A Espada
— Não consigo entender — disse Merlin.
Ele estava caído no chão da torre, com a lâmina da Excalibur encostada na garganta e o pé de Arthur segurando seu peito. A sala em volta carregava sinais de governo, estudo e guerra: mapas rasgados, livros abertos, instrumentos quebrados, janelas altas dando para uma cidade que ainda não sabia se fora libertada ou abandonada a outro senhor.
Merlin tremia de raiva e medo.
— Eu me esforcei. Fui justo dentro do possível. Você não viu o quanto este mundo melhorou depois que cheguei?
Arthur apertou o punho da espada.
— Melhor que o terror anterior não significa bom. Você preservou os privilégios de quem já mandava e ensinou os pobres a agradecerem por continuar com fome. Fez o povo aceitar necessidade como preço da ordem.
— Eu acabei com massacres.
— E trocou massacre por obediência.
Merlin tentou se erguer. A lâmina tocou a pele, e ele parou.
— Você não sabe governar.
— Ainda não sei.
Arthur respirou fundo. A palavra saiu contra a vontade, mas servia àquele pedaço de verdade. Ele sabia lutar, sabia reconhecer domínio, sabia quando alguém usava medo para vestir poder de salvação. Governar era outra coisa. Ainda assim, deixar Merlin vivo significava entregar o planeta de novo a alguém capaz de chamar controle de justiça com uma voz convincente.
— Dei avisos — disse Arthur. — Dei chance. Você ouviu apenas quando percebeu que a Excalibur anulava seu poder.
— Clemen...
— Esse é o problema. Sua moral começa onde acaba sua força.
Merlin engoliu seco.
— Em outra vida, eu o admirei — disse Arthur. — Parte de mim continua admirando uma versão sua que nunca existiu. Mas minha missão permanece a mesma: impedir dominadores de se tornarem destino.
Ergueu a espada.
O golpe foi limpo.
A cabeça de Merlin caiu, e o corpo desapareceu antes que o sangue alcançasse as frestas do piso.
Arthur não teve tempo de lamentar.
Soldados invadiram a torre.
— Arthur! — gritou o menor deles, usando uma armadura grande demais para o corpo. — Nosso mestre nos avisou. Se ele morresse, você tomaria o poder e nos dominaria.
Arthur olhou para a lâmina ainda erguida.
— Ele preparou vocês para me matar.
— Homens, agora!
Vieram juntos.
Arthur lutou bem. A Excalibur abria espaço, derrubava armas, anulava tentativas menores de magia e fazia os soldados hesitarem sempre que se aproximava da pele deles. Mas eram muitos, e Merlin planejara a sala para isso. Uma corrente desceu do teto no momento em que Arthur avançou. Quatro homens agarraram seu braço da espada. Outros dois prenderam o ombro livre. Um terceiro grupo se lançou contra suas pernas.
Ele ainda tentou girar.
Falhou.
Usaram o peso coletivo para virar a lâmina contra ele. A ponta da Excalibur entrou em seu peito, guiada por mãos que não entendiam a arma que seguravam.
Arthur morreu olhando para a própria espada.
Despertou em uma casa impossível.
Continuava vestido com as roupas de batalha. A Excalibur estava na bainha. O ar, porém, pertencia a outro mundo: limpo demais, fechado demais, cheio de cheiros que ele não reconhecia. Havia uma parede inteira de livros, não organizada como biblioteca pública, mas como posse de alguém que podia consultar mundos inteiros sem sair da sala.
Arthur caminhou.
No cômodo seguinte, encontrou máquinas. Caixas lisas, luzes pequenas, superfícies que refletiam seu rosto com nitidez absurda. Abriu a maior delas e recuou quando uma luz amarela acendeu. Lá dentro havia comida preservada pelo frio.
— Que engenhoso — murmurou. — Uma caixa de inverno para alimentos.
Subiu uma escada. A casa rangia sem hostilidade, mas Arthur sentia que ela o observava. Passou por uma porta e encontrou um quarto escuro. Havia alguém deitado na cama.
O homem acordou com o vulto.
As luzes acenderam. Portas de armário se soltaram das dobradiças e voaram para cercar Arthur. Gavetas abriram-se como bocas. Pedaços de metal surgiram das paredes.
— Deixe-o — disse o homem na cama. — Proteja só se ele atacar.
A casa obedeceu.
Arthur levou a mão à Excalibur, mas não sacou.
O homem se sentou, ainda meio despenteado, com a expressão de quem já estava cansado demais para se assustar direito.
— Agora diga quem é você.
— Meu nome é Arthur. Morri e acordei aqui.
O homem piscou.
— Claro. Porque hoje não podia ser só um dia estranho normal.
— E você?
— André. A casa é minha, pelo menos segundo um rei que não confio. Você renasceu dentro dela. Peço desculpas pela recepção armário-assassino. Ainda estamos ajustando limites.
Arthur olhou para o quarto, para a cama, para as roupas de André, para a casa que respirava com discrição.
— Sua morada tem vontade.
— Tem vontade, protocolos, traumas e, aparentemente, senso de dramaticidade.
André reparou melhor no traje de Arthur, na bainha, na postura de cavaleiro arrancado de uma história que a Terra havia mastigado de muitas formas.
— Vou perguntar uma coisa e torcer para a resposta ser não. Sua espada se chama Excalibur?
Arthur endireitou o corpo.
— Sim.
André ficou calado tempo demais.
— Sério?
— É a arma mais poderosa que encontrei. Ela retira de qualquer ser a capacidade de manipular poderes ligados aos elementos do universo.
— Isso explica bastante e piora muita coisa.
— Você conhece a espada?
— Conheço histórias. Conheci Merlin também, em uma passagem muito pouco recomendável.
Arthur baixou os olhos.
— Matei Merlin.
André perdeu o resto do sono.
— Você matou Merlin.
— Não encontrei outro caminho.
— Olha, pela minha experiência com ele, eu consigo imaginar alguns motivos. Também consigo imaginar o tamanho do problema se Merlin chegou a um nível superior e continua renascendo.
Arthur sentiu o peso da frase.
— Em que nível estamos?
— Pelas minhas contas, quatro. Fóster. Um planeta administrado por Cronos e Hermes, dois reis que se dizem aliados circunstanciais e servem uma deusa chamada Elaryan de um jeito que ninguém deveria achar saudável.
— Você tem aliados nos quais não confia.
— Estou trabalhando com o material disponível.
Arthur observou André com uma sinceridade que quase constrangeu.
— Então agora tem um aliado em quem pode confiar.
André riu baixo.
— Você acabou de acordar dentro da minha casa e já está oferecendo lealdade?
— Você mandou sua casa não me atacar quando eu estava armado ao lado da sua cama.
— Isso, no meu planeta, seria o mínimo.
— No meu, também. Por isso importa.
André não respondeu de imediato. A ingenuidade ali não vinha vazia. Arthur ainda conseguia acreditar em virtude depois de matar Merlin e morrer pela própria espada. Isso podia ser perigoso. Também podia ser exatamente o tipo de perigo que faltava.
— Então primeira regra do aliado confiável — disse André. — Não se separe da Excalibur. Ninguém toca nela. Ninguém segura por curiosidade. Ninguém testa se consegue tirar da sua mão.
Arthur assentiu com gravidade.
— Jamais.
Saíram pouco depois.
André ainda pensava em Eva, em Hermes, em Cronos, no pouco descanso que a casa lhe arrancara sem curar nada. Arthur caminhava ao lado dele, atento demais à rua, à arquitetura viva, às pessoas que passavam olhando para sua roupa e sua espada.
Uma pedra acertou a cabeça de André.
— Ai! Que inferno.
Do outro lado da rua, um homem encapuzado recolheu a mão e fez sinal para que o seguissem.
Arthur olhou para ele, indignado.
— Esse é um costume local?
— Espero muito que não.
— Ele quer que você vá atrás dele.
— Eu percebi a sutileza.
— Pode ser uma armadilha.
André esfregou a testa.
— Depois do que aconteceu ontem, se quisessem me pegar à força teriam escolhido algo mais elaborado que uma pedrada. E você está comigo.
Arthur pousou a mão na bainha.
— Então irei à frente.
— Não. Iremos juntos. O heroísmo sobrevive mais quando anda em dupla.
O encapuzado atravessou passagens estreitas entre casas, desceu por uma viela sem placa e entrou por uma porta pequena aberta no meio de uma parede alta. Por fora, nada indicava comércio. Por dentro, havia uma taverna cheia.
Arthur parou na entrada, encantado.
— Agora sim.
— Não beba nada.
— Por quê?
— Porque não temos dinheiro, não sabemos pagar aqui e fomos chamados por alguém que usa pedra no lugar de convite.
Arthur olhou para a bandeja de uma garçonete que passava com taças espumantes. Pegou uma, por impulso, bebeu metade e depois encarou André.
— Posso devolver?
— Depois de beber metade?
Arthur bebeu o resto em um gole, devolveu a taça vazia à bandeja e tentou ficar discreto. Não conseguiu. Era alto, armado, vestido como lenda deslocada e incapaz de caber em qualquer canto de Fóster sem parecer anúncio de guerra.
O encapuzado sentou-se em uma mesa no fundo. Havia mais dois com ele, os rostos cobertos por panos escuros. André e Arthur se aproximaram.
— Falei que era convite — sussurrou Arthur.
André sentou sem tirar os olhos dos três.
— Quem são vocês e por que escolheram a versão mais irritante possível de contato?
Um deles respondeu. A voz atravessou o pano com familiaridade suficiente para André se inclinar para trás.
— Você não deve confiar em Hermes e Cronos.
— Isso eu já tinha colocado na lista. Preciso de algo melhor.
— Eu esperava que o garoto da profecia começasse a produzir respostas em vez de colecionar perguntas.
André reconheceu.
— Se você está aqui, por que eu tive que me livrar de Zeus sozinho?
Outra voz entrou, mais seca.
— Estávamos lá. Íamos agir. Você foi mais rápido e mais destrutivo. Ainda não sabemos o que a morte fará com Zeus.
— Alguns seres só podem ser contidos pela morte — disse o terceiro.
Arthur pousou a mão na mesa.
— Qualquer ser pode ser contido. Poder não transforma execução em única solução.
O primeiro encapuzado virou o rosto para ele.
— E na primeira conversa você anuncia quem é, Arthur da Excalibur?
Arthur sacou a espada em um movimento rápido e encostou a lâmina no pescoço do homem.
A taverna inteira parou.
— Diga de onde me conhece.
O terceiro levantou as mãos para os curiosos.
— Brincadeira privada. Bebidas pagas para a mesa ao lado.
Alguns riram sem convicção. Outros fingiram voltar às próprias conversas.
— Arthur — disse André. — Sente.
Arthur demorou um segundo, mas obedeceu. A espada voltou à bainha.
André apontou para os três.
— Se reconheci as vozes, temos Coneli, Hertho e Agah. Faziam parte dos Doze. Zeus traiu vocês para me levar a Poseidon e companhia. Agora vocês aparecem em uma taverna para me dizer que os reis locais são péssima ideia. Até aí, estamos em terreno conhecido. O que fazem no lugar deles?
Hertho retirou parte do pano do rosto, o suficiente para respirar melhor.
— Primeiro, impedimos que Cronos coloque a mão nessa espada.
Arthur franziu a testa.
— Ninguém tomará Excalibur de mim.
A espada sumiu da bainha dele.
Arthur demorou meio segundo para perceber. Coneli não saíra do lugar; encurtara o espaço entre a própria mão e a bainha. Segurava a espada pela lâmina e a devolveu pelo cabo antes que Arthur explodisse.
— Não faça promessas sobre forças que ainda não conhece — disse ela.
Arthur recebeu a arma de volta com o rosto vermelho.
— Você a devolveu.
— Por isso ainda estamos conversando.
Hertho continuou:
— Itens raros não são iguais para todos. A maioria das pessoas não desperta nada com eles. Algumas nem consegue tocá-los. Outras ativam funções específicas. Em suas mãos, Arthur, a Excalibur anula capacidades elementais. Em Cronos, segundo registros antigos, ela parava o tempo.
— Excalibur reconhece antigos donos — acrescentou Hertho. — Isso não significa que continue aceitando todos eles. Há registros de que a lâmina abandona quem transforma posse em direito absoluto.
André olhou para a espada.
— Cronos já foi dono dela.
— Sim — disse Coneli.
— Isso teria sido útil de mencionar antes de ele quase receber um dragão como vizinho.
— Você estava ocupado matando Zeus.
— Agenda cheia não justifica tudo.
Agah apoiou os cotovelos na mesa.
— Acreditamos também que a Excalibur pertença a um conjunto de armas capazes de abrir deslocamentos pelo cosmos. Não simples portais planetários. Travessias maiores.
André entendeu a direção antes que a frase terminasse.
— E ela trouxe Arthur para minha casa.
Arthur olhou para a espada, depois para André.
— Por quê?
— Pode ter sido atração por Cronos — disse Hertho. — Pode ter sido atração por André, pelo dragão, pelo papel que Elaryan reforçou em torno dele. Pode ter sido a própria arma buscando uma posição no tabuleiro.
— Ou coincidência? — perguntou André.
Coneli sorriu.
— Coincidência existe. Apenas costuma chegar mal acompanhada.
Arthur ficou sério, de um jeito que calou até o humor de André por um instante.
— Se a espada pode ajudar a proteger pessoas, eu a entregaria a quem pudesse usá-la melhor. A André, porque me alertou a não entregá-la. Ao Coneli, porque conseguiu tomá-la e devolvê-la. Até a vocês, se me provarem que a causa é maior que a vaidade de possuir uma arma.
André olhou para ele.
— Você está disposto a confiar rápido demais.
— Estou disposto a servir rápido. Confiança vem depois.
Hertho estudou Arthur com interesse novo.
— Isso é raro.
— Isso é perigoso — disse Agah.
— As duas coisas — completou Coneli.
André respirou fundo. Do lado de fora, Fóster continuava funcionando, bonita, controlada, viva demais. Em algum lugar, Cronos podia estar descobrindo que a Excalibur voltara ao planeta. Em outro, Hermes preparava outra narrativa útil. Eva continuava longe. Elaryan continuava interferindo em cada caminho marcado por profecia.
— Então falem — disse André. — Antes que alguém mais jogue pedra, rei ou deus em cima da minha cabeça. O que vocês querem fazer com a espada?