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Capítulo 1 · Jornada do Sangue

O Pulsar do Coração

1 de 49 ≈ 11 min de leitura

Na imensidão escura, estrelas explodiam sem som, e ondas de luz atravessavam o vazio em pulsações. Vistas de longe, lembravam as batidas de um coração.

Na sala de reuniões do trigésimo andar, o coração de Paulo Azevedo parou sem solenidade. O projetor ainda mantinha na parede a última tela da apresentação, com gráficos, metas ambientais e imagens limpas de um produto sustentável preparado durante anos, enquanto os executivos sentados ao redor da mesa demoraram alguns segundos para aceitar que o corpo inclinado sobre os documentos não fazia parte de uma pausa dramática. Uma caneta rolou até a borda, alguém chamou o nome dele, outra pessoa derrubou um copo de água ao se levantar, e o império que Paulo costumava controlar pela voz ficou reduzido ao ruído curto da respiração falhando.

Os funcionários tentaram ajudá-lo antes mesmo de saber o que fazer. Afrouxaram a gravata, afastaram a cadeira, pediram uma ambulância e procuraram no rosto do presidente algum sinal de que ele se levantaria reclamando da incompetência de todos. Paulo, alto, grisalho e acostumado a impor respeito antes da primeira palavra, sofria um infarto durante a apresentação do projeto que desejava deixar como marco da carreira. A noite anterior, intensa e secreta, ainda pesava em seu corpo.

Em reuniões, Paulo interrompia qualquer proposta que lhe parecesse tímida. Em casa, corrigia postura, horário, nota e palavra. Certa vez, ao ouvir um diretor propor uma rota menos agressiva para um lançamento, encerrou a apresentação sem levantar a voz: se quisessem resultado mediano, não estariam naquela mesa. André crescera ouvindo versões da mesma frase.

Paulo ouviu pedaços do caminho até o hospital entre sirenes, elevadores e portas automáticas. Tentou abrir os olhos quando alguém segurou sua mão. Reconheceu André pelo toque e tentou dizer o nome do filho. O corpo não obedeceu.

André acompanhou o pai da sala de reuniões ao hospital sem fazer perguntas inúteis. Do lado de fora do centro cirúrgico, procurou alguma lembrança de Paulo bagunçando seus cabelos ou rindo de uma queda na infância. Encontrou correções, metas, viagens e silêncios. A mãe morrera em um acidente de carro pouco depois de seu nascimento, e Paulo transformara a criação do filho em treinamento.

O cheiro de desinfetante, o frio das paredes brancas e o ruído baixo dos passos no corredor o levaram a uma tarde de julho, muitos anos antes. André tinha treze anos e caminhava até o escritório do pai com um caderno de anotações preso contra o uniforme. Passara a semana montando um experimento sobre energia renovável para a feira de ciências da escola, dormira pouco, errara cálculos, refizera desenhos, e naquele dia acreditou que Paulo poderia enxergar alguma coisa nele além de preparação, postura e disciplina. A porta de madeira escura cresceu diante dele quando bateu duas vezes e entrou sem esperar resposta.

— Pai?

Paulo estava atrás da mesa, iluminado pelo brilho frio do monitor. Os dedos continuaram batendo nas teclas.

— Não agora, André.

— É só um minuto. Eu queria te mostrar uma coisa que fiz. É sobre energia limpa e acho que você vai gostar.

— Eu disse que agora não é o momento. Vá para o seu quarto e aprenda a se organizar. Um homem de verdade entende que certas coisas não podem esperar por caprichos.

André sentiu o rosto arder. O caderno escorregou das mãos suadas e bateu no chão, espalhando algumas folhas perto da mesa. Paulo levantou os olhos apenas então. André se abaixou, recolheu tudo às pressas e saiu em silêncio. No corredor, apoiou as costas na parede e apertou o experimento contra o peito.

Anos depois, sentado diante do centro cirúrgico, André continuava do lado de fora de uma porta fechada e com as mãos vazias. Filho, herdeiro, sucessor: Paulo usara todas essas palavras. Nenhuma respondia ao que ele tentara dizer antes de ser levado pelos médicos.

Um médico caminhou até ele retirando as luvas. A máscara ficou presa em uma das mãos. André entendeu antes que o homem falasse.

— Não precisa dizer nada, doutor — ele disse.

No enterro, André repetiu em voz firme que Paulo fora um homem honrado, ético, capaz de construir patrimônio sem abandonar seus princípios. Era o discurso esperado pela imprensa, pelos acionistas, pelos antigos parceiros e pelos inimigos que também compareceram para medir a sucessão. Quando a terra começou a cobrir o caixão, André ainda não sabia o que o pai tentara dizer no hospital.

Eva, irmã mais velha de André e filha do primeiro casamento de Paulo, ficou ao lado dele no início da cerimônia. Usava vestido preto de grife, joias discretas e maquiagem sem falhas. Quando alguém tentava abraçá-la por tempo demais, ela recuava antes que o perfume da outra pessoa se misturasse ao seu.

Ela circulou pelo salão com passos elegantes e cumprimentos breves. Via rostos conhecidos, gente que já ouvira menosprezar Paulo em mesas de jantar e agora derramava frases de pesar com a expressão ensaiada. Quando um associado estendeu a mão e disse meus sentimentos, Eva agradeceu sem emoção, já procurando o próximo ponto de fuga. Uma mulher tocou seu braço, chamou a perda de terrível, e Eva, depois de concordar, reparou no colar dela com interesse sincero demais para aquele momento.

— É da nova coleção da Maison Laurent?

A mulher piscou, surpresa pela mudança de assunto.

— Sim. Obrigada.

— Tenho uma peça semelhante. Precisamos marcar um café para falar das tendências da temporada.

Eva se afastou antes que a outra respondesse. Quando André jogou a última pá de terra sobre a cova, ela se aproximou pensando em dizer alguma coisa. Ajustou a manga do vestido do irmão e não disse nada.

Os acionistas ocuparam o silêncio antes dela. Homens de rostos rígidos e sorrisos treinados avançaram com frases sobre estabilidade, responsabilidade e continuidade. Enquanto davam condolências, já marcavam reuniões para a manhã seguinte. Eva percebeu a roda se fechando ao redor do irmão e saiu para o jardim da mansão.

Lá fora, abriu a bolsa e pegou o celular. Entre convites, mensagens de amigas e notificações acumuladas, uma pergunta chamou sua atenção: festa exclusiva naquela noite no Club Noir. Respondeu que iria e guardou o aparelho antes que André saísse para o jardim.

À noite, chegou ao clube com vestido vermelho, salto preto, unhas escuras e os cabelos presos para deixar o pescoço livre. A música alta, a entrada controlada e os rostos conhecidos exigiam dela muito menos do que a mansão de Paulo.

As amigas formaram uma roda perto de um dançarino que subira em um ponto de destaque. Eva riu com elas, aceitou bebida, recusou um convite com um movimento pequeno da mão e reconheceu, sem demonstrar, homens que já beijara, homens que tentaram ser beijados, mulheres que fingiam não avaliá-la e pessoas que mudariam completamente de comportamento depois do terceiro copo. Havia segurança naquela previsibilidade. A festa se vendia como excesso, mas Eva conhecia suas regras, suas vaidades, suas fraquezas. Naquela noite, precisava exatamente disso: um mundo onde soubesse quem faria o quê antes que acontecesse.

Um desconhecido junto ao bar a irritou antes mesmo de seduzi-la. Tinha cabelos cacheados e escuros, olhos verdes, pele levemente bronzeada e barba rala. Percebeu quando Eva entrou, mas voltou a olhar para o copo. Ela diminuiu o passo.

Normalmente bastava que atravessasse um salão para alguém tentar descobrir seu nome. Aquele homem não saiu do lugar. Eva foi até ele.

Eva se aproximou com o sorriso que costumava encerrar dúvidas. A música atravessava o corpo dela, e cada passo foi calculado para parecer espontâneo. Parou diante dele, inclinou o rosto e deixou que a luz do clube fizesse sua parte.

— Parece que você não está aproveitando a festa.

O homem a olhou com interesse discreto. Aproximou-se apenas o suficiente para que a voz não se perdesse entre a batida e o vocal da música.

— E você? Está aproveitando?

A pergunta a pegou fora do lugar. Eva esperava um elogio, uma tentativa de aproximação, alguma frase vulgar que pudesse destruir com facilidade. Recebeu de volta a própria provocação.

— É claro. Estou aqui exatamente para isso.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Tem certeza?

— Você sempre responde pergunta com pergunta?

— Só quando a primeira resposta vem pronta demais.

Eva riu, agora sem decidir se havia achado graça ou se precisava recuperar terreno.

— Você é gay? Nada contra, mas acabe logo com essa dúvida. Você realmente não me quer?

O homem a observou sem pressa. Espanto e bajulação ficaram fora de seu rosto; a atenção direta tirou dela, por um segundo, a vantagem do primeiro golpe.

— Você não sabe absolutamente nada sobre mim.

— Então estou querendo saber.

— Meu nome é Moisés. E eu senti desejo por você, sim, mas não.

— Não o quê?

— Não serei mais um troféu para coroar sua noite.

Eva quase riu, mais por defesa do que por graça. A frase acertara perto demais, e ela preferiu recuar para o terreno em que se sentia segura.

— Ah, então é isso. Você me conhece das redes sociais.

— Não sou um homem que costuma acompanhar redes sociais ou colunas de fofoca. Não faço ideia de quem você é. Mas vi como você tratou seus amigos, as pessoas próximas e o garçom que serviu sua bebida. Você quer que eu seja como todos: uma aquisição.

— Nossa. Você reparou tanto assim em mim?

— Sou extremamente observador.

— E sempre tão convencido?

— Só quando tenho material suficiente.

Eva desviou os olhos para esconder o calor que subira ao rosto. Quando Moisés estendeu a mão para dançar, pensou em recusar. Segurou os dedos dele e o puxou para a pista.

Na pista, Moisés conduziu sem pressa. Eva tentou antecipar dois movimentos e errou os dois. Na terceira vez, deixou que ele mostrasse o caminho e se aproximou para ouvi-lo.

— Você olha para todo mundo como se já soubesse o que vai fazer com a pessoa — ele disse.

— Está presumindo muita coisa sobre mim.

— Estou vendo o que você mostra.

— E o que exatamente você acha que viu?

— Alguém irritada porque ainda não decidiu o que fazer comigo.

Eva apertou os dedos no ombro dele.

— Você se acha capaz de me ensinar alguma coisa, Moisés?

— Não. Vim dançar.

A recusa a irritou. Eva aproximou o rosto para beijá-lo. Moisés inclinou o corpo para trás e tocou os lábios dela com um dedo. Ela afastou a mão dele.

— Ainda não.

— Você não manda em mim.

— Então vá embora.

Eva segurou Moisés pela camisa e voltou a dançar.

— É assim que gosta de jogar? — ela murmurou, tentando recuperar a provocação. — Eu não costumo esperar.

— Então experimente.

— Você está seguro demais de si.

— E você está curiosa demais para ir embora.

Eva abriu a boca para responder, mas Moisés segurou seu rosto e a beijou. Ela o empurrou pelo peito. Moisés deu um passo para trás. Antes que ele dissesse alguma coisa, Eva o puxou de volta pela camisa. A música continuou vibrando sob os pés dos dois.

Mais tarde, o caminho até a saída, o carro, a porta do motel e as roupas largadas entre a cama e o banheiro perderam a ordem. Eva ainda tentava surpreendê-lo; Moisés ainda tentava conduzir. Riram quando derrubaram um copo, discutiram sobre a luz acesa e voltaram a se beijar antes de terminar a discussão. Em alguns momentos, o corpo de Moisés lhe pareceu familiar. Não perguntou se ele sentia o mesmo.

Durante a noite, Moisés descobriu que bastava dizer o nome de Eva mais baixo para que ela se virasse. Usou isso mais de uma vez. O dinheiro dela pouco importava. A disputa o interessava.

Deitado ao lado dela, Moisés esperou a respiração de Eva se acalmar. Ainda precisava confirmar o que sabia sobre Paulo Azevedo e os dois filhos. Só depois decidiria o que contar a ela.

Jornada do Sangue

Sinopse

Sinopse Uma história de amor que atravessa não só eras, mas realidades. O casal carrega o sangue de dragão, mas eles não são os únicos. Irmãos unidos pelo destino e ligados a uma profecia que envolve a continuidade de toda a existência no universo. Morte, vida, amores, poderes sobrenaturais, controle dos elementos, encontros e desencontros, tudo isso está por trás dessa rota imprevisível. A Jornada do Sangue é o segundo volume da saga Universo em Órbita. Número de páginas 376 Edição 2(2024) Formato A5 (148x210) Acabamento Brochura c/ orelha Tipo de papel Polen Idioma Português

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