empurrou a lâmina até o fim.

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