O Final?
Os vinte e cinco anos passaram sem outra guerra entre planetas.
Isso não significou ausência de conflitos. Adwig precisou dividir o palácio entre povos que discordavam até sobre a quantidade de céu que cada comunidade deveria ocupar. Lúcifer assumiu a liderança dos vampiros e organizou intercâmbios com lobos e gatas. Também criou reservas de sangue e áreas de afastamento para crises de fome, submetendo-se às mesmas regras que estabelecia para os outros. As simbioses continuaram a ser estudadas, mas Kimmer havia deixado uma desconfiança que nenhum discurso conseguiu apagar.
Zeus permaneceu em Novo Olimpo sob um conselho que incluía antigos aliados e pessoas que nunca o haviam perdoado. Parte da população ainda desejava que ele voltasse a comandar. Outra parte vigiava cada decisão sua. Athena chegou a visitá-lo, mas a existência do templo erguido em sua homenagem não encerrou a discussão entre os dois.
Nos primeiros meses desse intervalo, pessoas que Érebo mantivera aprisionadas renasceram em diferentes pontos do cinturão. Algumas haviam permanecido dentro dele por tanto tempo que já não reconheciam nenhum povo existente. Hagar, Afrodite e Silency conseguiram reencontrar os antigos aliados. Cronos não os procurou.
Eva e Moisés se estabeleceram na região de Paradise que preservava a Terra. Estudaram o sangue de dragão com cientistas de diferentes épocas e planetas. Encontraram permanências, mutações e coincidências. Não encontraram prova de que o DNA atravessasse uma morte. A hipótese mais consistente continuava sendo a de Zeus: a experiência do corpo podia deixar marcas que a partícula reconstruía depois, sem carregar o sangue propriamente dito.
Ao redor dessa busca nasceram rituais, festas e interpretações. Krakor e Hagar se tornaram convidados frequentes das celebrações. A ciência oferecia dúvidas; os seguidores preenchiam as lacunas com músicas, bebidas e histórias cada vez maiores.
A Confraria do Segredo passou a organizar os registros e a comunicação dos antigos doze de Éden. O ramo de custódia conservou títulos, depósitos de artefatos e redes de influência. Alguns de seus integrantes se aproximaram da Confraria; outros continuaram usando o nome Ordo Aeternus e contestaram o direito de uma única organização controlar os registros sobre o Prometido. A ordem original nunca foi reconstruída. Mesmo perto do fim, ninguém concordava sobre quem podia guardar uma história e quem tinha autoridade para alterá-la.
Laura concluiu a rede de transporte entre os sete planetas. As viagens se tornaram comuns. André e Trix visitavam Eva e Moisés todos os anos, geralmente no Natal, embora quase ninguém soubesse explicar por que ainda comemorava aquela data.
Em uma dessas visitas, encontraram os dois no alto de um edifício, observando um pôr do sol produzido para parecer igual ao da primeira Terra.
— Como está a vida por aqui? — André perguntou.
Eva voou para abraçá-lo. Depois cumprimentou Trix e voltou para perto de Moisés.
— Estranha. Quanto mais tempo passamos aqui, mais saudade sentimos de coisas que não chegamos a viver. Todo mundo conserva algum costume para não precisar admitir que o mundo acabou muitas vezes.
— Vocês poderiam morar com os vampiros — Trix disse. — Ou visitar os reinos das fadas. Lúcifer também continua tentando convencer todo mundo a conhecer as festas dele.
— Já conhecemos algumas — Moisés respondeu. — Por isso gostamos daqui.
André riu.
— Ainda procurando uma resposta para o sangue?
— Ainda — Eva respondeu. — E os nossos seguidores continuam torcendo para que a gente nunca encontre. Uma resposta acabaria com metade dos rituais.
— Talvez o sangue não seja uma estrada — Moisés disse. — Talvez seja apenas o registro do que um corpo conseguiu suportar.
André olhou para as próprias mãos. O sangue de dragão o acompanhara por mais de um corpo, mas também servira de justificativa para profecias, experiências e governos.
— Mesmo assim, trouxe todos nós até aqui.
Trix tocou seu braço.
— E daqui vamos aonde?
Ninguém respondeu.
Nos últimos meses, as cidades passaram a medir com maior precisão a contração do Universo. Estrelas desapareciam. As bordas visíveis de Paradise escureciam, e o cinturão inteiro seguia atraído para uma região que nenhum veículo conseguia alcançar.
Trovar voltou perto do fim, como havia prometido.
Érebo se estendeu por todos os planetas sem absorver ninguém. Testou cada ligação e recuou sempre que a partícula não suportava o contato. Entre todos os seres reunidos, apenas doze apresentaram compatibilidade.
Adwig, Móretar, Silency, Sussurro, André, Henri, Magno, Emma, Lúcifer, Athena, Afrodite e Hagar aceitaram partir.
André encontrou Trix no terraço do palácio.
— Não sei o que existe depois — ele disse.
— Nunca soubemos.
— Posso não encontrar você de novo.
— Então me procure.
Ele a abraçou.
— Prometo encontrar você onde for.
— Mesmo que tudo se repita, eu aceito viver nossa história outra vez.
André beijou Trix. Quis guardar a temperatura de sua pele, o cheiro dos cabelos e a forma com que ela apertava os dedos contra suas costas. Não sabia se alguma dessas coisas poderia atravessar o fim. Guardou assim mesmo.
— Eu amo você.
— Eu também amo você.
Trovar chamou os doze. Érebo os recebeu sem apagar suas consciências. André ainda sentia o próprio corpo, mas também percebia os demais em pontos diferentes daquela estrutura compartilhada.
O último portal se abriu.
Trovar atravessou para uma região de onde podia observar sem ser percebido.
Elaryan e Athos estavam próximos do eixo para o qual toda a matéria retornava. A arma formada pela união das quinze permanecia nas mãos dela. Ao redor, sistemas inteiros perdiam distância e luz.
— Desta vez, sua previsão não vai se cumprir — Athos disse.
— Essa frase também estava prevista. Todas as partículas estão convergindo. Depois de absorver a sua, terei poder suficiente para atravessar o colapso e tentar outra vez.
Elaryan avançou.
A espada atravessou Athos. Uma luz branca cobriu os dois.
Quando ela começou a desaparecer, percebeu que não havia atingido o corpo dele. Athos abrira um portal diante do peito. A lâmina cruzara o espaço e entrara pelas costas de Elaryan.
A arma conteve a partícula dela antes que pudesse escapar.
Athos recuperou a espada.
Trovar saiu do ponto em que se escondia.
— Tive medo de errar o momento.
— Era o único instante em que ela deixaria de procurar mudanças — Athos respondeu.
— Você viu isso nos fragmentos?
— Vi uma tentativa fracassar. Desta vez, mudei quem atravessaria o portal.
Érebo projetou as formas dos doze ao redor de Trovar. Athos reconheceu cada um.
— Foram todos?
— Os únicos compatíveis.
A atração aumentou. O cinturão de Paradise desapareceu entre outros mundos. André sentiu a despedida de Trix se afastar junto de tudo que conhecera.
— As partículas estão chegando — Trovar disse.
Athos ergueu a arma.
— Ela pode mantê-las unidas durante a passagem.
— Elaryan pretendia fazer o mesmo.
— Elaryan deixou o curso se repetir para preservar o poder que conhecia. No próximo começo, não dependeremos da fé em uma mudança. Vamos cuidar dos acontecimentos desde o início.
André ouviu a frase de dentro de Érebo.
Athos estava diante do fim com todas as armas reunidas, a partícula de Elaryan contida e o restante do Universo vindo em sua direção. Falava em proteger o futuro, mas já decidia sozinho qual futuro deveria existir.
Tudo se tornou branco.
O sangue encerrava aquela jornada.
Outra ainda começaria.