Uma Batalha de Dragões Jornada do Sangue · Capítulo 16 de 49
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Uma Batalha de Dragões

Somas deu a André uma missão: salvar Moisés antes que ele e Malutar destruíssem Rock.

Da plataforma, André via alarmes sem som acendendo nas torres, equipes correndo pelos corredores laterais e o chão vibrando a cada impacto distante. Moisés assumira a forma de dragão e atacava sem escolher alvo. A criatura agarrada à mente dele tinha um nome que assustava até os soldados treinados.

A alternativa do comando central já estava pronta. Uma bomba poderia encerrar tudo antes que o fogo alcançasse a capital, mas apagaria cidades inteiras, cinturões agrícolas, usinas de energia e parte da população que ainda tentava fugir. Somas falava rápido, enxugando o rosto com a manga do uniforme. André acompanhava os movimentos da boca dele por poucos segundos antes de lembrar da morte do pai, da própria morte, de Éden, de Vulcano, de Eva e de Moisés perdido no céu.

— Você tem ligação com Moisés — disse Somas. — Isso já aconteceu antes, de outra forma. Você assumiu forma de dragão, respondeu ao Cálice, atravessou fogo sem perder o corpo. Se alguém pode chegar nele sem ser destruído nos primeiros segundos, é você.

André piscou duas vezes. O nome de Moisés ficou aceso por um momento, logo atravessado por outra lembrança, uma sala de reunião fechada, o rosto de Paulo Azevedo sem cor, a ambulância parada diante do prédio, o cheiro frio do hospital. Ele tentou agarrar a missão nessa confusão e sentiu a mente escorregar para um detalhe inútil: a gravata que usava no dia da reunião tinha um nó torto, e o pai implicaria com aquilo se ainda pudesse implicar com alguma coisa.

— Eu estou ouvindo — disse André, embora a própria voz saísse atrasada. — Só preciso que os assuntos parem de trocar de cadeira dentro da minha cabeça. Você fala de dragão e eu lembro de escritório. Fala de salvar planeta e eu penso que faz tempo que eu não escrevo. Aqui vocês escrevem? Digo, em papel mesmo, com caneta? Eu era bom em juntar frases. Isso devia servir para alguma coisa além de assinar documento.

Somas interrompeu a explicação. O olhar dele desceu para a boca de André, para as pupilas, para o modo frouxo com que o rapaz mantinha as mãos. Aproximou-se, segurou-o pelos ombros e cheirou o ar perto do rosto dele.

— Sopre.

— Isso é algum teste de trânsito?

— Sopre, André.

Ele obedeceu. Somas respirou de novo e virou o rosto para os guardas nas entradas da plataforma.

— Alguém lhe deu alguma coisa para comer?

André levou a mão ao bolso, sem encontrar nada. Lembrou do rapaz alto no meio da multidão, o sorriso largo, o braço estendido, a pequena bala clara no centro da palma.

— Um homem alto no meio da multidão. Animado demais para um fim de mundo. Disse que o sabor era indescritível. Eu aceitei porque achei indelicado recusar e queria saber se ainda sinto gosto direito. Só que a bala não tinha gosto algum. Prometer sabor indescritível e entregar nada é golpe.

Somas afastou-se dele e procurou alguém com os olhos. Dois oficiais entenderam a ordem e correram. O vento gerado pelas torres de contenção empurrava cinza quente para a plataforma, e uma camada fina começou a grudar no cabelo de André. Ao longe, o fogo negro subia e descia em espasmos cada vez que Moisés abria as asas ou batia contra alguma estrutura.

— Essa droga demora mais de um dia para sair do corpo — disse Somas. — Ela quebra foco, embaralha associação, altera distância, tempo e impulso. Foi feita para impedir concentração em batalha. Hoje circula em festas e rituais, embora seja proibida. Com uma pessoa comum já seria perigoso. Em você, agora, eu nem sei o que pode provocar.

— Em mim, agora, quase tudo parece uma provocação.

— Você pode nem conseguir se transformar.

André riu. O riso veio baixo, sem alegria definida, e depois subiu num soluço curto que irritou Somas mais do que acalmou. O rapaz olhou para o céu, para a coluna negra, para as luzes azuis correndo pelos edifícios curvos de Rock, e por algum motivo pensou em uma série de dragões que acompanhara na Terra. Gostara tanto da construção que terminou odiando o final com uma espécie de luto ridículo.

— Dragões sempre dão problema no fim — disse. — Eu assisti uma história dessas e fiquei anos reclamando. Você acha que eu não consigo virar um? Aí é que você está enganad...

A última sílaba sumiu dentro de um estalo de ossos, pele e luz.

Somas recuou com o braço diante do rosto. Os soldados da plataforma jogaram-se para trás. André cresceu em um único movimento, sem o esforço torto da primeira transformação. A pele abriu espaço para escamas brancas, duras e luminosas, atravessadas por veios azulados que pulsavam feito energia líquida. As mãos viraram garras compridas; o pescoço alongou-se; as asas se abriram tão depressa que derrubaram duas grades laterais e arrancaram faixas de metal do piso. Quando a cabeça do dragão se ergueu, os sensores das torres entraram em falha por excesso de leitura térmica.

O animal era maior do que Somas esperava. Muito maior. As escamas brancas refletiam as linhas azuis de energia da plataforma. Ele flexionou as patas contra o piso, que gemeu, e disparou para cima em linha reta, abrindo um rastro claro na cinza.

— Comando, aqui é Somas — disse ele no comunicador. — André transformou-se. Repito, André transformou-se, mas está sob efeito de substância de dispersão cognitiva. Não autorizem tiro contra ele sem minha ordem.

A resposta veio atravessada por ruído, pedidos de confirmação e pânico técnico. Somas olhava para o alto, onde o dragão branco, em vez de seguir direto para Moisés, desenhava curvas amplas, mergulhos e subidas verticais. A cada manobra, deixava linhas de vapor claro no céu. André imitava, sem saber explicar nem para si, as apresentações aéreas que vira quando criança; aviões coloridos riscando fumaça sobre uma multidão, o pai ao lado, impaciente, fingindo achar perda de tempo enquanto André se encantava.

Por alguns segundos, André riscou o céu enquanto a evacuação continuava abaixo dele.

Então o dragão branco virou a cabeça para o Norte. As narinas se abriram. André reconheceu Moisés em meio ao fogo e ouviu prédios partidos, placas de energia estourando, gritos comprimidos pela distância. Bateu as asas uma vez e desapareceu da vista da plataforma.

Moisés voava baixo sobre uma região habitada. O dragão negro tinha o corpo recoberto por escamas grossas, mas vários pontos já sangravam por dentro, abrindo linhas rubras entre as placas. O fogo que lançava vinha sem alvo fixo. Atingia torres, passarelas, veículos de resgate e espaços vazios com a mesma fúria. Ele balançava a cabeça de um lado para o outro, tentando arrancar algo que ninguém via. A dor interrompia cada urro.

Malutar seguia preso a ele por fios escuros de energia e carne. A criatura pairava abaixo do pescoço do dragão, sustentada por membros compridos, feita de sombra densa, couro ressecado e ossos que mudavam de posição quando se movia. O som emitido por ela vinha em ondas, grave demais para ouvido comum, e entrava no corpo de Moisés pela ferida aberta atrás do crânio. Cada onda aumentava a dor e provocava outro ataque.

André chegou pelo lado, abriu a boca e lançou uma rajada azulada. O fogo atravessou o céu com força limpa, acertou a asa esquerda de Moisés e espalhou faíscas negras pela membrana. Moisés perdeu altura, recuperou-se no ar e respondeu sem reconhecer o atacante. As duas chamas se encontraram sobre uma avenida, anularam-se no centro e desceram em chuva quente sobre as construções já evacuadas.

Malutar virou-se para André. Abriu a boca. A onda sonora que vinha dominando Moisés atingiu o dragão branco de frente.

André não caiu nem atacou o monstro. A onda aumentou a confusão causada pela droga. O dragão piscou, desviou a cabeça, avistou no meio de uma praça um grupo de árvores vermelhas carregadas de frutos enormes e desceu.

Somas, longe dali, recebeu a imagem pelos drones e levou a mão à testa.

André arrancou as copas sem cuidado e mastigou galhos, folhas e frutos, esmagando tudo entre dentes maiores que veículos. O sabor veio forte, ácido, doce, vivo. Ele gostou. Gostou tanto que esqueceu por dois batimentos o céu incendiado atrás de si. O jato de Moisés acertou-lhe as costas nesse intervalo e chamuscou parte das escamas brancas.

A queimadura fez André se lembrar da luta.

O dragão branco ergueu-se da praça com um rugido que fez as janelas restantes explodirem para fora. Subiu alto, abriu as asas em toda a largura, curvou as garras para dentro e despencou sobre Moisés. O golpe atravessou o lado esquerdo do dragão negro desde a região do olho até o início da cauda. Escamas se partiram. Carne abriu. O urro de Moisés percorreu quilômetros, derrubou pessoas que corriam nas saídas de emergência e fez os drones perderem estabilidade.

Do ferimento saiu um fluido espesso, entre sangue e lava, carregado pela energia do dragão. Gotas caíram sobre telhados e abriram buracos fumegantes. Uma delas tocou Malutar.

A reação da criatura mudou a batalha. Malutar encolheu os membros, torceu o próprio corpo e soltou Moisés por uma fração mínima. Onde o fluido tocara sua pele, a energia do dragão rompeu a ligação entre as pequenas massas que formavam Malutar. O monstro tentou se afastar, mas a ligação com Moisés ainda o mantinha perto demais do sangue que escorria pelo flanco do dragão negro.

Moisés recuperou um fragmento de si no meio da dor. Reconheceu o céu. Reconheceu Rock. Reconheceu, acima dele, o dragão branco que acabara de rasgá-lo. A fúria continuava maior que a consciência. Ele atacou André com as garras, e a luta desceu sobre a cidade em pedaços.

Fogo contra fogo quase sempre terminava em explosão inútil. As rajadas se encontravam, estouravam, quebravam torres, ateavam incêndios novos e pouco feriam os corpos monstruosos que as produziam. Então vieram as garras. André abriu o peito de Moisés em três linhas profundas; Moisés cravou a mandíbula no ombro branco e arrancou escamas inteiras. O fluido negro-avermelhado de um e o sangue claro do outro caíam juntos, ferviam no contato com as ruas e atingiam Malutar cada vez que a criatura tentava reassumir o comando.

Somas gritava ordens no comunicador. As defesas antiaéreas seguiam travadas, os evacuadores recebiam nova rota, as equipes de contenção puxavam energia para erguer barreiras em volta dos bairros ainda intactos. Ninguém sabia se André estava salvando o planeta ou ajudando a destruí-lo mais depressa. Malutar, porém, começava a fugir.

Moisés percebeu.

O dragão negro cambaleou no ar, ferido de lado a lado, e seguiu a criatura com dificuldade. André veio atrás, ainda tomado pela raiva da queimadura, pela droga, pelo chamado confuso de uma batalha que ele mal distinguia. Preparou novo mergulho. As garras brancas brilharam. Moisés viu a trajetória, viu Malutar logo abaixo e, dentro do pouco que restava de lucidez, escolheu o único ângulo capaz de transformar o ataque em arma.

Ele passou rente ao monstro, girou o lado ferido para André e parou no ar.

O golpe branco entrou fundo demais. Quase partiu Moisés ao meio. O fluido jorrou para cima com força de fonte aberta e cobriu Malutar. A criatura tentou gritar, mas o som se partiu em muitas frequências. As colônias que sustentavam seu corpo se repeliram de uma vez. Membros, fios escuros, ossos móveis, couro e sombra perderam forma. Os fragmentos caíram sobre a praça destruída, ainda se afastando uns dos outros, e desapareceram em fumaça.

André caiu logo depois. Perdeu a forma de dragão no ar, bateu contra uma encosta de concreto quebrado e rolou até perto da poça ardente que marcava o último lugar de Malutar. Moisés também voltou ao corpo humano. O lado atingido pelo golpe estava aberto do rosto até a perna.

André tentou erguer a cabeça. Viu Moisés de joelhos, tremendo, segurando com a mão restante uma parte do próprio peito. Os olhos dele, enfim livres, procuraram os de André.

— Me desculpe — disse Moisés, com a voz rasgada e pequena dentro da destruição. — Me desculpe, André.

O corpo de Moisés começou a desaparecer antes que André respondesse. Luz, cinza, partículas e calor se misturaram no ar. André estendeu a mão, mas o braço cedeu antes de alcançá-lo. Quando a última marca de Moisés sumiu, ele tombou de bruços sobre o lugar vazio, inconsciente, com o rosto voltado para a poça que ainda fervia.

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