O Outro Lado do Universo Jornada do Sangue · Capítulo 9 de 49
Obra Menu

O Outro Lado do Universo

A nova estrutura criada por Hagar não tinha o luxo da primeira. Era uma barraca simples, baixa, feita de tecido claro e hastes que não tocavam o chão, erguida na borda da floresta reconstruída. Hagar explicou que a forma anterior gastava energia demais para uma pausa, e alguns dos doze já estavam repondo forças. Agah passava a mão aberta sobre os corpos cansados, sem encostar, transferindo uma energia fina que vibrava no ar antes de entrar pela pele de quem recebia. O procedimento tinha aparência delicada, mas André percebeu que todos ficavam quietos demais durante a reposição.

O rapaz trazido por Krakor acordou pouco depois. Disse a Dafa que se chamava Móretar e, antes de aceitar água ou descanso, pediu para voltar ao treinamento. Queria aprender a marcar o próprio caminho caso morresse em Key. Queria, mais do que tudo, alcançar a irmã. Dafa tentou convencê-lo a esperar. Krakor apoiou o pedido com culpa demais no rosto para parecer imparcial. Hagar avaliou a respiração do rapaz, os olhos, a energia em torno das mãos, e permitiu.

— Uma tentativa curta — disse Hagar. — Se desmaiar outra vez, eu mesmo o prendo à cama.

— Ele faz isso — avisou Dafa.

Móretar assentiu, mas já olhava para Vaes. Do lado de fora, Dafa e Vaes o conduziram a uma área aberta, onde água, ar, fogo e eletricidade se reuniam em fios instáveis diante dele. André observou de longe, fascinado contra a própria vontade. A técnica exigia que o corpo criasse um ponto de referência no Universo, uma assinatura capaz de sobreviver à morte e chamar alguém de volta ao rastro certo. Móretar falhava sempre no mesmo instante: quando os quatro elementos se aproximavam de um único nó, a luz se rompia e o rapaz cambaleava.

— Ele tem coragem — disse André.

— Está desesperado — respondeu Hagar. — Vaes terá que ensinar o corpo dele a não gastar tudo numa única tentativa.

A frase acertou perto demais. André pensou em Eva antes que pudesse impedir. Se ela estivesse viva, em que mundo acordara? Se tivesse morrido, teria atravessado sozinha? A imagem dela na biblioteca se misturou ao campo de treinamento, e por alguns segundos ele viu a irmã no lugar de Móretar, tentando acender uma marca qualquer para ser encontrada.

Juper se aproximou de Hagar depois da terceira falha.

— Deixe Vaes e Dafa com ele. O rapaz precisa repetir sem plateia. André é a ocorrência principal.

Hagar concordou. Baixou a mão, e a barraca de emergência desapareceu, revelando que estavam o tempo todo sob as árvores. A floresta que André vira queimar surgia outra vez: troncos úmidos, folhas escuras, cheiro de terra viva. Ele não perguntou quanto era matéria, memória ou ilusão. Ainda não tinha como distinguir.

Uma segunda habitação surgiu mais adiante, maior, silenciosa, com paredes altas e uma mesa comprida coberta por pratos pequenos, frutas estranhas, massas claras, líquidos luminosos em taças rasas. André sentiu fome pela primeira vez desde a morte. O corpo percebeu antes dele, com um vazio súbito no estômago.

— Não espero que você precise de alimento — disse Hagar. — Ainda ignoramos de que modo seu corpo conserva energia aqui. Mas comer não deve prejudicar.

— Que frase tranquilizadora.

— Eu poderia mentir.

— Estou começando a notar que você evita esse luxo.

André se sentou com os outros. Os alimentos não lembravam carne nem vegetais conhecidos. Algumas texturas pareciam massa ou polpa; outras se desfaziam como leite espesso. André comeu devagar no começo. A fome logo decidiu o ritmo por ele.

O primeiro sinal veio como calor atrás dos olhos.

Ele largou a taça. A mão não obedeceu direito e derrubou parte do líquido sobre a mesa. Nerfate ergueu o rosto. Hagar parou no meio de uma explicação. André tentou falar, mas a língua ficou pesada. A sala se afastou em camadas.

Então ele caiu para dentro do escuro.

Aquilo não tinha parentesco com sono. O corpo ficou para trás, sentado ou tombado, e André não teve tempo de conferir. A consciência arrancada atravessou uma distância sem chão. Luzes passaram ao redor dele em linhas finas. Depois as linhas viraram planetas. Depois os planetas viraram cenas.

Viu festas em cidades suspensas, mulheres dançando com máscaras de metal, crianças correndo sob chuva azul. Viu guerras em planícies de gelo, homens atravessando portais com espadas acesas, máquinas enormes mastigando montanhas. Viu oceanos sem costa, desertos com animais transparentes, árvores carregando casulos do tamanho de casas, dentro dos quais criaturas antigas se moviam lentamente. Viu a Terra de cima, depois ruas que reconheceu por fotografias, cidades que jamais visitara, mares, estádios, hospitais, quartos fechados. Tentou deter o movimento quando reconheceu o planeta.

Eva.

Tentou procurá-la. A tentativa mudou o movimento. Uma força o empurrou para longe da Terra e, quanto mais André resistia, mais o percurso machucava. Passou por mundos que não sabia nomear: castelos erguidos em plataformas de vento, exércitos de elfos marchando sob folhas brancas, vampiros em torres sem sol, bruxos abrindo círculos de fogo, cavaleiros que saltavam por fendas curtas no espaço. Em um desses saltos, alguém percebeu sua presença. Uma lâmina veio em sua direção. André atravessou outro rasgo antes do golpe.

Depois veio o planeta vermelho.

Vazio, seco, coberto por um deserto de vermelho diferente do de Éden. André deu dois passos, ou nem isso, e a paisagem sumiu. Uma força nova o puxou para baixo, ou para dentro, ou para uma direção que o corpo não possuía palavra para entender. A escuridão fechou tudo.

No centro dela, uma luz começou a devorar o espaço.

Aquilo puxava. Planetas, poeira, memórias, vozes, distâncias: tudo corria para aquele ponto. André foi junto. Sentiu a própria consciência se desfazer em partículas finas, cada uma carregando uma lembrança, um medo, uma vontade. Ao mesmo tempo, sentiu a gravidade de uma estrela, o frio de um corpo sem vida, a fome de um animal, um beijo num mundo distante, um parto, um incêndio, um homem sozinho, uma criança rindo. Sentiu a respiração de Eva, ou a lembrança dela, ou apenas a vontade de encontrá-la em meio a bilhões de existências.

André deixou de ser André.

Por um instante sem duração, viu toda a massa do Universo comprimida com ele num único ponto.

Depois o ponto estourou.

Ele voltou com um choque. Ar entrou no peito aos rasgos. O corpo se arqueou sobre a mesa, derrubando pratos e taças. Mãos o seguravam. Hagar estava acima dele, os olhos cor de mel abertos demais. Hertho segurava seu pulso. Agah gritava alguma instrução. Nerfate tinha as mãos nas têmporas dele, mas recuou com um susto físico, os dedos contra o próprio peito.

— O que aconteceu? — perguntou André.

— Você deixou o corpo — disse Hertho, sem disfarçar o assombro. — Não respirava. O coração parou. Sem resposta ocular, sem descarga de morte, sem desaparecimento do corpo. Eu nunca vi isso fora de um corpo de primeira vida no instante final.

— Eu morri?

— Não — respondeu Hertho. — E essa é a parte que está deixando todos piores.

Hagar se inclinou.

— O que você viu?

André contou. Não tudo; contar tudo seria impossível. As frases saíam quebradas, atropeladas por imagens que ainda tentavam atravessar seus olhos. A cada descrição, alguém reconhecia um planeta, uma guerra, um povo, uma técnica. Hertho perguntava detalhes. Bel murmurava nomes. Coneli corrigia distâncias. Nerfate observava em silêncio, menos invasiva do que antes.

Quando André falou da Terra, todos acompanharam. Depois disso, os reconhecimentos diminuíram. Ele descreveu os casulos gigantes na floresta, os animais antigos dentro deles, as cidades suspensas, os vampiros, os elfos, os bruxos, os cavaleiros atravessando portais. Os doze se entreolharam com desconforto. Aquilo ultrapassava ignorância comum; era território fora do mapa deles.

Zeus se inclinou para a frente antes de falar. A impaciência havia desaparecido do rosto. Ele acompanhava cada palavra de André com os olhos úmidos.

— E depois? — perguntou Zeus.

André descreveu o planeta vermelho.

Zeus perdeu a cor.

— Você esteve no planeta vermelho?

Hagar virou-se para ele.

— Conhece esse lugar?

— Não — respondeu Zeus rápido demais. — Só me chamou atenção. Um deserto vermelho, depois de Éden...

— Ele não disse que lembrava Éden — observou Hertho.

Zeus apertou a mandíbula.

— Foi o que imaginei.

Ninguém acreditou. André também não. Ártemis desviou a atenção de Zeus e examinou os outros ao redor da mesa.

— Continue — pediu Hagar.

André falou da escuridão. Da luz que puxava tudo. Da sensação de virar partícula e Universo. Do ponto em que toda a massa se comprimiu. Da explosão. Quanto mais descrevia, mais Zeus se transformava. Os olhos dele ficaram molhados. A respiração perdeu ritmo. Quando André terminou, Zeus já chorava.

— Você atravessou — disse ele.

— Atravessei o quê?

Zeus deu um passo em sua direção.

— O ciclo completo. O infinito. O ponto de contração. Você passou pelo Big Bang pelo lado de dentro.

Nerfate estreitou os olhos.

— O que quer dizer com isso?

Zeus se moveu.

Foi rápido demais para a sala reagir. Num instante estava diante de Nerfate; no outro, ao lado de Hagar. A mão dele atingiu a lateral da armadura clara com uma descarga elétrica concentrada. Hagar perdeu o ar e o cajado escapou de seus dedos. Zeus pegou o objeto antes que tocasse o chão.

— Zeus! — gritou Agah.

O primeiro portal se abriu sob Juper. O homem desapareceu em uma explosão curta de luz. Depois Coneli. Depois Bel. Hertho tentou avançar e foi engolido por outro rasgo. Nerfate levantou água do nada, mas Zeus já conhecia o movimento; abriu um portal nas costas dela e a empurrou com o próprio raio. Agah tentou alcançar Hagar e também sumiu. Krakor praguejou, vermelho de raiva, mas o cajado girou e o mandou embora antes que completasse a frase. Hagar conseguiu apoiar um joelho no chão. Zeus abriu o último portal sob ele.

A sala virou uma sequência de clarões, nomes interrompidos e cadeiras tombadas. Zeus escolhia primeiro os que podiam reagir com mais força. Deixou por último os que demorariam a entender a natureza da traição. Quando o último portal se fechou, restaram André, Zeus e Ártemis.

Ártemis permanecia perto da entrada, observando o corredor por onde Vaes e Dafa haviam saído com Móretar. Não demonstrava surpresa.

— Deu certo — disse Zeus, ainda com lágrimas no rosto.

— Quase — respondeu Ártemis. — Vaes e Dafa ainda estão com o garoto.

Zeus olhou para André com uma alegria terrível.

— O dia chegou. A profecia se cumpriu. Nós podemos levar o Salvador para o outro lado do Universo. Podemos voltar.

— Voltar para onde?

— Para casa.

A palavra saiu dele com tanta fome que André teve medo. Zeus queria poder, mas também queria voltar a um lugar que perdera havia milênios.

Um sinal atravessou o ar naquele instante. André sentiu também: uma pressão pequena no centro da cabeça, parecida com alguém tocando uma campainha dentro do crânio.

Ártemis sorriu.

— Móretar conseguiu.

— Então tiramos Vaes e Dafa do caminho — disse Zeus.

André tentou se levantar, mas uma faixa de energia o prendeu à cadeira. O corpo respondeu tarde demais. O cajado na mão de Zeus vibrava em vermelho.

— Você vai com Móretar para garantir a chegada dele em Key — disse Ártemis. — Dafa vai se oferecer para ir no seu lugar.

— Ela está apegada ao garoto — completou Zeus. — Vaes ficará sozinho. Se Dafa não fizer isso, eu envio você. Quando voltar, dominamos Vaes, depois Dafa. Simples.

— Vocês ensaiaram isso.

Zeus olhou para André sem culpa.

— Esperamos por isso.

— E Eva?

— Se ela importa para o caminho, encontraremos. Se não importa, você terá que aprender a aceitar.

A resposta atravessou André com mais violência do que o portal. Ele forçou os braços contra a energia. Nada. Zeus e Ártemis saíram, levando o cajado de Hagar.

André ficou sozinho na habitação, cercado por pratos derrubados, taças quebradas e o silêncio deixado pelos portais. Tentou gritar. A energia apertou sua garganta e transformou a voz em ar preso. Tentou mexer as mãos. Pequenos lampejos surgiram nos dedos, brancos, instáveis. Pela primeira vez, a luz vinha dele.

O medo veio junto com a luz.

André respirou devagar. Olhou para os próprios dedos, para a porta, para o lugar vazio onde Hagar estivera. Do lado de fora, Zeus e Ártemis executavam o restante do plano. Em algum outro ponto do Universo, Eva podia estar viva, ferida, presa a gente tão perigosa quanto aqueles dois.

Ele fechou as mãos. A luz sumiu, voltou e permaneceu por um segundo a mais.

1/1
Menu

Fazer anotação