O Dragão Descontrolado Jornada do Sangue · Capítulo 14 de 49
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O Dragão Descontrolado

Moisés procurava Eva na Terra de Gelo.

Voava baixo, dentro de uma neblina espessa que cortava a pele e escondia as distâncias. A cada poucos metros, soltava fogo pelas mãos para abrir uma clareira de vapor, via gelo, rocha, neve soprada pelo vento e nada de Eva. Depois a névoa se fechava, e ele avançava mais um trecho. Já tinha ouvido todas as explicações que conseguia suportar.

Tinham dito que era inútil. A maioria dos mortos de Vulcano aparecera em Rock, e muitos haviam caído naquela região fria, onde o sol mal passava de uma mancha pálida atrás das nuvens. Equipes de resgate cobriram as zonas registradas, recolheram recém-chegados, mapearam energia, calor, pegadas, quedas, sinais de simbiose. Ninguém encontrou Eva. Os responsáveis pela busca afirmaram que, se ela estivesse ali, já teria sido localizada.

Moisés não aceitou.

O dragão preto dentro dele também não. A criatura não falava com palavras. Moisés sentia, através dela, calor preso em algum ponto do gelo, uma vida escondida, uma prisão. Seguia essa sensação porque ainda acreditava que poderia encontrar Eva.

Ele já se adaptara ao corpo novo de um modo que o assustava menos a cada hora. As asas surgiam quando as desejava e se recolhiam quando não precisava delas. A pele escurecida suportava o frio com facilidade. A memória do dragão se misturava à sua, e Moisés agia antes de avaliar a força que usaria. Percebia o risco, mas não tinha paciência para ter medo de si mesmo.

No fim da última área, encontrou a montanha.

Era um pico isolado, coberto por neve fina, quase translúcida. Sob a camada branca, havia fogo. Não reflexo, não mineral brilhando. Fogo vivo, comprimido por baixo de uma película clara que acompanhava a forma da montanha. Moisés pousou na encosta e tocou a superfície. O calor lá dentro respondeu, vibrando contra sua mão.

— Eva.

Moisés abriu fogo contra a camada transparente. A chama bateu na superfície e se espalhou pelos lados, inútil. A neve próxima derreteu em vapor, mas a película não escureceu, não rachou, não cedeu. Ele aumentou a força, deixou o dragão empurrar mais calor pelos braços, e a montanha continuou intacta.

Tentou por baixo. Desceu à base, derreteu neve, gelo e pedra solta até abrir um buraco fundo. Por alguns segundos, o caminho pareceu responder. O vapor subiu em nuvens densas, a terra apareceu escura sob o gelo, e Moisés quase acreditou ter encontrado uma entrada. Quando parou para respirar, a neve cresceu de volta, recompondo-se de dentro da montanha com uma rapidez antinatural.

A raiva apagou o cálculo.

Moisés subiu alto, acima da névoa, reuniu fogo diante das mãos e formou uma esfera enorme, cada vez mais branca no centro. A criatura dentro dele respondeu à fúria, aumentando o calor até seus braços doerem. Quando lançou a esfera contra o pico, a explosão iluminou a Terra de Gelo inteira.

A montanha derreteu.

O fogo alcançou muito além do topo. Boa parte da região ao redor se abriu em água fervente, vapor, lama e rachaduras. O que Moisés despejou ali tinha algo de núcleo estelar, uma matéria líquida e violenta que não pertencia a uma busca humana. Ele desceu entre os vapores esperando ver Eva.

Encontrou outra coisa.

O magma preso dentro da montanha ergueu-se com forma própria. Primeiro veio uma coluna, depois braços longos, costas arqueadas, cabeça sem olhos definidos e uma boca feita de calor escuro. A criatura nasceu do que fora prisão e acordou com fome. Moisés tentou atacá-la antes que se completasse, mas uma onda saiu dela e atravessou seu corpo.

O dragão preto enlouqueceu.

A mente de Moisés não sumiu; ficou soterrada sob fogo, medo e comando estranho. Ele viu a própria mão mudar de direção contra sua vontade. Sentiu asas crescerem até rasgar o ar em torno dele. O corpo aumentou, escamas brotando em placas grossas, coluna alongando, mandíbula abrindo. O dragão que havia despertado em Vulcano já fora imenso. Agora se deformava em algo maior, alimentado por uma força que Moisés já não controlava.

Malutar correu.

Moisés fugiu na direção errada, empurrado pela onda da criatura e pela própria fúria. A Terra de Gelo ficou para trás. A primeira cidade habitada surgiu adiante, com torres baixas, ruas suspensas, pontes metálicas e jardins térmicos protegidos por domos. O dragão entrou nela vomitando fogo para os lados. Casas se abriram em chama. Plataformas caíram. Pessoas correram sem entender se deveriam procurar abrigo contra o monstro de lava que vinha atrás ou contra o dragão que chegara primeiro.

— Ataque confirmado — disse Marun Ordar, comandante local de segurança, enquanto a sala de plantão tremia sob o primeiro impacto. — Formação de contenção aérea. Barreira anti-oxigênio em cordão aberto. Evacuação pelas passarelas internas.

Era uma ação treinada muitas vezes e nunca usada de verdade. Rock gostava de simulações justamente para não precisar improvisar. Equipes de segurança deixaram estações, torres e veículos, subiram em linhas coordenadas e formaram um arco diante do dragão. As mãos deles acenderam em eletricidade azulada, conectando pessoa a pessoa até criar uma malha magnética. O campo retirou oxigênio da zona frontal por alguns segundos, e as chamas de Moisés se apagaram em pleno ar.

O dragão bateu contra a barreira. Por alguns segundos, a contenção funcionou. Então Malutar enfiou os braços no chão, e uma energia avermelhada subiu pelas ruas, anulando a corrente elétrica da malha. Marun viu os indicadores morrerem um a um no visor preso ao pulso. Gritou retirada, mas o dragão já reconhecera a barreira como ataque. Moisés, preso dentro da própria cabeça, tentou puxar o corpo para cima. A criatura dentro dele respondeu com mais fogo.

A linha de defesa desapareceu.

Não houve explosão única. Houve um clarão e, depois, cinza onde estavam os primeiros protetores, parte das torres, duas passarelas e o centro de transporte daquela área. Marun caiu contra a parede da sala de comando local, com sangue na boca, e ainda conseguiu abrir o canal para a capital.

— Alerta vermelho. Dois alvos. Dragão preto identificado como Moisés, recém-chegado de Vulcano. Segundo alvo liberado da prisão de gelo. Repetindo: prisão de gelo rompida. Possível Conquer de Fogo.

Na capital, o aviso atravessou salas sem ruído humano. Telas acenderam, rotas mudaram, sirenes silenciosas vibraram em pulseiras, portas públicas trocaram de cor e milhares de pessoas começaram a seguir protocolos antes mesmo de saber o motivo. No centro do sistema estava Vraddo, Organizador de Rock.

O Organizador lia previsões, validava cenários, autorizava medidas comunitárias e respondia por qualquer decisão que fugisse das análises das inteligências de governo. Comissões independentes julgavam os desvios, e tragédias antigas permaneciam em arquivos usados para treinamento e prevenção. O nome de Malutar aparecia em muitos deles.

O sistema identificou a criatura antes que Vraddo terminasse de abrir o dossiê. Conquer de Fogo. Sobrevivente de uma era em que pessoas ambiciosas se uniam, por simbiose, a colônias de pequenos organismos viscosos. A união ampliava a força e a fome até que os corpos deixavam de responder aos próprios hospedeiros. Malutar fora o último, preso numa estrutura de gelo e metal congelado considerada indestrutível. A palavra permanecia no relatório, registrada séculos antes. Vraddo sentiu uma irritação fria diante dela.

O alerta passou para nível zero.

Nível zero significava destruição planetária se nenhuma medida interrompesse a cadeia. A recomendação principal apareceu em vermelho: evacuação expressa para a capital, fechamento do campo protetor e uso de bomba atômica restrita sobre a área contaminada. A arma destruiria toda matéria viva dentro de um raio mínimo grande demais. Salvaria a maioria. Condenaria mais de trinta por cento da população, entre os que não alcançariam a capital e os que ainda estavam presos nas zonas de evacuação.

Vraddo autorizou a evacuação. Autorizou o aquecimento do campo da capital. Autorizou a preparação da bomba.

O tempo de decisão apareceu no painel.

Trinta segundos.

Vinte e nove.

Vinte e oito.

Outra variável entrou no sistema: segundo dragão em Rock, recém-chegado de Vulcano, identidade André, localizado sob tutela de Somas, em área de recepção pública, cercado por multidão. Probabilidade de sucesso contra Moisés e Malutar: menor que a da bomba. Projeção de vidas preservadas em caso de sucesso: muito maior.

Vraddo olhou para as duas alternativas. A recomendada brilhava em vermelho estável. A outra piscava em amarelo, cheia de ressalvas, lacunas e termos condicionais. Enviar André era apostar numa chance menor para não condenar trinta por cento da população.

Dez segundos.

Vraddo deixou o tempo da bomba passar.

O sistema registrou a omissão imediatamente. Se Rock sobrevivesse, Vraddo teria de responder por ela. Ele acionou o canal dos protetores da área de recepção.

— Levem André até Moisés. Agora. Ele é nossa única chance de contenção móvel. Somas permanece com ele se conseguir acompanhar. Se não conseguir, retirem Somas do caminho.

Do outro lado de Rock, André ainda estava diante da multidão ajoelhada.

Somas tentava falar sem mexer muito a boca.

— Se você acenar, eles podem interpretar como bênção. Se não acenar, podem interpretar como humildade. Se voltar para dentro, eu aposto em retiro sagrado. Então qualquer opção é ruim, mas algumas são mais rápidas.

Um homem alto conseguiu romper a primeira fileira enquanto Somas observava o outro lado da praça. Segurou a mão de André e deixou nela uma pequena bala clara.

— Um presente. O sabor é indescritível.

André colocou a bala na boca. Não sentiu gosto algum. Quando procurou o homem, ele já havia desaparecido entre as pessoas ajoelhadas.

André nem chegou a responder.

Veículos de segurança desceram sobre a praça, cortando a organização reverente com luzes azuis. A multidão se abriu em silêncio assustado. Três protetores pousaram diante dele, máscaras fechadas, armas presas às costas e tensão suficiente para dispensar apresentação.

— André — disse a primeira. — Moisés perdeu o controle no Norte. Malutar foi libertado. O Organizador ordenou que levemos você até ele.

O nome de Moisés atravessou André antes do resto.

— Eva?

— Não localizada.

Somas soltou um palavrão baixo que sua função provavelmente não permitia.

André olhou para o céu de Rock, para a multidão ajoelhada, para os protetores, para a porta atrás dele e para as próprias mãos. O dragão branco se moveu dentro de seu peito. Também sentira o outro dragão.

— Me levem.

— Eu vou junto — disse Somas.

A protetora olhou para ele.

— Ordem secundária: retirar você do caminho se não conseguir acompanhar.

Somas engoliu seco, ajeitou a roupa e entrou no veículo antes que alguém transformasse aquilo em debate.

— Técnica de sobrevivência — murmurou.

O transporte disparou. Atrás deles, a multidão continuava ajoelhada. À frente, no horizonte, uma coluna de fogo negro subia da primeira cidade destruída, e dentro dela André sentiu Moisés gritando sem conseguir usar a própria voz.

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