O Despertar dos Dragões Jornada do Sangue · Capítulo 12 de 49
Obra Menu

O Despertar dos Dragões

André continuava suspenso no céu de Vulcano.

A luz branca ao redor do corpo de André queimava o ar, levantava poeira em círculos largos e estalava sobre a pele, saindo dos olhos, dos dedos e da boca entreaberta. Ele pairava acima da guerra com os braços soltos e a cabeça baixa. Durante alguns instantes, os dois exércitos esqueceram o combate.

A trégua durou pouco. Ambrósio foi o primeiro a quebrá-la. Os pargos avançaram sob o comando dele, abrindo fogo entre as fileiras, e os fariseus responderam tarde, ainda olhando para o homem no céu. A hesitação custou terreno. Escudos foram derrubados, lanças caíram, magos feridos se arrastaram para trás deixando sulcos escuros na terra vermelha.

Eva despertara durante a retirada do acampamento, ainda com a moeda fechada na mão. Myrddin ordenou que os dois fossem levados para as montanhas com o Cálice. Moisés recusou-se a sair sem respostas; Eva tentou voltar para procurar André. Quando um guarda a puxou pelo braço ferido, Moisés o derrubou. Outros quatro vieram. Depois de amarrá-los, Myrddin abriu os dedos de Eva, retirou a moeda e a devolveu ao encaixe na taça. A luz correu pelo ouro e se apagou. Ele escondeu o Cálice completo sob a manta.

Agora ele se afastava pelas montanhas com Angra, levando Eva e Moisés presos. As cordas em torno dos pulsos de Eva queimavam a pele sempre que ela tentava forçar o nó. Moisés caminhava ao lado dela testando o atrito da amarra contra os dedos, contando guardas, pedras, curvas do terreno e distância.

Eva olhou para cima quando a claridade aumentou. O brilho do homem suspenso atravessou a poeira e a fumaça. Ela ainda não via o rosto, mas reconheceu algo familiar naquela luz.

— Moisés — disse, quase sem voz. — Aquilo...

Myrddin ouviu e seguiu a direção do olhar dela. Depois da primeira morte, pessoas vindas do mesmo planeta percebiam um brilho umas nas outras. A luz não revelava nome nem parentesco, apenas a origem comum. Aquele homem vinha da Terra. Pela reação de Eva, não era um desconhecido.

Ambrósio ergueu as duas mãos no campo abaixo e lançou uma coluna de fogo contra André. O ataque subiu com força bastante para abrir uma fenda de calor no ar. André abriu os olhos.

Foi só isso.

A coluna desviou antes de tocá-lo, dobrando para a montanha, onde explodiu contra árvores secas. O incêndio subiu rápido, alimentado pela própria poeira quente de Vulcano, e cercou o caminho por onde Myrddin conduzia os prisioneiros. Os guardas recuaram. Angra protegeu o rosto. Eva puxou Moisés pelo braço, mas as cordas os prenderam ao mesmo passo lento.

Carl correu.

Ele estava entre os fariseus havia minutos, tempo insuficiente para entender uniformes, povos, magia ou rancores. Viu pessoas presas entre fogo e pedra e começou a correr. No primeiro impulso, o chão recuou rápido demais. Carl quase caiu, recuperou o equilíbrio e ajustou a passada. A segunda arrancada o levou até a encosta numa velocidade que provocou gritos dos dois lados. Entrou na zona de calor e retirou Angra, Eva, Moisés, Myrddin e dois guardas, um de cada vez, antes que a fumaça fechasse o caminho.

Ao segurar Myrddin pelo braço, sentiu o objeto escondido sob a manta do mago bater contra sua perna. O Cálice caiu na terra vermelha e rolou até uma pedra.

André viu.

O brilho do cálice trouxe a lembrança da biblioteca: tiro, chão frio, Eva caindo, Moisés gritando, metal queimando a sala. André deixou de flutuar. O corpo desceu em linha reta, rápido demais para qualquer flecha acompanhar, e pousou perto do objeto com uma pancada que abriu rachaduras ao redor dos pés. Pegou o cálice.

A terra respondeu.

Fendas se abriram entre as pedras. Fragmentos rolaram da montanha. O cálice queimou a mão de André e fez a luz branca ao redor do corpo oscilar. A dor subiu pelo braço. Ele largou o objeto. O cálice bateu no chão, girou uma vez e parou aos pés de Carl.

Carl ainda estava ofegante. Olhou para André, depois para Eva, depois para o cálice, e se abaixou antes que alguém dissesse qualquer coisa. A mão dele tocou o metal.

O céu mudou.

O ar acima do campo abriu uma imagem vertical: pedras negras, veios de lava e três casulos enormes presos perto do núcleo de Vulcano. Dentro deles havia corpos dobrados, escamas comprimidas, asas fechadas, garras grandes demais para a prisão que as continha. Três dragões respiravam devagar dentro dos casulos.

Myrddin caiu de joelhos.

— Alguém preparou tudo isso — murmurou, as mãos tremendo. — Depois de tanto tempo...

Eva se soltou de um dos nós com um puxão brusco e olhou de novo para André. A luz diminuíra o bastante para revelar o rosto.

— André? — O nome saiu primeiro baixo, desacreditado; depois rasgou a garganta. — André, é você?

Ela tentou correr. Myrddin segurou seu braço.

— Você vai até ele — disse o mago, sem tirar os olhos dos casulos. — Mas ainda não.

Moisés já tinha terminado de afrouxar a própria corda. Olhou para o Cálice aos pés de Carl, para os casulos projetados sobre o campo e para Eva chamando o irmão. Myrddin sabia que algo aconteceria e pretendia conduzi-los até o fim.

— Alguém reuniu o Cálice, três pessoas com sangue de dragão e três casulos. Eu sei qual é o próximo passo — disse Moisés.

Ele saltou sobre Carl em direção ao cálice. Carl tentou segurá-lo por reflexo. Os dois tocaram o metal no mesmo instante. A luz engoliu ambos por uma fração; Carl foi arremessado para trás, ainda no campo, e Moisés desapareceu.

Reapareceu sozinho perto do núcleo.

Moisés reapareceu numa bolsa de pedra cercada por lava. O calor queimava, mas o corpo resistia. Diante dele, o primeiro casulo respirava. Irritado com tudo que Myrddin ainda escondia, aproximou a mão.

Quando tocou a superfície escura, um olho verde abriu por dentro.

Moisés tentou recuar. A mão não soltou. O casulo rachou sob seus dedos, primeiro em linhas finas, depois em placas inteiras. O dragão preto saiu sem rugir. Ocupou a caverna com asas, focinho, coluna, escamas brilhantes, e então entrou nele.

Outra respiração entrou no corpo de Moisés. Memórias sem palavras humanas atravessaram sua cabeça: céu, sangue sobre pedra, armadilha, fogo, queda, espera. As costas se abriram em asas e a pele ganhou uma camada de escamas escuras. O dragão respirava com ele.

Moisés subiu.

Moisés subiu movendo o ar ao redor do corpo e arrancou, das profundezas, os outros dois casulos. As fendas abertas no chão cuspiram calor, fumaça e luz vermelha quando ele emergiu entre elas, coberto por escamas negras, trazendo os casulos suspensos sobre a guerra.

Pargos e fariseus pararam outra vez.

Moisés lançou um casulo para Eva e outro para André. Eva tocou primeiro. A casca se abriu, e o dragão vermelho aqueceu o ar antes de entrar no corpo dela. André recebeu o casulo branco, maior que os outros. No instante do toque, a luz que já o cercava ficou fria no centro. O dragão desapareceu dentro dela.

Eva caiu de joelhos, arfando. André desceu ao lado dela, e os dois se abraçaram. Eva perguntou onde ele estivera. André perguntou se ela estava ferida. Nenhum ouviu a resposta do outro. Moisés pousou perto deles, ainda separando as próprias lembranças das que haviam chegado com o dragão.

Myrddin se levantou com esforço e gritou:

— Ambrósio!

O líder dos pargos respondeu com fogo. Lançou as mãos para trás, bateu uma rajada contra o chão e usou o impulso para atravessar a distância até o grupo. Pousou com os pés abrindo duas marcas fundas na terra e manteve os olhos em Myrddin.

— Com o retorno dos dragões — disse Myrddin, a voz falhando de emoção — podemos voltar a ser um só. Podemos ser Merlin outra vez. Com esse poder, libertaremos todos os habitantes de Vulcano, fariseus e pargos, inclusive os que estão presos no centro.

Ambrósio soltou uma risada curta, sem alegria.

— Você não sabe fazer isso. E, se soubesse, eu teria bons motivos para impedir.

— Um dia nós buscamos poder e matamos os dragões sagrados. A morte deles nos dividiu. Trouxe nossa guerra para este planeta e transformou Vulcano numa prisão. Agora eles voltaram completos. O erro pode ser desfeito.

— O erro começou numa profecia — respondeu Ambrósio. — Nós seguimos palavras antigas sem entender quem as deixou, matamos criaturas que não compreendíamos e acordamos neste inferno. Agora você quer obedecer à mesma coisa com mais fé, só porque a tragédia ganhou outra forma.

Myrddin hesitou.

— A profecia dizia que os dragões precisavam estar completos para que o sangue deles nos evoluísse e nos salvasse. Nós lemos errado. Ou lemos cedo demais. Eu fiquei com a parte que faltava na memória, Ambrósio. Passei anos observando o núcleo, as prisões de calor e o modo como cada morte alimenta outra jaula. Os casulos continuavam crescendo. Era a única parte da profecia que podíamos verificar.

— Que tal vocês explicarem isso para nós antes de pedir obediência? — disse Moisés, ainda com a voz atravessada pelo dragão. Eva continuava agarrada ao braço de André. Carl observava o cálice no chão, mantendo distância dele agora.

Myrddin olhou para os três corpos marcados pelos dragões.

— Em nosso mundo original, nós éramos uma única pessoa. Merlin. Procurávamos três dragões escondidos, seguindo uma pista que achávamos sagrada. A profecia dizia que devíamos matá-los, banhar-nos no sangue deles e encontrar salvação. Também dizia que a morte faria os dragões evoluírem. Nós construímos uma armadilha, matamos os três e entramos no sangue. Queimamos vivos. Quando despertamos aqui, estávamos divididos em dois. Eu fiquei com uma parte. Ambrósio, com outra. Vulcano pagou por isso. Quem morre neste planeta não segue adiante; desce para jaulas de calor perto do núcleo. Quando pargos matam dois fariseus, libertam uma pessoa presa de seu próprio povo. Quando fariseus matam dois pargos, acontece o mesmo. A guerra virou método, religião e governo.

Ninguém baixou as armas.

André ouvira outra profecia. Na Terra, uma delas o conduzira à biblioteca; em Vulcano, outra levara Merlin a matar três dragões e alimentava uma guerra havia gerações. Queria perguntar por Zeus, Éden, Dafa e Móretar. Queria saber por que o Cálice reagia de modos tão diferentes ao toque de Carl e ao seu. Myrddin ainda exigia uma coisa antes de oferecer respostas.

— E agora? — perguntou Eva.

Myrddin apontou para Ambrósio, mas não desviou os olhos dos três dragões.

— Agora vocês terão que usar esse poder conjunto para nos matar.

Ambrósio fechou os punhos. Moisés deu um passo à frente. André sentiu o dragão branco se mover dentro dele, atento. Atrás dos três, Carl recuou para longe do Cálice enquanto os dois exércitos tornavam a erguer as armas.

1/1
Menu

Fazer anotação